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sábado, 11 de maio de 2013

"Por que saí do Movimento Negação da Negação e ingressei no PSTU?"

Leia carta divulgada por ex-militante da corrente NN que acaba de anunciar sua entrada no PSTU 

Em 2007, ano em que ingressei na Universidade de São Paulo (USP), vivi uma das maiores mobilizações da juventude universitária dos últimos anos. Assembleias de milhares de estudantes em greve foram realizadas, além da ocupação da reitoria. Ao longo do processo, me aproximei e decidi fazer parte do grupo trotskista Movimento Negação da Negação (MNN).

Hoje, após mais de cinco anos, decidi sair dessa organização. Apesar da importante experiência da recente luta na USP em 2011 e dos erros cometidos pelo MNN nessa mobilização, os motivos de minha saída estão muito além das questões estudantis. Acumulei ao longo deste tempo profundas divergências políticas e teóricas. No entanto, sem dúvida, ambos os aspectos se relacionam, uma vez que a atuação das correntes políticas deve expressar suas concepções teóricas e os seus projetos políticos.

Acompanhamos diariamente o desenvolvimento de uma profunda crise econômica do sistema capitalista. Milhares de jovens estão ocupando praças e ruas, e inúmeros setores da classe trabalhadora estão realizando manifestações e greves pelo mundo todo.

Uma primeira divergência que hoje possuo com o MNN é no campo da política internacional. Essa organização, que atualmente não possui relações com nenhuma outra organização política em outro país, renunciando à tarefa de reconstrução da IV Internacional, relativiza ou se coloca contra os inúmeros processos revolucionários que hoje ocorrem no mundo, tanto na Europa como no Norte da África e no Oriente Médio.

Não posso, também, concordar com a caracterização sobre o processo revolucionário que ocorre na Síria. No dia 20 de fevereiro de 2012, o MNN traduziu e publicou em seu site o artigo do site WSWS.org “Pentágono planeja Guerra contra a Síria”. O texto é focado simplesmente em afirmar que há uma relação forte entre o imperialismo e os líderes da oposição na síria, igualando a direção burguesa do Conselho Nacional Sírio aos milhares de jovens e trabalhadores que, diante do regime miserável e ditatorial de Assad, estão diariamente lutando com armas nas mãos.

Aqui no Brasil, a relativa estabilidade da economia que vimos na última década, mas que já dá sinais de esgotamento, favoreceu a consolidação do PT no poder e bloqueou parcialmente a experiência do proletariado brasileiro com Lula e Dilma, governos de colaboração de classes, amparados pelas principais direções do movimento de massas.

No entanto, para o MNN, vivemos atualmente no Brasil sob um governo com características bonapartistas. Acreditam que Lula chegou ao poder não através das ilusões reformistas da maioria da classe trabalhadora brasileira, mas simplesmente apoiado nos setores miseráreis e conservadores da sociedade.

Dessa forma, o MNN não consegue intervir de forma vitoriosa no interior da classe operária, pois elabora sua política em acordo com uma caracterização equivocada, menosprezando os impactos da relação do PT com o movimento de massas na consciência do proletariado. E, pior, subestimam a necessidade de desmascarar Lula e Dilma diante dos trabalhadores e jovens do país, atuando centralmente com uma agitação economicista e capituladora.

Além disso, o MNN propaga uma distorção completa das leis teóricas gerais que engendram o Sistema Internacional de Estados e a Divisão internacional do Trabalho, formuladas por Lênin no livro “Imperialismo – Fase Superior do Capitalismo”.  Assim, não definem nosso país enquanto uma semicolônia do imperialismo, mas como um país avançado e com o “maior potencial” revolucionário do mundo.

Em artigo publicado na revista Crítica Marxista nº 18, Hector Benoit, intelectual do MNN, defende a tese do potencial revolucionário do Brasil. “Em qual outra região da terra, sem entraves pré-capitalistas, tais contradições se manifestam de forma tão pura, potencialmente apontando, de forma tão determinada, para a aurora de um futuro socialista?”, indaga Benoit.

Por isso, se colocam contra qualquer tipo de luta contra o imperialismo aqui no país, não reconhecendo a importância das tarefas nacionais e das palavras-de-ordem de libertação nacional, como o fim do pagamento da dívida externa e das relações com o FMI, a reforma agrária e tantas outras.

Uma última e enorme divergência que hoje possuo com o MNN está na elaboração do programa dos revolucionários. Para o MNN, em qualquer conjuntura da luta de classes, em qualquer conflito sindical, o programa deve se hierarquizar pelas demandas de “Escala móvel de salários” e a “Escola móvel das horas de trabalho”, contidas no Programa de Transição, escrito por Trotsky em 1938.

Não compreendem que a agitação das reivindicações transitórias não significa a mera repetição do Programa fundador da IV internacional. Na verdade, o relevante é compreender que no atual período de agonia do sistema capitalista, a simples defesa do emprego e do salário, interesses básicos da classe trabalhadora, pode ganhar contornos revolucionários se levam à mobilização das massas e ao choque com o regime burguês de dominação. No entanto, de acordo com a análise concreta da situação concreta, os revolucionários devem levantar as mais variadas demandas, num sistema de palavras-de-ordem que politize as mobilizações e as levem à questão do poder.

Além de todas essas concepções teóricas e análises errôneas, também me coloco atualmente contra atuação cotidiana do MNN. Na USP, por exemplo, possuem uma política ultraesquerdista e, junto a outras organizações também sectárias com os mesmos desvios, afirmam serem os mais “combatentes” e radicais do movimento estudantil.

Porém, se utilizam de todos os métodos possíveis, de calúnias a recursos burocráticos, para isolar a vanguarda da massa dos estudantes e impedir qualquer unidade com os demais setores do movimento. Essas práticas são responsáveis, hoje, pelo grande desgaste que existe na USP com os setores organizados e as entidades do movimento estudantil.


A ultraesquerda não é o principal obstáculo

Se por um lado é possível afirmar que não devemos confiar nas organizações da ultraesquerda, por outro, o que dizer sobre os demais partidos que se apresentam como “alternativa” socialista no Brasil? Qual é o projeto político que está se consolidando no PSOL?

Nas últimas eleições municipais, em 2012, o PSOL realizou alianças com partidos burgueses e com o PT e recebeu financiamento de grandes empresas privadas. É o caso de Belém e Macapá, lugares onde Lula, Dilma e até dirigentes do DEM foram à TV apoiar as candidaturas do PSOL.

Na campanha de Marcelo Freixo, no Rio de Janeiro, muita aplaudida pela dita esquerda do PSOL, o candidato, depois de buscar uma aliança não concretizada com o PV, defendeu nas eleições um programa reformista e disse à Rede Globo que poderia descontar o ponto de pagamento dos servidores públicos em greve.

Recentemente, um escândalo de corrupção atingiu esse partido, envolvendo o dirigente nacional Martiniano Cavalcante. Ele recebeu nada menos que R$ 200.000 da empresa Adécio e Rafael Construções e Incorporações LTDA, uma das empresas-laranja utilizada pelo bicheiro Carlinhos Cachoeira para suas negociatas. Martiniano contou com a condescendência da maioria da direção do PSOL e, mesmo assim, após alguns meses, trocou este partido pela “Rede” de Marina Silva.

Todos esses elementos demonstram a falência do projeto político de um partido reformista, que tem como estratégia central a luta por mais e mais cargos no parlamento burguês. Esses fatos são expressão do caminho que segue o PSOL: a busca por alianças com a burguesia e a colaboração de classes.


Ao lado da luta da classe trabalhadora e do Socialismo

Após a minha saída do MNN, continuei minha militância cotidiana no movimento estudantil da USP e busquei compreender teoricamente, e de maneira consciente, as minhas principais divergências, e minhas concepções em relação à teoria marxista revolucionária, o papel dos revolucionários no Brasil e no mundo.
Nesse mesmo período, estabeleci contato com o PSTU e iniciei algumas discussões com essa organização.  Após alguns meses de discussões, optei por me filiar e ingressar nas fileiras do PSTU. Trata-se de uma organização que pensa e age de modo totalmente distinto do MNN e, também, do PSOL.

É um partido internacionalista, filiado à Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT-QI), que possui partidos e relações com organizações em mais de 20 países pelo mundo. Compreende a importância dos processos revolucionários que acontecem pelo mundo, seja no mundo Árabe ou na Europa, e busca, a partir da LIT, intervir nesses processos de modo a reconstruir uma organização revolucionária em escala internacional, como passo para a reconstrução da IV.

Trata-se também de uma organização política com regime centralista-democrático, formado por jovens e trabalhadores revolucionários, e que possui uma opinião política sólida e coerente com as tarefas atuais.

Nesse sentido, intervém cotidianamente na realidade para dirigir o movimento de massas com um programa que mobilize os setores oprimidos da nossa sociedade. Além disso, busca se construir principalmente na classe operário, setor mais estratégico do ponto de vista econômico e revolucionário.

Na esfera sindical, o PSTU entendeu a necessidade e a possibilidade da reorganização do movimento de massas, contribuindo para a existência de uma alternativa sindical e popular, a CSP-Conlutas, que é formada por sindicatos e movimentos sociais que são oposição de esquerda aos governos do PT, e disputa a direção das lutas com a CUT e a Força Sindical.

No movimento estudantil, defendeu em 2009 a construção de uma nova entidade nacional, a ANEL, denunciando a falência do projeto da UNE e impulsionando a organização nacional independente dos estudantes brasileiros.

Nas últimas eleições burguesas aqui no Brasil, interveio com candidaturas independentes de qualquer tipo de vínculo com a burguesia, seja econômico ou ideológico, e defenderam um programa revolucionário da classe trabalhadora. Elegeu dois vereadores, um peão da construção civil e uma professora, que continuarão denunciando e criticando o domínio da burguesia e a ilusão do seu parlamento, além de estarem ao lado das lutas da classe trabalhadora cotidianamente.

Diante da necessidade de nos organizarmos e construirmos uma alternativa política de organização revolucionário, que lute pela Revolução Brasileira, convido as companheiras e os companheiros que militam comigo dia-a-dia a conhecerem o PSTU, filiarem-se e militarem em nossas fileiras.

