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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A restauração nas próprias palavras do governo cubano



Raúl Castro e o ex-presidente de Cuba, Fidel
As polêmicas em torno da visita da ativista Yoani Sánchez ao Brasil estão cada vez mais apaixonadas. Muita gente discursa a favor dela, ou a favor da liberdade de expressão e da democracia, enquanto outras pessoas (principalmente militantes de organizações stalinistas) defendem o governo cubano.

É muito fácil falar sobre Cuba e defender verbalmente o socialismo. No entanto, para nós, marxistas, toda política deve ser decorrência de uma análise objetiva, científica, da realidade. Possuímos ferramentas de análise: a Sociologia, a História e a Economia Política, e devemos usá-las para extrair conclusões verdadeiras, que se transformem numa política justa e correta, revolucionária, visando à libertação do proletariado.

E o que uma análise sociológica e econômica científica sobre Cuba nos diria?

De imediato, o seguinte: a restauração do capitalismo em Cuba é um fato consumado. Todos os capitalistas do mundo sabem muito bem disso. Afinal, em 1995, Fidel Castro colocou Cuba à venda, através da aprovação da Lei n.º 77, a “lei de investimentos estrangeiros”. Houve muita propaganda por parte do governo cubano, voltada para os “investidores internacionais”, sedentos por lucros e novos mercados. A partir daquele momento, foram privatizados todos os setores importantes da economia, ou seja, o país foi vendido ao capital estrangeiro (principalmente Espanha e Canadá).

Entretanto, até hoje os “partidos comunistas”, os restos moribundos do stalinismo que se transformaram em partidos burgueses e pró-imperialistas, como o PCdoB no Brasil, continuam repetindo o discurso oficial do governo cubano e da imprensa internacional, segundo os quais Cuba continua sendo um país socialista, “acossado pelo bloqueio norte-americano”. Não temos espaço para tratar aqui do tema do bloqueio, mas é preciso destacar rapidamente que Fidel soube evitar o bloqueio norte-americano muito bem, negociando com a Europa.

Hoje, não restam em Cuba nada além de resquícios do socialismo. O povo cubano passa fome, vive numa situação miserável e é severamente oprimido e explorado por uma ditadura capitalista. Ocorreu um Cuba uma fenônemo similar ao ocorrido na China: o capitalismo foi restaurado pela burocracia dirigente, que se transformou em burguesia, associando-se ao capital estrangeiro e mantendo o regime político (a ditadura de partido único contra as massas, assegurando assim sua miséria e o grau de exploração desejável para estes novos capitalistas).

Para confirmar este fato, é preciso fazer uma análise científica, socioeconômica e política séria a respeito de Cuba. É impossível fazer isso num breve artigo como esse. Recomendo ao leitor interessado um excelente livro sobre o assunto: “O Veredicto da História”, de autoria de Martín Hernández, publicado pela editora José Luís e Rosa Sundermann.

No entanto, apesar de o tema não ser simples, para comprovar as afirmações feitas aqui sobre a venda do país ao capital estrangeiro, é suficiente verificarmos a forma como o governo cubano se dirige aos capitalistas.

No site do governo de Cuba, há um acesso para a página do Centro de Promoção de Investimentos, que você pode acessar aqui.

Aqui, a ditadura dos irmãos Castro fala a linguagem do capitalismo para os capitalistas, e revela como, empregando a expressão de Martín Hernández, a partir de 1995, “Cuba se transformou em um negócio da China”:

[comentários meus entre colchetes]

“[A política de] investimentos diretos estrangeiros em Cuba está orientada para a busca de novos mercados estrangeiros, tecnologias competitivas e capital. Para promover o seu crescimento e desenvolvimento, em 1995, foi aprovada uma nova lei de investimentos estrangeiros (Lei nº 77), que corresponde às tendências internacionais.”

