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sexta-feira, 19 de abril de 2013

Atentado a Boston mostra fragilidade dos EUA e fracasso da política “antiterror”


Momento da explosão de uma das bombas em Boston
O atentado a bomba no final de uma maratona na cidade de Boston nesse último dia 15 trouxe de volta o tema do terrorismo para o cotidiano dos norte-americanos. Duas explosões provocadas por artefatos rústicos montados em panela de pressão mataram 3 pessoas e feriram outras 170 ao final de um dos principais eventos esportivos do país.

A Maratona de Boston é um evento tradicional da cidade, a mais importante da Costa Leste, e reunia cerca de 30 mil corredores e 500 mil espectadores. Os dois artefatos explodiram quase que simultâneamente e estavam preenchidos com pregos e outros objetos metálicos. Foi montado com o objetivo de causar o maior dano possível às vítimas.

A imprensa internacional, repercutindo declarações de um deputado republicano presidente do Comitê de Segurança Nacional da Câmara, destacou que os explosivos são similares aos utilizados no Afeganistão e no Iraque contra as tropas norte-americanas. No entanto, grupos de extrema direita do país também orientam a construção de artefatos com essa mesma técnica.

Alguns minutos depois da detonação das duas bombas na maratona, outra bomba teria explodido na biblioteca John F. Kennedy, mas sem deixar feridos. As autoridades ainda não haviam relacionado essas duas explosões.

Logo após as explosões, os EUA reforçaram os esquemas de segurança nas principais cidades do país, como Nova Iorque, Los Angeles e Washington. Apesar de ninguém ter ainda reivindicado a autoria do atentado, o governo norte-americano afirmou que as investigações seriam realizados no país e no exterior.

O atentado a bomba em Boston coincidiu com o envio de cartas com um tipo de veneno letal ao presidente Barack Obama e quatro senadores. A carta, contendo a toxina ricina, teria vindo com a seguinte mensagem: "Ver o que está errado e não expor o erro é tornar-se parceiro silencioso de sua continuidade". Porém, apesar da coincidência das datas, não havia indícios que relacionassem as cartas com os atentados a bomba.


Um país vulnerável

O atentado mostrou o fracasso da política antiterror dos EUA. Mesmo com toda a paranoia que envolve a segurança interna no país, os atentados continuam e nada impede que um novo 11 de setembro ocorra.

A última tentativa de atentado terrorista havia ocorrido em 2010, com um carro bomba em plena Times Square, em Nova York. Assumido por um americano de origem paquistanesa e pelo Talibã, o atentado foi frustrado por muito pouco. O motivo do ataque teria sido uma retaliação ao uso de drones no Paquistão.


Terrorismo

O presidente Obama classificou o atentado como um “ato hediondo e covarde”. A resposta dos EUA ao atentado mostra, além de sua vulnerabilidade, a hipocrisia extrema do país que ocupa militarmente o Iraque e o Afeganistão, e interfere em tantos outros no Oriente Médio, como o Paquistão. Nos últimos anos, a utilização indiscriminada dos 'drones', os aviões não tripulados, vem causando polêmica pelas inúmeras mortes de civis que provocam ao simples apertar de um botão de um oficial norte-americano a milhares de quilômetros dali. Sem falar na ingerência do imperialismo em todo o mundo.

Só no Iraque, de acordo com o site Iraq Body Count, que contabiliza o número de mortes no país após a invasão norte-americana, marcava de 122.573 mortes de civis de 2003 até o fechamento desse texto. Portanto, o principal responsável pelo clima de insegurança nos EUA é o próprio governo norte-americano e sua política intervencionista, que sobreviveu à era Bush e continua com Obama.

Reconhecer o governo norte-americano como principal responsável pelo terrorismo, porém, não é respaldar os ataques terroristas. Protegidos pelo maior aparato de segurança do mundo, os homens que comandam a máquina de guerra do imperialismo raramente sofrem com as consequências de seus atos. São os trabalhadores e a população dos EUA que estão realmente vulneráveis ao terrorismo.

Além disso, o terrorismo, mesmo quando não tem por alvo a população civil, é um completo desserviço à classe operária e aos socialistas. Em seu texto “Por que os marxistas se opõem ao terrorismo individual”, Trotsky já assinalava: “o terror individual é inadmissível precisamente porque desvaloriza o papel das massas e da sua própria consciência, fazendo com que elas se resignem diante de sua impotência e voltem seus olhares para um herói vingador e libertador que esperam um dia para cumprir sua missão”.

O terrorismo, além disso, serve muito bem aos interesses do imperialismo ao legitimar o aumento da repressão e sua ofensiva colonizadora, a exemplo do que ocorreu após o 11 de setembro.


LEIA MAIS

Atentado em Boston faz crescer precariedade dos trabalhadores


Retirado do Site do PSTU

terça-feira, 16 de abril de 2013

Checkpoint israelense na feira da morte

Feira militar expõe as relações entre o governo brasileiro e israelense na produção de armas utilizadas no apartheid palestino



Protesto no interior da feira
Passaporte! Assim o agente do serviço de segurança de Israel abordou manifestantes da campanha BDS Brasil (boicotes, desinvestimento e sanções) durante a Laad (Feira Internacional de Defesa e Segurança Corporativa), realizada entre 9 e 12 de abril, no RioCentro, no Rio de Janeiro.

A cena surreal aconteceu quando nosso pequeno grupo circulava pela área em que se concentravam os estandes da potência que ocupa a Palestina. Munidos apenas de camisetas da campanha de boicotes ao apartheid israelense e keffiyehs (lenços palestinos), adentramos a área de expositores após um protesto à entrada da feira, em que abrimos uma grande bandeira palestina e faixas com os dizeres: “Embargo militar a Israel já!” e “Presidente Dilma, pare de compras armas de Israel!”. A primeira trazia a reivindicação central da campanha no país, capitaneada pela Frente em Defesa do Povo Palestino-SP – que reúne dezenas de organizações da sociedade civil brasileira. A segunda, protesto contra a ampliação dos acordos militares com Israel pelo governo brasileiro – que garantiram a este país a vergonhosa posição entre os cinco maiores importadores de armas da potência que ocupa a Palestina. Era assinada pelo Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e CSP-Conlutas (Central Sindical e Popular). Engajadas na ação, as duas organizações se somaram à manifestação em frente ao RioCentro, que contou ainda com representantes da Anel (Assembleia Nacional dos Estudantes – Livre!), Mopat (Movimento Palestina para Tod@s), Ciranda Internacional da Comunicação Compartilhada e PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado).

A exigência de ruptura desses acordos é urgente, como ficou demonstrado durante a Laad 2013. As mais de 30 empresas israelenses que ocuparam o RioCentro puderam ter contato privilegiado com o vice-presidente da República, Michel Temer, e o ministro da Defesa, Celso Amorim, que representaram a presidenta Dilma Rousseff na abertura do evento. De olho na Copa de 2014 e nas Olimpíadas de 2016, tiveram espaço estratégico para apresentar seus produtos e serviços.

Após cruzarmos com essas autoridades, cercadas de seguranças, no interior da feira, uma pequena mostra de como Israel se coloca acima das leis internacionais e de como se dá o apartheid na Palestina sob ocupação. Além do pedido de passaporte a cidadãos brasileiros em seu próprio país, o que foi devidamente contestado – uma das manifestantes expressou claramente que estavam a reproduzir o formato dos checkpoints que impedem o direito de livre circulação de palestinos –, os agentes do serviço de segurança de Israel passaram a perseguir os ativistas por toda a feira. Os protestos contra esse constrangimento e discriminação não foram poucos, nem a denúncia da ocupação de terras palestinas. A sensação, a quem já esteve naquele destino, era de que Israel reproduzia no Rio de Janeiro a política ameaçadora de segregar os “indesejados” e tentar tornar sua estada insustentável. Como se tivesse ocupado a área da Laad, sob as bênçãos dos governos estadual e federal e ignorando o direito democrático à livre expressão e manifestação dos cidadãos brasileiros.




Em exposição, armas do apartheid

A despeito das tentativas de constranger e intimidar os “indesejados” visitantes, na área interna da feira, foi possível confirmar a apresentação de tecnologias militares de Israel testadas sobre os palestinos, caso dos Vants (veículos aéreos não tripulados) nos recentes ataques a Gaza, território ocupado. E também de atestar a cumplicidade dos governos estadual e federal para a manutenção do apartheid, ao recepcionar grupo de empresas que garante esse regime, além do Ministério da Defesa de Israel – com seu próprio estande, em que fomos impedidos de entrar. Uma apresentação futurista sobre essas tecnologias pela IAI (Israel Aerospace Industries) em uma tela gigantesca, com explicações de uma expositora que falava um português com sotaque, chamava a atenção. A IAI, como consta em relatórios de organizações palestinas, produz equipamentos para as forças de ocupação, o muro do apartheid e os assentamentos ilegais. No Brasil, formou uma joint venture denominada EAE Soluções Aeroespaciais com o Grupo Sinergy e sua subsidiária, a Bedek. Fornecedora das Forças Armadas Brasileiras, utiliza os centros de produção e manutenção da TAP M&E Brasil nos aeroportos do Rio de Janeiro e de Porto Alegre.

Também entre as expositoras a Rafael Defence, que divulga em seu site o relacionamento “especial” com a chamada IDF (Forças de Defesa de Israel), desenvolvendo produtos personalizados ao exército ocupante, e o Grupo Netcom Malam Team Internacional, o maior e principal grupo de tecnologia de informação daquele estado, também com uma série de projetos junto à IDF. Além da IMI (Israel Military Industries), que tem em sua carteira de clientes o Exército brasileiro. Também tem parceria comercial com a Taurus, com sede em Porto Alegre/RS, que fabrica o rifle israelense Tavor, mediante licença.

A Laad contou com o patrocínio da Embraer (Empresa Brasileira de Aeronáutica), cujos vínculos com o Estado de Israel são estreitos. Mantém contratos com a israelense Elbit Systems – outra das expositoras da feira que atua na área de tecnologia militar, construindo os famosos Vants. É uma das 12 companhias envolvidas na construção do muro do apartheid , na Cisjordânia, na Palestina ocupada. Em outubro de 2012, na Assembleia Geral das Nações Unidas, o relator especial Richard Falk chamou ao boicote à Elbit. No Brasil há 15 anos tal empresa se faz presente por meio das subsidiárias AEL, Periscópio Equipamentos Optrônicos S/A e Ares Aeroespacial. Através dessa última, recentemente, a Elbit ganhou dois novos contratos milionários com o Exército brasileiro. E o Governo do Rio Grande do Sul pretende expandir sua presença no Brasil com um projeto de centro aeroespacial baseado na AEL em Porto Alegre. Com isso, a capital gaúcha pode vir a se tornar o pólo de pesquisa militar israelense mais importante no exterior. Tal projeto, financiado com dinheiro público, também concede vantagens aos negócios baseados nos crimes cometidos por Israel.

A denúncia dessas relações de cumplicidade consta de manifesto enviado às autoridades brasileiras e estaduais pela campanha BDS Brasil, repudiando a presença na Laad de Israel. Assinado por mais de 30 organizações da sociedade civil, o documento aponta o estreito vínculo entre a importação dessas tecnologias militares e a repressão da população jovem, pobre e negra nos destinos compradores. O caso do Rio de Janeiro é exemplar. A empresa israelense Global Shield venceu licitação para fornecer, mediante contrato milionário, oito novos blindados (os chamados caveirões) à Polícia Militar, usados na ocupação de favelas.