Murilo Magalhães é estudante do curso de Filosofia da USP, diretor do DCE-Livre da USP e do Centro Acadêmico de Filosofia da USP


Retirado do Site do PSTU

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Uma possível interpretação do centralismo democrático segundo Trotsky


Trotsky não opunha centralismo à democracia
A queda do aparato stalinista mundial (simbolizada pela queda do Muro de Berlim) constitui-se num dos mais marcantes fatos da luta de classes recente. O fim dos regimes ditatoriais comandados pelos partidos comunistas, que se seguiu à restauração capitalista realizada por estes mesmos partidos, na ex-URSS e nos países do Leste europeu, deixou partidos comunistas/stalinistas órfãos no mundo todo, que se realinharam sob o comando do castro-chavismo ou se transformaram, como na Itália e no Brasil, em partidos eleitorais burgueses.

No entanto, a maior parte do trotskismo interpretou o fim do aparato stalinista mundial como o fim da luta histórica pela Ditadura do Proletariado e, por isso, capitularam à ideologia do “fim da história”, que concede ao capitalismo o direito de viver e se aperfeiçoar indefinidamente. Junto com a Ditadura do Proletariado, jogaram fora, por não ser mais necessário para eles, o regime interno de funcionamento do partido bolchevique, o centralismo democrático.

E, consequentemente, a maioria destas correntes abandonou a construção de partidos revolucionários com centralismo democrático e se dedica à construção de partidos “anticapitalistas”, com total “democracia interna” e liberdade para a construção de tendências permanentes, onde a luta pelo socialismo passou à condição de um objetivo para um futuro indefinido e o objetivo estratégico passa a ser a conquista de “mandatos” parlamentares. O exemplo do PSOL, do Brasil, em sua última participação eleitoral é típico, mas o mesmo se reproduz no BE de Portugal, no NPA da França e em tantos outros pelo mundo afora.


Trotsky e o centralismo democrático

Por isso, é normal que surjam várias dúvidas sobre essa questão. Quais são as raízes do centralismo democrático? O centralismo burocrático é uma continuidade “natural” do regime de Lênin e, por isso, deve ser repudiado?

Em seus últimos anos de vida, quando dava a batalha pela construção da IV Internacional, Trotsky deparou-se inúmeras vezes com questões similares e dedicou-se a explicar seu significado “aos grupos das mais diversas origens que começam a bater nas portas da Quarta Interna¬cional, sob o impulso da decadência do reformismo e do stalinismo, o perigo de guerra iminente e a intensificação da luta de classes”.[1]

Acredito que estes textos, reunidos em espanhol nos Escritos de Trotsky [2], fornecem para nós uma base e uma perspectiva corretas do conceito de centralismo democrático.


As bases sociais do centralismo democrático

O conceito de regime partidário de Lênin não é a invenção genial de um grande revolucionário, mas respondia à necessidade de organização dos operários avançados em um partido de luta pela tomada do poder.

Como afirma Trotsky, “a democracia operária não é um problema organizativo, mas um problema social. Em última instância, a liquidação da democracia operária é consequência da pressão dos inimigos de classe por meio da burocracia operária. A história do reformismo nos países capitalistas e a experiência da burocratização do Estado soviético confirmam em igual medida esta lei histórica”. [3]

Isto é, a democracia operária não é apenas uma forma de organização, mas tem um conteúdo de classe, e é necessária para levar o proletariado à vitória contra a burguesia. Por isso, o primeiro ato do stalinismo e da socialdemocracia para instaurarem seu domínio burocrático foi acabar com todas as formas de democracia operária.

O centralismo responde igualmente a essa necessidade social. Trotsky não opunha centralismo à democracia, pois ambos formam uma síntese necessária à ação revolucionária: “Não devemos esquecer que, se somos centralistas, somos centralistas democráticos, que empregamos o centralismo para o bem da causa revolucionária, não para cimentar o "prestígio" dos líderes”.


As “leis” do centralismo democrático

Ao contrário de hoje, quando o centralismo democrático é considerado uma “curiosidade histórica” pelas chamadas correntes anticapitalistas, na época que analisamos não havia esta contestação, porém, era completamente deturpado pelo stalinismo, para quem este era reduzido à palavra final do “chefe”. “Através do aparato estatal, a burocracia stalinista liquidou a democracia partidária, soviética e sindical, não só em sua essência, mas também formalmente. O regime da ditadura pessoal foi plenamente transmitido pelo Partido Comunista da União Soviética a todos os partidos comunistas dos países capitalistas. A tarefa dos funcionários do partido é interpretar a vontade da cúpula burocrática. As massas partidárias têm um só direito: calar-se e obedecer. A repressão, a perseguição, o engano, são os métodos com que comumente se mantém a ‘ordem’ no partido”. [4]

Era necessário evitar a influência avassaladora do regime burocrático dos partidos comunistas e, ao mesmo tempo, evitar as práticas plebiscitárias que surgiam como reação a esta influência. Por isso, sempree surgiam muitas dúvidas sobre a aplicação correta do centralismo democrático. Numa carta ao Socialist Appeal, Trotsky afirma: “Camaradas individuais pedem-me uma ‘fórmula clara e exata sobre centralismo democrático’ que impediria falsas interpretações”. [5]

A isto, respondia: “Tampouco penso que possa dar uma fórmula sobre centralismo democrático que, “de uma vez por todas”, elimine mal entendidos e falsas interpretações. Um partido é um organismo ativo. Desenvolve-se na luta contra obstáculos externos e contradições internas. A decomposição maligna da Segunda e da Terceira Internacional sob as condições severas da época imperialista cria para a Quarta Internacional dificuldades sem precedentes na história. Não se pode triunfar sobre elas com certa classe de fórmula mágica. O regime de um partido não cai do céu, mas se forma gradualmente na luta”. [6]

E afirmava em outro artigo: “A linha política predomina sobre o regime; em primeiro lugar, é necessário definir problemas estratégicos e métodos táticos corretamente com o fim de resolvê-los. As formas organizativas deveriam corresponder à estratégia e à tática. Somente uma política correta pode garantir um regime partidário saudável”. [7]

Além dos obstáculos externos ao partido – as da luta de classes e o resultado da linha política aplicada pelo partido no movimento operário – as contradições internas de cada um – sua direção, a composição social do partido, sua experiência – devem ser levadas em conta para, além de uma política correta, garantir um regime partidário saudável.

Nesse sentido, Trotsky ressaltava a necessidade da direção conquistar uma grande autoridade política sobre a base, a partir de acertos políticos na intervenção do partido para que o centralismo democrático possa funcionar de forma saudável:

“Naturalmente, em caso de necessidade, o Comitê Central bolchevique podia dar ordens. Mas a subordinação ao Comitê era possível graças a que todos sabiam de sua lealdade absoluta para com os militantes do partido, assim como da dispo¬sição constante da direção de submeter todas as polêmicas importantes à consideração do partido. Por último, e o mais importante, o Comitê Central gozava de uma autoridade teórica e política colossal, ganha gradualmente através dos anos, não com ordens, não com gritos, não com a repressão, mas mediante uma condução acertada, demonstrada na prática, através de grandes acontecimentos e lutas”. [8]

E agregava, numa carta a Cannon, dirigente do SWP, partido cuja direção gozava de tal autoridade política, que:

“Não bastam as regras democráticas puramente formais assinaladas no ponto (a) e as medidas pura¬mente negativas - não aterrorizar, não por em ridículo- assinaladas em (b). Tanto os comitês locais quanto o comitê central devem manter permanentemente um contato ativo e informal com a base, sobretudo quando se está preparando uma nova palavra de ordem, uma nova campanha ou se está verificando os resul¬tados de uma campanha que acaba de culminar”. [9]

Nem o estrito cumprimento dos estatutos partidários (isto é, as regras formais do ponto (a) de sua carta), nem evitar os métodos de coerção sobre a base do partido são suficientes, é necessário também manter uma atitude paciente, fraternal, pedagógica e um contato informal permanente com ela. Esta atitude, longe de ser uma atitude bonapartista da direção, como muitas vezes se apregoa, é essencial para um regime saudável.


A democracia partidária

A democracia interna não é apenas a possibilidade de discussão da linha do partido nos organismos partidários. Esta, ao contrário, é a culminação de todo um exercício democrático por parte dos militantes. É o resultado e não a base da democracia partidária.

Da mesma forma, o cumprimento dos estatutos, a realização dos congressos e conferências, são ingredientes fundamentais de um regime democrático, mas, para Trotsky, estas disposições formais só têm efeito real se: “Um revolucionário se forma num clima de crítica a todo o existente, inclusive à sua própria organização”; “A base da democracia partidária reside em facilitar a todos os membros da organização uma informação oportuna e completa que reúna os problemas importantes de sua vida e de suas lutas”; “A saúde do regime depende em grande medida da direção do partido e de sua capacidade para escutar oportunamente a voz de seus críticos”; “Quando Lênin propôs expulsar a Orjonikije do partido (1923), disse com toda razão que o militante de base tem o direito de ser revoltoso, mas não o membro do comitê central”.

Não existe democracia sem a possibilidade de crítica, sem atitude crítica por parte dos militantes de base e sem o fornecimento de informações para que esta crítica possa ser elaborada, porque “não é grande mérito [por parte da direção] estar satisfeito ‘com quem esteja satisfeito co¬migo’” [10]. Isto não quer dizer que “tudo seja válido”. Para Trotsky, “a maturidade de cada membro do partido se expressa no fato de que este não exige do regime partidário mais do que este lhe pode dar”. [11]

Para os partidos anticapitalistas este detalhe não existe. Ao contrário, fundam seu regime interno na base do “tudo é válido” no afã de provar que é um regime mais democrático. Tais posições foram combatidas por Trotsky, principalmente quando a direção sentiu-se no direito de ser revoltosa. Por exemplo, em relação às posições tomadas pelas seções francesa e grega em determinado momento.

“A maioria de seu comitê central (i.e. da seção grega) afirma que a luta ocorre em torno aos princípios organizativos. Quais são estes princípios? Na França, o camarada Witte defendeu de fato o direito de cada militante não ser posto sob a disciplina da organização, o direito de um membro do Secretariado Internacional aplicar uma política pelas costas do Secretariado e dirigida contra o próprio Secretariado, o direito da minoria da organização de não se submeter à decisão da imensa maioria da conferência; em uma palavra, os piores princípios individualistas e anarquistas”. [12]

Não é isso que vemos ser aplicado hoje em partidos como o PSOL? E o resultado é, sempre, uma guerra de declarações públicas entre a “maioria” (isto é, as correntes com mandatos parlamentares) e as minorias (ou as correntes sem mandatos), como no recente caso das eleições municipais, quando os setores majoritários fizeram alianças com a direita burguesa e com o governo petista para ganhar as eleições em Macapá e Belém, sem contar os financiamentos da burguesia, como em Porto Alegre. A isto chamam de regime democrático.

