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quinta-feira, 11 de abril de 2013

Superinflação dos alimentos no país da super-safra


Preço do tomate vem causando indignação
Os trabalhadores estão vendo que ir à feira ou ao mercado está cada vez mais caro, o dinheiro acaba e o carrinho de compras não enche. Nos últimos 12 meses, o tomate aumentou 122,13% e a farinha de mandioca 151,39%. Só no mês passado o preço da cebola aumentou 21,43%, do açaí 18,31%, da cenoura 14,96% e do feijão 9,08%. O tomate, que tem causado (com razão) muitas reclamações entre os trabalhadores, 6,14%(dados do IBGE).

O que causa estranheza é o fato de que esta superinflação veio acompanhada por outra realidade do campo: a super-safra de grãos, que alcançou a produção de 184 milhões de toneladas (10% superior ao ano passado), a maior colheita já registrada no Brasil. Toda esta produção das chamadas commodities agrícolas (mercadorias produzidas em larga escala com vista à exportação, como a soja e o milho) tem aumentado imensamente o lucro do grande agronegócio brasileiro e sufocado o pequeno produtor rural. Segundo dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), a área plantada de soja registrou no último ano um crescimento de 2,67 milhões de hectares. Os milionários do agronegócio estão rindo à toa.

Outro dado marcante deste ano é o crescimento do “mercado dos artigos de luxo” no interior do Brasil. Estas informações mostram como no campo brasileiro uma ínfima minoria tem faturado muito com a política agropecuária brasileira de privilégio ao agronegócio. De acordo com pesquisas da MCF, uma consultoria em produtos para a “classe A” no Brasil, “o luxo no Brasil tem sido descentralizado, embora ainda tenha maior representação no sudeste. Regiões do agronegócio, no entanto, têm registrado cada vez mais pessoas da classe A, e é por elas que marcas de luxo procuram”. Numa entrevista com o diretor da Land Rover no Brasil, este cita que um dos carros mais procurados pelos produtores rurais em ascensão trata-se de um esportivo de auto-luxo que custa mais de R$400 mil.


Para quem governa a presidente Dilma?

O Governo de Dilma Roussef tem mostrado de que lado está ao contribuir diretamente para a concentração de terras no campo brasileiro. Por meio de estímulos fiscais, crédito barato via BNDES e leis específicas (como foi o caso do código florestal que privilegia o agronegócio em detrimento do meio ambiente), a presidente Dilma tem sido generosa com os barões do agronegócio.

Recentemente, este mesmo governo anunciou a isenção de impostos para produtos da cesta básica como meio de evitar a inflação. Mas será que esta medida vai solucionar o problema do preço dos alimentos?

Infelizmente, acreditamos que não. Afinal, mesmo após a desoneração a cesta básica sofreu alta. Uma família composta por quatro pessoas gastou, em média, R$ 829 para comprar uma cesta básica em março – R$ 21 a mais que o que gastava no mês anterior (dados do Dieese).

Com isso, os trabalhadores são os que mais sofrem com esta realidade. A nossa primeira necessidade (comer e beber) está consumindo, cada vez mais, quase a totalidade de nosso orçamento.


O que fazer?

Este problema só será resolvido com uma mudança radical no campo. O Brasil tem uma grande abundância de recursos naturais. Entretanto, continuaremos de barriga vazia enquanto estes recursos não estiverem a serviço das necessidades dos trabalhadores. Enfim, de nada adiantará nossas terras repletas de soja.

A questão agrária é uma questão de segurança e soberania nacional, de interesse de toda a classe trabalhadora. Só uma reforma agrária radical no campo, uma mudança na política de créditos em apoio ao pequeno produtor rural, acompanhada de uma nacionalização dos grandes conglomerados do agronegócio, sob controle dos trabalhadores do campo, pode aproveitar o potencial de nosso país e levar fartura às mesas dos brasileiros.


Retirado do Site do PSTU

quinta-feira, 8 de março de 2012

O pibinho de Dilma

PIB de 2011 fica abaixo da média mundial, enquanto desaceleração da China traz sombrios horizontes


Agência Brasil
Ministro Guido Mantega havia prometido PIB de 5%, veio só 2,7%
A estimativa do IBGE para o PIB de 2011, divulgado nesse dia 6 de março, está abaixo das mais pessimistas expectativas. De acordo com o instituto, o Brasil cresceu no ano passado apenas 2,7%, enquanto o mundo inteiro cresceu, em média, 3,8%. O Produto Interno Bruto é a soma de todas as riquezas produzidas no país no período de um ano.