A experiência de se manifestar dentro da Laad permitiu ver de perto esses aparatos. Também ficou evidenciada a força da campanha global de BDS para mudar esse estado de coisas – que, em nível nacional, incomodou visivelmente os expositores israelenses. Atestou-se o acerto do embargo militar como foco central dessa iniciativa. E a urgência em chamar a atenção para a cumplicidade do governo brasileiro com o apartheid e pressionar pela ruptura dos acordos militares com Israel. Na contramão do que sinalizava a Laad.


Retirado do Site do PSTU

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Mesmo beneficiado com isenção, indústria tem queda na produção em 2012

Em 2012 governo concedeu o equivalente a R$ 45 bilhões em isenção fiscal


Mesmo com todos os incentivos e isenções fiscais concedidos pelo governo em 2012, a produção industrial fechou o ano em queda de 2,7%. Esse foi o pior resultado desde 2009, quando o setor registrou retração de 7,4% como reflexo da crise econômica internacional. Os dados são do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e foram divulgados no dia 1º de fevereiro.

O resultado de dezembro de 2012 representa uma diminuição de 3,6% comparado ao mesmo mês de 2011. Apesar da queda generalizada, um dos dados mais preocupantes refere-se ao setor de Bens de Capital, ou seja, máquinas e equipamentos, que teve uma drástica redução de 11,8%. Isso significa uma queda nos investimentos da indústria, afastando do horizonte uma retomada na produção.

Dos 27 ramos pesquisados pelo IBGE, 14 registraram queda. A produção de veículos, por exemplo, sofreu uma redução de 13,5%, influenciado principalmente pelo mal resultado no setor de caminhões e ônibus, além de autopeças e motores. Mas não foi apenas a produção de bens duráveis que sofreu queda. A produção de alimentos diminuiu 2,1% e vestuários, por sua vez, caiu 10,5%.



No primeiro semestre de 2012 a produção caiu 3,8%, fazendo acender a luz vermelha no governo, que ampliou sua política de isenções fiscais, como a isenção do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados). A medida, porém, atenuou a queda, mas não foi capaz de reverter a tendência de retração na indústria (no segundo semestre a queda foi de 1,6%), que já registra cinco trimestres consecutivos de retração.


Esgotamento

No ano passado, o câmbio valorizado era apontado como o responsável pela crise na indústria já que, com o Real caro, era mais difícil exportar e ao mesmo tempo enfrentar a concorrência dos produtos importados, que chegavam aqui mais barato. No entanto, equilibrado o câmbio, a queda persiste, mostrando que esse não é o real problema. Por um lado, a crise econômica prossegue nos EUA e Europa, prejudicando as exportações. Por outro, o consumo interno já demonstra esgotamento, com as famílias endividadas e alta taxa de inadimplência. Em janeiro deste ano 60,2% das famílias estavam endividadas. Já a inadimplência superava os 21,2%.

O governo, por sua vez, que já concedeu o equivalente a R$ 45 bilhões em isenções fiscais à indústria em 2012, promete ampliar a medida para este ano, mesmo que isso não tenha servido para reverter a crise no setor. E o povo continuará pagando para manter os lucros dos empresários.


Retirado do Site do PSTU

sábado, 26 de janeiro de 2013

O lucro das grandes corporações norte-americanas falou mais alto que a vida de Aaron Swartz

Jovem programador foi acusado de compartilhar artigos acadêmicos de bibliotecas norte-americanas na rede



Aaron foi vítima de um sistema que o lucro está acima do conhecimento, da liberdade e da vida
No dia 11 de janeiro, o jovem Aaron Swartz, 26 anos, foi encontrado morto em seu apartamento, na cidade de Nova Iorque. Ele sofria de depressão e teria se suicidado, sem deixar nenhum bilhete ou informação. Aaron, aos 14 anos, já era considerado um grande prodígio no mundo digital por desenvolver o sistema RSS (Rich Site Summary), que possibilita o recebimento de informações atualizadas de diversos sites diferentes, sem que seja necessário visitá-los um a um.

Essa poderia ser uma notícia como várias outras, não fosse o fato de que Swartz, um jovem programador informático, estava a poucos dias de um julgamento que poderia levá-lo a mais de 30 anos de prisão e a receber uma multa de cerca de um milhão de dólares. A acusação era que ele havia feito “download ilegal” de 4,8 milhões de documentos científicos e literários da plataforma JSTOR, que abrigava arquivos de sete bibliotecas norte-americanas e cobra 19 dólares por mês de quem quiser acessar os seus “papers”.

A família responsabiliza as autoridades judiciais americanas pelo acontecido e critica o sistema judiciário dos Estados Unidos que iria prender um jovem de 26 anos por “um crime que não fez vítimas”. Isso por que, além de uma mente brilhante, Swartz era um jovem ativista e defensor da liberdade de expressão e compartilhamento de conteúdos na internet. Um jovem que não se conformava com uma lógica em que as pessoas são obrigadas a pagar para ter acesso ao conhecimento, como mostram os casos de bibliotecas inteiras cujo acervo é digitalizado, mas acessível somente aos que podem pagar suas taxas.

No seu documento mais difundido (Guerrilha Open Access), Aaron coloca que “a herança inteira do mundo científico e cultural, publicada ao longo dos séculos em livros e revistas, é cada vez mais digitalizada e trancada por um punhado de corporações privadas”.

Para o capitalismo, todo ataque à liberdade de expressão e de compartilhamento de conteúdos tem sua razão de existir: seja para o controle do conhecimento em circulação, seja para a garantia dos lucros bilionários das grandes corporações internacionais. Aaron é mais uma vítima de um sistema no qual o lucro da grande burguesia está acima do conhecimento, da liberdade e da própria vida.

Para nós da Juventude do PSTU, fatos como esses só reforçam a necessidade real de democratizar o acesso aos conteúdos digitais e ao conhecimento, sabendo que isso significa ir além de receber informações, mas também ter a possibilidade de produzí-las e divulgá-las livremente. E como dizia o próprio Aaron Swartz, “não há justiça em seguir leis injustas. É hora de vir para a luz [...] declarar nossa oposição a este roubo privado da cultura pública”.


Retirado do Site do PSTU

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A crise econômica mundial e a GM

Ameaça de demissões no Brasil faz parte da política da montadora em todo o mundo





Sede da General Motors em Detroit
O final do ano de 2008, um dos momentos de aprofundamento da crise econômica, em particular nos Estados Unidos, marcou profundas transformações na GM. Acossada pela crise, a empresa chegou a entrar em concordata. Suas ações chegaram a valer menos de um dólar e o governo americano foi obrigado a intervir para impedir a bancarrota total da multinacional, o que teria consequências no agravamento da situação econômica mundial.

Em acordo que envolveu os ex-acionistas, o governo norte-americano, o canadense, e o VEBA, uma espécie de fundo de pensão administrado pelo UAW (o sindicato nacional dos trabalhadores da indústria automobilística), a empresa conseguiu sair da concordata rapidamente e promoveu uma grande reestruturação que já vinha sendo perseguida pela companhia há anos.

O governo Obama ficou com a maioria das ações e o controle da administração da GM. A saída da concordata no início de 2009 implicou no fechamento de 17 fábricas, na extinção de diversas marcas, na demissão de 35 mil trabalhadores e na criação de uma “Nova GM”, fruto da reestruturação.

Em colaboração com a burocracia sindical da UAW (que se transformou em “sócia” da empresa), foram criadas novas estruturas salariais que rebaixaram em metade o salário da nova geração de trabalhadores, a 12 e 16 dólares por hora, frente aos 32 dólares recebidos anteriormente. Essa foi a base da forte reestruturação nos EUA, onde quem pagou a conta da crise foram os trabalhadores.

Junto com isso, a empresa conseguiu altos lucros em países como Brasil, China, Coréia, e que possibilitaram uma alta remessa de lucros para a matriz. Também ocorreu uma restruturação parcial na Europa, com precarização do trabalho e o fechamento de plantas como em Antuérpia, na Belgica.

Com isso, a empresa retomou em 2011 a posição de primeira montadora do mundo, derrubando a Toyota, afetada pelos efeitos do tsunami no Japão. Em 2012 a Toyota retomou a liderança, mas por uma pequena diferença.


Reestruturação internacional

Esta receita da GM foi amplamente utilizada pelas montadoras nos EUA e no mundo levando a uma precarização geral do trabalho. Os trabalhadores hoje vêem suas condições de vida se deteriorar rapidamente. Fazer mais carros com menos trabalhadores e salários menores: é o que faz a GM se utilizando também de avançadas tecnologias.

Assim, apesar da crise econômica, cresce a produtividade do trabalho nos EUA e a competividade da empresa, que se recupera e se aproveita do pequeno crescimento do mercado automobilístico norte-americano. A GM agora se prepara para voltar integralmente à bolsa de valores e o governo Obama vender suas ações e deixar o controle da empresa.

No entanto, a forte concorrência entre os capitalistas, o crescimentos das empresas asiáticas e o aprofundamento da crise econômica na Europa fazem com que a reestruturação seja permanente e cada vez maior. Só assim as empresas podem manter suas taxas de lucros e ganhar mais força, aumentando a exploração dos trabalhadores.


Ofensiva das montadoras

Assistimos neste momento a uma sucessão de ataques, com ameaças de fechamentos de empresas em vários países e o deslocamento da produção para regiões de baixo custo. Até na Alemanha, onde não se fecha uma planta desde a Segunda Guerra Mundial, a GM quer acabar com a produção na fábrica em Bochum em 2016. Na França, a PSA GM quer fechar uma planta, demitir até 8500 trabalhadores e enfrenta uma greve neste momento.

A Ford anunciou o fechamento da planta na Bélgica no final do ano passado, o que também tem gerado protestos. As sucessivas concessões feitas nesta empresa pela burocracia sindical, com redução de direitos e salários, não impediram que a multinacional tomasse esta decisão.

Na Itália, a veterana Fiat tem promovido uma forte reestruturação com diminuição dos postos de trabalho, fechamento de plantas e chantagens sobre os trabalhadores. Com a queda das vendas na Europa, cresce a concorrência entre as empresas e as fusões para aumentar a escala de produção. Estima-se que apenas seis ou sete montadoras sobreviverão em escala mundial a esse processo.




Ataques no Brasil

A ofensiva da GM no país tem como pano de fundo esta situação. Mesmo nos países onde ainda existe crescimento de vendas, como é o caso do Brasil. A vinda de novas empresas que praticam baixos salários e normalmente se instalam em locais com fraca tradição sindical pressionam ainda mais para reestruturação. A “receita GM” se espalha da matriz nos EUA para todo mundo. Trabalhar mais com menos trabalhadores e salários mais baixos, fechar fábricas e diminuir os postos de trabalho. Por isto também deve ser enfrentada internacionalmente.

As mobilizações que se iniciam na Europa contra o fechamento de fábricas mostram o caminho. O encontro realizado em São José dos Campos (SP) no ano passado entre operários do Brasil, Espanha, Alemanha e Colômbia apontou para a necessidade da luta unificada. As recentes manifestações em Detroit (nos EUA) durante o Salão internacional do Automóvel e a realização de um dia global de manifestações no dia 23 de janeiro, apoiando a luta dos metalúrgicos da GM de São José dos Campos, são expressões dessa visão internacional.

Ainda são pequenas iniciativas, mas apontam o caminho. Contra a globalização capitalista, temos de apostar na globalização das lutas e da resistência.


Retirado do Site do PSTU

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Chavismo sem Chávez: o que vai acontecer na Venezuela?

