terça-feira, 5 de abril de 2011

Declaração da LIT-QI: Chamamos a rodear de solidariedade os trabalhadores e o povo cubano

Diante dos salários de US$ 18 mensais, as demissões em massa, o desmonte da saúde e da educação e o perigo de uma brutal repressão


Os trabalhadores, a juventude e o povo cubano – que protagonizaram a primeira e única revolução socialista vitoriosa na América – vivem hoje uma situação desesperadora. Eles passam fome porque não conseguem sobreviver com um salário de 18 dólares mensais. E essa situação tende a se agravar de forma qualitativa, pois o governo anunciou, para os próximos meses, novos ataques ao seu nível de vida, entre eles a demissão de um milhão e trezentos mil trabalhadores estatais.

Uma parte dos trabalhadores cubanos consegue sobreviver à custa de algum familiar que lhe envia dinheiro do exterior. Mas a maioria não tem essa ajuda. Por isso, são obrigados a se humilhar diante dos turistas (dois milhões e meio em 2010), a assediá-los pedindo gorjetas por qualquer tipo de serviço (real ou inventado), a vender os famosos charutos cubanos roubados, a pedir um sabão, um xampu ou uma simples bala, ao mesmo tempo em que crescem, de forma impressionante, dois flagelos que tinham desaparecido com a revolução: a mendicância e a prostituição.

Até agora, diferentemente do que ocorreu nos países do Leste Europeu, quando os partidos comunistas restauraram o capitalismo, em Cuba não houve grandes mobilizações contra o governo. O prestígio da direção cubana, por haver estado, no passado, à frente da revolução contra o capitalismo e o imperialismo, foi um importante freio à ação das massas contra o governo e contra o Partido Comunista. Mas a paciência dos cubanos parece estar chegando ao fim. Atualmente, o descontentamento com a situação e com o governo dos irmãos Castro é generalizado e não está descartado que, a curto ou médio prazo, aconteça em Cuba uma explosão similar à que ocorreu nos países do Leste Europeu no fim da década de 1980, ou às que estamos presenciando agora nos países árabes.

O governo e o Partido Comunista Cubano sabem desse perigo, por isso não permitem que chegue, por meio da televisão ou da rádio (ambas controladas pelo governo), qualquer tipo de informação sobre o que as massas estão fazendo nos países árabes. Além disso, é necessário lembrar que o povo cubano não tem acesso à Internet e que em Cuba não existem jornais nem revistas (a não ser os do Partido Comunista).

No entanto, diante de tanta exploração e humilhação, é muito difícil que a censura do governo para impedir que os cubanos saibam o que está ocorrendo no resto do mundo tenha sucesso.

De uma forma ou de outra, mais cedo ou mais tarde, os trabalhadores cubanos vão se rebelar contra essa situação, e quando isso acontecer, uma nova e grande ameaça vai se colocar sobre suas cabeças: a repressão. Por isso é que chamamos, desde já, a “rodear de solidariedade os trabalhadores e o povo cubano”.


Dizer a verdade, por mais dura que seja

Há milhares e milhares de trabalhadores, camponeses e estudantes em todo o mundo que consideram que Cuba e a sua direção, em especial Fidel Castro, são referência para todos aqueles que lutam pelo socialismo. Também são muitos os críticos à direção cubana, mas que consideram que em Cuba, ao contrário do que ocorreu nos outros ex-Estados operários (URSS, China e Leste Europeu), o capitalismo não foi restaurado.

Para esses milhares de companheiros, chegar à conclusão de que o capitalismo foi restaurado em Cuba seria uma grande desmoralização. Mas temos a obrigação de dizer a verdade para os trabalhadores, camponeses, estudantes e intelectuais de todo o mundo, por mais dura que ela seja. Porque só a verdade é revolucionária, e há duas grandes verdades que todos têm que saber e que explicam o drama vivido pelos trabalhadores e pelo povo cubano: a primeira é que a fome, o desemprego, os salários miseráveis, os mendigos e as prostitutas não são mais que as consequências de algo que já aconteceu na nossa querida Cuba: a volta do capitalismo. E a segunda verdade, que não pode continuar sendo ocultada, é que o odiado capitalismo não foi restaurado nem pelos gusanos1, nem por uma invasão ianque. Em Cuba, assim como na ex-URSS ou na China, o capitalismo foi restaurado, em nome do socialismo, pelo governo e pela direção do Partido Comunista.

Em Cuba, em 1959, as forças guerrilheiras, comandadas por Fidel Castro, Camilo Cienfuegos e Che Guevara, derrotaram as forças do ditador Batista. Pouco tempo depois, a Revolução Cubana enfrentou todos os capitalistas, nacionais e estrangeiros, e pôs os seus recursos econômicos a serviço do desenvolvimento do país. Para isso, foram tomadas três importantes medidas no terreno econômico: a expropriação e nacionalização de todos os meios de produção (fábricas, terras, comércio, bancos etc.), o monopólio do comércio exterior e a planificação centralizada da economia. Foi com base nessas medidas que os trabalhadores conseguiram uma série de conquistas, a maioria das quais não existia nem existe em outros países do continente (nem sequer nos EUA): o pleno emprego, moradia para todos, saúde pública gratuita e de alta qualidade (também para todos), o fim do analfabetismo, o fim da prostituição, altos índices de escolaridade (até hoje, 50% dos trabalhadores cubanos completam 12 anos de estudos) e, finalmente, os cubanos conquistaram o orgulho de ser um povo que foi capaz de mostrar, para os trabalhadores de todo o continente, que é possível enfrentar e derrotar o capitalismo e o imperialismo.

No entanto, essas três medidas (nacionalização dos meios de produção, monopólio do comércio exterior e planificação centralizada da economia) foram eliminadas no início dos anos 1990 pelo governo e pela direção do Partido Comunista, a tal ponto que a própria Constituição foi alterada para permitir a propriedade privada dos meios de produção. Assim, os “direitos” do capital, que tinham sido eliminados com a revolução, foram restabelecidos, e com a volta do capitalismo, as velhas mazelas do período do governo Batista voltaram.

Os defensores do governo cubano dizem que o capitalismo não foi restaurado, que o que se fez foi simplesmente permitir a atuação de empresas estrangeiras no país, mas respeitando as leis cubanas e que, além disso, a maioria das empresas é do Estado, que continua sendo “socialista”.