No início de 2011, o ministro da Fazenda Guido Mantega havia prometido um crescimento de 5%. No decorrer do ano o governo foi se ajustando à realidade, mas não esperava um resultado tão pífio. Os números mostram uma brusca desaceleração da expansão econômica que o país vinha experimentando, e que chegou a marcar 7,5% em 2010. Levantamento do IBGE mostra que, entre julho e setembro do ano passado, o PIB chegou a retrair 0,1%, tendo uma tímida reação nos meses seguintes, crescendo 0,3% e impedindo um resultado ainda pior.

Apesar de alguns setores ainda estarem aquecidos, como a construção civil que cresceu 3,6%, a indústria de transformação (fábricas, refinarias, etc) foi um dos principais responsáveis para a estagnação do PIB, crescendo apenas 0,3%. A produção industrial praticamente estagnou e, a partir do final do ano passado, vem registrando sucessivos recuos, marcando uma diminuição de 2,1% em janeiro último, afetado, sobretudo pela queda na indústria automobilística.

O crescimento nos investimentos também despencou em 2011, o que contribuiu para esse resultado do PIB. Enquanto que, em 2010, os investimentos haviam crescido 21,3%, no ano passado aumentaram apenas 4,7%, o que também fez recuar a proporção dos investimentos em relação ao PIB, de 19,5% para 19,3%.

O alto preço das commodities (produtos primários para exportação, cotado no mercado internacional), fez com que o setor agropecuário gozasse de certo crescimento, de 3,9%. Tal resultado impediu que o PIB tivesse um desempenho ainda pior.

A alta no consumo (4,8%) também segurou uma desaceleração ainda mais profunda, mas ainda assim esteve baseado num forte crescimento do crédito pessoal, de mais de 18%, o que vai causar um aumento também do endividamento das famílias, que já é alto.


Crise e o fator China

A desaceleração do PIB é resultado da política econômica do governo Dilma, que vem impondo sucessivos cortes bilionários no Orçamento, e da crise econômica internacional, cujos efeitos estão longe de terminar, como mostra a Europa. Uma vez eleita, Dilma nem bem se acomodou no Planalto e já anunciou um corte recorde de R$ 50 bilhões, ao mesmo tempo em que o Banco Central aumentava os juros. Em 2012 o ~script~ se repete, e já são R$ 55 bi arrancados do Orçamento pela tesoura de Dilma.

Grande parte do pífio desempenho da indústria, por sua vez, é causado pela valorização do Real, impulsionado pelos investimentos especulativos que inundam o país, no que a própria Dilma chamou de ‘tsunami de liquidez’ (mas ao mesmo tempo o governo mantém as mais altas taxas de juros do mundo, que age como um aspirador para esse capital estrangeiro).

Isso ocorre pois, para tentar contornar a crise financeira, Europa e principalmente EUA, emitem moeda a rodo, desvalorizando o Euro e principalmente o dólar. Desta forma, podem vender seus produtos mais barato e equilibrar sua Balança Comercial (no caso dos EUA, conter seu monstruoso déficit externo). Na prática, a guerra cambial funciona como uma forma de protecionismo disfarçado.

Como se isso não bastasse, o governo chinês acaba de anunciar que a economia do país vai desacelerar este ano. O país é o principal destino das exportações brasileiras de commodities, como aço e ferro. Oficialmente, a China argumenta que dará mais prioridade ao seu mercado interno, mas na verdade é uma forma de reconhecer que o grande crescimento vivido pelo país nos últimos anos, baseado nas exportações aos principais mercados imperialistas como os EUA e Europa, já não é mais sustentável com a crise.

Com isso, a locomotiva que arrasta os chamados ‘Bric’s’, ameaça perder força. Para se ter uma ideia, enquanto que em 2011 o comércio internacional da China teve alta de 35%, para este ano projeta-se apenas 10%.