“Aos atrativos do enquadramento legal [uma lei de privatizações e de entrega do país ao capital estrangeiro] somam-se, como vantagens comparativas de Cuba: a disponibilidade de mão de obra qualificada capaz de assimilar novas tecnologias no curto prazo [eufemismo que na verdade significa a possibilidade de superexplorar os trabalhadores cubanos, que são brutalmente oprimidos pela ditadura, não possuem liberdade de organização política e sindical], infra-estrutura adequada em que se destaca a eletrificação de 95% do país, a estabilidade social [garantida pela ditadura], o clima de segurança que é oferecido ao pessoal estrangeiro [os capitalistas e executivos são sempre bem-vindos], a perspectiva de integração de Cuba à região, sua localização geográfica no centro de um mercado em expansão e de importantes rotas comerciais, bem como a assinatura de acordos sobre a Promoção e Proteção Recíproca de Investimentos com 53 países e sete acordos para evitar a dupla tributação.”

“No final do ano 2000, existiam 392 associações econômicas de capital estrangeiro, localizadas em sua maior parte em mineração, prospecção/extração de petróleo, turismo, indústria (leve, de alimentos e siderúrgico-metalúrgica) e construção civil.”

“Nos últimos anos, foram adicionados novos ramos para os investimentos estrangeiros, entre os quais a indústria de energia, do gás, o setor financeiro, a comercialização do tabaco e gestão do abastecimento de água para as cidades. Também foram aprovados acordos importantes para o desenvolvimento hoteleiro, a indústria do cimento, aviação civil e indústria de tintas e fabricação de ônibus.”

“Os capitais vêm de mais de 46 países, entre os quais se destacam Espanha, Canadá, Itália, Inglaterra e França. Cerca de 50% dos projetos [de entrega do país ao capital estrangeiro] correspondem a países da União Europeia.”

Confira tudo isso aqui

É também instrutivo ler a própria Lei de Investimentos Estrangeiros, que dá todas as garantias ao capital para que explore a ilha, remetendo lucros para o exterior com a máxima segurança (o que seria um absurdo completo numa economia socialista). Verifique aqui

Dizem que contra fatos não há argumentos. O problema é que existem fatos e “fatos”, argumentos e "argumentos". Os capitalistas da Europa souberam reconhecer a realidade da restauração em Cuba, e aproveitaram para enriquecer, explorando o povo cubano.

A realidade nem sempre é agradável. Seria ótimo se continuasse existindo ao menos um país socialista no mundo. Infelizmente, contudo, não existe mais nenhum. Precisamos começar tudo de novo. Dessa vez, não cometeremos os mesmos erros do passado. A degeneração burocrática provocada pelo stalinismo é hoje bem conhecida. Teremos condições de evitar a ilusão reacionária do “socialismo num só país” e as besteiras do tipo “coexistência pacífica com o imperialismo”. Vimos na prática, através do Veredicto da História, que a revolução deve ser internacional, como apontavam Marx, Engels, Lenin e Trotsky. Vimos também, através de inúmeros desastres provocados pelas burocracias dos Partidos Comunistas, que nosso objetivo é a revolução socialista, e não a coalizão com a burguesia nos governos de “Frente Popular”.

Chegou a hora de os militantes e ativistas honestos da América Latina, que sofrem ainda a influência perversa do castro-chavismo, olharem para a realidade: Cuba é hoje, infelizmente, um país capitalista. O povo cubano está passando fome, e precisará de nossa ajuda no momento em que se levantar contra a ditadura.

Toda solidariedade aos trabalhadores e ao povo cubano!

Nenhum apoio à ditadura capitalista dos irmãos Castro!

Cuba precisa de uma nova revolução!



Retirado do Site do PSTU

PSTU responde às calúnias ditas por Marília Coutinho em entrevista à Folha de S. Paulo

Nesse dia 25 de fevereiro, Marília Coutinho, irmã do cartunista Laerte Coutinho, concedeu entrevista à Folha de S. Paulo em que afirma ter sido estuprada quando jovem e responsabiliza a Convergência Socialista pelo crime. Marília já havia relatado uma versão parecida em entrevista à revista Trip, em 2011. Retomamos abaixo alguns trechos da resposta que militantes da Convergência na época escreveram sobre o caso



O Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) se surpreendeu com as graves acusações morais feitas por Marília Coutinho, irmã do cartunista Laerte Coutinho, ao partido em entrevista veiculada na TV Folha e na Revista Serafina, do mesmo grupo de comunicação. A partir de um fato real, Marília faz generalizações mentirosas sem nenhuma preocupação em provar o que diz. Ao falar do desenvolvimento de sua sexualidade, afirma: “Eu fui estuprada no PSTU, na Convergência”.