Mas não é assim. É verdade que as empresas estrangeiras são obrigadas a respeitar as leis cubanas, mas também é verdade que novas leis foram aprovadas, entre elas a Lei de Investimentos Estrangeiros, para possibilitar que as empresas estrangeiras tenham muito mais direitos do que teriam em qualquer outro país do mundo. Por outro lado, as empresas que existem no país, sejam estatais, mistas ou de capital cubano ou estrangeiro, não trabalham para uma economia socialista (para um plano econômico central), mas para o mercado nacional e internacional. Também é necessário esclarecer que os cubanos que trabalham nas empresas internacionais não têm a proteção do Estado “socialista” cubano. Ao contrário, o trabalhador cubano não recebe o mesmo salário que essas empresas pagam em outras partes do mundo. Os cubanos só ganham os seus miseráveis 18 dólares mensais, sendo que a maioria dessas empresas é de propriedade mista (associadas com o Estado) Qual é, portanto, o papel do Estado cubano? Não só garantir os direitos do capital internacional para explorar cruelmente os trabalhadores cubanos, mas também ser sócio nessa exploração, que é qualitativamente superior àquela imposta na maioria dos países da América Latina e do mundo.


Cuba, o país das desigualdades

Os cubanos vivem no pior dos mundos. Trabalham, assim como os seus irmãos dos outros países, para uma economia de mercado, mas, em função dos seus salários, praticamente não têm acesso a esse mercado.

Talvez a cena mais triste para quem visita a Ilha seja ver as belas crianças cubanas sem brinquedos. Não com poucos brinquedos. Sem brinquedos. É que os brinquedos são proibidos. São artigos demasiado supérfluos para um pai ou uma mãe que ganham 18 dólares mensais.

Os salários dos trabalhadores cubanos, comparados com os dos trabalhadores do resto do mundo, sempre foram baixos, mas, como produto das medidas econômicas tomadas depois da revolução, o salário social era muito alto. O povo gastava muito pouco com a alimentação porque os trabalhadores comiam gratuitamente nas empresas e as crianças nas escolas, e os produtos básicos para a alimentação (e também para a limpeza) eram entregues pelo governo, a preços simbólicos, por meio da caderneta de abastecimento.

Hoje a realidade é oposta. Com a restauração da economia de mercado, os salários são mais baixos que antes e uma grande parte do salário social já desapareceu ou tende a desaparecer. Na maioria das empresas os refeitórios foram fechados, os novos planos do governo pretendem acabar com o período integral nas escolas e, finalmente, a maioria dos produtos que faziam parte da caderneta de abastecimento foi eliminada, ao mesmo tempo em que se anuncia o fim da própria caderneta.

Como produto da revolução, foi feita uma profunda reforma urbana que garantiu moradia a baixo custo para todos os cubanos. A partir daí, era responsabilidade do governo cuidar da manutenção das fachadas e responsabilidade dos moradores garantirem a manutenção da parte interna. No entanto, atualmente (há pelo menos duas décadas), nem o governo garante a manutenção das fachadas e nem os moradores dos bairros operários e populares, com os seus 18 dólares de salário, têm condições para garantir a manutenção interna. O resultado são bairros inteiros onde as casas estão cheias de vidros quebrados, goteiras, infiltração de água, paredes e andares semidestruídos, instalações elétricas expostas e em péssimas condições, buracos no lugar onde algum dia houve uma porta ou uma janela, inclusive casas mais antigas, que são demolidas pela falta de manutenção. Dessa forma, as condições de vida dessas famílias de trabalhadores cubanos são muito similares, ou até piores, às das famílias argentinas que vivem nas Villas Miseria ou das brasileiras que moram em favelas.

Mas nem tudo é miséria em Cuba. Existem bairros cheios de antigas mansões, muito bem conservadas, onde vivem os novos burgueses, os burocratas do governo e os representantes das empresas estrangeiras. Também existem vilas militares com casas muito boas, tão bem conservadas que, apesar de antigas, parecem que foram recém construídas. Existem milhões de turistas estrangeiros que lotam os hoteis, restaurantes e bares de Havana e de outras cidades, das quais o povo cubano não pode nem se aproximar, a não ser para oferecer serviços sexuais ou a sua bela música, para, ao final, sair pedindo, de mesa em mesa, uma gorjeta para poder comer, porque os artistas, que não se alimentam só da arte, não recebem nenhum tipo de pagamento pela sua atuação.

A partir da revolução, Cuba transformou-se no país mais igualitário da América, mas hoje é exatamente o contrário. A desigualdade social é tão chocante que cria uma mistura de surpresa, indignação e até mal-estar nos revolucionários que visitam a ilha. É triste escutar da boca de muitas pessoas desse admirado povo cubano, culto, alegre e musical, frases tão chocantes como estas: “Quando nos vestimos não comemos, e quando comemos não nos vestimos” ou “Nós, cubanos, dizemos que somos como os palhaços: rimos por fora e choramos por dentro.”


Argumentos falsos

Aqueles que, fora de Cuba, defendem o governo e o regime castrista (dentro de Cuba é muito difícil encontrar alguém que o faça), argumentam que o governo teve que abrir as portas para o capitalismo internacional para defender o “socialismo”, porque Cuba estava isolada após o fim da URSS e, portanto, não tinha alternativa.

Esse argumento é duplamente mentiroso. Em primeiro lugar, não é verdade que o governo cubano apelou ao capitalismo para defender o socialismo. Apelou ao capitalismo internacional para restaurar o capitalismo. Não foi para defender o socialismo que se acabou com a eliminação da propriedade estatal dos meios de produção, com a supressão do monopólio do comércio exterior e com o fim da planificação centralizada da economia. Da mesma maneira que não é uma medida socialista colocar na rua mais de um milhão de trabalhadores, ou desabastecer as farmácias populares para que os trabalhadores tenham que comprar remédios nas farmácias dos hoteis internacionais.

Em segundo lugar, cabe a pergunta: por que Cuba estava isolada quando ainda era um Estado operário? Foi por que os trabalhadores e os povos do resto do continente e do mundo não lutavam ou não faziam revoluções? Não. Não foi por isso, mas, sim, porque a direção cubana implementou a mesma política que tiveram as direções da URSS, China, Alemanha Oriental etc.: a coexistência pacífica com o imperialismo, ao invés da revolução latino-americana e mundial.

O exemplo mais evidente dessa política é o da Revolução Sandinista na Nicarágua. A direção sandinista, depois de derrotar o exército de Somoza e tomar o poder, dirigiu-se a Cuba para encontrar-se com Fidel Castro, que lhe deu o seguinte conselho: “Não façam da Nicarágua uma nova Cuba”. Isto é, não expropriem a burguesia nacional nem o imperialismo. E aí estão os resultados. A Nicarágua, governada pelo ex-comandante guerrilheiro e atual multimilionário Daniel Ortega, não só é um Estado capitalista como também é um dos países do mundo onde reina a maior desigualdade social.

Foi justamente essa política, de coexistência pacífica com o imperialismo em um mundo dominado por ele, que levou todas as economias dos ex-Estados operários à crise, e a todas as burocracias dirigentes a procurar, no fim da década de 1980, o apoio das potências imperialistas para sair dessa crise. Não só na forma de empréstimos, como tinham feito há alguns anos, mas também com a restauração dos direitos do capital para superexplorar os trabalhadores desses Estados. Cuba, por ser governada por uma burocracia, com interesses muito diferentes aos dos trabalhadores, não foi uma exceção.