Apesar do PIB medíocre, a crise ainda não é realidade para a imensa maioria dos trabalhadores no país. A expansão do crédito e do consumo ainda passa uma falsa imagem de prosperidade. Ao mesmo tempo, há ainda um certo aumento da capacidade industrial em certos setores e regiões, como em São José dos Campos (SP). O resultado do desempenho da economia em 2011 divulgado pelo IBGE, por outro lado, mostra a fragilidade e dependência da economia brasileira, além de apontar um horizonte não tão otimista quanto o desenhado pelo governo.


Retirado do Site do PSTU

sábado, 31 de dezembro de 2011

Juros da dívida pública batem recorde em 2011

De acordo com Orçamento aprovado pelo Congresso para 2012, juros e amortizações da dívida consumirão 22% do PIB


O Governo Dilma começa e termina seu primeiro ano de mandato com recordes. Após o corte sem precedentes que impôs ao Orçamento no início do ano, de R$ 50 bilhões, o governo contabiliza no apagar das luzes um outro marco. Nunca o país gastou tanto com os juros da dívida pública como agora. De janeiro a novembro, foram R$ 216 bilhões, montante quase 23% maior que no mesmo período em 2010.

Ao mesmo tempo, o Banco Central comemora o cumprimento adiantado da meta de superávit primário, a economia para pagar os juros da dívida. Um mês antes de fechar o ano, o país já havia economizado R$ 126,8 dos R$ 127,9 bilhões (equivalente a 3,1% do PIB) programados para a formação do superávit. Desses, R$ 33,5 bilhões vindos dos estados e municípios, o resto do Governo Federal e das estatais. Só em novembro foram economizados R$ 8,2 bilhões.

Para efeito de comparação, todos os gastos com as obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) totalizaram R$ 22,8 bilhões no ano. Já o Bolsa Família consumiu R$ 16,6 bilhões. Isso significa que, os gastos com as duas maiores vitrines do governo chegam a apenas 18,5% do que foi dispendido só com os juros da dívida.


Quanto mais ganha, mais gasta

A antecipação da meta de superávit reflete o arrocho imposto pelo governo em 2011, com o corte e redução nos investimentos (2,7% menor que no ano anterior), e também o aumento da arrecadação, impulsionado pela economia ainda em crescimento. Mesmo assim, o superávit primário ficou cerca de R$ 90 bilhões abaixo do que foi gasto com os juros, ou o equivalente a 2,3% do PIB, o chamado ‘déficit nominal’.

Já os juros recordes da dívida foram provocados pela inflação e o aumento na taxa de juros decretado pelo Banco Central no início de 2011. Apesar da gradual redução realizada a partir de agosto, os juros pagos pelo país aos rentistas, de 11% (5,1% descontada a inflação) ainda são os maiores do mundo, transformando a dívida em uma espécie de bola de neve. Quanto mais o governo arrecada e economiza, mais paga.

Segundo a Auditoria Cidadã da Dívida, o equivalente a 47% do orçamento federal vai ser destinado ao pagamento de juros e amortizações da dívida pública em 2012, ou R$ 1 trilhão. Considerando a estimativa para ao PIB em 2012, equivalente a R$ 4,5 trilhões, chegamos à conclusão de que nada menos que 22% de tudo o que será produzido no país vai para a agiotagem internacional.




Ano novo, a mesma dívida

Em 2011 o governo, prevendo já uma piora na crise econômica internacional, decretou os cortes e puxou o freio dos já reduzidos investimentos. Isso porque os dois anos anteriores foram marcados pelo que a imprensa classificou de ‘gastança’ do setor público, na verdade os bilhões despejados pelo governo Lula para a indústria e os bancos como forma de combater a crise. Era necessário agora ajustar as contas.

O problema é que, se boa parte do ano contou ainda com um acelerado crescimento ( ainda que o PIB feche 2011 com parcos 3% de aumento) o que se refletiu no aumento da arrecadação, 2012 será diferente. Ou seja, o fator arrecadação não será um trunfo para o governo economizar para pagar a dívida. Junte-se a isso a série de isenções fiscais prometidas a vários setores, que deverá tirar de cara R$ 30 bilhões do orçamento.