Oposição de direita se mostra fragilizada e o chavismo tampouco aparece coeso. Enquanto isso economia se deteriora diante do agravamento da crise


Missa na Venezuela pela saúde do presidente Chavez
As últimas semanas foram de expectativas e incertezas em relação ao futuro da Venezuela. Desde que o presidente Hugo Chávez foi à televisão no último dia 8 de dezembro anunciar mais uma reincidência de seu câncer e uma nova operação em Cuba, poucas informações foram divulgadas sobre seu real estado de saúde. Foi a 4ª operação realizada desde que o mandatário revelou sofrer de câncer, em junho de 2011.

Ao contrário das outras vezes, porém, o último discurso de Chávez antes de partir para a nova bateria de tratamento em Havana, teve um outro tom. Foi a primeira vez que Chávez admitiu publicamente poder não voltar ao cargo, tomando o cuidado de indicar seu vice e chanceler, Nicolás Maduro, como sucessor no caso de novas eleições.

O governo venezuelano, por sua vez, divulgou informações esparsas e muitas vezes contraditórias após a internação do líder bolivariano. Primeiro, informou que a cirurgia realizada no dia 11 de dezembro havia sido bem-sucedida. Depois, revelou que o presidente havia sofrido uma grave hemorragia durante a intervenção, mas que já estaria se restabelecendo. Só após o "furo" de um jornal espanhol o governo admitiu que Chávez estaria passando por um grave quadro de insuficiência respiratória decorrente de uma infecção, e que estava “lutando por sua vida”.

As constantes viagens de Maduro e representantes de diversos países a Cuba, incluindo Evo Morales e Cristina Kirchner, além do assessor especial da presidência para assuntos internacionais do governo Dilma, Marco Aurélio Garcia, só aumentaram a apreensão sobre o que ocorria em Havana. Chegou-se a difundir a notícia de que o presidente estaria em coma, com seus familiares e aliados políticos apenas esperando o momento certo para decidir o desligamento dos aparelhos.

Mas qual o real estado de saúde de Chavez? Estaria mesmo em um estado terminal? Estaria vivo ainda? O governo venezuelano, em um modus operandi típico de ditaduras (incluindo a ditadura militar brasileira) sonega informações para garantir a sua autopreservação e mantém o povo em uma cortina de fumaça.


Batalha política em Caracas

Se em Havana o presidente venezuelano lutava pela vida, em Caracas abria-se uma batalha política e jurídica em torno do mandato. A direita através da Mesa de Unidade Democrática (MUD), liderada por Ramón Guillermo Aveledo, pressionou para que, diante da ausência de Chávez na cerimônia oficial de posse marcada para o dia 10 de janeiro, fosse declarada a “ausência absoluta” do presidente eleito. Diante disso, a Constituição prevê a posse interina do presidente da Assembleia Nacional e a convocação de novas eleições em 30 dias.

Os chavistas, porém, rechaçaram essa medida e, com a anuência do Tribunal Supremo de Justiça, atrelado ao chavismo, postergaram indefinidamente a posse do novo mandato. Na prática, o atual governo estendeu seu mandato até que o presidente eleito apareça, no que muitos viram um golpe de Estado. No entanto, apesar de setores da oposição terem convocado manifestações nas ruas contra essa medida, o próprio ex-candidato à presidência nas eleições de outubro e principal figura da direita no país, Henrique Capriles, governador de Miranda (importante e mais populoso estado), concordou com a decisão do tribunal. Assim como a OEA.

Mesmo assim, a fim de se contrapor às convocatórias da direita, o governo patrocinou manifestações de apoio à Chavez no dia em que o presidente deveria tomar posse, levando dezenas de milhares às ruas de Caracas. A direita, por sua vez, conseguiu reunir apenas 2 mil pessoas em um protesto contra o governo.

A atual conjuntura venezuelana, aliás, permite observar situações de extrema hipocrisia, como setores da direita que impulsionaram a tentativa de golpe em 2002 agora se arvorar como os grandes defensores do Estado de Direito. No âmbito internacional não é diferente e até mesmo o governo paraguaio, que depôs arbitrariamente o presidente eleito Fernando Lugo, cobrou do governo da Venezuela o “respeito à Constituição”.




Para onde vai a Venezuela?

Mas, para além do estado de saúde de Chavez, o que aponta a Venezuela? Apesar de a situação ser extremamente complexa, pode-ser afirmar que comoção criada e insuflada pelo governo em torno da figura de Chávez e seu drama pessoal vem conseguindo reverter parte do desgaste enfrentado pelo governo no último período.

Basta lembrar as eleições presidenciais de outubro último e as regionais em dezembro e compará-las. Apesar de Chávez ter vencido Capriles com relativa folga, a vantagem (54% contra 44%) foi a menor desde que assumiu o poder em 1998. Já nas eleições para os governos dos estados realizadas em 16 de dezembro, após a internação de Chávez, o PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela) obteve uma vitória acachapante, ganhando em 20 dos 23 estados, conquistando quatro estados da oposição.

Temos então uma oposição de direita dividida e sem muita capacidade de mobilização e um chavismo conjunturalmente fortalecido. Porém, se isso aparece de forma clara hoje, não é provável que se mantenha a longo prazo. Para começar o próprio PSUV é um palco de encarniçadas batalhas de setores do próprio chavismo. Exemplo máximo dessa divisão é o vice Maduro e o presidente da Assembleia Nacional, Diosdalo Cabello. Apesar das forçadas poses para a imprensa, é mais do que conhecido a disputa política entre os dois pelo espólio de Chávez. A própria demora em se informar o estado de saúde do presidente seria uma medida para ganhar tempo e aparar minimamente as arestas do chavismo para a composição de um futuro governo.

Em segundo lugar, o desgaste do governo expresso nas eleições de outubro pode estar revelando o início de um processo mais estrutural. O modelo no qual Chávez governou os últimos 14 anos parece estar perdendo fôlego. Apesar do discurso socialista, o governo nacionalista de Chavez administra um capitalismo que prevê a estatização parcial de setores da economia de um lado e, de outro, a expansão de programa sociais “focalizados” e compensatórios, como ocorre no Brasil com o Bolsa Família (de fato a pobreza extrema urbana teve uma redução de 49% em 1999 para 29% em 2010, segundo a ONU). De resto, o país continua pagando a dívida externa e garantindo o lucro das grandes empresas.

Não é por menos que a situação atual de Chávez assuste não só os chavistas. O diretor para mercados emergentes do Eurasia Group, Christopher Garman, expressou ao jornal Estado de S. Paulo do dia 9 de janeiro seus temores diante do atual quadro: “Existe a percepção de que uma Venezuela pós-Chávez pode ser melhor para os negócios, mas nós temos de lembrar que as instituições políticas foram criadas em torno de Chávez” , explicou, para depois afirmar: “Com a oposição ou com um chavismo sem Chávez, nossa preocupação é que a instabilidade política e institucional possa afastar os investimentos e a confiança do investidor” .

O analista de mercado expressa o que deve estar pensando o imperialismo e parte significativa do mercado financeiro internacional: os EUA tem o petróleo que tanto necessita, os credores da dívida pública recebem em dia, as multinacionais lucram e isso tudo em um ambiente de estabilidade política garantida pelo governo. Nem que para isso ele tenha que reprimir o movimento sindical que não se submete à disciplina chavista. Para que mudar?

Sem ruptura com o capitalismo ou o imperialismo, porém, o país permanece com os problemas estruturais de sempre, como a desigualdade social e a pobreza, além de estar vulnerável às crises econômicas internacionais. Essa é uma realidade que os discursos apaixonados pró-Chavez e seu “Socialismo do Século XXI” não são capazes de esconder. Em 2012, por exemplo, a Venezuela aliou baixo crescimento com uma alta inflação que superou os 20% e que come o poder de compra da população. Além disso, o país segue pagando uma dívida externa que passou de 14% do PIB em 2008 para 30% em 2010. O endividamento público como um todo chega hoje a 51% do PIB (segundo dados oficiais baseados em um câmbio manipulado) e o déficit fiscal, 20%. A violência urbana explodiu, quase triplicando no governo de Chávez.

A Venezuela, após 14 anos de Chávez, é um país desigual e mais dependente que nunca. Programas assistencialistas, estatizações parciais e um discurso pretensamente radical e anti-imperialista garantiram até agora o apoio de grande parte da população. Já o alto preço do petróleo no mercado internacional concedeu relativa tranquilidade ao país que é o oitavo maior produtor da commoditie. Mas a permanência de problemas estruturais e o reflexo do agravamento de uma crise econômica internacional no país podem minar esse apoio popular. Conseguirá o chavismo governar apoiando-se somente nas Forças Armadas?

Manter seu domínio e uma estabilidade política no país vai ser para o chavismo um milagre tão maior quanto Chávez se levantar do leito da UTI em Havana e voltar ao governo em Caracas.


Retirado do Site do PSTU

domingo, 13 de janeiro de 2013

Haiti, três janeiros depois

Reprodução
'Quem come a ajuda?' pergunta charge
Neste dia 12 de janeiro completam-se 3 anos do forte terremoto que atingiu Porto Príncipe, capital haitiana. No dia 12 de janeiro de 2010, 35 segundos foram suficientes para destruir 70% da principal cidade do Haiti, deixando um saldo de 1,5 milhão de desabrigados e mais de 200 mil mortos. As imagens da destruição e do desespero de haitianos e haitianas foram exaustivamente exibidas em todo o mundo.

A comoção mundial foi enorme, e fez com que milhões de cidadãos comuns tirassem de seus armários agasalhos e roupas ou pequenas quantias de dinheiro para doar à reconstrução do país. Até estrelas de Hollywood, como a atriz Angelina Jolie, desembolsaram vultuosas quantias de dinheiro para ajudar as crianças haitianas. Os grandes bancos internacionais e governos também fizeram sua parte. O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), ao lado do Fundo Monetário Internacional (FMI), os governos dos Estados Unidos, Canadá e França, que até então eram os maiores credores da dívida pública haitiana, perdoaram-na em sua quase totalidade.

O Plano de Reconstrução do Haiti previa o investimento de mais de 12 bilhões de dólares em alguns anos para que o país fosse reconstruído e começasse a dar os primeiros passos na superação de sua situação de miséria crônica. Três anos passados, após promessas, perdões e o desaparecimento total do país da mídia internacional, é hora de vermos o balanço do que foi feito.


O fracasso em números

Na charge acima, retirada de um artigo publicado em um dos principais jornais haitianos (Le Nouvelliste), com o título “Quem come a ajuda?”, um mirrado haitiano aparece no meio de dois enormes e bem vestidos estrangeiros brancos. O haitiano olha de um lado para o outro se perguntando: “Não vai sobrar nada pra mim?” enquanto os dois brancos se deliciam comendo a “ajuda” que é enviada ao Haiti: “uma colher pro Haiti, cinco colheres pra mim”, dizem eles.

Essa charge publicada há poucos dias resume bem o quadro atual em que sobrevivem milhões de haitianos. Segundo relatório publicado pelo organismo americano Center for Global Development, cerca de 2,3 bilhões de dólares foram destinados ao Haiti entre 2010 e 2011. Desse montante, cerca de 1% foi parar nas mãos do governo haitiano; a maior parte, no entanto, foi destinada para empresas haitianas ou estrangeiras e ONGs internacionais. Segundo outro estudo, feito pela agência norte-americana Center for Economic and Policy Research, 75% de todo dinheiro enviado pela USAID (Agência de Desenvolvimento dos EUA) ao Haiti, foi parar em empresas das regiões de Washington, Maryland e Virgínia. Os haitianos começam a se questionar se não estão no meio de negócios realizados entre os norte-americanos e os próprios norte-americanos. O governo haitiano, por outro lado, se mantém completamente impotente diante de tal realidade, com seus chefes cotidianamente envolvidos em casos de corrupção e escândalos para abocanhar as migalhas que sobram da “ajuda”.