Para o PSTU, a luta contra a opressão e todas as suas manifestações de violência é uma questão de princípio, da qual não abrimos mão. Ao contrário de muitos setores de esquerda, damos muita importância aos temas morais e estamos sendo vitimas de uma calúnia, que também é um problema moral. Por isso, fomos investigar esse problema ocorrido há tanto tempo para respondê-lo publicamente.

Companheiros e companheiras que conheceram e conviveram com Marília, no final da década de 70, na organização Convergência Socialista, lamentam o ocorrido com Marília e são solidários com a lembrança de um triste e revoltante episódio, quando desacordada numa festa foi estuprada por outro jovem militante da época. Ela denunciou o fato, o caso foi a julgamento numa comissão interna da organização, e o militante em questão foi punido e retirou-se da militância. Essa reação da Convergência Socialista, à época, em defesa de Marília ocorreu porque, ao contrário do que ela afirma, não existia uma cumplicidade com este tipo de atitude, mas sim mecanismos de defesa das mulheres e da moral da organização.

Causa-nos estranheza que ela omita essa parte da história. Mais estranheza, ainda, causa a afirmação de que fora estuprada no PSTU. O PSTU é uma organização fundada em 1994, muito tempo depois dos fatos relatados por Marília, e se constituiu da fusão de vários grupos, dentre eles a Convergência Socialista. Tendo em conta que não se trata de uma pessoa ignorante e desinformada, isso nos leva a uma única conclusão: a calúnia é proposital e pensada para desmoralizar a esquerda da qual um dia fez parte, talvez por um trauma e uma mágoa justificados, mas com declarações desonestas.


Ficamos chocados com a afirmação de Marília na entrevista sobre o tratamento que recebia nas organizações das quais participou: “Você é revolucionária, então vai limpar o chão! Abre a perna e dá pro cara! Faz não sei o quê!”. Não podemos falar em nome de outras organizações das quais Marília fez parte, mas garantimos que esse seu relato não diz respeito, em hipótese nenhuma, à Convergência Socialista, nem tampouco ao PSTU. Rechaçamos também qualquer insinuação de que as militantes seriam obrigadas a fazerem sexo com líderes partidários. Esta conduta é inadmissível em nossa organização e incompatível com qualquer liderança que se reivindique revolucionário.

Da mesma forma, não procede, também, a afirmação de que “tinha que transar para fazer parte do grupo”. Não sabemos se foi uma frase retórica para um sentimento de opressão que certamente existia ou se foi uma afirmação literal. O caso do qual foi vítima foi isolado. Ocorreu entre jovens militantes e foi amplamente repudiado.

A cultura machista reinava na época, como até hoje, e sempre nos dedicamos a lutar contra ela, defendendo os movimentos e as causas feministas, os direitos dos homossexuais, de negros e negras e de todos os setores oprimidos. Por isso, a Convergência Socialista lutou por essas questões que, hoje, fazem parte também do programa do PSTU.

Temos testemunhas de que as generalizações afirmadas nessa entrevista não expressam a realidade da Convergência Socialista, organização que lutou e foi perseguida pela ditadura militar.

A agressão sofrida por Marília há 30 anos, que repudiamos veemente, ou o seu rancor pela esquerda não justificam acusações graves e genéricas que se constituem como calúnias difamatórias contra a esquerda, da qual ela hoje parece se arrepender de ter participado, e contra o PSTU, do qual nunca foi militante.

Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado
São Paulo, 26 de fevereiro de 2013


Retirado do Site do PSTU

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Quem tem medo de Yoani Sánchez?