Contraditoriamente, o Banco Central espera aumentar o superávit em 2012, tentando o cumprimento da meta de 3% ‘cheia’, ou seja, contando já com os juros da dívida. Se isso não será conseguido através da arrecadação, terá que ser feito na outra ponta, ou seja, nos gastos e investimentos. Por isso Dilma já mandou recado aos servidores públicos, avisando que no ano que vem não terá reajuste. O mesmo recado pode ser estendido à população que espera melhorias em serviços públicos como saúde e educação.


Retirado do Site do PSTU

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Acordo nos EUA evita calote, mas deve aprofundar a crise

Mundo vai continuar pagando o déficit público norte-americano e financiando lucros dos bancos e das grandes empresas


Obama deve enfrentar desgaste político até eleições de 2012
O acordo anunciado pelo governo Obama entre republicanos e democratas para dar fim ao impasse e elevar o teto da dívida dos EUA, hoje em 14,3 trilhões de dólares, está longe de pôr fim à crise econômica e política que toma conta do país. Após semanas de duras negociações sob um ambiente de acirrada polarização, que incluiu negociações ininterruptas por todo o final de semana, o presidente Barack Obama finalmente anunciou um acordo no final da noite de domingo.

O acordo, aprovado pela Câmara dos Representantes, de maioria republicana, na noite dessa segunda-feira, 1º de agosto, garante a elevação do endividamento em 2,1 trilhão de dólares. Em contrapartida, impõe uma redução de 1 trilhão nas despesas do governo para os próximos 10 anos. Uma comissão composta por 12 parlamentares deve ficar responsável ainda por definir, até novembro, um corte adicional de 1,5 trilhão.


Vitória dos conservadores

Apesar de Obama ter anunciado o acordo como um entendimento entre os dois partidos, ele representa uma clara vitória da ala republicana. Isso porque o impasse criado em torno do déficit gira em torno do que fazer para o país continuar conseguindo pagar as suas dívidas. Enquanto o Partido Democrata defendia cortes no Orçamento e, a fim de contemplar parcela de seu eleitorado, aumento nos impostos dos mais ricos e redução de subsídios, os republicanos exigiam que o ajuste se concentrasse exclusivamente na redução de despesas. E é isso o que está sendo aprovado.

A líder dos democratas na Câmara, Nancy Pelosi, claramente constrangida, chegou a definir como “desconcertante” o ajuste fiscal colocadas a voto. O conjunto de medidas que está sendo aprovado desagrada até mesmo a ala mais à direita dos republicanos e boa parte do Tea Party, que insistiam em um corte de gastos mais agressivo. Nessa batalha entre o governo e as duas alas do congresso, todos saíram chamuscados.


Desaceleração e crise

O tão temido calote dos EUA não ocorreu, mas a crise está longe do fim. Enquanto parlamentares se enfrentavam para resolver o nó do déficit, os índices da economia norte-americana desse segundo semestre reafirmavam a desacelaração e a quase estagnação da atividade do país, mais longa que do era esperada. O crescimento do primeiro semestre deste ano é o mais lento desde a primeira metade de 2009, quando oficialmente os EUA saíram da recessão.

A indústria, por sua vez, mostra sinais de arrefecimento. O desemprego, em históricos 9%, não dá sinais de recuperação. Todo esse cenário de crise só vai piorar com os cortes anunciados pelo governo. Alguns analistas temem que o país refaça a trajetória dos anos 1930 quando, logo após a recuperação do crash de 1929, um ajuste fiscal jogou a economia numa duradoura recessão que só teve fim com a 2ª Guerra Mundial.

Os trabalhadores e a maioria da população, sobretudo a mais pobre, devem ser mais uma vez os maiores atingidos pelo ajuste, já que as áreas sociais serão alvos preferenciais dos cortes trilionários.


Mundo vai continuar pagando pelo déficit americano

O gigantesco déficit fiscal dos EUA foi gerado durante o governo W. Bush e usado para financiar os cortes nos impostos dos mais ricos, subsidiar empresas e pagar as guerras do Iraque e Afeganistão. Com a crise econômica deflagrada em 2008, a dívida deu um salto brutal com os pacotes de ajuda ao setor financeiro. Os 14,3 trilhões do déficit representam hoje nada menos que o equivalente a um quarto do PIB mundial (62 trilhões de dólares).