O fracasso da chamada cooperação internacional em reconstruir o país é visível, física e estatisticamente. Ainda hoje, cerca de 350 mil pessoas continuam morando em barracas e tendas improvisadas nas praças e terrenos de Porto Príncipe, com péssimas condições de higiene, saúde e alimentação. Cerca de 1 milhão de pessoas segue vivendo nas mais de 250 mil casas que foram marcadas com sinais vermelhos e amarelos, pois correm risco de desabamento ou são impróprias para abrigarem moradores. Desde o terremoto, apenas 5911 casas foram construídas e cerca de 18 mil estão sendo reparadas atualmente.

Dados como esses se reproduzem em todos os níveis da operação de “reconstrução”. O fracasso de tal empreendimento tem causas mais profundas, que não se limitam à falta de dinheiro, à incompetência dos agentes envolvidos e tampouco à corrupção de haitianos ou estrangeiros. Tal fracasso já era previsível desde o início da “reconstrução”, já que seu plano foi elaborado para dar errado... para alguns.


A “cooperação internacional”

Mas não são todos que saem perdendo. A chamada “cooperação internacional”, sistema que administra a “ajuda” ao Haiti, articula governos imperialistas e suas agências de desenvolvimento (como a USAID norte-americana), ONGs de todo o mundo, empresários e grandes organizações internacionais, como a ONU e o Banco Mundial. Esse sistema obedece à sua própria lógica, a lógica da reprodução da pobreza, que mantém os países subdesenvolvidos no subdesenvolvimento e responde aos interesses dos centros imperialistas.

Basta olharmos hoje para a situação de muitos países africanos que se libertaram de suas antigas metrópoles nas décadas de 1960 e 1970, como Moçambique, Angola, Senegal, entre outros, para entendermos onde se situa o Haiti. Nas últimas décadas, esses países foram completamente invadidos por ONGs internacionais e sofreram diversos tipos de intervenções por “missões de paz” da ONU, como atualmente é o caso do Mali. As “missões humanitárias” em países africanos, bem como no Haiti, já duram muito tempo e só deixam um rastro atrás de si: mais miséria. Isso levou o escritor Graham Hancock a chamar os grandes agentes da “ajuda internacional” de “senhores da pobreza”. Quanto mais pobreza, mais necessária é a presença de ONGs e de “intervenções humanitárias”. Quanto mais pobreza, mais se passa a ideia de que os negros africanos ou haitianos são completamente incapazes de se governar, o que justifica a presença das intervenções e ocupações militares. Quanto mais ONGs e “ajuda humanitária”, mais pobreza e colonização. O Haiti hoje é parte dessa lógica, que não começou a ser determinante apenas após o terremoto, mas funciona cada vez melhor desde as ditaduras de Papa e Baby Doc.

As grandes ONGs internacionais abocanham a maior parte dos recursos que são destinados ao país. Basta andar algumas horas por Porto Príncipe para perceber que há dois mundos diferentes e incomunicáveis – o mundo dos brancos, estrangeiros, e o mundo dos negros, haitianos. Os cooperantes internacionais comem do bom e do melhor em restaurantes que se proliferaram pelos bairros mais ricos de Porto Príncipe nos últimos anos. Andam de jipes e caminhonetes 4x4, ostentando seus óculos escuros e celulares de última geração. Moram em mansões ou se hospedam em hoteis que custam mais de 100 dólares a diária. Os cooperantes internacionais vivem vidas que não poderiam viver em seus países, vidas de burgueses. A parte mais nobre de Porto Príncipe, o subdistrito de Petiónville, recebeu até um novo shopping, onde os brancos podem fazer suas compras sem serem incomodados pela visão de uma cidade às avessas.

Além de sugarem as riquezas do país e terem dezenas, muitas vezes centenas de trabalhadores assalariados sob suas ordens, as ONGs prestam proveitosos serviços para aqueles que se aproveitam da miséria do povo. A ONG brasileira Viva Rio, por exemplo, amplamente conhecida no Rio de Janeiro pelo seu “valoroso” trabalho prestado nas comunidades de periferia ao lado da assassina Polícia Militar, hoje financia projetos nas periferias de Porto Príncipe que visam cooptar lideranças populares para seus empreendimentos, tentando, assim, garantir a paz da miséria em cima dos barris de pólvora que são essas comunidades. Ao lado da ocupação militar, que “garante a paz” pela violência, as ONGs “garantem a paz” pela cooptação e contenção da rebeldia popular.


A paz a serviço de quem?

Em uma pequena cidade no norte do Haiti, com cerca de 9 mil habitantes, foi inaugurado, em abril do ano passado, aquele que tem o potencial para ser o maior parque industrial do Caribe. Uma parceria entre o governo haitiano, a embaixada dos EUA e o Banco Interamericano de Desenvolvimento, quer gerar, nos próximos 5 anos, cerca de 20 mil empregos diretos no parque industrial de SONAPI, que tem potencial para empregar até 65 mil pessoas, dependendo de sua capacidade de atrair investidores estrangeiros. A empresa coreana Sae-A, uma das maiores manufatureiras de roupas do mundo, já ocupou os primeiros galpões e serve de exemplo aos investidores.

A construção dessa zona franca, iniciada há 2 anos, já começou polêmica. As famílias que possuíam plantações no território onde foi posteriormente instalado o empreendimento perderam suas terras do dia para a noite. Um padre com quem conversei, hoje líder da associação dos camponeses afetados pela construção do parque, me contou que os agricultores foram informados que perderiam suas terras no mesmo dia em que as perderam. “Nem o prefeito de Caracol sabia que o parque seria instalado na cidade”, disse ele. O empreendimento foi aprovado na alta cúpula da burocracia norte-americana e repassado às autoridades haitianas, que o implementaram.

Caracol e as cidades vizinhas ao parque devem receber milhares de imigrantes nos próximos anos, ávidos em busca de um emprego num país com taxa de desemprego formal de mais de 80%. É de comum conhecimento que a cidade se tornará uma enorme favela. Um funcionário haitiano da embaixada dos EUA, que preferiu não ser identificado, me disse um dia: “todo mundo sabe que Caracol vai ser uma nova Cité Soleil”, fazendo referência ao bairro mais pobre da América, na periferia de Porto Príncipe, que cresceu assustadoramente nos últimos anos com a presença de trabalhadores em busca de emprego na indústria de transformação.

Ao se mudarem para Caracol nos próximos anos esses imigrantes, talvez ainda com alguma esperança de levarem uma vida melhor, se depararão com situações muitas vezes piores do que possuíam antes de se mudar, já que não terão onde morar, seu acesso a água potável será muito difícil, trabalharão muito para ganhar um salário de miséria, de 25 a 30 dólares por semana e sofrerão enormes abusos por parte de seus chefes. Os grandes empresários capitalistas serão os principais beneficiados com isso, não apenas os donos das fábricas manufatureiras, mas os grandes burgueses acionistas de marcadas como Levi's, GAP, Tommyhilfinger, Timberland e muitas outras que verão no Haiti grandes oportunidades de lucros.


Uma ocupação militar para manter tudo sob controle

Em meio a tamanha exploração, a revolta e indignação por parte dos operários e operárias não tardará a chegar. A resposta dos empresários, do governo haitiano e da Missão da ONU será rápida e eficiente – repressão e violência. A história se repetirá aos trabalhadores.

A MINUSTAH (Missão da ONU no país, encabeçada pelo governo brasileiro) é a principal agente da repressão. Para se ter uma ideia da necessidade imperiosa da permanência das tropas da ONU no país, um exemplo pode ser ilustrativo. No início do ano passado, o sindicato dos operários da zona franca de Ouanaminthe, cidade localizada na fronteira com a República Dominicana, ameaçou realizar um piquete e parar os mais de 6 mil operários do parque industrial. Apenas a possibilidade do piquete e da greve por melhores condições de trabalho fez com que a MINUSTAH deslocasse soldados chilenos para a porta da zona franca e impedisse o sindicato de tomar qualquer atitude. As tropas da ONU foram acionadas pelos empresários à primeira manifestação de um conflito trabalhista, cumprindo um papel de segurança da empresa.

Para se ter uma ideia do poder que têm os trabalhadores industriais no Haiti, basta nos atermos a alguns dados. A cidade de Ouanaminthe, por exemplo, possuí cerca de 100 mil habitantes. Seu efetivo policial é de cerca de quinze policiais, o que demonstra por si só que o Haiti não é um país violento, como nos querem fazer acreditar (ou algum de nós consegue imaginar uma de nossas cidades com 100 mil habitantes e tal quantidade de policiais?). O Haiti também não possui um exército nacional, que foi dissolvido pelo ex-presidente deposto Jean-Bertrand Aristide. A única força militar capaz de conter a rebeldia de milhares ou dezenas de milhares de operários tem um nome, se chama MINUSTAH e é uma das principais políticas internacionais defendidas pelos sucessivos governos do Partido dos Trabalhadores no Brasil. As tropas brasileiras hoje presentes no Haiti têm apenas uma função: garantir que tudo continue como está. Nós, trabalhadores brasileiros, temos o dever de nos colocar ao lado dos trabalhadores haitianos, e não de seus carrascos, os soldados brasileiros.

Passados três anos do terremoto e quase 9 anos da intervenção militar da ONU, nós do PSTU reafirmamos: Fora as tropas brasileiras e internacionais do Haiti! Só haverá reconstrução com soberania! Viva a luta dos trabalhadores e trabalhadoras haitianos!


Retirado do Site do PSTU

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Gaza sob ataque: Israel e ANP saem enfraquecidos

Crianças palestinas mortas durante ataques de Israel a Gaza
Após uma semana de intensos bombardeios sob a população civil de Gaza e a ameaça de uma invasão por terra, a exemplo da operação “Chumbo Fundido” de 2009, Israel foi obrigado a aceitar uma trégua com o Hamas no final desse dia 21 de novembro, quarta-feira.

Com a mediação do governo egípcio, ficou acertado o cessar fogo frente a algumas condições. O Hamas cessa o lançamento de foguetes e impede que outros grupos lancem, e Israel "afrouxa" o bloqueio que asfixia a população da Faixa de Gaza. Foi uma vitória, ainda que parcial, dos palestinos, que saíram às ruas para comemorar.

Oito dias de bombardeios israelenses deixaram um rastro de destruição em uma já combalida Gaza, e mais 166 mortos palestinos. No dia 22, um dia após a trégua, soldados israelenses executaram com tiros na cabeça mais um jovem palestino de apenas 23 anos que estava próximo à fronteira, mostrando que o cessar fogo não é tão sólido diante da fúria assassina do Estado de Israel.


Israel: terrorismo de Estado

Os ataques à Gaza se intensificaram com o assassinato de Ahmed Jabbari, líder das Brigadas Ezedin al Qasam, braço militar do Hamas. Jabbari, egresso do Fatah, foi o responsável pelo processo de negociação e troca do soldado isralense Gilat Shalit (preso em 2006 pelo Hamas) por mil presos políticos palestinos em 2011. Ao contrário da propaganda israelense que o caracteriza como um "radical terrorista", especula-se que no último período o dirigente estivesse envolvido em um processo de negociação de paz com Israel.

Ou seja, a ação militar desencadeada por Israel contra Gaza, batizada de "Pilar de Defesa", nada tem a ver com a segurança da população israelense ou os mísseis lançados pelo Hamas e outros grupos como resposta ao assassinato de Jabari. Tem sim a ver com as iminentes eleições legislativas no país, marcadas para janeiro de 2013, e a união dos partidos da ultradireita israelense, o Likud do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o ultrancionalista Yisrael Beitenu do Ministro das Relações Exteriores, Avigdor Lieberman. Uma guerra agora unificaria o país, reforçando o sentimento nacionalista e amarrando o apoio da população para 2013.