O resultado já era “previsto” por Trotsky que, embora tivesse se referido apenas ao caso da seção grega, cuja maioria defendia as posições de Witte, enunciou o que podemos chamar de uma tendência geral: “Pelo que posso julgar, na Grécia, a maioria do Comitê Central defende e aplica agora princípios diretamente opostos, pois nega à minoria o direito de defender abertamente sua posição ante todos os membros de sua organização. Assim, o anarquismo individualista se transforma em seu oposto, isto é, no centralismo burocrático. Mas ambos extremos, que com muita facilidade se convertem um no outro, não têm nada em comum com o bolchevismo, que tanto à escala nacional como internacional constrói a organização sobre a base do centralismo democrático”. [13]

O tamanho deste artigo impede-me de continuar a análise de alguns conceitos importantes discutidos por Trotsky, como a questão das frações e da “mobilidade” dos polos centralista e democrático em torno à sua síntese, que deixo para um possível próximo artigo.

Mas é importante, antes de terminar, esclarecer esta ideia de síntese. É muito comum separarmos o centralismo democrático em duas partes, ou, o que dá no mesmo, considerá-lo como a soma de duas partes, como dois momentos separados; a democracia, num primeiro momento, e o centralismo num segundo. Assim, a democracia seria exercida quando a base discute e o centralismo quando a direção decide. Esta visão impede entender o centralismo democrático como uma síntese, isto é, como um todo indivisível, que não é a democracia absoluta (como defendem os anticapitalistas e anarquistas) e nem o centralismo absoluto (como defendem os burocratas), e nem a pura soma dos dois. Para Trotsky, “o conteúdo fundamental da vida partidária não reside na discussão, mas na luta” [14] e o centralismo democrático (discussão e decisão) deve estar a serviço da luta.

Poderíamos dizer, portanto, que não há nada mais democrático que uma decisão do órgão dirigente – eleito pelos delegados em congresso – que coloque o partido em movimento no combate à burguesia, e nada mais burocrático do que discussões eternas num núcleo de base que paralisem o partido.

“Cada revolucionário real que nota os equívocos do regime partidário deve, antes de qualquer coisa, dizer: ‘Devemos trazer ao partido uma dezena de novos trabalhadores!’” [15]


[1]Las fracciones y la Cuarta Internacional, 1935
[2]Leon Trotsky, Escritos, Editorial Pluma, 1977
[3]Declaración de la delegación bolchevique leninista a la conferencia de las organizaciones comunistas y socialistas de izquierda, 17 de agosto de 1933
[4]Idem
[5] Sobre el centralismo democrático, 8 de dezembro de 1937
[6]Idem
[7]Idem
[8]La crisis en la Oposición de Izquierda alemana, 17 de fevereiro de 1931
[9]Observaciones adicionales sobre el régimen partidario, 3 de outubro de 1937
[10]Observaciones adicionales sobre el régimen partidario, 3 de outubro de 1937
[11]Sobre el centralismo democrático, 8 de dezembro de 1937
[12]La crisis de la sección griega, 5 de abril de 1934
[13]Idem
[14]Las fracciones y la Cuarta Internacional, 1935
[15]Sobre el centralismo democrático, 8 de dezembro de 1937


Retirado do Site do PSTU

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O escândalo Cachoeira atinge o PSOL

As eleições deste ano têm trazido uma série de novos debates e desafios para a esquerda socialista brasileira. Numa dura batalha contra os monopólios político-financeiros, uma parte dos lutadores das greves e mobilizações tem tentado usar o espaço eleitoral para romper a ideologia de que “os políticos são todos iguais” e de que “não existe política sem corrupção”. Felizmente, em algumas cidades, a esquerda socialista tem conseguido um espaço importante nessa disputa de consciência.
No entanto, um fato recente chamou a atenção de todos os ativistas e tem sido assunto nas redes sociais. Trata-se da relação escancarada de membros do PSOL com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, incluindo o fundador e dirigente nacional do PSOL, Martiniano Cavalcante, que recebeu nada menos que R$ 200.000 da empresa Adécio e Rafael Construções e Incorporações LTDA, uma das empresas-laranja utilizada por Cachoeira para suas negociatas.

Mesmo em meio ao julgamento do mensalão e a denúncias que envolvem centenas de políticos burgueses com Cachoeira, a participação do PSOL salta aos olhos dos ativistas como algo inesperado, da mesma forma que salta aos olhos da burguesia, como uma arma a ser usada contra o conjunto da esquerda socialista. É de se esperar que escândalos de corrupção surjam de quando em quando e de forma cada vez maior entre os políticos da burguesia e seus financiadores de campanha milionários. O que não é de se esperar é que um partido que se reivindique socialista esteja envolvido nesses casos.


Direção do PSOL sabia

As primeiras denúncias da relação do PSOL com Cachoeira vieram à tona ainda em maio desse ano, quando da divulgação das escutas telefônicas que evidenciavam a compra de apoio político do vereador Elias Vaz, em uma conversa telefônica diretamente com seu companheiro Carlinhos Cachoeira. A reação da ampla maioria das figuras públicas e dirigentes do PSOL na época foi a de acobertar o vereador, reciclando inclusive a tese do “golpe das elites” defendida pelo PT na época do mensalão.

Sabendo-se das relações de Elias Vaz com Cachoeira, era evidente para qualquer dirigente que acompanha o debate que Martiniano estaria envolvido, pela relação umbilical que existe entre os dois dirigentes em suas trajetórias políticas. Mas o PSOL preferiu não tomar nenhuma iniciativa e hoje Elias Vaz é o candidato prioritário da coligação PSOL-PCB em Goiânia, jogando pesado para manter seu mandato. Nos cálculos das tendências internas, mais valeu a disputa pelo aparato do que manter limpa a bandeira socialista.

Mas a divulgação do recebimento de R$ 200.000 de Cachoeira por Martiniano eleva a discussão para outro patamar. Não estamos mais falando de uma figura pública regional do PSOL, mas de um fundador e dirigente nacional do partido, parte da coluna central de quadros que hoje dirige o PSOL.


Quem é Martiniano Cavalcante? 

Para os que não se recordam, Martiniano foi um dos pré-candidatos a presidente da República nas últimas eleições presidenciais, sendo derrotado por Plínio de Arruda Sampaio, depois de uma enorme crise com acusações entre os dois blocos. Era o candidato que Heloísa Helena e Luciana Genro, entre tantos outros dirigentes, defendiam como melhor nome para representar “a ética na política”.

Martiniano é um dos fundadores do PSOL. Fundou em Goiás no ano de 2002 o Movimento Terra Trabalho e liberdade (MTL), que depois passou a existir enquanto corrente interna do PSOL. Em Goiás, dirige um grupo de militantes que se organiza há anos ao redor do mandato do vereador Elias Vaz (PSOL). Mandato que ambos tem feito de tudo para manter, desde giros políticos à direita até, como agora se sabe, financiamentos do grupo de Cachoeira.

Martiniano militou no PSTU durante os anos 1990, rompendo junto de um grupo de militantes que, em essência, argumentava que o centralismo democrático suprimia as liberdades individuais dos militantes, ainda que não soubessem especificar quais liberdades eram essas. As denúncias recentes deixam claro a quais “liberdades individuais” Martiniano e seu grupo se referiam: a liberdade para fazer acordos e conchavos com quem bem entender, sem qualquer controle por parte da militância do partido.


A corrupção como subproduto do vale-tudo eleitoral

Uma reflexão que o conjunto dos lutadores deve fazer neste momento é a dos rumos que vem trilhando o PSOL. De um partido de oposição de esquerda, radical, o PSOL caminha a passos largos para ser apenas mais um partido da ordem. Cada vez mais distante das lutas concretas dos trabalhadores e da juventude, o PSOL vem sucumbindo de conjunto ao vale-tudo eleitoral.

Tendo como parte importante as articulações do Senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), o PSOL conta nessas eleições com um leque de alianças e acordos que envolvem PT,DEM,PDT,PRB, PV, PSL, PTN, PPS, PMN, PSB e PCdoB. No Amapá, o PSOL faz uma coligação com PPS, PRTB, PMN, PTC, PV em Macapá, e com o PTB e o DEM em Santana. O PSB é parceiro do PSOL em Manaus, entre outros lugares. Já o PCdoB foi garantido a qualquer custo em Belém.

É com o mesmo cálculo eleitoral que Marcelo Freixo, no Rio, afrontou os servidores em greve num momento crucial em que precisavam de apoio, admitindo como possível o corte de ponto dos grevistas em um governo do PSOL.

É esse vale-tudo eleitoral a origem do escândalo atual. Cedendo aos partidos e ao financiamento da burguesia, o resultado final não poderia ser outro: esses setores do PSOL acabam assumindo o método da burguesia de negociar. Hoje um dirigente nacional desse partido é manchete dos jornais recebendo R$ 200.000 de ninguém menos que Carlinhos Cachoeira.

Nós, do PSTU, mantemos com orgulho nossa independência de classe, tendo como foco a ação direta dos trabalhadores e sem fazer alianças com partidos da burguesia ou receber financiamento de empresas privadas. Sob essas bases, damos prosseguimento à luta pelo socialismo dentro das fronteiras da classe trabalhadora, seja nas lutas ou nas eleições.

E chamamos aos militantes honestos do PSOL a não se satisfazerem com medidas paliativas da direção desse partido, como a afastamento temporário de Martiniano da direção, mantendo a candidatura de Elias. É preciso mudar o rumo de adaptação eleitoral desse partido ou mudar de partido.


Retirado do Site do PSTU

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Organizações da LIT-QI no Chile unificam-se

Alguns números atrás, escrevíamos no editorial do nosso jornal Alternativa Comunista, sobre o trabalho unitário que começaria a empreender Izquierda Comunista - IC (a seção oficial da LIT-QI no Chile) e o Partido Revolucionário dos Trabalhadores – PRT (seção simpatizante da LIT-QI no Chile).