A “democracia” em Cuba

Os defensores do governo cubano, de fora de Cuba, dizem que nesse país há democracia. Afirmam que é verdade que não há democracia para os gusanos, mas que há democracia para os trabalhadores e para o povo.

Em Cuba ninguém diz isso porque se arriscaria, no melhor dos casos, a receber como resposta uma sonora gargalhada. Quem diz que em Cuba há democracia para os trabalhadores tem que dizer: que organismo dos trabalhadores votou o salário de 18 dólares? Que organismo votou que um milhão e trezentos mil trabalhadores tinham que ser demitidos? Que organismo dos trabalhadores votou que os cubanos não podem ler nenhum jornal, a não ser o Granma, o órgão oficial do Partido Comunista? Que organismo dos trabalhadores votou que o povo cubano não pode acessar a Internet?

Mas sobre esse tema da democracia operária também é necessário dizer a verdade, por mais dura que ela seja. E a verdade é que nunca houve democracia para os trabalhadores e o povo cubano, nem mesmo na “época dourada” da revolução, quando estavam expropriando os capitalistas e o imperialismo, e isso explica muito do que está acontecendo atualmente.

Cuba era um Estado operário porque, a partir da expropriação da burguesia, o direito do capital de explorar os trabalhadores foi eliminado, mas nunca foram os trabalhadores, por meio dos seus organismos, que controlaram os destinos do país.

O que existia e existe em Cuba é um regime idêntico ao que existia na ex-URSS e ao que existe na China: um regime baseado em um partido único, o Partido Comunista, apoiado nas Forças Armadas. Mas, na realidade, seria errado afirmar que o Partido Comunista dirigia ou dirige Cuba. Quem está à frente do Estado cubano é um pequeno grupo em torno de Fidel e de Raúl Castro, porque, para que o Partido Comunista pudesse dirigir, deveria ter algum tipo de democracia interna, e isso não existe. O Partido Comunista Cubano praticamente não realiza congressos. Agora, no mês de abril, vão realizar um após 16 anos, mas, na verdade, esse “Congresso” será uma reunião de burocratas, pois os delegados, segundo informa o Granma, serão eleitos por uma plenária de secretários-gerais.

A restauração do capitalismo na Ilha, combinada com a total falta de democracia, teve como resultado a existência de uma ditadura muito similar às piores e mais sanguinárias ditaduras do mundo. Na realidade, em alguns aspectos é uma ditadura muito pior que aquelas. Por exemplo, durante a ditadura de Mubarak, no Egito, havia alguns partidos legais de oposição, havia vários jornais submetidos à censura, mas havia. Havia pleno acesso à Internet e havia alguns poucos sindicatos independentes. Tudo isso é impensável em Cuba.

Seria possível argumentar, contra o que dizemos, que naquelas ditaduras, de Mubarak no Egito, Pinochet no Chile ou de Videla na Argentina, havia milhares de presos políticos, de sequestrados, torturados e assassinados, e que isso não existe em Cuba. É verdade. Mas o que vai acontecer em Cuba quando surgirem greves, mobilizações, grupos guerrilheiros e confrontos com a polícia, como ocorreu naqueles países? O que a ditadura cubana vai fazer? Vai se retirar do poder? Vai abandonar os seus fabulosos privilégios obtidos com a restauração do capitalismo? Ou vai reprimir violentamente as ações das massas quando questionarem seus privilégios?

Para dar só um exemplo, vejamos o que está acontecendo na Líbia. Nesse país, como nos demais países árabes, as massas saíram para se mobilizar contra a miséria e contra o ditador, o coronel Kadafi. Diante disso, Kadafi, assim como a direção cubana no passado, teve sérios confrontos com o imperialismo (hoje é seu sócio), mas hoje está reprimindo sanguinariamente essas mobilizações a tal ponto que provocou uma guerra civil. De que lado Fidel Castro está nesta guerra? Do lado do genocida Kadafi.

Não é a primeira vez que Fidel adota uma posição desse tipo. Quando, em 1967, os tanques soviéticos esmagaram a revolução tchecoslovaca contra a burocracia (que acabou levando esse país à restauração do capitalismo), Fidel se pôs do lado dos tanques soviéticos contra os trabalhadores e o povo da Tchecoslováquia. Mas, em relação à guerra civil na Líbia, não se trata somente de uma nova posição equivocada. Trata-se de uma ameaça às futuras e inevitáveis mobilizações das massas em Cuba.

Fidel disse que não é o povo líbio que está querendo derrubar Kadafi, mas o imperialismo. Para isso, usa como argumento os bombardeios da OTAN e dos Estados Unidos, ocultando que o objetivo do imperialismo é retomar o controle do país (do petróleo), o que foi questionado não por Kadafi, mas pelas massas insurretas que se levantaram contra ele.

Ao se colocar do lado de Kadafi, Fidel não está só anunciando que fará o mesmo em Cuba quando as massas questionarem o seu poder. Já está adiantando os argumentos que usará para justificar a repressão contra os trabalhadores e a juventude. Dirá que tudo é obra dos gusanos e da CIA.


Não havia nem há outro caminho?

Não é verdade que Cuba não tinha ou não tem outra alternativa a não ser cair nos braços do capitalismo mundial. Se os impressionantes recursos gerados pela indústria turística, pela produção e reservas de níquel, pela produção de açúcar, café e tabaco estivessem novamente nas mãos do Estado, e se este voltasse a funcionar com base em uma economia planificada, seria suficiente, no mínimo, para que os cubanos tivessem acesso aos alimentos e aos medicamentos.

Claro que, por mais que expropriasse a nova burguesia nacional e as empresas imperialistas, seria impossível para Cuba, de forma isolada, superar os países capitalistas da região e muito menos as grandes potências imperialistas. Mas por que Cuba teria que continuar isolada? Explodiram dezenas de revoluções em todo o mundo contra o capitalismo. O que aconteceria se a direção cubana apoiasse essas revoluções para que triunfassem? Cuba não ficaria isolada. Por exemplo, na Líbia, as massas estão levando a cabo uma revolução armada contra o ditador Kadafi muito similar à que os cubanos fizeram contra o ditador Batista no fim da década de 1950. O que aconteceria se a direção cubana apoiasse essa revolução? As possibilidades de vitória seriam muito superiores e, dessa forma, Cuba ficaria cada vez menos isolada. Mas, lamentavelmente, já faz muitos anos que a direção cubana não quer “novas Cubas”, por isso foi contra a expropriação da burguesia na Nicarágua e em El Salvador, e agora é contra a expropriação dos fabulosos bens do Coronel Kadafi. Pior ainda, está a favor do genocida.

Não é verdade que Cuba não tinha outro caminho a não ser abraçar o capitalismo. Quem não tinha outro caminho é a direção cubana por não ter defendido, há várias décadas, o caminho da revolução internacional e, sim, o da coexistência com o capitalismo.