"A união entre o Likud e o Yisrael Beitenu permitiria proteger israel diante das ameaças de segurança e o poder de fazer as mudanças econômicas do país", declarou à imprensa israelense Netanyahu. Os ataques à Faixa de Gaza, assim, serviram para distrair a atenção diante da crescente insatisfação com a inflação, a crise econômica e os cortes no orçamento impostos pelo governo do estado judeu. Demarca, principalmente, uma guinada ainda mais à direita, expressão dessa coalizão ultrancionalista e anti-palestina.


Uma outra situação

O recente bombardeio à Gaza não deixa ainda de ser uma resposta ao isolamento de Israel diante das revoluções e revoltas trazidas pela “Primavera Árabe”. O enclave militar do imperialismo no Oriente Médio sente necessidade de uma demonstração maior de força num momento em que já não conta com tradicionais aliados na região, e que outros tantos estão ameaçados.

O ex-ditador do Egito, Hosni Mubarak, sempre foi um auxílio a Israel no bloqueio das fronteiras de Gaza (em Rafah). Já o novo governo, encabeçado por Mursi e a Irmandade Muçulmana, embora se mantenha subserviente aos EUA (de quem depende financeiramente), já não pode atuar de forma abertamente favorável a Israel. A visita do primeiro-ministro egípcio Hisham Qandil à Gaza em pleno bombardeio, nesse sentido, foi vista como algo histórico.

Já o ditador sírio Bashar Al Assad, que embora no discurso apoie a causa palestina, sempre foi visto por Israel e os EUA como um garantidor da “estabilidade” no Oriente Médio e nas colinas de Golã. Outro aliado que faz fronteira com Israel, a Jordânia, vive uma onda de protestos inspirada na Primavera Árabe que ameaça a ditadura do rei Abdullah.


Quem saiu perdendo?

Apesar do cessar fogo, Israel tem seguido com provocações e ataques sistemáticos contra a população palestina. Além do assassinato do jovem palestino na fronteira com Gaza, que deixou vários feridos, o Exército sionista realizou dezenas de prisões na Cisjordânia. A região contou com fortes mobilizações contra os ataques de Israel, que se enfrentaram com as forças de segurança da Autoridade Palestina. Mas, ainda que a situação seja extremamente instável, pode-se dizer que Israel saiu enfraquecido. Percebeu que a região hoje, conflagrada, já não é a mesma que em 2009, quando pôde invadir Gaza e impor um saldo de 1400 mortos sem maiores problemas.

A Autoridade Nacional Palestina de Mahmoud Abbas, que controla a Cisjordânia, também sai abalada. Os ventos da Primavera Árabe se chocam com a política pró-Israel de Abbas e o seu governo de colaboração. Recentemente, quando Israel se preparava para atacar Gaza, o presidente da ANP deu uma declaração a uma TV israelense que foi tomada como uma renúncia ao direito de retorno. "Quero ver Safed. É meu direito vê-la, mas não morar lá", afirmou referindo-se à cidade em que passou a infância e que hoje integra o território israelense. Além disso, a população dos territórios ocupados percebe que, uma década após os Acordos de Oslo, a vida não melhorou, ao contrário.

Por outro lado, o Hamas se vê fortalecido, militar e politicamente. Apesar de estar muito longe de fazer frente às forças armadas israelenses, o Hamas e outros grupos como a Jihad Islâmica já não contam apenas com foguetes caseiros que atingiam apenas o sul de Israel. Agora, apesar do ainda muito modesto poder de destruição, Jerusalém e Tel Aviv estão no alvo.

Vai ficando cada vez mais claro, sobretudo, que a resistência do povo palestino contra o cerco e terror imposto por Israel e as revoluções árabes e do Norte da África, fazem parte de uma mesma luta. E ambas não tem como sair vitoriosas sem enfrentar esse enclave imperialista incrustado no Oriente Médio.


LEIA MAIS

LIT-QI: Não à matança sionista em Gaza!


Retirado do Site do PSTU

sábado, 17 de novembro de 2012

Israel ataca Faixa de Gaza e prepara novo massacre na região

Estado judeu utiliza justificativa de retaliação para bombardear população civil de Gaza


Bombas de Israel já atingiram mais de 600 pontos de Gaza

Mais uma vez, Israel volta seus canhões a Gaza, bombardeia o território palestino e ameaça uma nova invasão, quase quatro anos após o massacre perpetrado entre 2008 e 2009 e que ceifou 1400 vidas. A nova escalada de ataques contra a Palestina explodiu no dia 14 de novembro, com o assassinato de Ahmed al Jabari, dirigente do braço armado do Hamas, as Brigadas de Izz el-Din al Qassam. O líder foi atingido por um míssil enquanto dirigia seu carro pelas ruas de Gaza, em uma série de ataques da operação “Pilar de Defesa”, impulsionado pelo Exército sionista.

O Hamas respondeu à agressão disparando foguetes contra Tel Aviv e o sul do país. Segundo autoridades israelenses, três pessoas morreram na cidade de Kyriat Malaji. Foi o que Israel esperava para desatar ataques ainda mais duros contra a população civil do território ocupado. A série de ataques a bomba deflagrada no dia seguinte, enquanto o dirigente do Hamas era sepultado, matou 19 pessoas, entre elas três crianças.

Ao todo, 27 palestinos já morreram e os feridos passam de 250, grande parte crianças, incluindo o filho de fotógrafo da BBC de apenas onze meses. As imagens do fotógrafo em prantos carregando nos braços o bebê sem vida roda o mundo e se torna a expressão mais acabada da selvageria imposta pelo Estado de Israel aos palestinos.


Eleições e Estado palestino na mira de Israel

Essa nova onda de ataques ocorre após dias de uma tensão crescente na fronteira entre Gaza e Israel. No último dia 10 um tanque israelense, em um gesto de provocação, circulou pela fronteira e foi alvo de disparos do Hamas. A resposta foi selvagem e deixou cinco mortos. Os ataques e incursões de Israel na fronteira, porém, já ocorriam desde o início do mês.

Nos últimos três dias, Israel atacou mais de 600 pontos de Gaza, destruindo prédios e residências. A cidade vive dias de terror. Enquanto as ruas estão desertas e o comércio fechado, aglomerações só ocorrem nos funerais das vítimas do Exército israelense. A população, que já sofre os efeitos do bloqueio e isolamento reforçados por Israel após a subida do Hamas ao poder em 2007, enfrenta o medo diário dos aviões e drones israelenses, como assim como uma iminente invasão.

Israel divulgou nesse dia 16 a convocação de 75 mil reservistas, indicando que pode iniciar uma invasão por terra à Faixa de Gaza em instantes. “Esta escalada vai determinar o preço que o outro lado vai pagar” , afirmou o ministro da Defesa, Ehud Barak. Já setores da ultradireita pedem diretamente o assassinato do primeiro-ministro de Gaza, Ismail Yaniyeh.

Ao que tudo indica esse novo ataque perpetrado por Israel contra Gaza é uma forma de o atual governo de Benjamin Netanyahu amarrar o apoio da população num momento em que se aproximam as eleições legislativas, marcadas para o dia 22 de janeiro. Mas não é apenas o Hamas que está no alvo de Israel. O presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, quer aprovar a proclamação do Estado palestino na próxima assembleia geral da ONU, no dia 29 de novembro, contra a vontade de Israel.

Apesar de os termos defendidos por Abbas estarem bem longe das reivindicações históricas dos palestinos, e da própria ANP servir como um governo títere do estado judeu, Israel se opõe frontalmente à formação do novo estado. O ministro das relações exteriores do país, Avigdor Lieberman, afirmou que, caso prospere a intenção da ANP na ONU, não restaria a Israel outra opção que não “derrubar” Abbas e “destroçar” a Autoridade Nacional Palestina.


Fotógrafo da BBC segura filho morto em ataques de Israel


Pretexto para um novo massacre

Enquanto convoca milhares de reservistas, Israel determinou nesse dia 16 de novembro o fechamento das estradas ao redor de Gaza. Com o apoio dos Estados Unidos de Barack Obama, o estado sionista prepara um novo massacre no território a exemplo do que fez na Operação Chumbo Fundido, há seis anos, quando matou 1400 palestinos em 22 dias de ataques massivos sobre a população civil de Gaza.

Como atesta o blogueiro e ativista judeu Max Ajl, “a categoria de Israel de ‘retaliação’ não existe. A ocupação é um terror constante e é o que gera a violência palestina, e assim os líderes israelenses podem apresentar como uma justificativa retroativa para as políticas que aplicam em busca de uma quimera de ‘segurança’”.

Neste momento, mais do que nunca, é preciso cercar de solidariedade a luta do povo palestino e denunciar os crimes e atrocidades do Estado de Israel.


Retirado do Site do PSTU

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Obama vence eleição, mas já não desperta grandes ilusões

Presidente é reeleito com mais dificuldades do que há quatro anos
 


Obama é reeleito com diferença menor que em 2008

Após meses de uma acirrada corrida eleitoral, Barack Obama é reeleito presidente dos EUA. O seu principal adversário, Mitt Romney, do Partido Republicano, um multimilionário ex-executivo de empresas de investimento, perdeu na votação por Estado e no voto popular. O sistema eleitoral nos EUA é indireto e o peso do voto dos delegados de cada estado é superior ao peso da população.

Obama levou 303 dos 538 votos dos delegados por Estado, e 50,2% dos votos populares contra 48,3% angariados pelo Partido Republicano. Até o momento do fechamento desta matéria, apenas o dividido Estado da Flórida não tinha manifestado os votos dos 29 delegados. O resultado do estado, entretanto, não influenciará o resultado final, pois Obama já alcançou os 270 votos necessários para a vitória. O Partido Democrata conta com a maioria no Senado, mas tem menos assentos na Câmara de Representantes, algo semelhante à Câmara de Deputados no Brasil.

Obama, no entanto, não conseguiu manter o mesmo número de eleitores que conquistou em 2008, e a diferença de votos entre republicanos e democratas foi reduzida em relação à eleição anterior. Contra o então candidato McCain, Obama havia vencido com 52,9% dos votos, contra 45,6%, uma vitória bem mais folgada que o resultado apertado deste ano.

O primeiro presidente negro dos EUA eleito em 2008 venceu esta reeleição com mais dificuldade que há quatro anos, quando o sentimento de mudança contagiou os americanos, descontentes com os oitos anos do governo de George W. Bush. Na época, o sonho de mudança diante do colapso da economia, do alto índice de desemprego e da derrota no Iraque e no Afeganistão foi traduzido nas urnas com a vitória de Obama, que simbolizava a esperança do novo, embora fosse uma das principais lideranças do Partido Democrata que há décadas se reveza com o Partido Republicano no poder aplicando a mesma política.

Agora, após quatro anos no comando do império norte-americano, Obama teve que resgatar a tática do medo, destacando uma possível volta dos anos Bush sob a roupagem do direitista Romney. Com os slogans “Pra Frente”, “Mais quatro anos” e “América avança”, a campanha de Obama buscou se apoiar no sentimento da população de não querer voltar ao passado, ao período de colapso da economia e da redução do padrão de vida da Era Bush (2000-2008). Ao mesmo tempo, tentou fugir do balanço do seu governo, que também teve sua cota de responsabilidade nos cortes de direitos e conquistas dos norte-americanos.

O candidato democrata contou ainda com os posicionamentos conservadores expressados por Romney, nas prévias do Partido Republicano, sobre temas como aborto e contracepção, imigração, direitos sindicais e LGBT. Obama conseguiu surfar também na tímida recuperação do índice de desemprego durante a campanha, que teve o menor índice desde janeiro de 2009.