O trabalho unitário destes meses nos permitiu realizar escolas políticas, contatos, trabalho de equipe (com alguns militantes do PRT participando de nossas reuniões), juntamente com um importante trabalho prático. Hoje, além disso, empreendemos uma campanha eleitoral conjunta, às vésperas das eleições municipais, desenvolvendo uma aliança com o Partido Igualdade.

E nos dias 24, 25 e 26 de agosto realizamos uma atividade de profunda discussão política em Valdivia, onde se reuniram companheiros da Juventude de ambos partidos, que demonstrou que o avanço na unidade do partido da LIT-QI no Chile é um fato, tanto no campo teórico, como no prático.

Neste contexto queremos contar aos nossos leitores que ambas organizações decidiram apressar o passo para encaminharmo-nos a uma só organização, e que em pouco tempo ocorrerá a fusão de todos os nossos organismos em um só partido, Izquierda Comunista, o Partido da LIT no Chile.

Nós, da Izquierda Comunista, estamos orgulhosos do passo que estamos dando, e sabemos que os companheiros do PRT também o sentem. Nossa presença nacional, embora ainda seja muito pequena, é importante, já que ao nos fundirmos, podemos mostrarmo-nos como um só punho em Santiago, Valparaíso, Rancagua, Concepción, Temuco, Valdivia e Punta Arenas.

Pretendemos, como um único partido, realizar em médio prazo um Congresso que consagre esta unidade; Congresso que nos colocará a grande tarefa de construir em todo Chile, a seção oficial da Liga Internacional dos Trabalhadores– Quarta Internacional (LIT-QI) e com ele ajudar a construir o partido revolucionário que a classe operária necessita. Nesse caminho, estamos seguros, nos encontraremos com muitos mais companheiros, em todo o país.

Estamos conscientes de nossas debilidades e também de nossas responsabilidades, mas devemos dar os passos com firmeza e com a esperança de construir um Chile melhor, um Chile Socialista.

Viva a unidade do PRT com a Izquierda Comunista!
Viva a Liga Internacional dos Trabalhadores- Quarta Internacional!
Viva a Classe Operária chilena e mundial!


Carta do PRT a amigos e simpatizantes do Partido

Publicamos abaixo uma carta do PRT a seus amigos e simpatizantes:

Estimadas(os) e queridas(os) companheiras(os),
Anteriormente, contávamos-lhes que nossa organização, o Partido Revolucionário dos Trabalhadores, PRT, vinha desenvolvendo, há quase um ano, um processo de aproximação com a seção oficial da LIT–QI, Izquierda Comunista (IC). Neste marco, foram desenvolvidas atividades em conjunto, tanto internas (escolas de formação) como externas (marchas de protesto, etc.). Por certo, tudo isto com a importante ajuda de nossa Internacional.

Atualmente, a unificação com a Izquierda Comunista, IC, é um fato. Esta, baseada em sólidos acordos programáticos, estratégicos, principistas, discutidos e acordados por ambas organizações, culminou com a integração do PRT à IC, por aclamação, e já somos uma só organização, confirmando assim, que existe uma só seção chilena da Liga Internacional dos Trabalhadores, LIT-QI.

Existimos no Chile desde 1982 como parte do processo de construção da LIT-QI, ajudando também, deste modo, à reconstrução e continuação da obra de Leon Trotsky, fundador da Quarta Internacional; e podemos dizer, temos também, junto com a LIT-QI, 30 anos de combate pela construção de uma direção revolucionaria no Chile.

Durante todo este tempo, de luta, avanços e retrocessos, nossa organização passou por diversas etapas e com diversos nomes. Nas origens fomos parte da Juventude Socialista, depois, durante a luta contra o regime sanguinário de Pinochet, do Partido Socialista dos Trabalhadores, PST, obscuro período onde sofremos a perda de dois companheiros (Marisol Vera e Jorge Fernández) assassinados pela repressão ditatorial; do Movimento ao Socialismo, durante o processo de Transição pactada entre a ditadura pinochetista e a “remoçada” democracia burguesa nos anos 90; fomos o Movimento pelo Socialismo, MPS; o já mencionado PRT e, hoje, Izquierda Comunista.
Já somos, então, uma só seção chilena da LIT-QI.

Consideramos que o tema da urgente necessidade de contar no Chile com uma organização revolucionária é uma das tarefas centrais (senão a principal) do movimento operário e de massas. Nesse sentido, a "nova" organização, tal como fez até agora, com nossas modestas forças, continuará ao serviço das lutas dos trabalhadores, dos estudantes, do heróico povo mapuche, dos problemas de moradia, de saúde e do meio-ambiente, etc., em uma perspectiva de mudança revolucionária desta podre, exploradora, opressora e injusta sociedade capitalista e por uma sociedade socialista.

Cremos que a crise e os problemas do sistema capitalista-imperialista devem, necessária e urgentemente, ser encarados com e desde uma perspectiva global, mundial, pois a luta de classes, a economia, as forças produtivas, etc., correspondem a esse caráter: são mundiais. Consequentemente, a participação em uma Internacional revolucionária que, da mesma forma que em cada seção, deve seguir funcionando com um regime leninista (ou centralismo democrático), é para nós também uma necessidade prioritária e, por tanto, seguiremos formando parte de nossa Internacional, a LIT-QI.
Este importante passo que hoje damos, nos coloca um grande desafio e uma enorme responsabilidade, nos enche de confiança no futuro para avançar até um futuro socialista.

Viva a Izquierda Comunista – Viva a LIT-QI
Saudações revolucionárias!
Ex-PRT, atualmente Izquierda Comunista/LIT-QI



Retirado do Site do PSTU

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Carta aos socialistas do PSOL de Goiânia

Leia a carta divulgada pelo PSTU Goiânia sobre o envolvimento do vereador Elias Vaz (PSOL) com o bicheiro Carlinhos Cachoeira


Estimados companheiros e companheiras,

A intenção dessa carta é tornar pública nossa posição enquanto partido a respeito das denúncias sobre Elias Vaz e sua relação com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, bem como fazer um chamado a uma reflexão mais ampla sobre os rumos que vem trilhando o PSOL.

Não escrevemos com alegria, mas com preocupação. A militância do PSOL, junto conosco, faz parte da oposição de esquerda aos governos, leva em seu nome o “socialismo” e é assim amplamente reconhecida. No momento em que o vale-tudo da política desgasta os partidos tradicionais, que já viraram piada perante a população, a tarefa dos socialistas é mostrar claramente que somos o oposto de tudo isso que está aí! Por isso somos os que estão na luta! Os que arriscam seus empregos na defesa dos direitos dos trabalhadores! Os que lutam de maneira intransigente contra os governos capitalistas e seu sistema injusto e corrupto! Os que se entregam de corpo e alma à luta dos trabalhadores!

Quando um dirigente de um partido como o PSOL se envolve num caso que é manchete de corrupção em todos os jornais, é inescapável que essa desconfiança nos partidos tradicionais recaia nas costas de todos os partidos que se dizem representar os interesses dos trabalhadores. Consequentemente, na consciência das amplas massas, as denúncias de corrupção contra Elias Vaz, conhecida figura pública do PSOL, que chegou a despontar em segundo lugar nas pesquisas para a prefeitura de Goiânia, não ficam somente com o PSOL. Elas têm reflexo sobre o conjunto da oposição de esquerda, uma vez que semeiam a desconfiança, inclusive entre os setores mais esclarecidos dos trabalhadores. Por isso, diferente da direita tradicional e do PT, que ficam felizes com essas denúncias, pois elas os possibilitam alegar que somos corruptos como eles, nós do PSTU não ficamos.

E entendemos que a corrupção de um dirigente, individualmente, não pode necessariamente nos levar à conclusão de que uma organização inteira é corrupta. Nenhum de nós está livre da possibilidade de ter oportunistas em nosso meio. No entanto, sempre que surge alguma dúvida sobre o caráter de algum de nossos membros, a posição defendida pela direção passa a ser o critério definidor de até que ponto nossas organizações estão dispostas a aceitar a degeneração e a traição de classe. Até que ponto os cálculos eleitorais e de aparato se sobrepõe aos princípios socialistas.


Como agiu a Direção do PSOL?

Nesse sentido, companheiros, o que mais nos preocupa é a postura da direção e das figuras públicas do PSOL frente às acusações. Diante de uma escuta telefônica que mostra Elias Vaz chamando Cachoeira de “companheiro”, a posição majoritária do alto comando do PSOL foi a de proteger e blindar o vereador, sob o manto legalista de garantir o seu direito de defesa “antes de qualquer providência”.

Nós somos totalmente favoráveis ao direito de ampla defesa! No entanto, não o utilizamos como manobra burocrática para encobrir um verdadeiro escândalo. Um parlamentar socialista que é flagrado chamando o chefe de uma quadrilha nacional de corrupção de “companheiro” deve ser imediatamente afastado de suas funções até que se concluam as investigações! Isso é o mínimo! É o que exigimos quando qualquer político burguês é flagrado em uma situação do tipo: que se afaste e depois se explique! Foi o próprio PSOL que iniciou a campanha pelo “Fora Agnelo”, no início das denuncias sobre Cachoeira! Por que não “Fora Elias”? Os corruptos que reivindicam o “socialismo” merecem um processo mais ameno do que os corruptos tradicionais?

Nós do PSTU achamos que é justamente o contrário. A corrupção não pode, em hipótese nenhuma, ser tolerada entre os socialistas. Menos ainda entre os dirigentes e as figuras públicas. Achamos uma vergonha a tolerância e, mais que isso, a blindagem de um dirigente que chama de “Companheiro” um dos chefes da máfia em nosso país.

“Companheiro”, estimados camaradas, significa “aquele que come do mesmo pão”. Essa expressão acabou sendo banalizada pelo PT. Mas nós, revolucionários, fazemos questão de usá-la da maneira apropriada. E nós nunca comemos nem comeremos do mesmo pão que Carlinhos Cachoeira!