Rodear os trabalhadores e o povo cubano de solidariedade

Chamamos os operários, os camponeses, os estudantes e os intelectuais, da América Latina e do mundo, a ser solidários com um povo cubano que está passando fome, suportando uma brutal ditadura, e que está sendo ameaçado de ser massacrado quando começar a se levantar contra os seus exploradores e opressores.

Essa solidariedade deve começar por conhecer e divulgar o que realmente acontece em Cuba. Isso será uma barreira importante para evitar que os futuros lutadores cubanos sejam acusados de agentes da CIA e, com esse pretexto, sejam feridos, presos ou fuzilados, como está fazendo o amigo dos irmãos Castro, o coronel Kadafi, na Líbia.

Estendemos este chamado ao conjunto das direções das organizações de esquerda, inclusive àquelas que são defensoras do atual regime. Fazemos isso porque acreditamos que essas organizações, que estão sendo cúmplices da brutal exploração a que estão submetidos os trabalhadores cubanos, ainda não mancharam suas mãos com o sangue desses trabalhadores.

Chamamos, em especial, os milhares de ativistas honestos que em toda a parte do mundo, sem conhecer bem a realidade cubana, acreditam que Cuba é o bastião do socialismo.

Pode ser que não confiem no que dizemos, porque, embora sempre estivemos do lado da revolução cubana, nunca defendemos o regime dos irmãos Castro. Por isso, insistimos em que se informem pelos seus próprios meios e que, se for possível, viajem a Cuba para ver como vivem e o que pensam os trabalhadores e o povo cubano, para assim verificar se o que estamos dizendo nesta declaração corresponde à verdade ou não. A partir daí, a única coisa que pedimos é que contem a verdade aos seus companheiros de trabalho ou estudo.


O regime cubano está manchando as gloriosas bandeiras do socialismo

Talvez o mais nefasto de tudo o que acontece em Cuba é o fato de que o governo justifica todo o seu projeto contrarrevolucionário (restauração do capitalismo por meio de uma brutal ditadura) em nome do socialismo, porque isso provoca estragos na consciência das massas, em primeiro lugar das próprias massas cubanas.

Em Cuba, resta muito pouco, ou quase nada, da revolução. A revolução agora só pode ser encontrada nos museus, e os seus símbolos – os retratos de Che, de Fidel e de Camilo Cienfuegos – transformaram-se em suvenires, mas só para os turistas, porque, por mais que se procure, é praticamente impossível encontrar um jovem cubano com uma camiseta com o retrato de Che Guevara, com uma bandeira cubana e menos ainda com o retrato de Fidel.

Assim, os cubanos mostram, não só pelo que dizem, a toda hora e em todo momento, como também em suas próprias roupas, que não querem saber nada do governo. Mas, além disso, a nefasta política do governo e do Partido Comunista faz com que muitos se afastem não só do governo, mas também do socialismo, porque é inevitável que, lamentavelmente, muitos pensem: “se isto é o socialismo, eu não sou socialista,” ou, pior ainda, que digam: “se isto é socialismo, sou a favor do capitalismo”.

No entanto, não temos o direito de ser pessimistas. As revoluções que derrubaram as ditaduras dos partidos comunistas do Leste Europeu, as mobilizações de massas da Europa e a revolução árabe não nos dão esse direito. Nem mesmo em Cuba, porque, embora seja verdade que a Revolução de 1959 só possa ser encontrada nos museus, também é verdade que está se gestando uma nova e poderosa revolução, contra o atual regime ditatorial e restauracionista. Por enquanto, ela se expressa em descontentamento contra a ditadura, mas não vai demorar muito tempo para que esse descontentamento, que já está se transformando em ódio em muitos setores, se transforme em ação. E, quando isso acontecer, se entenderá por que os cubanos têm tanto orgulho de seu povo e do seu país, apesar das humilhações diárias a que são submetidos.


Comitê Executivo Internacional da LIT-QI (Liga Internacional dos Trabalhadores – IV Internacional)
São Paulo, 19 de março de 2011


Nota:
1.
Gusanos significa literalmente vermes. Assim é conhecida a burguesia reacionária de Cuba que se exilou na Flórida, EUA.


Retirado do Site do PSTU

Governo prepara mais arrocho para conter a inflação

Diante do aumento nos preços das commodities, Dilma dá carta branca para o Banco Central aumentar os juros


O discurso otimista esbanjado pela então candidata Dilma Roussef no ano passado não durou muito. Tão logo pendurou a faixa presidencial, o futuro deixou de ser tão radiante. Logo na primeira ação do governo, a nova mandatária realizou um corte recorde no Orçamento, tirando R$ 50 bilhões dos gastos previstos para 2011.

O governo anunciou sua política de arrocho para conter a inflação, seguindo o argumento de que o aumento dos preços seria causado pelo crescimento econômico e o aumento desenfreado do consumo. No entanto, o primeiro Relatório de Inflação do Banco Central, divulgado no último dia 30, refuta esse discurso.


Inflação

O documento do próprio governo reconhece que não será possível atingir a meta de 4,5% de inflação para 2011, devido ao aumento nos preços das commodities (produtos para exportação, cotados no mercado internacional) e seu impacto sobre os alimentos. Segundo o relatório do banco, a inflação este ano deve ficar em 5,6%, de acordo com o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo). Já o mercado acredita numa inflação de 6%. Ou seja, mesmo com uma política agressiva de contenção fiscal para segurar a economia, o governo não deve cumprir sua meta de inflação.

Na apresentação do relatório, o diretor de Política Econômica do Banco Central, Carlos Hamilton Araújo, explicou à imprensa as razões do aumento da inflação: “No segundo semestre de 2010, o mundo e nós fomos apanhados de surpresa por um gigantesco choque de commodities. Em nove meses, os preços subiram 70% e isso tem mais impacto no Brasil do que em outros países”, relatou.

O Banco Central trabalha agora com uma “margem de manobra” para o teto da inflação de 6,5%, mas mesmo isso está ameaçado. Para conter o aumento de preços, Dilma deu carta branca ao presidente do Banco Central, Alexandre Tombini fazer “o que for preciso”. E isso significa juros mais altos, mais cortes, e arrocho. As medidas do governo Dilma já reduziram as expectativas de crescimento para 2011 para 4%.


O ‘sacrifício’ do governo

Representantes do mercado financeiro e analistas econômicos, apesar dos sucessivos cortes anunciados, não se satisfazem e pedem mais sangue. Afirmam ser necessária uma demonstração de “sacrifício” maior por parte do governo. O governo Dilma, por sua vez, atende aos apelos do mercado e passa a bola para o Banco Central elevar ainda mais os juros.

O sacrifício exigido pelo mercado financeiro, porém, não será do governo. Os verdadeiros sacrificados serão os trabalhadores que, além de sofrerem com o aumento da inflação dos alimentos, que atinge em maior proporção os mais pobres, encontrarão pela frente uma economia em desaceleração e serviços públicos cada vez mais sucateados.