Candidato derrotado Mitt Romney


Mais quatro anos

Com a vitória em uma das eleições mais caras dos EUA, na qual os candidatos e seus aliados gastaram juntos cerca de US$ 2 bilhões, as expectativas sob o segundo governo Obama não são tão eufóricas quanto foi em 2008. Nestes últimos quatro anos, Obama foi o responsável por aplicar os planos de cortes contra a classe trabalhadora para salvar banqueiros e empresários da crise econômica mundial. Não só suas promessas de mudança não foram cumpridas, como deu continuidade às políticas da Era Bush, como as guerras imperialistas, a manutenção da desregulamentação financeira, ampliação dos programas de Livre Comércio e a intensificação dos ataques aos trabalhadores, com cortes nos serviços públicos e a entrega de trilhões de dólares públicos para os grandes bancos e empresas.

A tendência do aprofundamento da crise econômica deverá resultar em mais ataques aos trabalhadores americanos nos próximos quatro anos. Neste sentido, a vitória de Obama nas eleições não tem o mesmo peso político que em 2008. O candidato democrata segue sendo o melhor nome da burguesia para impor à classe trabalhadora estadunidense a conta dessa crise, mas não encontrará a mesma tranquilidade para impor seus ataques.

A resistência dos trabalhadores aos efeitos da crise já respingou no coração do capitalismo. Ainda que no patamar mínimo quando comparado às lutas na Europa, os movimentos que explodiram nos EUA mostram a insatisfação com a política de Obama para superar a crise. Os protestos do ensino superior em 2009-2010, a resistência de Wisconsin e o movimento Occupy em 2011, a greve em uma das maiores empresas de telecomunicação dos EUA, em várias empresas de energia elétrica e luz e dos trabalhadores da saúde em uma das maiores redes hospitalares do país , assim como os protestos estudantis na Califórnia em 2012, já mostram a disposição de luta do povo norte-americano.


Retirado do Site do PSTU

sábado, 20 de outubro de 2012

Para onde vai Hugo Chávez?

Presidente sofreu importante desgaste em setores dos trabalhadores
As eleições na Venezuela foram cuidadosamente acompanhadas em todos os países da América Latina e muitos outros além do nosso continente. Adversários políticos dos governos da Argentina e de outros países acompanharam Henrique Capriles, enquanto outros torciam para Hugo Chávez. As expectativas são bastante compreensíveis. Chávez, após 14 anos no cargo, enfrentou pela primeira vez uma oposição unida ao mesmo tempo em que enfrentava um crescente desgaste entre os trabalhadores, sua base social tradicional.

O que aconteceu na eleição?

Chávez venceu as eleições com 55,25% (8.136.964) dos votos em uma eleição com pouca abstenção: votaram mais de 80% do eleitorado. O número de votos do partido do governo não é pouca coisa quando você considera os 14 anos do chavismo no poder.

Porém, é importante notar que a oposição burguesa liderada por Capriles conseguiu um salto significativo para obter mais de 6 milhões de votos, dois milhões a mais do que na eleição passada (um crescimento de 50%).

O resto dos candidatos dividiu um número muito pequeno de votos, quase 80 mil, mostrando a grande polarização entre os dois principais candidatos. Neste quadro, a candidatura de Orlando Chirino, a única que apresentava independência de classe, conquistou 4.103 votos.


A ruptura com Chávez

Mas os números e o triunfo de Chávez não podem nos confundir. As eleições se realizaram em um cenário prévio de luta, manifestações e protestos com reivindicações de salários, serviços (especialmente água, eletricidade e infraestrutura), acordos coletivos e uma longa lista de reivindicações. Muitas delas apresentavam antigas reivindicações e continuam depois das eleições, pois falta resposta a elas.

A perseguição dos líderes sindicais que impulsionavam essas lutas, ou simplesmente não se encaixam no partido de Chávez (como é o caso de Rubén González, que foi preso por mais de um ano e agora será julgado por liderar um protesto em 2009), a burocratização das organizações dos trabalhadores e a corrupção, produziram rupturas de setores importantes com Chávez. Isso explica o crescimento eleitoral de Capriles. Seus votos vêm principalmente da classe média, mas também de um setor importante dos trabalhadores do petróleo, que desempenhou um papel heróico contra a sabotagem petroleira (lockout) de 2003; os trabalhadores que lutaram pela nacionalização e controle da Sidor (Siderúrgica de Orinoco, nacionalizada em 2008); e da empresa da Corporación Venezolana de Guayana; e dos professores e trabalhadores da educação.

Esses trabalhadores não querem deixar para trás toda a sua luta. Tem expectativas em Chávez e seu governo e querem resolver seus problemas. Muitos escolheram, de maneira confusa, a opção por "punir a insensibilidade do governo e da burocracia." Tal sentimento foi usado por Capriles que tentou passar uma imagem de "progressista" e “democrático”. O candidato chegou a dizer que tem simpatia por Lula e disse que vai manter as políticas sociais de Chávez, porém com "mais eficácia e livre da corrupção".


Mas ... e os 8 milhões de votos?

Chávez conquistou uma grande quantidade de votos. Alguns desses votos vêm dos setores populares que, de alguma forma, se beneficiaram com as "missões" (programas que subsidiam a habitação, educação, saúde, alimentação etc., financiado com a alta dos preços internacionais do petróleo) e também um setor importante da classe trabalhadora. Não pode se desprezar também o voto das Forças Armadas Bolivarianas, que ocupa posições de poder dentro do aparelho do Estado, incluindo o Ministério da Defesa no comando do general Rangel Silva, entre vários militares lideranças dos governos "democráticos e socialistas".

Mas essa grande votação não expressa um entusiasmo ou um cheque em branco para o presidente. Há grande desconfiança e rejeição. Tanto é assim que, nas semanas finais da campanha "desapareceram" dos comícios todos os ministros, governadores e burocratas que adornavam os discursos de Hugo Chávez. Foram substituídos por músicos jovens e estudantes. Na hora de votar, muitos tiveram medo de algum "pacote neoliberal secreto como os aplicados na Europa", uma agitação que marcou a campanha de Chávez.

Na campanha, Chávez não se cansou de perguntar: "vocês acham que a direita vai manter construção de casas e as missões? Vai eliminá-las!", "Você vai permitir que eles acabem com nossas conquistas?" "Não! Não é certo?", agitava em seus discursos.

Milhares de trabalhadores do Estado, muitos deles terceirizados, não arriscaram pôr em perigo a estabilidade já precária de seus empregos. Assim, pensando que o pior estava por vir, (e apesar da raiva contra a burocracia e a corrupção do PSUV - Partido Socialista Unido da Venezuela) e na ausência de uma alternativa visível, optaram por votar em Chávez, para evitar o “ajuste neoliberal ".


"Obama votaria em Chávez"

Mas o discurso de Chávez também se dirigiu à burguesia. Em entrevista a Telesur, ele disse: "Minha vitória convém a eles, disse aos proprietários das grandes redes de televisão, os donos das grandes empresas privadas, que convém a toda a burguesia porque Chávez aqui garante paz, a tranquilidade e o desenvolvimento do país . Eu sou a garantia de que eles continuem a ganhar dinheiro. Sou a garanta de estabilidade”

Também chamou os empresários a realizarem “bons negócios” associado às empresas imperialistas com as empresas do Mercosul. Para garantir que os empregadores não deveriam ter medo, Chávez soltou: "Se Obama vivesse em Caracas, Chávez votaria em Obama. É um cara bom" (Telesur)

Nos últimos dias da campanha, Chávez apontou para o “diálogo” e deslizou até com a possibilidade de uma anistia para os golpistas, como Pedro Carmona, empresário golpista exilado em Miami, "dentro da Constituição". (Entrevista com TeleVen em 4/10/2012).

O processo revolucionário venezuelano, aberto nos primeiros anos do século, não foi derrotado. Para além dos refluxos momentâneos, ele ainda segue vivo. E as lutas vão se incrementando diante o fracasso do programa democrático burguês de Chávez para dar resposta aos problemas operários. Chávez se apresenta até agora como uma garantia de contenção, uma barreira que desvia as lutas.

Este permanente chamado à burguesia, à oposição a dialogar, ao mesmo tempo em que afirma que foi o responsável por tirar o país da beira do abismo, só pode ser entendido no marco da crise econômica mundial, que já se fez sentir em 2008 e que se aproxima novamente da Venezuela

Quem pagará pela crise caso Chávez convoque uma “unidade nacional” com os patrões para que garantam seus bons negócios? Como já denunciamos em 2008, o aumento do IVA, a desvalorização cambial e a inflação (medidas adotadas pelo governo diante da crise) fizeram que os prejuízos dos patrões fossem jogados nas costas dos trabalhadores!


Votação de Chirino

A votação a Orlando Chirino foi baixa, ainda que significativa, apesar da polarização. Os esforços da cada partido em apresentar uma candidatura classista como alternativa não atingiram os milhares de colegas que não encontraram um ponto de referência.

Nós da Unidade Socialista dos Trabalhadores impulsionamos a candidatura de Chirino, entre os trabalhadores fabris, estatais, estudantes e setores de vanguarda do movimento operário.

No entanto, a baixa votação de Chirino não se chocou com a polarização. Em nossa opinião, também jogou contra a campanha o fato de que não se tenha formado uma frente de todas as personalidades e partidos que deram apoio a Chirino. Essa possibilidade existiu e o PSL, que poderia ter convocado e concretizado esse frente, não a fez, apesar da pré-disposição da UST e de Opção Operária. Isso foi um erro, ainda que a frente não tivesse rompido a polarização, mas poderia ter sido apresentada com maiores possibilidades, como um ponto de referência para esses milhares de desiludidos com Chávez. Esperamos que isso sirva como experiência.


As tarefas por diante

Constatada a importante ruptura com o chavismo, abre-se a possibilidade de lutar por uma fatia dos lutadores e ativistas que começaram a buscar uma alternativa. Por isso, devemos participar e impulsionar as lutas que estão se dando e aquelas que inevitavelmente virão. Junto com isso, começam a surgir novos sindicatos que precisamos ajudar a consolidar para que possam serem reconhecidos.

É tarefa fundamental a construção de uma ferramenta política revolucionária, implantada na classe operária e setores populares. Em dezembro serão realizadas as eleições regionais para governadores e deputados. É uma oportunidade para chegar a todos aqueles que buscam uma alternativa ao chavismo e seus burocratas. A UST chama todos para essa luta. Vamos participar das eleições com candidatos nas cédulas do PSL com o objetivo de defender o programa de independência de classe e construir a ferramenta revolucionária dos trabalhadores.


Esclarecendo confusões

Os revolucionários aproveitam a intervenção nas campanhas eleitorais para fazer propaganda do programa operário e socialista. Os espaços na imprensa burguesa são escassos, por isso devemos ser muito cuidadosos na hora de fazer declarações. No jornal Universal (27/9/2012), em uma reportagem, Orlando Chirino expressou corretamente que chegou a hora dos trabalhadores governarem. Mas quando explicou quais seriam as medidas que tomaria esse governo, Chirino gerou uma grande confusão ao afirmar que “quanto ao aparelho produtivo há que se sentar com os investidores para fixar regras claras e recuperar as instituições para atrair investimentos. Isso passa por melhorar o salário e discutir um plano geral para garantir emprego estável e de qualidade e segurança social.”

Quando se referiu às expropriações de Chávez disse: “Tudo o que está fora da lei se revisará. Terá que se escutar todos os envolvidos, donos, comunidades e sindicatos. Não temos problemas com isso. Nosso governo garante a plena liberdade sindical e à iniciativa privada”.