Essa conta é paga por aqueles que detem os títulos da dívida pública norte-americana, em ordem decrescente: China, Japão, Reino Unido, um fundo conjunto de países petroleiros e, finalmente, o Brasil, que detêm 200 bi em títulos. Isso significa que o mundo sustenta o enorme déficit norte-americano. E quem são os maiores beneficiários? O jornal mexicano La Jornada dá uma pista quando informa que os lucros das empresas no país aumentaram 264 bilhões nos últimos três anos, principalmente os do setor financeiro. Isso em uma conjuntura de recessão ou economia cambaleante.

Já o senador democrata Bernie Sanders, em artigo no Wall Street Journal, afirma que os impostos sobre os mais ricos nos EUA estão nas taxas mais baixas da história moderna. Nunca os ricos pagaram tão pouco impostos como agora. “De fato, enfermeiras, professores e bombeiros pagam mais impostos que alguns multimilionários”, afirma.

O déficit norte-americano, financiado pelo restante do mundo, paga os lucros dos bancos, das empresas, dos mais ricos e sustenta a presença militar dos EUA no Oriente Médio. O problema para Obama é que ela está se tornando insustentável.

A medida que está sendo aprovada no Congresso, porém, além de não resolver esse rombo, vai bloquear de vez a recuperação e pode jogar o país novamente em uma recessão. O ano de 2008 mostrou o que acontece com o restante do mundo quando a maior economia do planeta ameaça ruir. A crise política aberta nos últimos meses, por outro lado, é um outro importante fator de instabilidade que se soma à economia no coração do Imperialismo.


Retirado do Site do PSTU

terça-feira, 19 de julho de 2011

Os EUA entre o impasse político e o aprofundamento da crise econômica

Em meio a impasse, Democratas e Republicanos concordam que os mais pobres paguem o preço da crise


Presidente Obama durante pronunciamento na Casa Branca
O impasse político que se arrasta nos EUA há algumas semanas fez acender o sinal vermelho da economia mundial ao mesmo tempo em que mostra que a crise desatada em 2007 está muito longe de terminar. No centro do imperialismo, a crise econômica se desdobra em uma grave luta política.

Em resumo, o governo Obama precisa aumentar o teto do endividamento público, que lá é definido por lei, para continuar pagando as contas, principalmente os serviços da dívida pública. O impasse está nos condicionantes para tal manobra. A fim de autorizar Obama a elevar o endividamento para além dos já inacreditáveis 14 trilhões de dólares, o Partido Republicano exige um rígido programa de cortes fiscais do Estado, atingindo, sobretudo os gastos sociais. Os democratas, por outro lado, a fim de resguardar parte de seu eleitorado, querem que uma pequena parte desse ajuste, ou 20%, venha de aumento de impostos.

Ambos, porém, concordam na meta de se reduzir em 4 trilhões de dólares o déficit público nos próximos 10 anos. No entanto, o prazo para a elevação do teto da dívida se encerra no dia 2 de agosto. O governo Obama e grande parte da mídia internacional anunciam o apocalipse caso não se chegue a um acordo até esse dia. A megapotência teria que declarar moratória em parte de suas dívidas. Investidores da dívida norte-americana ficariam a ver navios e velhinhos não receberiam suas aposentadorias. Tentam, assim, responsabilizar os fundamentalistas de direita do Tea Party pelo impasse, diferenciando-os dos democratas, supostos reféns desse jogo. Mas será mesmo assim?


Duas faces de uma mesma política

Os republicanos aparecem como os grandes defensores das contas públicas, enquanto o Partido Democrata tenta encarnar uma política supostamente progressiva, preocupada com os mais pobres. Tal imagem, no entanto, longe de representar duas alternativas realmente distintas, serve mais como marketing político, criando uma ilusão de alternância de poder no sistema bipartidário. Exemplos: o governo Clinton foi marcado pelo rigor fiscal, fechando seu mandato em 2000 com um superávit de mais de 5 trilhões de dólares. O início da era Bush e sua política de intervenção e ocupação militar no Afeganistão e Iraque fizeram explodir os gastos públicos e transformaram em poucos anos o superávit em déficit. Situação agravada pelo corte nos impostos dos mais ricos.