Este fato, por si só, já mereceria sérias reflexões por parte da militância do PSOL e achamos louvável o posicionamento público e a luta de alguns companheiros para manter limpa a bandeira que defendem. No entanto, a postura da Direção do PSOL nesse episódio não foi um fato isolado! A Direção do PSOL vem sendo sistematicamente conivente com o conjunto de práticas que transformou o PT da década de 1980 no PT que existe hoje! Coligações com legendas de aluguel da burguesia, financiamento de empresas privadas, conivência com a corrupção e, principalmente, desrespeito pela vontade da base do partido! É triste, camaradas, mas é inescapável a conclusão de que, nas polêmicas mais importantes que surgiram, a voz lutadora da base do PSOL foi calada com os métodos burocráticos de uma direção que age como qualquer direção de um partido de tendências: mais vale a luta pelo aparato do que a sinceridade, a autocrítica ou do que a vontade soberana da base que constrói o partido nas lutas do dia-a-dia!


Uma alternativa socialista e revolucionária centralizada democraticamente: a única opção realista!

Nesse momento, é importante lembrar o processo que levou à construção do PSOL. Em virtude dos rumos do primeiro governo do PT, cada vez mais abertamente pró-imperialista, uma parcela do que havia de melhor na vanguarda das lutas em nosso país teve a percepção da necessidade de avançar em uma alternativa para os trabalhadores. E teve a coragem de ousar ir além da chantagem política que o PT então fazia: a de que romper com o PT e construir um partido socialista significava uma opção pelo isolamento.

Apesar das incertezas, uma larga camada de ativistas e intelectuais, corajosamente, rompeu com o PT e se dedicou nos anos seguintes à construção do PSOL como uma possibilidade de alternativa. A militância do PSTU participou atentamente desse debate e pôs à prova a possibilidade de estar errada no momento que não aceitou as tendências permanentes e foi expulsa do processo de construção do PSOL. Opinamos hoje, muito francamente, que se exitiu em 2003 a dúvida sobre qual forma de partido era mais democrática (o de tendências permanentes ou o que se centraliza democraticamente), os episódios dos últimos anos vem mostrando claramente a quem serve a suposta liberdade dos partidos de tendências: é a liberdade para os dirigentes fazerem o que bem entendem, sem precisar se explicar para a base que constrói o partido.

A rapidez com que o PSOL está adotando os métodos do PT nos deixa tristes, mas aumenta nossa convicção no formato leninista de partido. Acreditamos que o rumo do PSOL em direção às mesmas concessões que levaram o PT a construir um governo pró-imperialista, que se apoia na ilusão dos trabalhadores para impor uma política capitalista, deve levar a uma profunda reflexão por parte dos camaradas, pois é necessário manter viva a esperança e a coragem que foi exigida no momento de romper com o PT! Era uma necessidade dos trabalhadores e da luta socialista construir uma alternativa, por mais minoritária que fosse naquele momento. E o processo de reorganização política e sindical que veio nos anos seguintes não só provou que a ruptura com o PT não era uma política rumo ao isolamento mas, ao contrário, era a única opção política consequente para fazer avançar a organização dos lutadores dos movimentos sindical, estudantil e popular.

Achamos que é chegada a hora de uma nova reflexão. Independente de nossas divergências táticas, o mesmo respeito e camaradagem com que atuamos no dia-a-dia com vocês nos obriga a fazer, de maneira franca, esse chamado: manter viva a esperança e a coragem de lutar pela vitória da revolução socialista no Brasil significa, neste momento, romper com o PSOL, como bravamente fez a camarada Noélia Brito em Recife.

De nossa parte, mantemos a disposição em discutirmos conjuntamente a construção de uma alternativa. Sabemos que nosso partido não é perfeito. Mas é por ele que lutamos e, com o método do centralismo democrático, controlamos coletivamente os rumos de nossa organização.

Mas independente da decisão de cada companheiro individualmente, continuaremos juntos nas lutas concretas dos trabalhadores. Achamos uma pena estarmos separados nas eleições, mas a posição do PSOL diante dos fatos aqui relatados não nos deixava outra opção. No entanto, queremos estar juntos na luta, pois na luta amadurecerá a classe operária e a juventude de nossa cidade! Na luta enfrentaremos o governo que vier, seja ele Paulo Garcia (PT) ou qualquer outro das coligações burguesas que estão na disputa pelo aparato da prefeitura de Goiânia.

E fazemos o chamado amplo aos setores honestos do PSOL, para que se recusem a reeleger Elias Vaz vereador! Nas eleições proporcionais, votem contra a corrupção e a capitulação! Votem contra burguês! Votem 16!

Saudações socialistas,

PSTU Goiânia


Retirado do Site do PSTU

domingo, 25 de março de 2012

LIT lança campanha internacional por seus 30 anos de existência

Três décadas em defesa do socialismo e da construção de uma direção revolucionária internacional


LIT-QI está a serviço da construção da IV Internacional
No último dia 11 de janeiro completou-se 30 anos da fundação da Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional (LIT-QI).

Três décadas se passaram da Conferência Internacional que foi realizada na cidade de Bogotá, Colômbia, com a participação de delegados de cerca de 18 países. A maioria destes delegados vieram da ex Fração Bolchevique (FB), corrente internacional cujo principal dirigente era o trotskista argentino Nahuel Moreno, nosso orientador e fundador, o qual faz 25 anos que não está mais fisicamente presente. Somaram-se aos dirigentes morenistas o venezuelano Alberto Franceschi e o peruano Ricardo Napurí, outros dois importantes dirigentes que haviam rompido com o lambertismo devido a diferenças irreconciliáveis no terreno dos princípios e da moral revolucionária.

Desta conferência de 1982 surge a LIT-QI, uma organização internacional que, desde seu início, ancorou suas bases no programa trotskista ortodoxo e funcionou internamente sustentado no regime leninista do centralismo democrático.

Trinta anos se passaram. Muitas águas já rolaram. As transformações e os acontecimentos que se sucederam na luta de classes mundial desde aquele janeiro em Bogotá foram muitas e profundas. Contudo estamos aqui, firmes no combate cotidiano contra o sistema capitalista-imperialista; firmes e com a mesma convicção de sempre na força revolucionária da nossa classe, a classe trabalhadora, e no futuro comunista da humanidade.


Continuadores de uma herança valiosa

Reivindicamos a atual LIT-QI como uma continuidade da luta permanente para manter vivo o programa revolucionário, pelo qual vários revolucionários batalharam ao longo da história do movimento operário, frente aos embates do imperialismo e das direções burocráticas e traidoras que atuam dentro dos movimentos sociais e operários.

A LIT-QI nasceu defendendo uma teoria, a teoria da revolução permanente; um programa, o programa de transição; um tipo de organização, a internacional, o partido mundial da revolução socialista baseado no centralismo democrático.

A defesa deste programa e de seus princípios organizativos foi fundamental há 30 anos e é ainda mais importante atualmente, quando a imensa maioria da esquerda mundial – incluindo muitas organizações que se dizem trotskistas – sucumbiu ao vendaval oportunista que veio com força na década de noventa e acabou abandonando completamente a luta pelo poder da classe trabalhadora – a perspectiva da ditadura revolucionária do proletariado. Batalhamos pela construção de uma direção revolucionária em escala mundial que tenha como principal objetivo a destruição do imperialismo e a construção do socialismo, primeiro passo para a sociedade comunista.

Cheios de emoção e orgulho militante, iniciamos uma campanha comemorando os 30 anos da LIT-QI, nossa organização internacional que, além de resgatar a herança do marxismo revolucionário desde seu início, tem sua origem na corrente trotskista nascida na Argentina em 1943, à qual Moreno foi um dos fundadores.

A LIT-QI é produto de duras batalhas que nossa corrente internacional – da mesma maneira que em seu período histórico fizeram Marx e Engels, Lênin e Trotsky – teve que liderar em defesa dos princípios, do programa, da política e da moral revolucionária contra todo tipo de correntes revisionistas, dentro e fora do próprio movimento trotskista internacional.

Assim, a LIT-QI é o mais importante legado teórico, político e organizativo de quase sete décadas de luta de nossa corrente em meio às mais fortes pressões, tanto de regimes ditatoriais como “democráticos” de vários países e continentes. É fruto de uma incansável luta por construir uma direção revolucionária internacional para a classe trabalhadora mundial em um combate permanente contra o oportunismo e o sectarismo.

Neste sentido é importante destacar o papel de Moreno. A construção do partido mundial para fazer a revolução socialista foi uma causa que Moreno dedicou seus maiores esforços desde 1948. Essa luta passou por várias fases: até 1953 na IV internacional unificada; até 1963 no Comitê Internacional; de 1963 até 1979 no Secretariado Unificado; na construção, em 1979, da Fração Bolchevique; e finalmente, com a LIT-QI, desde 1982. É possível constatar que a construção do Partido Mundial foi uma obsessão de Moreno durante toda a sua vida. Era, como o mesmo disse: “a prioridade número um do movimento operário”, ou seja, não existia tarefa mais importante. E com esta compreensão tão fundamental sobre o marxismo, construiu vários partidos e educou centenas de militantes e lutadores operários, populares, camponeses e estudantis.

Porém, ressaltar o importante papel de Moreno em nossa história não nos leva a cultuar sua pessoa. Não incentivamos este tipo de atitude. Pelo contrário, acreditamos que uma de suas principais contribuições foi de, apesar de sua enorme capacidade, buscar incessantemente construir e formar equipes de direção. Isto, junto ao método de reconhecer publicamente seus erros e corrigi-los, era uma constante em Moreno e uma característica inexistente na maioria da esquerda e do trotskismo. Tanto o partido argentino como todas as suas experiências de formar organizações internacionais estiveram marcadas por uma permanente batalha para que elas fossem dirigidas pelos organismos partidários, nunca por um caudilho ou dirigentes “infalíveis”. Por isso a LIT-QI nunca foi “a internacional do Moreno”. Moreno foi sim seu dirigente mais experiente e capaz, tal como Trotsky foi para a IV Internacional e Lênin para o partido bolchevique. Mas as decisões passaram sempre pelos organismos partidários, de forma democrática.

Ressaltar esta característica é muito importante até mesmo para explicar nossa própria existência atual. Foi por esse método de Moreno que a LIT-QI não desapareceu, apesar da terrível crise que nossa organização sofreu depois de sua morte e durante quase toda a década de noventa. Estes 25 anos, nos quais a LIT-QI continua lutando, sem Moreno para orientar, são a principal prova de que o nosso maior dirigente, acima de tudo, nos deixou sólidas bases teóricas, metodológicas e morais, sobre as quais pudemos, não sem muito esforço e perdas, superar nossa crise e, agora, nos apresentar como uma alternativa concreta de reagrupamento revolucionário internacional.