Nada do que foi dito está no programa apresentado pelo PSL que apoiamos. Não vemos porque seria necessário sentar-se com os investidores… para atrair investimentos, quando o principal setor da economia que os investidores estão de olho é o petróleo que propomos nacionalizar totalmente. Também não entendemos a razão de se revisar as expropriações com os “donos” (as multinacionais também?), nem porque garantir “a iniciativa privada”. Essas confusões, que devem ser esclarecidas, dificultam o diálogo com os lutadores, sobretudo com os das empresas expropriadas para que possam compreender o programa revolucionário.


Retirado do Site do PSTU

sábado, 29 de setembro de 2012

Aborto legal e seguro para salvar vidas

28 de setembro é o Dia Latino-Americano e Caribenho pela Descriminalização e Legalização do Aborto


Ato em defesa do direito ao aborto, em 2005
Muitos pensam que a criminalização é a melhor forma de evitar que o aborto aconteça, o que não é verdade. Quando analisamos os dados a conclusão é oposta. Na América Latina, onde o aborto é considerado crime na imensa maioria dos países, a taxa de aborto (número de abortos ocorridos a cada mil mulheres) é a mais alta do mundo. Nas regiões onde o aborto é legalizado ocorre o oposto, as taxas de aborto são menores.

No continente, apenas quatro países legalizaram o aborto: Cuba, México (apenas na Cidade do México), Porto Rico e Uruguai. Até mesmo o aborto terapêutico, em caso de risco a vida da mulher, é proibido em muitos países, como é o caso do Chile, El Salvador, Haiti, Honduras, Nicarágua, República Dominicana e Suriname. No último mês, um triste fato mostrou a intransigência dessa legislação conservadora: uma adolescente de 16 anos, grávida e portadora de uma grave doença, morreu na República Dominicana, porque os médicos se recusaram a iniciar um tratamento contra o câncer.

Esses números demonstram que o argumento comumente usado por aqueles que são contrários ao aborto, de que a legalização deste procedimento tornaria o aborto uma prática generalizada e o transformaria em um método contraceptivo, não passa pela prova da realidade.

Na América Latina ocorrem 4,4 milhões de abortos por ano. 95% deles são considerados inseguros, e aproximadamente 1 milhão de mulheres são internadas em razão de complicações do aborto mal feito.

O aborto é a primeira causa de mortalidade materna no Chile, na Argentina, na Nicarágua e no Paraguai. Nos outros países é uma das primeiras. São milhões de mulheres que colocam suas vidas em risco.

Outro argumento comumente usado contra o aborto, a defesa da vida, se mostra falso diante desses números. A criminalização mata as mulheres e não inibe o aborto.


Quem são as mulheres que abortam?

Uma pesquisa sobre o perfil das mulheres que abortam no Brasil aponta que elas têm entre 20 e 29 anos, vivem em união estável, têm até oito anos de estudo, são trabalhadoras, católicas, com pelo menos um filho e usam métodos contraceptivos. Essas mulheres recorreram ao aborto como uma tentativa desesperada de interromper uma gravidez indesejada.


A situação no subcontinente 

A América Latina está repleta de governos de “frente popular”, que se dizem de esquerda. Mesmo havendo mulheres à frente de alguns desses governos, não houve avanço em quase nada nos direitos das mulheres. Dilma no Brasil é um exemplo emblemático. O aborto foi um dos principais temas debatido no segundo turno que a elegeu presidente e o PT optou pela aliança com os setores mais conservadores lançando um compromisso por escrito (Carta ao Povo de Deus) de não modificar a legislação sobre o aborto.

No Uruguai, a recente legalização do aborto é uma exceção, infelizmente. Com a crise econômica, os governos do mundo inteiro tem feito o oposto. Nos Estados Unidos, país em que o aborto é legalizado desde 1973, Obama encaminhou ao congresso, no bojo da reforma da saúde, a restrição ao uso de recursos públicos para o aborto. Os recursos só seriam permitidos nos casos de estupro, incesto, ou para salvar a vida da gestante. O mesmo tem acontecido na Europa: o aborto é um dos direitos que está sendo ameaçado pelos planos de austeridade.




Direitos não garantidos pelo Estado 

As mulheres não têm o direito à maternidade, plenamente garantido, e também não tem direito ao aborto. Mas essa realidade atinge de forma muito diferente as mulheres ricas e as pobres. Quem pode pagar tem acesso a todos os exames do pré-natal em hospitais de qualidade, pode fazer ultrassons de ultima geração e usufruir todos os recursos que permitem prevenir e identificar doenças da mãe e do bebê.

Para as mulheres pobres tudo isso é negado. Por isso, a defesa de direitos sociais como o acesso à saúde pública de qualidade, à escola pública desde a primeira infância, à licença a maternidade de seis meses, são fundamentais. Defendemos que a mulher tenha todas as condições de ser mãe se assim o desejar.

A defesa do direito ao aborto não é o um incentivo ao aborto. O que incentiva o aborto são as condições de pobreza e miséria as qual as mulheres estão submetidas. O aborto deve ser evitado com o acesso à educação sexual, distribuição gratuita de contraceptivos, incluindo a pílula do dia seguinte. Mas quando só restar o aborto como alternativa para evitar uma gravidez indesejada, as mulheres devem ter este direito garantido pelo sistema público de saúde.

Não podemos fechar os olhos, milhares de mulheres fazem aborto. E quem pode pagar tem acesso a ele em clínicas clandestinas, que cobram um preço alto por este procedimento e lucram com o preconceito e a intolerância. A criminalização do aborto não preserva a vida, ao contrário, coloca em risco a vida de milhões de mulheres pobres que, desesperadas, recorrem a métodos inseguros para ter direito a decidir sobre o seu corpo e seu futuro.


Retirado do Site do PSTU

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O ódio anti-imperialista explode no mundo árabe


Protesto em Cabul, capital do Afeganistão
Nem sempre é o que parece. Enquanto recordava-se o 11º aniversário dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 e o presidente Barack Obama, em um ato público cheio de interesses eleitorais, vangloriava-se de ter eliminado Bin Laden e de que atualmente os EUA eram um lugar mais seguro, em vários países do Oriente Médio e do Norte da África - região atravessada por um formidável processo revolucionário -, explodiu uma série de protestos radicalizados que se enfrentaram com expressões do poder imperialista.

O que detonou os protestos foi a exibição de um filme produzido nos EUA chamado “Inocência dos Muçulmanos”. O filme ridiculariza de forma grotesca a vida de Maomé – máximo profeta da religião muçulmana –, apresentando-o, entre outras coisas, como um ser de escassa inteligência, assediador sexual, pedófilo e ladrão. A intenção do vídeo é mostrar todos os muçulmanos como “imorais” e gratuitamente violentos. O filme, de péssima qualidade e até agora quase desconhecido, foi produzido por um tal Nakoula B. Nakoula, que, segundo a imprensa internacional, seria um cristão copta que reside na Califórnia. O polêmico “cineasta” declarou ao jornal The Wall Street Journal que sua produção é “um filme político, não religioso” e que sua intenção era efetivamente mostrar que “o islã é um câncer”.

Não há dúvida de que tamanha provocação só poderia gerar uma imensa indignação das massas seguidoras do Al Corão, cujos teólogos mais importantes consideram que só o fato de pintar ou representar de alguma forma Alá e Maomé é um sacrilégio mortal. Mas o motivo de fundo é outro. Como explicaremos a seguir, além do aspecto religioso, existe nos povos árabes e muçulmanos uma raiva acumulada contra toda a opressão imperialista na região, em particular contra a ofensiva ideológica do imperialismo, reforçada após o 11 de setembro de 2001, que alardeia a ideia de que “todos os árabes são terroristas”.


Um rastilho de pólvora

Os protestos mais radicalizados começaram no Egito, onde milhares de pessoas saíram da mítica Praça Tahrir e cercaram a embaixada norte-americana. Centenas de ativistas escalaram os muros altos e chegaram a arrancar a bandeira norte-americana do mastro e hastear outra com o lema: “Não há outro deus que não seja Alá e Maomé é seu profeta”.

A polícia egípcia conseguiu dispersar os manifestantes, mas eles se reagruparam e continuaram avançando para a sede diplomática, abrindo caminho com pedras e coquetéis-molotovs. A principal exigência era a expulsão da embaixadora norte-americana por parte do presidente Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana. Nesses dias, a polícia egípcia levantou um muro de concreto na capital que interditou a rua principal no caminho à embaixada. Até o fechamento deste artigo, foram reportados ao menos 250 feridos no Cairo.

Por outro lado, na península do Sinai, onde o exército de Morsi leva a cabo um operativo repressivo contra o “terrorismo” e fechou novamente a fronteira com Gaza desde o início de agosto, um grupo armado atacou o quartel da Força Multinacional de Paz e Observadores da ONU, em al Gora, com um saldo de oito militares egípcios feridos.

A Líbia teve uma tarde similar, chegando ao auge já com a noite avançada. Em meio a uma manifestação multitudinária, uma milícia armada atacou o consulado norte-americano na cidade oriental de Benghazi, matando guardas líbios e norte-americanos com tiros de fuzil e lança-granadas. Com o caminho livre, a multidão furiosa entrou no edifício e o incendiou. O ataque matou Christopher Stevens, embaixador norte-americano na Líbia, além de outros quatro funcionários norte-americano do consulado.

Este não é um fato menor. A última vez em que um embaixador norte-americano foi assassinado em seu posto foi no Afeganistão há 33 anos. Por outro lado, Stevens não era qualquer um no corpo diplomático norte-americano. Era considerado um especialista em assuntos relacionados ao Oriente Médio e, quando irrompeu a guerra civil na Líbia, participou diretamente das negociações com o Conselho Nacional de Transição (CNT) e a OTAN.

Desde essas primeiras manifestações no Egito e na Líbia, a fúria popular expandiu-se para toda a região. Protestos similares ocorreram em Teerã, capital do Irã, onde centenas de pessoas gritaram “Morte à América e a Israel!” em frente à embaixada suíça que representa os EUA no país.

Em Bagdá e Basra, capital e segunda maior cidade do Iraque respectivamente, também houve mobilizações importantes. Na Tunísia, ao menos quatro pessoas morreram na capital e outras 49 ficaram feridas em meio a tentativas de invadir a embaixada dos EUA e com a queima de um colégio norte-americano.

No Sudão, os manifestantes entraram na sede diplomática norte-americana e hastearam uma bandeira islâmica. Nesse mesmo país, milhares de pessoas também se manifestaram em frente às embaixadas do Reino Unido e da Alemanha. Até agora, foram registradas três mortes nos enfrentamentos com a polícia.

Em Trípoli, cidade do Líbano, um manifestante morreu e centenas de pessoas incendiaram um restaurante de fast food norte-americano. A manifestação coincidiu com a visita do Papa Bento XVI ao país, o que frustrou sua tentativa de aparecer como paladino da harmonia e da paz. Sua presença só serviu para jogar mais lenha na fogueira, pois as massas muçulmanas o viram, com razão, como um representante com batina do imperialismo.

Na Índia, também houve tentativas de assaltar a embaixada norte-americana, com um saldo de 86 presos pelos distúrbios. No Iêmen, grandes manifestações cercaram a representação diplomática do governo de Washington na capital, Sanaa, ao ponto de escalar os muros de sua estrutura que mais parece uma fortaleza militar. Segundo informações, quatro pessoas morreram e outras 15 ficaram feridas.