Retirado do Site do PSTU

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Eleitor pergunta: Como combater o desemprego?

No último dia 29/03, recebi um questionamento de um eleitor, o Sr. Pedro Aparecido, sobre a questão do desemprego. Confiram:

"Sr. Juary,

Tudo bem?

Votei em você nas últimas eleições porque gosto de suas propostas e de seu posicionamento político. Gostaria de conhecer melhor suas ideias sobre o desemprego. O que o governo de nosso Estado deve fazer para combatê-lo? Já ouvi diversas opiniões e estou bastante confuso.

Muito Obrigado,

Pedro Aparecido
"


Prezado Pedro,

Tudo bem?

Agradeço a sua atenção e fico contente de saber que você depositou sua confiança no PSTU, que é uma alternativa classista e socialista, em defesa dos trabalhadores.

Essa sua pergunta sobre desemprego também foi feita por outros companheiros que votaram na nossa candidatura nas eleições de 2010, de modo que irei expor basicamente o que tenho dito a esses companheiros que nos procuram com dúvidas/questionamentos semelhantes.

Primeiro, temos que encarar o desemprego como ele realmente é: uma mazela social. A última pesquisa do PNAD (2008) informa que aproximadamente 8% dos trabalhadores do RN estão desempregados. Isso significa algo em torno de 120 mil trabalhadores sem emprego. Além disso, quase 65% dos trabalhadores, o que totaliza quase 1 milhão de trabalhadores, estão em empregos informais, ou seja, com baixos salários, sem carteira assinada, relações de emprego precarizadas, sem direitos trabalhistas, etc.

Por outro lado, os patrões lucram muito. Só no Governo Lula, os grandes empresários lucraram 400%, nos últimos oito anos. Também é inaceitável que o Governo Lula tenha gasto 380 bilhões só em 2009 (mais de 35% do orçamento nacional) para salvar os banqueiros e especuladores da crise econômica e não tenha apresentado um projeto, uma emenda, nada que beneficiasse os trabalhadores.

Para solucionar esse problema e necessário, antes de qualquer coisa, ter clareza que este não é um problema localizado somente no RN. O governo local, se fosse controlado pelos trabalhadores e se governasse para eles, poderia fazer muita coisa, principalmente se acabasse com as terceirizações e com a entrega do patrimônio público às empresas. Mas, não se pode atacar de fato o desemprego (que é um fenôneno estrutural do capitalismo) sem parar imediatamente a sangria de recursos (que são dos trabalhadores, recolhidos através dos impostos que vêm sendo destinados a pagar juros e amortizações ao capital especulativo. Se utilizássemos esses mais de 300 bilhões que estão sendo gastos com os banqueiros para custear políticas públicas que garantam emprego, terra, saúde, educação, salário, moradia e vida digna para os trabalhadores, viveríamos em outra situação. Para isso, é necessário estatizar o sistema financeiro e utilizar os recursos em benefício da população. Com esses recursos seria possível financiar um grande plano de obras públicas de saneamento, infra-estrutura, transporte, construção de hospitais e escolas, absorvendo a mão de obra ociosa que hoje existe no país. Uma medida como essa criaria aproximadamente 21 milhões de empregos e poderia perfeitamente garantir o pleno emprego no RN, que precisa e muito desse plano de obras.

E a outra coisa não menos importante é a redução da jornada de trabalho para 36h semanais, sem redução de salário. Isso garantiria a abertura de mais postos de trabalho para absorver os trabalhadores desempregados e os jovens que buscam o primeiro emprego. Os patrões dizem que isso é impossível, mas sabemos que o progresso tecnológico ao longo do tempo propiciou um aumento descomunal na produtividade, ou seja, os trabalhadores produzem em muito menos tempo aquilo que antes levava 8, 10, 12 horas. Significa que os trabalhadores estão produzindo mais, os patrões estão lucrando mais, mas nem o salário e nem os postos de trabalho aumentam na mesma proporção. Pelo contrário, quanto mais o trabalho é mecanizado e automatizado, mais os empresários lucram e mais eles demitem os trabalhadores. Por isso, a redução da jornada de trabalho, sem redução de salários, é a única medida séria que pode avançar na resolução do problema do desemprego.

Entretanto, sabemos que essas políticas não podem ser simplesmente conseguidas através dos governantes eleitos e, muito menos, do parlamento. Evidente que a nossa presença na Câmara Federal (ou de qualquer outro camarada do PSTU, em qualquer outro posto de representação política) significaria uma postura de denúncia de todas as aberrações que existem no seio do regime da “democracia representativa”, bem como uma luta sem tréguas por essas propostas e por todas as outras que atendem aos interesses dos trabalhadores. Mas, sabemos que os representantes eleitos correspondem sobretudo a um interesse de classe, de modo que a classe dominante (os grandes empresários, os banqueiros, os latifundiários, etc.), enquanto persistir esse modelo de sociedade, sempre terá vantagens para eleger seus próprios tribunos. São as grandes empresas, os bancos, as multinacionais, etc. que financiam as campanhas da gigantesca maioria dos partidos e dos candidatos e não por acaso, quando são eleitos esses governam igualmente para seus financiadores. Portanto, nós do PSTU entendemos que para além da luta para eleger trabalhadores, socialistas e defensores da nossa classe, temos também a obrigação de defender e impulsionar as lutas, as greves, as mobilizações, afinal, os trabalhadores unidos e em luta por suas aspirações podem conseguir coisas que, em tempos de marasmo e descrédito, podem parecer impossíveis.

Espero que tenha respondido a contento suas perguntas. Me coloco à disposição para qualquer dúvida.

Um forte abraço,

Juary

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Nos 47 anos do golpe, ato denuncia prisões e exige o fim da criminalização dos movimentos sociais

Ato na Faculdade de Direito da UFRJ reuniu 350 pessoas entre ativistas, parlamentares e personalidades jurídicas


Na noite desse 31 de março, cerca de 350 pessoas, entre ativistas, estudantes, representantes de entidades de classe e de Direitos Humanos, parlamentares e personalidades jurídicas lotaram o auditório da Faculdade de Direito da UFRJ no ato público contra a prisão e indiciamento dos 13 manifestantes no protesto contra Obama.

A data não poderia ser mais propícia, já que no dia completavam 47 anos do golpe de Estado que impôs um regime de exceção no país. Assim, o ato pelo arquivamento do processo contra os ativistas se transformou num ato contra a criminalização dos movimentos sociais e da pobreza. O local também foi simbólico, já que ali, como lembrou Cecília Coimbra, do Grupo Tortura Nunca Mais, reuniram-se há exatos 47 anos, estudantes universitários para resistir ao golpe militar.