É necessário um real debate sobre o que se passa em Cuba e o verdadeiro caráter do regime castrista


Agência Brasil
A blogueira cubana Yoani Sánchez
Desde o dia em que aterrissou no Brasil, a blogueira cubana Yoani Sánchez vem enfrentando protestos de militantes pró-regime castrista. Em Feira de Santana (BA), chegaram a impedir a exibição do documentário "Conexão Cuba-Honduras" que tem a blogueira como uma das entrevistadas. Além de defender o governo cubano, essas manifestações impulsionadas pela UJS/PCdoB e outros setores, atacam Yoani como "agente da CIA", supostamente bancada pelo imperialismo com o objetivo de desestabilizar Cuba.

Esses protestos mostram parte do respaldo que o regime cubano ainda encontra em vários setores da esquerda. Outros setores, no entanto, como o PSTU, não integram nem apoiam essas manifestações. E mais ainda, defendem a necessidade de se abrir uma real discussão sobre Cuba e o que representa o governo encabeçado pelos irmãos Castro. É esse o debate que os manifestantes que perseguem Yoani querem impedir que aconteça.


Cuba em debate

O que é Cuba hoje? Um bastião do socialismo que sobreviveu ao débâcle do chamado “socialismo real” na década de 1990, ou um país capitalista com uma ditadura que se perpetua graças à repressão e perseguição aos seus opositores? Por que essa discussão desperta tantas paixões em todo o mundo? A primeira resposta certamente é que, quando falamos de Cuba, estamos nos referindo a um país que foi palco de uma das mais importantes revoluções do século XX.

O regime castrista goza ainda da autoridade política e do prestígio conquistados com a revolução que, em 1959, depôs a ditadura de Fulgêncio Batista e pouco depois expropriou a burguesia. A primeira e única revolução socialista da América Latina transformou a pequena ilha do caribe do "quintal dos EUA" como era conhecido, em um país com índices sociais comparáveis aos dos países desenvolvidos. A reforma agrária e investimentos maciços nas áreas sociais extinguiram pragas do capitalismo como a miséria, o desemprego e o analfabetismo. Não foi por menos que Cuba se tornou em um exemplo para gerações de ativistas socialistas ao redor do mundo.

Cuba, porém, não é só um exemplo do que é possível avançar ao se expropriar a burguesia e o imperialismo. É uma prova também de que, tudo o que não avança, retrocede. No caso, o país, governado por uma burocracia estalinista desde o início, viu o capitalismo ser restaurado pelas mãos do próprio setor que dirigiu a revolução. Os três pilares de uma economia de transição ao socialismo hoje já não existem: o monopólio do comércio exterior, a propriedade estatal e o planejamento econômico pelo Estado.

A restauração do capitalismo imposta pela ditadura Castro principalmente a partir dos anos 1990, levou de volta à ilha velhos problemas sociais, como uma desigualdade cada vez maior, pobreza e antigas chagas do capitalismo que haviam desaparecido, como a prostituição que se prolifera nas áreas frequentadas pelos turistas estrangeiros. Em Havana, regiões ricas e sofisticadas dedicadas ao turismo e à burocracia castrista convivem ao lado de áreas pobres e literalmente caindo aos pedaços. Já os trabalhadores são obrigados a sobreviverem com um salário médio de 18 a 20 dólares por mês.

Em 2011, o governo anunciou a demissão de nada menos que um milhão e trezentos mil trabalhadores das estatais no país, como forma de se "reduzir" o peso do setor público. A dura verdade, que os defensores do regime castrista se negam a reconhecer, é que o capitalismo há muito é uma realidade em Cuba, assim como os demais males inerentes de uma sociedade capitalista. Confundem e transformam em uma só coisa a revolução cubana e a burocracia castrista.

O que restou no país, além do capitalismo, foi o controle de uma ditadura de partido único, que não permite qualquer liberdade de expressão e organização. Quando os militantes da UJS/PCdoB impedem Yoani Sánchez de falar ou qualquer debate sobre o tema, estão tentando bloquear aqui no Brasil esse mesmo debate que não pode ser feito em Cuba. Se não concordam que existe hoje uma ditadura, por que não argumentam e apresentam seu ponto de vista? Lamentavelmente, é essa a discussão que tanto temem esses ativistas. Mais do que qualquer suposto agente da CIA.