Na Nigéria, o exército disparou contra os manifestantes para dispersar a multidão e muitos ficaram feridos. No Afeganistão também houve uma série de mobilizações com queima de bandeiras dos EUA e em Cabul morreu uma pessoa. Também foram realizadas fortes manifestações em Gaza, Paquistão, Indonésia e Marrocos.


A reação do imperialismo

O governo Obama tomou distância do polêmico vídeo, mas advertiu que “nenhum ato terrorista ficará impune”. Continuou dizendo que “Vamos nos deparar com muitos desafios, mas vamos continuar defendendo nossos valores aqui e no exterior. Isso é o que fazem nossas tropas, nossos diplomatas e nossos cidadãos” .

Obama ordenou o envio de dois navios de guerra para a Líbia e de um grupo de 200 soldados de elite do corpo de marines, conhecido como Fleet Antiterrorism Security Team, que tem a missão de proteger as embaixadas e a propriedade norte-americana em todo o mundo. Washington também enviou uma força de marines para reforçar a proteção de seus diplomatas no Iêmen.

Outra medida de urgência do governo norte-americano foi a evacuação de todo o pessoal diplomático “não essencial” das embaixadas da Tunísia e do Sudão.

No terreno político, além de afirmar em reiteradas ocasiões que não têm nada a ver com a realização do polêmico vídeo e inclusive condenar seu conteúdo, os Estados Unidos vêm tentando se reafirmar em sua cínica pose de “aliado” das atuais revoluções árabes. Por exemplo, quiseram mostrar o ex-embaixador Stevens como um incansável “amigo e aliado dos líbios”. Assim, os EUA tentam apoiar-se no que conseguiram capitalizar de sua política de se reposicionar ante os processos revolucionários, como do Egito, Líbia ou Síria, nos quais passou de apoiador férreo dos ditadores para promover a saída dos mesmos, quando mantê-los era mais um elemento de desestabilização do que de estabilização da situação política. Mas todos esses realinhamentos e mudanças táticas não apagaram da consciência das massas toda a opressão e os crimes históricos e atuais do imperialismo na região.

Partindo desta posição política, Hillary Clinton, secretária de Estado norte-americana, instou os povos árabes a não mudar “a tirania de um ditador pela tirania da multidão”. Clinton expressa com clareza o interesse do imperialismo de que essas revoluções se detenham na derrubada dos ditadores e não avancem nas medidas anticapitalistas e anti-imperialistas. Nesse sentido, Clinton começou a pressionar os atuais governos que surgiram das revoluções na região: “Os líderes responsáveis desses países têm que fazer tudo o que puderem para restaurar a segurança e levar a julgamento aqueles que estão por trás desses atos violentos” . Diante da pressão do imperialismo, todos os governos ou direções burguesas, começando pelo Egito, Líbia e Tunísia, responderam colocando-se de forma servil a serviço de “pacificar” as revoltas.




As causas dos protestos e o que representam

É evidente que essa impressionante onda de manifestações radicalizadas e simultâneas, direcionadas a um objetivo comum – as embaixadas e os símbolos dos EUA – não se explica somente pela compreensível indignação que o filme – tão grosseiro quanto provocador - causou nas massas muçulmanas. Chegar a esta conclusão, como a imprensa mundial tenta nos convencer, seria cair em uma contraproducente superficialidade que só impediria a compreensão dos verdadeiros motivos.

Nesse sentido, apontamos algumas questões que explicam o pano de fundo e o significado desses fatos.

1. O primeiro é que a base das mobilizações e dos protestos radicalizados não tem o elemento religioso como determinante. Isso pode ter sido o detonante, mas a explicação fundamental de toda essa explosão de raiva popular está na exploração e na opressão que o imperialismo impõe historicamente à região.

As massas árabes têm uma importante consciência de que as riquezas de seus povos são sistematicamente saqueadas pelas empresas multinacionais e pelos bancos dos países imperialistas, começando pelas norte-americanas e europeias. Este saque é parte de uma histórica política colonialista das principais potências econômicas, que se aprofundou nos últimos anos com as invasões e ocupações militares no Afeganistão e no Iraque, com o fim de pilhar as reservas de petróleo. Somam-se a isso os efeitos catastróficos provocados pela crise mundial do capitalismo nas economias da região. Esta crise estrutural teve sua máxima expressão na crise dos alimentos iniciada em 2008, sendo um dos elementos detonantes de todo o processo revolucionário que começou no final de 2010.

Não é casual, então, o legítimo ódio anti-imperialista que as massas árabes sentem. Isso tem relação com séculos de opressão colonialista, que se expressa em uma dominação econômica, política e militar que os mantêm na miséria e serve para enriquecer as burguesias imperialistas. Este sentimento de repulsa estende-se ao Estado nazi-sionista de Israel, um enclave militar-político do imperialismo em toda a região. É um Estado genocida com um histórico de décadas de agressões militares e de usurpação de territórios dos povos da região, especialmente do povo palestino.

O importante é que os fatos mostram que toda esta raiva anti-imperialista das massas árabes não se atenuou com os discursos hipócritas, as mudanças e reposicionamentos táticos que o imperialismo ianque vem realizando para enfrentar as revoluções no Norte da África e no Oriente Médio.

2 - A onda de explosões anti-imperialistas ocorre no contexto do processo revolucionário aberto no Norte da África e no Oriente Médio. Este processo continua em curso, com avanços e retrocessos, com desigualdades no que se refere à sua profundidade e seus ritmos político-militares em toda a região. Contra aqueles que pretendem separar os processos, analisando-os de forma fragmentada e não como particularidades de um todo, esta realidade confirma, mais uma vez, seu caráter internacional.

3 - Tomando alguns casos significativos, podemos ver que em países como Tunísia ou Iêmen, onde o imperialismo e as direções burguesas do processo revolucionário deram passos importantes na estabilização política, a realidade ainda está muito distante desse objetivo.

Outra mostra de que nem o imperialismo nem as burguesias árabes podem dormir tranquilas é, mais claramente, o caso de Líbia. Neste país, onde há quase um ano a revolução popular derrubou e destruiu o regime de Kadafi, tanto o antigo CNT como o imperialismo conseguiram incorporar setores das milícias populares em seus planos de reconstruir o exército e o Estado burguês, que foram destruídos pela revolução. Por outro lado, conseguiram desviar parte do processo por meio das eleições legislativas de junho e da posse de um novo parlamento e um novo primeiro ministro. Mas é um fato que ainda existem centenas de milícias populares armadas no país.

Foi uma dessas milícias que protagonizou o ataque à embaixada norte-americana e assassinou o embaixador Stevens. Depois disso, segundo informe da Al Jazeera, as novas autoridades líbias fecharam o espaço aéreo em Benghazi, autorizando somente os aviões sem tripulantes dos Estados Unidos a sobrevoar a zona, o que fez com que várias milícias abrissem fogo contra as aeronaves imperialistas.

Esses acontecimentos novamente jogam por terra a tese do castro-chavismo, defendida para a Líbia e agora transferida para o caso sírio, de que o povo líbio armado e organizado em milícias não passava de bandos de “mercenários” pagos pelo imperialismo. Ou, segundo o PTS-FT, que a partir do trotskismo se transformou em difusor dessa tese, enfeitando-a com frases “revolucionárias”, de que as massas eram “tropas terrestres da OTAN”. No mínimo, seriam bastante anômalos aqueles “mercenários pagos pelo imperialismo” ou essas “tropas terrestres da OTAN” que agora atacam e matam seus embaixadores e chefes políticos, ou disparam contra seus aviões.

A onda expansiva de ataques às embaixadas norte-americanas deixou evidente o caráter intrinsecamente contrarrevolucionário das direções burguesas e pró-imperialistas que, devido à crise de direção do proletariado, até agora dirigiram os processos revolucionários contra as ditaduras na região. Todas essas direções, começando pela Irmandade Muçulmana e passando pelos governos da Líbia, Iêmen e Tunísia, apressaram-se em “pedir desculpas” a seus amos imperialistas pelos ataques e manifestações. E disputaram entre si para serem as primeiras em “garantir a segurança” das propriedades e representações diplomáticas dos EUA em seus países, o que significa desmobilizar ou reprimir as manifestações populares.

No Egito, o caso da Irmandade Muçulmana representa bem esta situação. Após uma primeira condenação do vídeo e da convocação pela Irmandade de manifestações contra a “ofensa ao Islã”, Morsi voltou atrás depois de uma dura advertência de Obama contra qualquer tipo de atitude ambígua. O presidente norte-americano deu a Morsi um ultimato para deter os protestos e declarou que o Egito “não é aliado nem inimigo”. Dito e feito. Na manifestação de 14 de setembro, em Tahrir, quase não apareceram os símbolos da poderosa Irmandade e foi divulgada uma declaração de Morsi em que insistiu na“necessidade de medidas legais de dissuasão contra aqueles que querem prejudicar as relações entre os povos, especialmente entre o povo do Egito e o povo dos EUA” .

A realidade é que Morsi e a Irmandade Muçulmana, ao mesmo tempo em que tentam não perder sua base majoritariamente muçulmana (que derrubou Mubarak e expressa uma grande raiva contra o imperialismo), fazem de tudo para ganhar a confiança do imperialismo e de organismos como o FMI e o Banco Mundial, que prometeram conceder-lhes créditos. Somente a União Europeia se comprometeu com 449 milhões de euros para o período entre 2011 e 2013 e prepara outra “ajuda” de mais 500 milhões para quando as negociações do Cairo com o FMI, sobre um empréstimo de 4,8 bilhões de dólares, estiverem concluídas.

Essas explosões populares são muito progressivas, pois questionam instituições e símbolos da opressão e da exploração colonialistas, atualmente capitaneada pelos EUA. São produto e ao mesmo tempo estimulam o processo revolucionário de conjunto, ao contrariar a política do imperialismo ianque e de Israel, seu enclave militar em toda a região. Toda a política atual de pacto do imperialismo com as direções políticas burguesas do mundo árabe tem como objetivo manter o essencial do saque histórico infligido à região. No Egito, por exemplo, isso pode ser visto no interesse supremo de manter o Tratado de Paz com Israel e a ajuda financeira ao exército desse país. Essas lutas, ao questionar as representações políticas do imperialismo, vão contra toda esta ordem de coisas, ainda que de forma mais inconsciente.

Não é só isso. Também colocam em melhores condições a necessidade e a possibilidade de que as massas árabes realizem a experiência política que precisam para superar essas direções políticas burguesas – religiosas ou não –, que atuam como trava ao processo revolucionário em curso, como a Irmandade, o governo líbio ou o Conselho Nacional Sírio e o Exército Livre da Síria.

A realidade mostra que “o pasto está seco” e qualquer faísca pode gerar incêndios maiores ou menores. Isso porque os problemas estruturais que detonaram a onda de revoluções na região não foram resolvidos.

Assim, no calor destas e de outras lutas, é necessário construir uma direção política revolucionária e internacionalista que conduza cada enfrentamento com um programa consequentemente anti-imperialista e anticapitalista, isto é, socialista. É necessário um programa que avance muito mais além das quedas das ditaduras – passo fundamental, mas parcial – ou das explosões espontâneas como as atuais. Um programa que exija dos novos governos e/ou direções a ruptura de todos os tratados que amarram esses países ao imperialismo, e a expropriação de todas as suas empresas. Porque não há saída para os problemas estruturais sem expulsar o imperialismo da região e expropriar as burguesias nacionais, para então iniciar a construção do socialismo em todo o mundo árabe.

Desde o início, o processo revolucionário colocou o desafio central de aprofundar a luta das massas até a tomada do poder pela classe trabalhadora e pelos explorados, conformando governos apoiados nas organizações operárias e populares, sem patrões, sem o imperialismo e seus agentes.


Retirado do Site do PSTU