Apoios

A grande e variada presença de representações de associações, entidades e partidos de diversos segmentos e ideologias demonstrou a indignação gerada pelas prisões arbitrárias. Estiveram presentes parlamentares como o deputado federal Chico Alencar, e a deputada estadual Janira Rocha, ambos do PSOL, além de Paulo Ramos, estadual do PDT, que deixou claro não falar em nome do partido.

Compareceram ainda representantes do mundo jurídico, como o advogado e ex-governador do Rio, Nilo Batista, o histórico defensor dos presos políticos da ditadura, advogado Marcelo Cerqueira, o juiz Dr. Rubens Casara, da Associação dos Juízes pela Democracia, Aderson Bussinger, representando a Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ, entre outros.

Também estiveram lá várias entidades sindicais, como as centrais CSP-Conlutas e a CTB, e sindicatos como o Sindsprev, Sindicato dos Correios, Sindscope, Sindjustiça, Sindpetro-RJ, além de associações como a Associação Brasileira de Imprensa e a Associação dos Moradores do Morro do Bumba, região afetada pelas chuvas e pelo descaso do Estado. De partidos, além do PSTU, marcaram presença PSOL, PCB e PCR.


Criminalização

Não é difícil entender o grande número e variedade da presença no ato. Como demonstrou várias falas, o que está em jogo não são apenas os 15 processos contra os manifestantes detidos, mas um processo avançado de criminalização dos movimentos sociais e da pobreza.

O ex-governador Nilo Batista advertiu que as prisões não são um fato isolado, mas um sintoma do que já vem ocorrendo no país. “O projeto neoliberal não pressupõe apenas a flexibilização das leis trabalhistas, mas a flexibilização das próprias liberdades democráticas, do código penal”, discursou.

Ele apontou o avanço do fascismo através do Código Penal, do Sistema Prisional, caracterizando cada vez mais o Estado brasileiro como um Estado policial. “Hoje, se tortura, se mata e se prende mais que no período da ditadura”, afirmou.

O deputado do PSOL, Chico Alencar, denunciou as arbitrariedades das prisões e relatou seu espanto quando ouviu o menor preso na manifestação. O garoto lhe contou da situação pelo qual passou no centro de Triagem na Ilha do Governador, afirmando que mais do que o susto da prisão, temeu os gritos de tortura que ouvia.

Já o deputado Paulo Ramos (PDT), acusou os governos Federal e Estadual pelo que chamou de “caráter fascista” do Estado. ”No Rio de Janeiro, temos um governo fascista, que tem uma política de segurança pública que se baseia na criminalização e no extermínio dos marginalizados”, afirmou.

O juiz Dr. Rubens Casara, coordenador da Associação dos Juízes pela Democracia, se disse “envergonhado” pelo processo contra os ativistas. “Como juiz de direito criminal, tenho que falar. Meu sentimento é de vergonha, que está me angustiando de participar de uma instituição que é historicamente utilizada param manter o status quo”, chegou a declarar.

O histórico advogado Marcelo Cerqueira falou sobre sua contrariedade em, em plena democracia, ainda ter que ver presos políticos. “Os últimos presos políticos que tivemos fomos 13 estudantes em Santa Catarina que xingaram o Figueiredo, acreditava que esse seriam os últimos”, disse, afirmando ainda que se deve processar o diretor do presídio que mandou raspar a cabeça dos presos que foram para Água Santa.


”Carecas ou não, temos que lutar

Uma das falas mais emocionantes do ato foi a de Gualberto Tinoco, o Pitéu, um dos presos que permaneceram por 72 horas detidos. Falando pelos demais presos, ele explicou a importância do ato contra a vinda de Obama para denunciar o papel do imperialismo e da subserviência do governo brasileiro e relacionou a repressão à criminalização da pobreza.

“Agora, a nossa obrigação, carecas ou não, é de juntar o conjunto da classe para lutar contra isso”, afirmou sendo bastante aplaudido.


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  • Novo abaixo-assinado, pelo arquivamento dos processos


  • Retirado do Site do PSTU

    quinta-feira, 31 de março de 2011

    José Alencar: por que não reivindicamos sua biografia?

    Faz algum tempo que uma morte não era recebida com tanta reverência como a do ex-vice-presidente José Alencar, falecido nesse dia 29 de março, no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. Em tempos de reallity show, as últimas horas do empresário de 79 anos, há 13 com câncer, foi exaustivamente acompanhado pela imprensa.

    Nos jornais ou na TV, a imagem de José Alencar esteve ao lado de qualificativos como “lutador”, “exemplo de vida”, entre tantos outros. Repórteres emocionados elogiavam sua simplicidade mineira, enquanto analistas discutiam o legado do dono da maior complexo de tecelagem do país.

    Políticos e personalidades de todas as matizes declararam luto. Até mesmo parte da esquerda lamentou a morte do ex-vice-presidente. Não apenas o lamento justificável da perda de qualquer vida humana, mas reivindicando, politicamente, o empresário. Um dos dirigentes nacionais do MST, João Paulo Rodrigues, afirmou que Alencar foi “um dos poucos bons burgueses”.


    O legado de Alencar

    Qual o significado de José Alencar para o país? Embora já fosse um grande industrial estabelecido, proprietário de 11 fábricas tecelãs que formam o complexo da Coteminas, Alencar só foi ganhar destaque político nacional pelas mãos de Lula, nas eleições que o levou à presidência em 2002.

    Embora Lula credite a seu ex-vice o fato de ter ganhado aquelas eleições, a escolha do industrial para compor a chapa para o Planalto foi bem mais simbólica. O desgaste de FHC e do neoliberalismo, assim como o histórico de Lula como líder operário, já colocavam o petista em uma posição de franco favoritismo frente ao então candidato tucano José Serra. Assim, com ou sem Alencar seria muito improvável que o petista não ganhasse.

    O empresário mineiro viria, na verdade, para referendar a escolha programática do PT em favor do capital, da economia de mercado e da manutenção da política econômica levada a cabo pelos governos anteriores. Seria necessária uma cara para a famigerada “Carta aos brasileiros”. Lula e José Dirceu decidiram que a cara simpática e bonachona de Alencar se encaixaria perfeitamente aí.

    Mais do que amealhar votos, a escolha de Alencar era mais uma mensagem ao mercado. Foi então que se conformou a chapa entre o PT e o PL, então partido do empresário, que mais tarde se transformaria no PRB.


    O empresário Alencar

    Outro fato que teria pesado para a escolha de Alencar para o posto seria a sua biografia, que se assemelharia a de Lula como exemplo de “superação”. De família pobre do interior de Minas, Alencar trabalhou no comércio durante sua juventude. Na década de 1960, constituiu a Companhia de Tecidos Norte de Minas, a Coteminas, que contou com generoso auxílio da Sudene na época, para se expandir.

    Foi só na década de 1990 que Alencar passou o comando de seus negócios a um de seus filhos e se lançou na vida política. Até então sua atuação se limitava às associações de classe. Foi eleito senador em chapa com Itamar, de quem se tornaria desafeto mais tarde.