Yoani e as liberdades democráticas

Mas quem é essa figura chamada de “terrorista” pelos defensores do castrismo? Yoani Sanchez é filóloga e se tornou conhecida quando, em 2007, passou a publicar o blog "Geração Y", com fortes críticas ao regime cubano. Passou a denunciar perseguições e intimidações do governo e a ganhar notoriedade em grandes veículos de comunicação mundo afora. É colunista, por exemplo, do espanhol El Pais e, no Brasil, tem seus posts publicados pelo Estadão. Antes da reforma migratória, teve seu visto de saída negado 20 vezes pelas autoridades cubanas.

A esquerda castrista acusa Yoani de ser uma “agente do imperialismo”, guiada pela CIA e o próprio governo norte-americano. Para embasar tal tese, citam, por exemplo, os prêmios que a blogueira recebeu de veículos da imprensa internacional e documentos vazados pelo Wikileaks que relatariam reuniões da cubana com representantes do governo dos Estados Unidos. Em seu périplo pelo Brasil, a blogueira criticou a posição do governo brasileiro em relação aos Direitos Humanos em Cuba, condenou o embargo norte-americano à ilha e chegou a elogiar as últimas medidas do governo Castro: “as reformas econômicas que tem feito estão na direção correta”.


Protesto contra a blogueira cubana no Brasil

Suposições sobre suas reais motivações à parte, fato é que a blogueira faz uma crítica correta a partir de um fato concreto: a ausência de liberdade de expressão e organização em seu país. Ou os defensores do castrismo também dirão que vigora a democracia na ilha? Seria possível, por exemplo, organizar um partido que se coloca como oposição à burocracia castrista, como o PSTU, em Cuba? Ou como o PSOL? Ou qualquer partido ou organização sindical que tenha como objetivo organizar os trabalhadores e o povo de forma independente do governo? Sabemos muito bem que não.

O mais perverso dessa história é que a ausência de liberdades na ilha faz com que a única oposição à burocracia castrista que aparece como alternativa ao povo cubano seja composto pela direita e os gusanos (os exilados da revolução que se refugiaram na Flórida e que desejam reaver suas propriedades expropriadas). Ou Yoani que, apesar de corretamente reivindicar a democracia em seu país, tem como horizonte político um regime democrático burguês (por isso elogia as recentes medidas do governo).

A infeliz posição da esquerda castrista no Brasil, por sua vez, tem seu grau de responsabilidade, ao entregar de bandeja à direita a bandeira por liberdades democráticas em Cuba. É patético observar, por exemplo, o deputado Jair Bolsonaro, defensor da ditadura militar no Brasil, condenar a ditadura cubana.

O castrismo é responsável ainda por reforçar um estereótipo de socialismo associado a caricaturas totalitárias, como a China ou Coreia da Norte. O socialismo deveria não só aceitar como estimular debates e opiniões diversas. Deveria contrapor-se ao capitalismo e ao monopólio de seus grandes conglomerados de mídia com a mais ampla liberdade de expressão e crítica.

Já é hora de a esquerda identificada com o castrismo desfazer-se de seu arsenal de calúnias e acusações estalinistas e debater essas questões de forma franca, com ideias e argumentos.


Retirado do Site do PSTU

sábado, 16 de fevereiro de 2013

PSTU responde ao artigo mentiroso de Maristela Pinheiro

Maristela Pinheiro, militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), escreveu um artigo mentiroso em que acusa a ativista síria, Sara al Suri, e o PSTU de colaborarem com o imperialismo. O texto se baseia em fontes duvidosas e suposições levianas. O artigo foi publicado no blog Somos Todos Palestinos. O PSTU desmente as acusações e condena o método de calúnias. Leia, abaixo, a nossa resposta a Maristela.
 