No final de seu governo, com a popularidade desgastada e diante de um país tomado pela crise econômica, anunciou um megapacote de estímulos ao sistema financeiro de 700 bilhões de dólares. Para fazê-lo aprovar no Congresso, contou com a ajuda do já presidente eleito Barack Obama que, pessoalmente, conclamou os parlamentares a aprovarem o pacote. Ou seja, o déficit público causado pelas guerras e isenções de Bush foi aprofundado com os pacotes de ajuda a Wall Street e às empresas. O déficit passou de 2,7% do PIB em 2007 para 12,7% em 2010. Já o tal da dívida foi de 62% para quase 100% hoje. Isso significa que o valor total da dívida norte-americana é o equivalente ao valor de tudo o que o país produz em um ano.

Mais do que rupturas, o que se pode perceber nesses anos é uma linha de continuidade cuja a essência é o privilégio aos grandes bancos e empresas. Talvez o maior exemplo disso seja a “estatização” da então combalida General Motors, salva da falência com recursos do tesouro norte-americano.

Mas se por um lado o conjunto de pacotes e estímulos ajudaram a impedir que a recessão evoluísse para uma depressão como a dos anos 1930, por outro a anêmica recuperação já vem dando sinais de esgotamento. O crescimento do primeiro trimestre deste ano foi de 1,9%, enquanto no mesmo período de 2010 foi de 2,8%. O desemprego, que havia recuado, voltou a avançar com a desaceleração. E o horizonte não é nada alentador.


Crise política

A falta de perspectiva de uma solução para a crise vem se transformando cada vez em uma crise política nos Estados Unidos. Por um lado amplos setores populares que se moveram durante a campanha de Obama à presidência se desiludiram com o seu governo. À permanência das tropas no Afeganistão e a demora na retirada do Iraque se juntam a continuidade da base de Guantánamo, os programas sociais limitados, como o sistema de Saúde alardeado pelo presidente e, principalmente, o alto desemprego e a economia cambaleante. Entre Wall Street, que financiou sua campanha, e os milhares de voluntários que se moveram para elegê-lo, Obama ficou com o primeiro.

Ao mesmo tempo tem-se o fortalecimento do Tea Party, movimento surgido em 2009 da “América profunda” e que vocaliza o pensamento mais conservador, xenófobo e racista do país. O movimento vem ganhando força, impulsiona o Partido Republicano enquanto o empurra ainda mais à direita. Se não chega a representar de conjunto uma política econômica alternativa à atual, ajuda a radicalizar a disputa política entre democratas e republicanos e pode desatar graves crises.

Foi assim que, no final de 2010, os republicanos tiveram a maioria nas eleições legislativas e conquistaram o controle da Câmara dos Representantes. Em abril deste ano o governo quase fechou em meio a um impasse entre democratas e republicanos na aprovação do Orçamento para a administração federal. E agora, caminha-se para a mais grave crise até agora e o que poderia parecer impensável há algum tempo, os EUA declararem “default”, começa a ser cogitado.


O que vem a seguir

É evidente que uma moratória dos EUA não interessa aos democratas e nem aos republicanos. Como estamos cansados de ver por aqui, no jogo da disputa política entre o governo e a oposição de direita, há um limite que se esbarra na defesa dos interesses da burguesia. No caso dos EUA, se trata dos interesses do Imperialismo hegemônico no planeta.

Os dois lados concordam em cortar gastos, inclusive sociais. Obama colocou na roda até mesmo o Medicare (serviço público de saúde para os idosos) e o Medicaid (serviço de saúde dos mais pobres) e a Previdência Pública, medidas que aumentaram ainda mais seu desgaste com os setores que o apoiavam, principalmente as centrais, como a chapa-branca AFL-CIO. O Partido Republicano, porém, exige que nem um centavo desse ajuste venha do aumento de impostos e ameaça barrar a elevação do teto da dívida.

Uma solução, porém, já começa a ser desenhada pelo próprio lado republicano. O senador Mitch McConnell propôs que o legislativo concedesse a Obama uma autorização para que ele, unilateralmente, aumente o teto do endividamento público. Assim, o país continuaria pagando suas contas e os republicanos colocariam na conta de Obama a elevação da dívida, arrastando a crise até as próximas eleições, o significado real desse impasse.