Construímos a LIT com a estratégia de reconstruir a IV Internacional

Para nós, a estratégia é a mesma que há 30 anos: reconstruir a IV Internacional. É a única saída que tem a humanidade para derrotar o imperialismo que a conduz sem pausa rumo à destruição.

É pela reconstrução da IV Internacional que nossos militantes, em cada país e em cada luta que a realidade e que nossas modestas forças nos permitem estar presentes, brigam para construir, com paciência e com uma confiança cega em nossa classe; uma direção internacional que possa dirigir a tomada do poder em escala mundial.

Não nos autoproclamamos ser “a” IV Internacional. Essa é uma tarefa que está colocada com urgência e, que deve ser tomada por todas e todos os revolucionários que concordem com a necessidade dessa reconstrução e com um programa com princípios que sejam coerentemente revolucionários para ela.

Somos conscientes de que essa não é uma tarefa apenas da LIT-QI, apesar de assumirmos como nossa prioridade. Nós construímos a LIT-QI, mas a serviço de uma tarefa maior, estratégica, que é reconstruir a IV Internacional. Construímos a LIT-QI para colocar todas as nossas forças militantes, todo nosso acúmulo teórico, programático e moral, nossa experiência concreta ao longo de quase 70 anos sendo parte das lutas do movimento operário e do trotskismo, a serviço de reconstruir a IV Internacional; e que esta, por sua vez, possa converter-se no que chegou a ser a III Internacional de Lênin e Trotsky: um verdadeiro Partido Mundial da Revolução Socialista.

Esta, que é uma necessidade histórica, está cada vez mais na ordem do dia; onde por um lado, o sistema capitalista-imperialista vive uma de suas piores crises econômicas, sociais e políticas, e por outro as massas começam a resistir aos ataques capitalistas em diferentes pontos do planeta, sendo focos de luta o continente europeu e o impressionante processo de revoluções no norte da África e no Oriente Médio.

Por essas e outras informações, companheira e companheiro, que os convidamos a acompanhar nossa campanha internacional de comemoração dos 30 anos da LIT-QI através de várias atividades, atos e materiais que iremos organizar e publicar durante o ano de 2012.

A partir de nosso site estaremos publicando diferentes textos resgatando nossa história e nossas posições históricas, assim como notícias das atividades que acontecerão nos diferentes países onde a LIT-QI atua. Começamos com um primeiro material, uma transcrição de uma das intervenções orais de Nahuel Moreno na Conferência de fundação da LIT em 1982, onde com razão anunciou que “a existência de uma tendência trotskista ortodoxa é um fato”, afirmando um dos axiomas que marcaram sua vida como dirigente revolucionário:

"Afirmo categoricamente que todo partido nacional que não esteja em uma organização internacional bolchevique, com uma direção internacional, comete cada vez mais erros e um erro qualitativo: por ser nacional-trotskista termina inevitavelmente renegando a IV Internacional e tomando posições oportunistas ou sectárias, para logo desaparecer. Ou se é trotskista e se vive em uma internacional, ou se desaparece”.


Retirado do Site do PSTU

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Grupo de Maceió adere ao PSTU

A nota abaixo foi escrita por um grupo de militantes anteriormente organizados no Núcleo de Formação de Militantes Marxistas (NFMM), uma organização política regional, com base em Maceió (AL) e que vinha, desde fevereiro de 2011, em um processo de unificação com o PSTU.

O NFMM tinha origem no movimento estudantil da UFAL (Universidade Federal da Alagoas) e suas relações com o PSTU, a despeito de quaisquer diferenças, sempre se caracterizaram pela camaradagem entre companheiros e unidade na luta. À medida que a atuação política conjunta avançava, os militantes das duas organizações sentiram a necessidade de discutir mais a fundo os acordos e também as diferenças entre as duas organizações, com vistas a uma unificação.

No início de 2011, após uma série de atividades práticas conjuntas, bem como discussões políticas e teóricas, cursos e seminários, os companheiros do NFMM solicitaram o ingresso ao PSTU. Junto com o pedido de ingresso, os companheiros fizeram uma solicitação especial: que durante um ano, tivessem a possibilidade de manter sua estrutura de grupo, ou seja, eles integrariam os organismos do PSTU normalmente, mas teriam também o direito de reunir-se em separado para avaliar o andamento da experiência de unificação.

Embora o PSTU seja um partido sem grupos internos organizados, consideramos positiva a solicitação dos companheiros como forma de dissipar quaisquer dúvidas e desconfianças com relação ao nosso funcionamento e por isso decidimos permitir a manutenção de sua organização interna pelo período de um ano.

Essa política demonstrou-se mais do que correta: os companheiros se integraram perfeitamente aos organismos do PSTU, ao mesmo tempo em que tinham o direito de reunir-se em separado para avaliar o andamento da experiência de unificação. A atuação pública se manteve centralizada nos marcos da política do PSTU. Ao final do período acordado, como se verá pela carta, os companheiros decidiram dissolver definitivamente sua organização e se integrar plenamente ao PSTU, com todos os direitos e deveres de qualquer militante. Junto com isso, também como se verá pela carta, os companheiros sublinham que restam ainda inúmeras questões políticas e teóricas a serem discutidas, mas que preferem fazer essas discussões dissolvidos dentro do partido, já que ali encontraram um ambiente de democracia e camaradagem.

Publicamos os principais trechos do balanço final escrito pelos membros do agora ex-NFMM pois acreditamos que se trata de um ótimo exemplo de como pode ser construída a unidade entre aqueles que querem se dedicar à construção do único instrumento capaz de dirigir a classe trabalhadora em sua luta contra o capital e pelo socialismo: um grande e verdadeiro partido marxista revolucionário.


Principais trechos da nota:

Comunicado ao Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado

Camaradas, escrevemos esse comunicado com a intenção de informar o resultado de nossa última reunião e o balanço final de nossa experiência (após um ano de duração como acordado), enquanto enlace, com o partido. De antemão, adiantamos que nossa avaliação geral é positiva no sentido de que decidimos pela permanência com consequente dissolução interna de nosso pequeno núcleo nas fileiras do PSTU.

Essa decisão não se dá pela resolução de todas as questões que, embora inacabadas, levantamos no documento que marca o início de nossa experiência. Acreditamos, ainda, que há debates a serem realizados com profundidade, acerca de todas as questões que levantamos naquela ocasião. No entanto, o período de prova pelo qual passamos junto à organização nos apresenta todas essas questões por um outro ângulo, talvez mais maduro.

Como sabido, partimos de uma tradição de interpretação do marxismo relativamente diferente daquela em que se construiu o PSTU. Rigorosamente não somos morenistas, o que não quer dizer que desprezemos o dirigente histórico da corrente da qual agora fazemos parte. Acreditamos, tão somente, que a teorização de Nahuel Moreno (incluindo a sua forma de recepção do trotskismo e do leninismo), ainda que importante, é insuficiente para resolver os problemas da construção do processo revolucionário que se põem atualmente. Essa diferença de tradição da interpretação do marxismo, contudo, não se traduz em uma incompatibilidade de leituras acerca das tarefas históricas que se põem para a classe trabalhadora hoje.

Essa é a questão que julgamos, após essa experiência, fundamental de ser respondida. Nosso acordo deve estar posto na resposta que damos à pergunta que Lenin lança ao movimento revolucionário: Que fazer? Percebemos, hoje, que o critério que deve balizar nossa decisão não são os acordos ou desacordos teóricos, por mais que possam existir. Diferentemente, aqui devem pesar muito mais os inúmeros acordos de compreensão do atual momento histórico, bem como das grandes tarefas postas para todo um período, o que não apaga os possíveis desacordos. Não se trata de concordar ou não com essa ou aquela caracterização para a “etapa” (categoria que, polemicamente, sequer adotamos). Nem mesmo de acreditar que os desacordos teóricos não se possam traduzir em desacordos práticos futuros. Trata-se de perceber os acordos que temos na compreensão das tarefas atuais necessárias para a constituição da classe trabalhadora enquanto revolucionária e independente. Trata-se, portanto, de agir coerentemente com essa compreensão.

(…) Não somos capazes de encontrar nenhum desvio grave nas formulações do PSTU e embora tenhamos matizes diferentes de interpretação da realidade, pressupostos teóricos distintos, leituras do marxismo que ora se distanciam, ora se aproximam, seria um absurdo não compreender que estamos construindo uma organização socialista, proletária e revolucionária. Avaliamos que dado o atual estágio da organização da classe trabalhadora no país e no mundo, essa está entre as principais tarefas militantes que estão dadas para o momento. É com o PSTU que queremos discutir a revolução socialista. Construí-lo, portanto, é nossa tarefa enquanto revolucionários.
(…)
Nossa caracterização é a de que o PSTU é uma organização revolucionária em construção. É necessário se debruçar sobre uma série de temas para amadurecer esse processo (crise estrutural do capital, a crise de direção e as tarefas para resolvê-la, o centralismo democrático e sua aplicação prática, história do movimento de massas no Brasil e no mundo, formação político-econômica do Brasil e sua posição atual na economia capitalista mundial, natureza e fomento do trabalho teórico do partido etc.). Contudo, as principais tarefas, as linhas mestras desta construção, parece-nos, estão postas. É com bons olhos que vemos a discussão congressual acerca da atuação como partido político que realizamos esse ano. Cabe-nos em associação aos demais militantes e em condições iguais aos mesmos, desenvolver essas linhas mestras da melhor forma que nos for possível. Assim, somos de nossa parte, hoje, militantes plenos do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado e da Liga Internacional dos Trabalhadores.

Saudações revolucionárias,


Maceió, Fevereiro de 2012.