    Oficialmente, Alencar teria saído do mundo dos negócios. Mas os negócios não saíram dele. Recentemente, documentos vazados pelo Wikileaks comprovam a intenção da Coteminas de entrar no Haiti. O país ocupado militarmente pelas tropas da ONU comandadas pelo Brasil se tornou o paraíso das fábricas têxteis, devido à abundante e barata mão-de-obra. De lá, os produtos são exportados principalmente aos EUA. A estabilidade propiciada pelos soldados garante o retorno dos investimentos.

    Os documentos, de 2009, mostram como o filho de Alencar, Josué Gomes da Silva, presidente do grupo, teria feito lobby para a empresa se beneficiar da Lei Hope II. A lei Hope (Oportunidade Hemisférica Haitiana) foi estabelecida em 2007 e cria uma zona de livre comércio entre o país caribenho e os EUA. Ou seja, além da mão-de-obra barata, a Coteminas teria caminho livre para exportar aos EUA.

    Vale lembrar ainda que, entre 2004 e 2006, o então vice José Alencar acumulou também o posto de ministro da Defesa. Ou seja, foi em seu mandato que o Brasil ocupou a liderança da Minustah, a missão de ocupação militar da ONU no Haiti, iniciada em 2004.

    Josué Gomes, porém, não escondia o interesse da Coteminas em aproveitar as condições oferecidas pelo país haitiano. “O Brasil é reconhecido colaborador do processo de resgatar o Haiti. O país tem direito de pleitear um tratamento preferencial”, chegou a dizer em entrevista ao Valor, sobre a reivindicação da empresa se beneficiar da Lei Hope.


    Alencar não é um dos nossos

    Não se deve negar que a figura de Alencar e seu jeito simples não despertassem simpatia. Grande parte de sua popularidade experimentado em seus últimos momentos de vida, porém, deve-se à enorme popularidade de Lula.

    Além disso, a orientação ultra-liberal adotada pelo governo Lula principalmente em seu primeiro mandato, fez parecer que Lula estivesse à direita de Alencar. O empresário, no entanto, fez o que qualquer industrial faria: reclamou dos juros altos. Esteve muito longe de qualquer política que pudesse ser considerada minimamente progressista.

    José Alencar mesmo que fosse um empresário “íntegro” e “honesto”, de acordo com a moral burguesa, construiu seu império à custa da exploração dos trabalhadores. O capital acumulado por anos de exploração o possibilitou, em idade já avançada, receber o melhor e mais moderno tratamento contra o câncer. Possibilidade que nenhum de seus funcionários teria.

    A esquerda tem por tradição reverenciar os seus mortos. Ou seja, reivindicar a trajetória daqueles que deram suas vidas por um mundo melhor, sem exploração. Alencar, porém, não era um deles. Estava na trincheira oposta da luta de classes. Do lado dos exploradores. Por isso, apesar da comoção nacional insuflada pela mídia, José Alencar não é um de nossos mortos.


    Retirado do Site do PSTU

    Relato de um preso político de nossa "democracia": "Apesar da humilhação, nos mantivemos firmes o tempo todo"

    Leia o relato da repressão da PM no ato contra a vinda de Obama ao Brasil, e a sucessão de arbitrariedades e humilhações sofridas pelos ativistas na prisão


    Rossi logo após deixar a penitenciária
    “Todo o processo foi marcado pela repressão e por graves arbitrariedades. Quase no final do ato ocorrido na sexta-feira, dia 18 de março, em frente ao Consulado dos Estados Unidos, a Polícia Militar começou a lançar bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha. O cenário era de guerra. Nós corríamos desesperados em meio às balas e bombas que explodiam do nosso lado.

    Nós conseguimos reunir um grupo na Avenida Beira-Mar e, depois de 20 a 30 minutos do fim do ato, nos encaminhamos em direção à Cinelândia, portando as faixas e bandeiras da manifestação. De repente, fomos cercados pela Polícia Militar. Eles nos mandaram sentar no chão olhando para baixo. Apreenderam as faixas e as bandeiras que estavam conosco e nos disseram que alguém do ato havia lançado um coquetel molotov no Consulado e que este teria atingido um vigilante (foi só nesse momento, através da polícia, que soubemos do coquetel molotov). As nossas mochilas foram revistadas na mesma hora. Os policiais não encontraram nada.”


    As prisões

    “Depois disso, fomos colocados dentro do camburão. Os policiais resolveram não nos algemar. Eles desrespeitaram, no entanto, um companheiro que era advogado (o Dr. José Eduardo) e que disse a eles que estava ali para assistir-nos. Mesmo assim, foi preso junto conosco, assim como um menor de idade e uma senhora de 69 anos, que havia se incorporado à manifestação por concordar com a defesa da soberania nacional, e um ativista que tinha levado um jato de spray de pimenta no olho.

    Chegamos a 5 DP e ficamos numa sala separada. Não existiam quaisquer provas contra nós. Fomos novamente revistados, todas as bolsas e mochilas. Tudo o que o delegado da Polícia Civil encontrou foram panfletos. Mesmo diante das evidências, fomos todos mandados para os presídios de Bangu 8 e Água Santa. Para Água Santa foram 8 homens. Nós fizemos uma discussão de abrir mão de prisão especial quem tinha esse direito para ficarmos todos juntos, pois seria mais seguro e manteria a moral numa situação tão difícil.”


    No presídio

    “Já no presídio de Água Santa, nossas coisas foram separadas e fomos revistados. É importante registrar o espanto do policial civil que nos transportou para o presídio e dos próprios carcereiros, que diziam não estar acostumados com presos como nós, pois estavam acostumados com bandidos. Ainda assim, tivemos que seguir a disciplina do presídio. Logo depois da revista, tivemos as nossas cabeças raspadas. Embora a administração afirme ser uma norma do lugar e por questões de higiene, não pudemos deixar de encarar como uma violência, pois, naquele momento, já éramos tratados publicamente com o status de presos políticos, mas estivemos submetidos a todo o regime disciplinar ao qual estão submetidos os presos comuns. Aliás, essa experiência na prisão, deu-me a certeza de que esta é uma instituição falida, que não recupera ninguém.

    O cotidiano na prisão é terrível. Perdíamos a noção do tempo por várias vezes. No domingo, ficamos completamente incomunicáveis. A nossa aflição só aumentava. A situação só não foi pior porque tivemos a capacidade de nos organizar, de ficar sempre conversando. Às vezes até cantando e fazendo brincadeiras para que ninguém se deprimisse. Conversávamos o tempo todo. O nosso confinamento foi absoluto. Ficamos numa cela e numa ala separadas dos demais presos, para a nossa segurança, o que só reforça o fato de sermos presos políticos.