De fundo, os dois lados concordam que é necessário conter o monstruoso déficit. Após a gastança desenfreada para salvar empresas e banqueiros, alguém deve pagar a conta. E tanto democratas como republicanos também concordam sobre quem deve recair esse peso: nas costas dos trabalhadores e da maioria da população.


Retirado do Site do PSTU

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Carta a um trabalhador endividado

Editorial do Opinião Socialista nº 427


Capa do Opinião Socialista 327
Você é um trabalhador, apóia o governo Dilma e está endividado. Ou seja, é parte da maioria dos trabalhadores do país. Por um lado, tem uma dívida que já está corroendo uma parte importante de seu salário. Já deve haver dúvidas em relação ao que fazer com o orçamento da família. Por outro, apoiou Dilma nas eleições porque ela era a candidata de Lula, e continua apoiando seu governo.

Você acha que Dilma é uma aliada. Mas será mesmo? Queremos que nos ouça e tire suas próprias conclusões.

Comecemos por algo em que estamos de acordo. Você sabe que os banqueiros não são aliados dos trabalhadores. Sabe por experiência própria como é sofrível pagar os financiamentos com altíssimas taxas de juros, e como pode perder tudo o que comprou se parar de pagar as prestações. Não é por acaso que os banqueiros são os mais odiados entre todos os patrões.

Mas se os banqueiros não são aliados dos trabalhadores, é importante deixar clara a relação do governo Dilma com eles. Se Dilma é uma aliada dos banqueiros, não deve ser aliada dos trabalhadores. Vejamos os fatos.

O problema do endividamento é muito mais grave do que se divulga. Trabalhadores como você estão acumulando dívidas enormes com empréstimos e financiamentos. Ainda acham que o atual crescimento vai durar para sempre. Na verdade, o que pode durar mais do que se imagina são essas dívidas.

O capitalismo conseguiu uma fórmula sinistra para ampliar seu mercado fazendo que os trabalhadores se endividem cada vez mais. É assustador saber que as famílias dos trabalhadores de Fortaleza dedicam 35% de seus rendimentos para pagar dívidas. Voltemos a pergunta: de quem Dilma é aliada, dos banqueiros ou dos trabalhadores endividados?

Em primeiro lugar, vejamos a taxa dos juros. Os juros cobrados no Brasil são os mais altos de todo o mundo. Mesmo sabendo disso, Dilma aumentou por quatro vezes seguidas a taxa de juros em seu governo, passando de 10,75 para 12, 25%. Ou seja, se um trabalhador tem um empréstimo nesse momento, ele precisa saber que está pagando mais em suas prestações, porque Dilma resolveu que os bancos devem receber mais.

Talvez você trabalhador tenha um empréstimo consignado, e ache que isso é uma demonstração de como Lula e Dilma se preocupam em garantir crédito às pessoas pobre com taxas de juros menores. Mas isso é um equívoco. Como se trata de empréstimo sem risco nenhum, porque o desconto é direto na folha de pagamentos, o maior ganho mesmo é dos bancos. E a taxa de juros cobrada (entre 30 a 40% ao ano) é muito mais alta do que os 6% cobrados pelo BNDES às grandes empresas.

Vejamos quem teve maiores ganhos nos governos do PT, os trabalhadores ou os bancos. Os salários médios dos trabalhadores durante os governos Lula ficaram estagnados, aumentando só R$ 52 reais durantes oito anos. Talvez você seja parte de uma categoria que teve reajustes maiores. Quando aumentou? Uns de 20%? Sabe quanto aumentaram os lucros dos bancos durante os dois governos Lula? 488%, ou seja, cresceram quase cinco vezes.

Você trabalhador contribuiu financeiramente com a campanha de Dilma? Não? Em seus primeiros anos o PT financiava suas campanhas eleitorais quase do mesmo jeito como o PSTU faz com as suas. Ou seja, recorrendo às contribuições dos trabalhadores. No passado, vendiam as estrelinhas do PT, camisetas e bandeiras. Mas isso foi no passado. Nas campanhas de Lula e Dilma, o PT recorreu ao mesmo esquema de todos os partidos da direita: o dinheiro das grandes empresas. Os bancos e as empreiteiras foram os maiores financiadores da campanha de Dilma. O PT não precisa mais das contribuições dos trabalhadores porque ganha muito mais com a grana dos empresários, em particular dos banqueiros. E, como se sabe, “quem paga escolhe a música”.