Davi Menezes, Eli Magalhães, Geice Silva, Lylia Rojas, Shuellen Peixoto


Retirado do Site do PSTU

terça-feira, 31 de maio de 2011

Amanda participa de passeata da Educação em Natal

Ato na quinta, dia 26, reuniu professores, estudantes e representações de outras categorias em luta


João Paulo
Amanda recebe o carinho dos professores do Rio Grande do Norte
Cerca de mil pessoas, entre professores e estudantes, coloriram de vermelho uma das mais movimentadas avenidas de Natal no último dia 26. Com o apoio dos alunos das escolas e de caravanas vindas do interior, os servidores da educação do Rio Grande do Norte, em greve há um mês, realizaram uma passeata partindo do ginásio Machadinho em direção ao prédio da Governadoria do Estado, no Centro Administrativo. O objetivo do protesto foi forçar a governadora Rosalba Ciarlini (DEM) a negociar com a categoria e a atender as reivindicações de professores e funcionários. A manifestação também contou com a importante presença da professora e servidora estadual, Amanda Gurgel, reconhecida nacionalmente após denunciar as péssimas condições de trabalho diante de deputados estaduais.

Durante a passeata, vários servidores procuravam a professora Amanda Gurgel para expressar seu apoio e carinho. Entre uma foto e outra ao lado de Amanda, os trabalhadores mostravam sua solidariedade e cumprimentavam a professora pela coragem em denunciar o caos que vive a educação pública no Estado e no Brasil. “As minhas palavras só ganharam essa repercussão porque refletem o sentimento de todos esses profissionais que estão em greve. Vamos agora unir forças em outros estados para que as greves se tornem cada vez mais uma força nacional de reivindicação. A educação tem que ser tratada como prioridade”, disse Amanda.





Reprovação do governo já atinge 44,15%

No mesmo dia da manifestação, o instituto Consult divulgou uma pesquisa de popularidade na qual a governadora Rosalba Ciarlini aparecia com 44,15% de reprovação apenas nestes cinco primeiros meses de administração. Toda essa rejeição também se expressou nas críticas feitas por servidores e estudantes contra o governo durante a passeata. “Essa Rosa só trouxe muitos espinhos”, dizia um cartaz em referência ao nome da governadora. Outro criticava a falta de negociação: “Mais 120 dias para negociar não dá. Respeito já!”.

Já em frente ao prédio da Governadoria, servidores da educação e estudantes reafirmavam a pauta de reivindicações e exigiam ser recebidos pela governadora. Cantando palavras de ordem, eles denunciaram a omissão do governo e cobraram 30% de reajuste salarial para os professores. “Rosalba tirou zero! Respeite o magistério!”, cantavam.

Além do reajuste de 30%, os educadores reivindicam a implantação do Plano de Carreira dos funcionários, a revisão do Plano dos professores e melhor estrutura nas escolas. Atualmente, 93% dos 14 mil servidores da educação do Rio Grande do Norte estão em greve. Ao todo, são 736 escolas paralisadas. Outras dez categorias também estão em greve e reforçam o quadro de lutas por direitos no Estado. Além dos professores e policiais civis, trabalhadores de vários setores da administração indireta cruzaram os braços. Na internet e na imprensa, o Rio Grande do Norte se transformou em “Rio Greve do Norte”.


10% do PIB para a Educação Já!

Discursando para cerca de mil pessoas, a professora Amanda Gurgel voltou a defender a aplicação imediata de 10% do PIB (Produto Interno Bruto) na educação e convocou mais uma manifestação pelo twitter em defesa da proposta. “No próximo dia 31, todo mundo que se importa com a educação dos nossos jovens deve enviar mensagens com a hashtag #dezporcentodopibja, para que alcancemos mais uma vez o topo do twitter. A partir disso, podemos construir atos nacionais apontando para uma possível greve no país.”, afirmou Amanda.

Os estudantes também defenderam a aplicação de 10% do PIB na educação e expressaram sua solidariedade à greve da educação em cartazes exibidos durante a passeata. “Nós, alunos, acreditamos nas reivindicações dos professores.”, dizia um deles, mostrando que os verdadeiros culpados pelo caos na educação são outros.

Amanda Gurgel ainda denunciou o governo do Estado por seu descaso e desprezo com a educação. “Não existe possibilidade de volta às aulas enquanto não houver proposta do governo. O governo demonstra que não tem mais nem descaso com a educação. Nesse caso, a situação já evoluiu para desprezo. A nossa luta é pela qualidade da educação e não para que a escola funcione como depósito de crianças como a secretária Betânia Ramalho (educação) pensa. Para ela, nós temos que estar em sala de aula para garantir que os pais saiam para trabalhar. Mas a nossa idéia sobre educação é outra.”, destacou a professora.

No dia seguinte à manifestação, o chefe do gabinete civil do governo, Paulo de Tarso, recebeu o sindicato da categoria, mas a resposta foi a mesma: o Estado não tem dinheiro para pagar o reajuste.


Governo sem dinheiro? A arrecadação diz o contrário

Até abril desse ano, o governo do Rio Grande do Norte arrecadou R$ 2,39 bilhões, o que representa um aumento de quase 10% se comparado ao mesmo período do ano anterior, quando os valores tinham atingido R$ 2,19 bilhões. Segundo o Portal da Transparência, até agora o tesouro captou R$ 2,72 bilhões. Os cofres do Estado receberam R$ 1,12 bilhões nestes quatro primeiros meses só em impostos. O Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) é quase a totalidade do valor, correspondendo a R$ 971 milhões até o momento. Para se ter uma idéia do aumento da arrecadação, a folha de pagamentos do Executivo do mês de maio é prevista em R$ 230 milhões, menor do que o arrecadado em ICMS, que fechou em R$ 246 milhões, a seis dias do fim do mês.

Em entrevista ao Jornal de Hoje, o defensor público Serjano Vale questionou a falta de recursos do Estado para atender às reivindicações dos servidores em greve. “A arrecadação do Estado para esse ano teve um excelente aumento, o governo reduziu os gastos com o erário e o Fundo de Participação do Estado (FPE) não teve queda. O custo operacional do Estado teve uma redução percentual bastante significativa.
Então, se a receita do ano anterior era menor e conseguia cobrir as despesas fixas com a manutenção dos serviços, como este ano, que o orçamento teve acréscimo e as despesas diminuíram não consegue?”, indagou. E criticando os gastos com a realização da Copa de Mundo completou: “O Estado diz que não tem condições para arcar com os reajustes dos planos, mas tem coragem de celebrar um contrato de R$ 400 milhões para assumir o compromisso de trazer uma Copa do Mundo para Natal”.


Retirado do Site do PSTU

sábado, 2 de outubro de 2010

PSOL retira candidatura de Avilete Cruz em Sergipe

Candidata do PSOL chamou Dilma de terrorista e seqüestradora e fez dobradinha com o DEM em debate na TV


O lamentável episódio foi transmitido ao vivo pela televisão em horário nobre. Aconteceu no debate da TV Sergipe, afiliada da Rede Globo, entre parte dos candidatos ao governo do estado, na última terça-feira, 29. Avilete Cruz questionou o candidato do PT e atual governador, Marcelo Déda, se ele não se envergonhava de apoiar uma “terrorista, seqüestradora e assaltante”, referindo-se à Dilma Rousseff.



Nesse mesmo debate, assim como em outros em que participou, Avilete concentrou as suas críticas quase que exclusivamente no PT, chegando, em dados momentos a promover “dobradinhas” com o candidato do DEM, João Alves Filho. Na prática, a postura da figura pública do PSOL serviu de ponto de apoio do “democrata” em sua incursão contra o PT. Mas o show de barbaridades da candidata do PSOL não fica por aí. Durante o horário da propaganda eleitoral, Avilete declarou que, por ser cristã, é contra o aborto, desrespeitando deliberação congressual do seu próprio partido.

A postura da candidata envergonha a esquerda. Além do despreparo político, a reta final da campanha revelou um lado digno de asco. A candidata do PSOL abandonou as bandeiras históricas da esquerda para se focar em promessas eleitorais, a exemplo de condomínios com agências bancárias, helicópteros, ambulância e academias de ginástica. Assistimos a um final digno de filmes de horror para a candidatura do PSOL em Sergipe. Infelizmente, essa tragédia já dava recados de que se aproximava.


PSOL deve impugnar candidata

Diante de tal situação, a executiva estadual do partido divulgou na quinta-feira, 30, uma nota pública em repúdio às declarações de Avilete Cruz. Hoje pela manhã, em coletiva à imprensa, a Direção Estadual do PSOL comunicou a retirada da candidatura de Avilete Cruz para o governo de Sergipe e recomendou escolha de voto em Vera Lúcia (PSTU) ou Leonardo Dias (PCB). Ele afirmaram também que a expulsão da candidata será analisada pelo Conselho de Ética do partido.

Apesar da postura enérgica da direção do partido, nada impede que novos episódios do tipo voltem a acontecer. Acontecimentos dessa natureza são possíveis por conta do regime e da concepção do PSOL. Esse problema foi o elemento definidor da não existência da uma Frente de Esquerda em Sergipe.


Frente de Esquerda

Apesar da não conformação da Frente de Esquerda a nível nacional, os acordos programáticos entre PSOL e PSTU para o estado de Sergipe apontavam para a unificação no terreno eleitoral. O congresso estadual o PSOL aprovou a construção da frente no estado, com a candidata do PSTU, Vera Lúcia, encabeçando a chapa. Várias reuniões foram realizadas para fechar os detalhes. A convenção estadual do PSTU contou com a presença da militante indicada pelo PSOL para ocupar o cargo de vice-governadora.

Porém, durante a convenção estadual do PSOL, momento que deveria servir somente para manter as conformidades das exigências legais burguesas, ratificando a posição definida previamente, muda-se completamente a política do partido. Avilete Cruz, acompanhada de diversos “filiados de última hora” deram peso para a aprovação do lançamento de uma candidatura própria.

Num partido em que filiados têm os mesmos direitos de militantes, não se deve encarar as Aviletes como raio em céu azul. É vital que os companheiros aprendam com a experiência e que avancemos para a construção de um partido que se mostre como alternativa da classe trabalhadora. Um partido de militantes, sem aviletes e congêneres. Uma organização de concepção revolucionária.


PSTU firme e forte em Sergipe

Enquanto isso, Vera Lúcia (PSTU) apresenta-se como a alternativa aos trabalhadores sergipanos frente à falsa polarização PT x DEM. Mesmo não participando dos debates promovidos pelas afiliadas da Record e Rede Globo, Vera Lúcia permanece em terceiro lugar nas pesquisas, com 2,4%, e Zé Maria em quarto lugar para presidência da república, com 1,4%.