    Os agentes e os presos que trabalhavam para reduzir a pena nos diziam que, quando Obama fosse embora estaríamos soltos, o que nós também pensamos, pelo menos como a hipótese mais provável, pois sabíamos que os governos Dilma e Cabral só nos mantiveram encarcerados para dar uma satisfação ao imperialismo. Afinal, depois de todo o circo montado para a vinda de Obama, não era possível tolerar que ninguém jogasse água no chope da festa de comemoração da entrega do nosso pré-sal aos Estados Unidos”.


    Rotina da cadeia

    “Na cadeia, tivemos que nos organizar até mesmo para garantir a higiene. Improvisei um detergente com água e sabão para os nossos pratos que eram aqueles pratos de alumínio de quentinha. Nós colocávamos todo o lixo num saco e depois amarrávamos. No domingo, lavamos uma parte da cela para que os ratos que andavam pelos corredores do presídio não entrassem, ou pelo menos não ficassem na nossa cela, e não nos mordessem. E isso porque a cela havia sido limpa antes de nós chegarmos. Naquelas circunstâncias, devíamos ser vistos como VIP’s, o que só mostra a gravidade da situação no sistema carcerário brasileiro.

    Nós não pudemos levar nada nosso para a cela. Só pudemos entrar com o uniforme da prisão, com o sabonete, o papel higiênico, a escova e a pasta de dente fornecido pela prisão. Não pudemos entrar com as nossas toalhas de banho para a cela. Os nossos livros também não puderam entrar. Eles seriam uma valiosa companhia para fazer passar o tempo, mas aí como pensaríamos no castigo que estávamos levando? E o pior é que tanto a polícia quanto o governo sabiam que o coquetel molotov não havia partido de nenhum dos presos, sendo, provavelmente, alguém infiltrado para acabar com o ato e justificar a repressão. Desse modo, estávamos sendo punidos simplesmente por exercermos a nossa liberdade de expressão e de manifestação. Parece que o governo americano, que prende, mata e tortura no mundo todo, cobrou de seus anfitriões uma postura mais firme quanto aos protestos que fossem contrários aos interesses estadunidenses.

    Na segunda-feira, conseguimos entrar com nossos livros e toalhas. Eu fiquei uma noite sem tomar um remédio que era um antiepilético, correndo o risco de ter uma convulsão dentro da cela. Depois de muitos protestos de familiares e amigos de fora do presídio e nossos pedidos dentro, eu recebi o meu remédio. A pressão também ajudou a aliviar em outros aspectos. No início, não tínhamos água potável, só água da bica. Com a pressão de amigos e familiares, conseguimos uma conta na cantina do presídio, pedindo principalmente água mineral e cigarros. A comida que comemos foi a do presídio mesmo, pois não queríamos abusar do esforço dos nossos companheiros do lado de fora e nem gozar de privilégios excessivos em relação a outros presos. Na segunda, conseguimos ter acesso aos jornais e tivemos visita. Antes disso, tivemos a visita do advogado Dr. Aderson Bussinger, da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ, no sábado.

    A disciplina era rigorosa. Duas vezes por dia tinha o confere. Nós ficávamos agachados, de cabeça baixa, em sinal mais de submissão do que de respeito, e éramos contados. Quando saíamos da cela, o fazíamos em fila, com as mãos para trás e de cabeça baixa. Tínhamos que chamar os funcionários do presídio de chefe ou senhor. Apesar disso, conseguimos ter uma boa relação com alguns agentes e com outros presos, que chamávamos de irmãos, pois é assim na prisão.

    Privacidade inexiste numa penitenciária como essa. O vaso sanitário, que é, praticamente, um buraco no chão, ficava exposto e não podíamos usar nada de cortina. Pelo menos, tínhamos chuveiro na cela. A luz ficava acesa a noite inteira. Foi bastante difícil dormir na primeira noite. Na noite seguinte, já pude perceber uma preocupante adaptação à situação, conseguindo dormir mais facilmente. Eu me cobria mais com medo de levar uma mordida de rato do que pelo frio. Mas sobrevivemos."


    Fortalecidos

    "A lição que podemos tirar é que quando o Estado pratica uma violência dessas é para quebrar o espírito de luta, para desmoralizar, para amedrontar. Os governos Cabral e Dilma já perderam essa, pois saímos mais fortes. Conseguimos nos manter firmes o tempo todo, apesar de toda humilhação.

    Não descansaremos até que a verdade apareça e que o Estado seja responsabilizado por essa agressão. Fomos vítimas de uma prisão ilegal e arbitrária e sofremos com a prisão pela audácia de falar contra a política do imperialismo estadunidense e a política do governo brasileiro, que ocupa militarmente o Haiti e entrega o Pré-Sal. É uma grande surpresa que a presidente Dilma, que foi presa política na ditadura militar, tenha feito os seus primeiros presos políticos no terceiro mês de seu mandato, para agradar o imperialismo, o mesmo imperialismo que apoiava a ditadura.

    Saímos vivos do inferno. E só podemos agradecer ao amplo movimento que se mobilizou pela nossa libertação: os partidos políticos, como o PSTU e o PSOL, e alguns militantes do PT; os sindicatos, como o SEPE-RJ, o SINDIPETRO-RJ, o SINDJUSTIÇA e a CSP-CONLUTAS; as entidades estudantis, como a ANEL, o DCE-UFRJ e o DCE-UFF; os parlamentares, como o senador Lindberg Farias, do PT, os deputados federais do PSOL, Chico Alencar e Jean Wylis, os deputados estaduais do PSOL, Marcelo Freixo e Janira Rocha, o ex-deputado federal e presidente do PSTU-RJ, Cyro Garcia, e o deputado Stephan Nercessian, do PPS; a OAB, a ABI, os nossos advogados, os nossos familiares e amigos.

    Foram muitas vozes juntas ecoando pela liberdade e nem os governos nem a mídia puderam ignorar. Estamos livres no momento, mas o processo segue e precisamos arquivá-lo para que as liberdades democráticas sejam restabelecidas. Até o momento, vivemos um processo que segue a dinâmica de um Estado de exceção. O direito foi ignorado, a Constituição foi ignorada e as liberdades conquistadas com o fim da ditadura foram ignoradas. A democracia no Brasil está em jogo. A criminalização dos movimentos sociais deve ser combatida, sob pena de rumarmos a passos largos para uma ditadura, já não tão disfarçada, que garantirá toda a tranquilidade para os negócios que serão feitos na Copa do Mundo e nas Olimpíadas e garantirá os lucros dos banqueiros e dos empresários durante essa crise econômica, penalizando a classe trabalhadora, que pagará a conta da crise se não lutar contra essa situação. É o nosso direito de lutar por uma vida melhor, por liberdade e justiça que foi posto em xeque com essas prisões políticas.”

    *Rafael Rossi é professor de História, dirigente do SEPE-RJ e militante do PSTU

    Assine o abaixo-assinado pela retirada das acusações

  • Abaixo-assinado pelo fim dos processos contra os 13 do Rio


  • Retirado do Site do PSTU