Ao
Partido Comunista Brasileiro (PCB)
At. Maristela R. Santos Pinheiro

Ref: artigo sobre a revolução síria


Cara Maristela (com cópia à direção nacional do PCB)

Fomos surpreendidos pelo mentiroso artigo escrito pela companheira Maristela chamado “Suposta ‘militante’ síria elogiada em sítio das forças armadas dos EUA!? o que pode significar isso?”, veiculado no sítio carioca de solidariedade ao povo palestino, Somostodospalestinos, artigo que calunia a companheira Sara al Suri, o PSTU e a Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT-QI) chamando-os de agentes do imperialismo.

Este método, utilizado amplamente por Stalin contra toda opinião dissidente, nunca serviu à luta pelo socialismo. Ao contrário, teve sempre o objetivo de impedir o debate saudável entre diferentes posições. Para não discutir a fundo uma posição diversa à sua, Stalin e seus asseclas lançavam calúnias contra todos que se contrapusessem a sua política, seja de agente do imperialismo, do nazismo ou ainda do patronato.

Complementar ao método de calúnias, Stalin também utilizava a eliminação física de seus opositores. A maioria dos dirigentes do Comitê Central do partido bolchevique à época da revolução russa de 1917 foi assassinada por Stalin ao longo dos anos em que esteve à frente do partido comunista soviético. Ato sempre precedido de uma campanha de calúnias sobre cada um deles como no caso de Zinoviev, Bukarin e todos os demais dirigentes do Comitê Central bolchevique, até chegar ao assassinato de Trotsky no México. Stalin sabia muito bem da integridade revolucionária daqueles camaradas e os caluniava para poder destruí-los, para poder calar a oposição. Após a morte de Stalin, esses métodos foram denunciados por seu próprio sucessor no Partido Comunista da União Soviética, Nikita Khruschev.

Por que fazemos essa comparação? Por que, assim como a direção stalinista na época, você, companheira Maristela, conhece muito bem a nossa corrente política e sabe que não temos qualquer relação política ou material com o imperialismo e seus agentes. Sabe que estivemos e estaremos na linha de frente no apoio à libertação dos povos que lutam contra a dominação imperialista e, em especial, conhece nossa militância a favor da Palestina e de todos os povos do Oriente Médio e Norte da África.

No entanto, Maristela, você preferiu fazer uma calúnia contra nós a fazer o debate político sobre a revolução síria. Sabemos que é difícil defender um ditador assassino como é Bashar el Assad, cujo principal papel na região é colaborar com Israel sem tomar qualquer medida para retomar os territórios sírios ocupados por Israel: as colinas de Golã. Sabemos que é difícil defender um regime político que invadiu o Líbano em 1976 a pedido de Henry Kissinger, para impedir que as milícias cristãs de extrema direita fossem derrotadas na guerra civil; que enviou cinco mil soldados sírios para apoiar as tropas imperialistas de George Bush na guerra do golfo contra Sadam Hussein em 1991. Para nossa indignação, em especial daqueles que conviveram com a companheira em várias lutas, Maristela preferiu seguir o método stalinista da mentira e da calúnia em sua pior face.

A CSP-Conlutas promoveu várias atividades públicas com a companheira Sara al Suri, militante da luta contra a ditadura Assad, nas principais capitais do país. O PSTU, através de seus militantes, apoiou a campanha e divulgou as atividades com uma série de vídeos e artigos em seu sítio. A campanha toda durou quatro meses. Os vídeos estiveram em forma constante nos sites do PSTU e da LIT, onde estava a versão em inglês. Tempo em que certamente não só Maristela, mas outros integrantes do PCB acompanharam o debate através do país. Numa dessas atividades, em Porto Alegre, Maristela esteve presente, mas preferiu não se pronunciar, preferiu se omitir. Para nossa surpresa, ao final desses meses todos é lançado este artigo para dar fundamento a sua posição de defesa do ditador Assad e questionar a política do PSTU e da LIT QI, lançando a GRAVE ACUSAÇÃO à Sara de ser uma “agente do imperialismo” no blog citado. Qual seria a prova dessas acusações? A suposta colaboração da companheira Sara com um site ligado aos militares norte-americanos.