O triste papel desempenhado pelo PSOL em Sergipe também se revelou nas reuniões preparatórias dos debates televisivos. Os representantes do PSOL fizeram bloco com o DEM na defesa de que só deveriam participar dos debates os candidatos que representação na Câmara dos Deputados.

Nada abalou a campanha do PSTU, ao contrário, a população sergipana questionou a não participação de Vera Lúcia no debate. Por medida judicial, o partido conseguiu fazer com a TV Sergipe, afiliada Rede Globo, mudasse a chamada comercial do debate e explicasse porque Vera Lúcia não participaria.

Ainda nesta sexta-feira, no fim da tarde, o partido realiza caminhada no centro de Aracaju e a noite realiza o Papo Gelado na sede do partido. Amanhã, enceramos nossa campanha com uma grande caminhada no município de Laranjeiras, zona da mata sergipana, junto com os operários das fábricas de cimento Nassau e Votorantim e com os operários da Petrobrás.


Retirado do Site do PSTU

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Dividido, PSOL define candidatura

A conferência eleitoral do PSOL aprovou a candidatura de Plínio de Arruda Sampaio à presidência da República. Isso poderia satisfazer seus apoiadores, mas as condições em que se deu essa decisão mostram a grave crise pela qual passa esse partido.

Acusações de roubo do site, fraudes nas plenárias de base e agressões físicas se tornaram públicas na preparação da conferência nacional desse partido. No final, existiram duas conferências em separado, cada uma com um bloco significativo do partido e acusações de parte a parte.

Uma das conferências indicou Plínio de Arruda Sampaio pré-candidato à Presidência, dizendo que Martiniano Cavalcante e seus apoiadores não compareceram. Assim, Plínio foi votado por unanimidade. Falaram, também, que os apoiadores de Martiniano teriam fraudado plenárias de base.

O outro bloco, que se intitula “maioria dos delegados eleitos”, acusa os apoiadores de Plínio de vencerem no “tapetão”: o diretório nacional teria impugnado delegados do Acre e Roraima que apoiavam a candidatura de Martiniano para transformar a minoria (os apoiadores de Plínio) em maioria. A presidenta e maior figura pública do PSOL, Heloísa Helena, é uma das que questionam duramente a indicação de Plínio.

Entre os dois blocos, existiu um acordo tático para concorrer às eleições, sem unidade na candidatura à presidência. O bloco MES-MTL-Heloísa não questionará o resultado na Justiça, mas não fará campanha por Plínio. O enfrentamento foi adiado para depois das eleições, a partir da relação de forças que dependerá de quais parlamentares serão eleitos em outubro.

Uma parte dos militantes do PSOL deve estar mais tranquila porque, afinal, Plínio foi indicado. Mas que partido é este em que o candidato vai passar boa parte da campanha explicando por que a outra metade do partido (inclusive sua presidente) está contra ele? Que partido é esse em que uma simples escolha de candidato ameaça uma ruptura ao meio?

Alguns acham que a crise se explica pela disputa entre Martiniano e Plínio. Mas essa é somente a forma em que aparece a crise. Não se pode entender um enfrentamento tão violento pela escolha de um candidato que, todos sabem, não terá uma grande votação. Não haverá alguma explicação mais profunda na concepção com que o PSOL foi criado e construído?

Nós não opinamos que a crise se explique pela luta de um lado bom e outro ruim. Isso não significa que não haja erros grosseiros e inadmissíveis. Mas é a concepção eleitoral de partido, sobre a qual a maioria dos dois lados tem acordo, que está equivocada e originou essa crise.

Esses acontecimentos não podem ser motivos de alegria para ninguém. Esse tipo de crise tem consequências nefastas para toda a esquerda. Não estamos debatendo programas diferentes, mas quem roubou o site, quem fraudou e onde. Isso reforça o ceticismo, o sentimento antipartido. Fortalece, entre parcelas de trabalhadores e do povo, a nociva ideia de que a política é o terreno dos golpes, da baixaria, e que todos os partidos são iguais, independentemente de ser de esquerda ou direita.

Por isso, é necessário esclarecer a origem dessa crise para que não sobrem simplesmente a desilusão e a falta de perspectivas. Aqui, nós queremos dar uma opinião, que necessariamente será limitada, por ser de quem acompanhou a crise de fora.


As consequências da concepção de partido na crise

Quando criado, foi dito que o funcionamento do PSOL, em que todos fazem o que querem, era a expressão de um partido democrático. Na verdade, é um partido eleitoral que gira ao redor dos parlamentares que, eles sim, podem fazer o que querem, independentemente da vontade da militância do PSOL.

Um dos grandes exemplos disso foi o estopim imediato dessa crise, a desistência de Heloísa Helena de disputar a Presidência do país. Sua candidatura era apoiada pela amplíssima maioria da militância, mas ela privilegiou sua eleição ao Senado por Alagoas, mesmo gerando uma crise no partido. Mas ela só pode fazer isso porque o PSOL é um partido eleitoral, em que os parlamentares e figuras públicas fazem o que querem.

Com a desistência de Heloísa, se abriu a disputa de quem deveria ser o candidato a presidente. A briga degenerou num enfrentamento fratricida porque, para os parlamentares do partido, isso significa a luta pelo controle do aparato nacional do PSOL. Além disso, a indicação de um candidato à presidência pode facilitar ou dificultar a reeleição de um ou outro parlamentar por ser de seu estado.

O que explica essa crise violenta é o peso decisivo dos parlamentares num partido eleitoral.


Um partido em que os militantes não decidem

As acusações de fraude nas plenárias são generalizadas. Não vamos opinar sobre isso, não é de nossa alçada. Mas nenhum dos dois blocos questiona a metodologia como foram feitas essas plenárias. O PSOL funciona exatamente como o PT, com as decisões sendo tomadas pelos filiados. Os militantes do PSOL, que estão nos movimentos sociais, que constroem o partido na base não são os que decidem. São os filiados que decidem, mesmo sem ter nenhum compromisso com a militância.

Essa é uma das características dos partidos eleitorais, defendida como expressão de um partido aberto, amplo. Na verdade, isso privilegia quem tem aparato (os parlamentares, mais uma vez), para levar em carros os filiados para votar em plenárias vazias.

Os momentos mais vivos dessa pré-conferência foram as plenárias de debates dos candidatos que, em geral, reuniram os militantes do PSOL. Mas os militantes aí reunidos não votam, porque quem decide são os filiados, trazidos por quem tem aparato.

Essa metodologia, além de absolutamente antidemocrática, possibilita de forma muito mais ampla as fraudes. Fraudes tanto nas plenárias de base como nas impugnações dessas plenárias, para mudar a relação de forças. Não foi a base que decidiu a conferência, foi uma luta violenta das cúpulas parlamentares do partido.


O “vale-tudo” generalizado

Existe uma moral burguesa, aprofundada pelo neoliberalismo, que pode ser resumida no vale-tudo para conseguir um objetivo. Essa moral está instalada em partidos eleitorais como o PT, em que se faz qualquer manobra para se transformar em deputados ou governantes. Mentiras, calúnias, fraudes, agressões físicas, vale-tudo para se conseguir um cargo e suas vantagens materiais.

Não é verdade que o movimento operário não tenha moral. A acusação que a burguesia nos faz de que, para a esquerda os fins justificam os meios, é só mais uma autojustificativa de sua própria moral do vale-tudo.

No movimento operário, uma moral distinta surge da própria luta. Numa greve, por exemplo, é natural a solidariedade de classe, a fraternidade entre os que se mobilizam. Qualquer um que tenha participado de uma greve já viveu essa experiência. Para o movimento operário, não vale qualquer coisa. As calúnias, as fraudes enfraquecem o movimento e não são justificáveis. Já a fraternidade, a solidariedade, o debate respeitoso de idéias o fortalecem.

É por isso que essa crise do PSOL é desmoralizante e atinge toda a oposição de esquerda. Não se debateu programas e estratégias, mas quem roubou quem. O vale-tudo que existia no PT se generalizou no PSOL.


A conjuntura e a crise

Existe uma conjuntura política que ajuda a explicar a crise do PSOL. O peso do governo Lula entre os trabalhadores e a juventude limita muito o espaço eleitoral para uma oposição de esquerda. Isso explica porque Heloísa Helena não queira a candidatura à presidência. Explica, também, porque ao menos uma parte dos parlamentares atuais desse partido sinta ameaçada sua reeleição. Por isso, se parte com tanta virulência para essa briga pelo aparato do PSOL.

Essa mesma conjuntura, no entanto, se for analisada de outro ângulo, fora do eleitoralismo, pode permitir avanços importantes. Existem mobilizações salariais significativas em curso no país. O Congresso da Classe Trabalhadora, em junho, aponta para uma unificação que pode ser a principal conquista do movimento contra o governo Lula. E mesmo em termos eleitorais é possível fazer uma campanha importante, com um programa classista e socialista, que aponte uma perspectiva diferente para os trabalhadores.


Centralismo democrático x centralismo burocrático parlamentar

O PSTU defende outra concepção de partido, com um funcionamento orgânico baseado no centralismo democrático. Tanto a burguesia quanto os partidos eleitorais acusam essa forma de funcionamento leninista como antidemocrática, por exigir que todos apliquem a mesma política depois de votada.

Na verdade, esse é o funcionamento mais democrático. São os militantes que decidem nos congressos e conferências do partido qual a política a ser aplicada por todos. Depois de um debate amplo e democrático, se vota a política e todos aplicam. Não existe nenhum privilégio para as figuras públicas e dirigentes do partido.

Nas eleições de 2006, o PSTU fez uma conferência eleitoral para debater a tática a ser implementada. Três posições foram defendidas – frente de esquerda, candidatura própria e voto nulo – num livre, amplo e democrático debate. Foi votada, por maioria, a tática da frente de esquerda, que foi aplicada por todos.

Trata-se de um funcionamento muito mais democrático que o dos partidos eleitorais. Nesses partidos, como o PT e o PSOL, a aparência é de liberdade completa, mas na verdade se trata de um centralismo burocrático dos parlamentares. Eles têm acesso à imprensa, e as posições do partido que aparecem são as deles, independentemente da opinião dos militantes. E podem ditar a dinâmica do partido, que gira ao seu redor, como os parlamentares do PSOL deram a dinâmica lamentável da crise atual.


Retirado do Site do PSTU