Dilma é uma grande aliada dos bancos, que financiaram sua campanha e têm lucros cada vez maiores. O PSDB e o DEM eram os partidos da direita identificados com o capital financeiro. Ao chegar ao governo, Lula se ligou diretamente aos banqueiros, passando a ocupar o espaço da oposição de direita. O PT terminou sendo o principal aliado dos bancos no país. Não é por acaso que os lucros dos banqueiros foram de R$ 34 bilhões de reais, nos dois governos de FHC, para R$ 170 bilhões nos governos Lula. Não é por acaso que Dilma recebeu mais dinheiro dos bancos em sua campanha do que Serra.

Você, trabalhador endividado, não tem em Dilma uma aliada. Ela está junto com os bancos contra você.

Mesmo que você não concorde com isso, deve estar de acordo em reivindicar junto conosco que o governo Dilma reduza os juros cobrados dos trabalhadores baixando dos 150% anuais para o mesmo nível dos empréstimos do BNDES às grandes empresas, ou seja, de 6% ao ano. E que, para isso os bancos devam ser estatizados e colocados à serviço dos trabalhadores.


Retirado do Site do PSTU

terça-feira, 5 de abril de 2011

Governo prepara mais arrocho para conter a inflação

Diante do aumento nos preços das commodities, Dilma dá carta branca para o Banco Central aumentar os juros


O discurso otimista esbanjado pela então candidata Dilma Roussef no ano passado não durou muito. Tão logo pendurou a faixa presidencial, o futuro deixou de ser tão radiante. Logo na primeira ação do governo, a nova mandatária realizou um corte recorde no Orçamento, tirando R$ 50 bilhões dos gastos previstos para 2011.

O governo anunciou sua política de arrocho para conter a inflação, seguindo o argumento de que o aumento dos preços seria causado pelo crescimento econômico e o aumento desenfreado do consumo. No entanto, o primeiro Relatório de Inflação do Banco Central, divulgado no último dia 30, refuta esse discurso.


Inflação

O documento do próprio governo reconhece que não será possível atingir a meta de 4,5% de inflação para 2011, devido ao aumento nos preços das commodities (produtos para exportação, cotados no mercado internacional) e seu impacto sobre os alimentos. Segundo o relatório do banco, a inflação este ano deve ficar em 5,6%, de acordo com o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo). Já o mercado acredita numa inflação de 6%. Ou seja, mesmo com uma política agressiva de contenção fiscal para segurar a economia, o governo não deve cumprir sua meta de inflação.

Na apresentação do relatório, o diretor de Política Econômica do Banco Central, Carlos Hamilton Araújo, explicou à imprensa as razões do aumento da inflação: “No segundo semestre de 2010, o mundo e nós fomos apanhados de surpresa por um gigantesco choque de commodities. Em nove meses, os preços subiram 70% e isso tem mais impacto no Brasil do que em outros países”, relatou.

O Banco Central trabalha agora com uma “margem de manobra” para o teto da inflação de 6,5%, mas mesmo isso está ameaçado. Para conter o aumento de preços, Dilma deu carta branca ao presidente do Banco Central, Alexandre Tombini fazer “o que for preciso”. E isso significa juros mais altos, mais cortes, e arrocho. As medidas do governo Dilma já reduziram as expectativas de crescimento para 2011 para 4%.


O ‘sacrifício’ do governo

Representantes do mercado financeiro e analistas econômicos, apesar dos sucessivos cortes anunciados, não se satisfazem e pedem mais sangue. Afirmam ser necessária uma demonstração de “sacrifício” maior por parte do governo. O governo Dilma, por sua vez, atende aos apelos do mercado e passa a bola para o Banco Central elevar ainda mais os juros.

O sacrifício exigido pelo mercado financeiro, porém, não será do governo. Os verdadeiros sacrificados serão os trabalhadores que, além de sofrerem com o aumento da inflação dos alimentos, que atinge em maior proporção os mais pobres, encontrarão pela frente uma economia em desaceleração e serviços públicos cada vez mais sucateados.


Retirado do Site do PSTU