Esclarecemos que o vídeo em questão foi produzido pela equipe de comunicação do PSTU e que o entrevistador era o companheiro Aldo Sauda, ativista pró-revoluções árabes e integrante do PSTU. Após sua produção, ele foi veiculado em inglês no sítio da LIT(QI) e em português no próprio sítio do PSTU. Ele não foi produzido nem disponibilizado para nenhum sítio das forças armadas estadunidenses ou qualquer outra mídia pró-imperialista. O que ocorreu de fato? Esse site norte-americano publicou um dos vídeos produzidos pela equipe de comunicação do PSTU sem dar a procedência e foi advertido pelo partido sobre esse roubo. Quanto à montagem com uma foto da companheira Sara, tirada no Recife, em meio à campanha que a CSP-Conlutas promove em solidariedade à revolução síria, sua confecção nunca foi autorizada e desconhecemos quem a fez. Maristela, no entanto, utilizou-a como se fosse a expressão da verdade sem o menor questionamento de tal montagem. Ao contrário, se vale disto para tentar dar sustentação às suas calúnias.

Reiteramos, como é público e notório para todos os que assistiram suas palestras que Sara, assim como o PSTU e a LIT-QI, se opõe a qualquer intervenção imperialista pois entende que qualquer intervenção imperialista tem como objetivo impedir um triunfo revolucionário contra o regime sírio. Um triunfo revolucionário contra o ditador Bashar el Assad provocará novos levantes e revoluções em toda a região, abalando a dominação imperialista, além de alimentar a luta do povo palestino contra o Estado racista de Israel.

Sabemos que os companheiros e companheiras do PCB defendem o regime sírio e se opõem à revolução democrática em curso. Julgamos que é muito importante que todos os ativistas dos movimentos sociais conheçam todas as posições em debate e consideramos legítimo que cada grupo, partido ou militante defenda sua posição. No entanto, acreditamos e defendemos sempre que o debate não pode ser feito utilizando-se de calúnias desta natureza.

Para dar um exemplo, citamos a posição do PCB sobre o Estado de Israel. O PCB e o governo da antiga União Soviética sempre apoiaram a existência do Estado de Israel. É de conhecimento público que Stalin proveu o armamento que foi utilizado pelas milícias sionistas para efetuar massacres de aldeias palestinas, como Deir Yasin, e promover a expulsão de cerca de 800 mil palestinos durante a chamada Nakba em 1947 e 1948, que levou à formação do Estado de Israel. Temos uma polêmica com o PCB sobre sua posição para a Palestina, pois apoiam a existência do Estado de Israel através da defesa de “dois estados” no território histórico da Palestina, posição que se mantém até os dias de hoje. Esta posição coincide, por exemplo, com as posições dos governos imperialistas dos Estados Unidos e Europa. Apesar disso nunca fizemos nem faremos uma campanha chamando o PCB ou algum de seus militantes de “agentes do imperialismo” pela defesa destas posições. Polemizamos com as suas posições tais como são sem necessidade de fazer calúnias ou inventar mentiras.

Acreditamos que é necessário eliminar esse método de utilizar acusações morais e calúnias para destruir o adversário e desviar o debate político entre ativistas e suas organizações.

Exigimos a retirada imediata da calúnia que acusa Sara. O PSTU e a LIT-QI de “agentes do imperialismo” e desafiamos os companheiros e companheiras do PCB a promovermos um debate honesto sobre a revolução síria, aberto a todos os ativistas interessados.

Entendemos que esta é a melhor forma daqueles que lutam por uma perspectiva socialista tratarem suas divergências

Saudações socialistas,

Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado


Retirado do Site do PSTU

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Uma possível interpretação do centralismo democrático segundo Trotsky


Trotsky não opunha centralismo à democracia
A queda do aparato stalinista mundial (simbolizada pela queda do Muro de Berlim) constitui-se num dos mais marcantes fatos da luta de classes recente. O fim dos regimes ditatoriais comandados pelos partidos comunistas, que se seguiu à restauração capitalista realizada por estes mesmos partidos, na ex-URSS e nos países do Leste europeu, deixou partidos comunistas/stalinistas órfãos no mundo todo, que se realinharam sob o comando do castro-chavismo ou se transformaram, como na Itália e no Brasil, em partidos eleitorais burgueses.

No entanto, a maior parte do trotskismo interpretou o fim do aparato stalinista mundial como o fim da luta histórica pela Ditadura do Proletariado e, por isso, capitularam à ideologia do “fim da história”, que concede ao capitalismo o direito de viver e se aperfeiçoar indefinidamente. Junto com a Ditadura do Proletariado, jogaram fora, por não ser mais necessário para eles, o regime interno de funcionamento do partido bolchevique, o centralismo democrático.

E, consequentemente, a maioria destas correntes abandonou a construção de partidos revolucionários com centralismo democrático e se dedica à construção de partidos “anticapitalistas”, com total “democracia interna” e liberdade para a construção de tendências permanentes, onde a luta pelo socialismo passou à condição de um objetivo para um futuro indefinido e o objetivo estratégico passa a ser a conquista de “mandatos” parlamentares. O exemplo do PSOL, do Brasil, em sua última participação eleitoral é típico, mas o mesmo se reproduz no BE de Portugal, no NPA da França e em tantos outros pelo mundo afora.


Trotsky e o centralismo democrático

Por isso, é normal que surjam várias dúvidas sobre essa questão. Quais são as raízes do centralismo democrático? O centralismo burocrático é uma continuidade “natural” do regime de Lênin e, por isso, deve ser repudiado?

Em seus últimos anos de vida, quando dava a batalha pela construção da IV Internacional, Trotsky deparou-se inúmeras vezes com questões similares e dedicou-se a explicar seu significado “aos grupos das mais diversas origens que começam a bater nas portas da Quarta Interna¬cional, sob o impulso da decadência do reformismo e do stalinismo, o perigo de guerra iminente e a intensificação da luta de classes”.[1]

Acredito que estes textos, reunidos em espanhol nos Escritos de Trotsky [2], fornecem para nós uma base e uma perspectiva corretas do conceito de centralismo democrático.


As bases sociais do centralismo democrático

O conceito de regime partidário de Lênin não é a invenção genial de um grande revolucionário, mas respondia à necessidade de organização dos operários avançados em um partido de luta pela tomada do poder.

Como afirma Trotsky, “a democracia operária não é um problema organizativo, mas um problema social. Em última instância, a liquidação da democracia operária é consequência da pressão dos inimigos de classe por meio da burocracia operária. A história do reformismo nos países capitalistas e a experiência da burocratização do Estado soviético confirmam em igual medida esta lei histórica”. [3]

Isto é, a democracia operária não é apenas uma forma de organização, mas tem um conteúdo de classe, e é necessária para levar o proletariado à vitória contra a burguesia. Por isso, o primeiro ato do stalinismo e da socialdemocracia para instaurarem seu domínio burocrático foi acabar com todas as formas de democracia operária.

O centralismo responde igualmente a essa necessidade social. Trotsky não opunha centralismo à democracia, pois ambos formam uma síntese necessária à ação revolucionária: “Não devemos esquecer que, se somos centralistas, somos centralistas democráticos, que empregamos o centralismo para o bem da causa revolucionária, não para cimentar o "prestígio" dos líderes”.


As “leis” do centralismo democrático

Ao contrário de hoje, quando o centralismo democrático é considerado uma “curiosidade histórica” pelas chamadas correntes anticapitalistas, na época que analisamos não havia esta contestação, porém, era completamente deturpado pelo stalinismo, para quem este era reduzido à palavra final do “chefe”. “Através do aparato estatal, a burocracia stalinista liquidou a democracia partidária, soviética e sindical, não só em sua essência, mas também formalmente. O regime da ditadura pessoal foi plenamente transmitido pelo Partido Comunista da União Soviética a todos os partidos comunistas dos países capitalistas. A tarefa dos funcionários do partido é interpretar a vontade da cúpula burocrática. As massas partidárias têm um só direito: calar-se e obedecer. A repressão, a perseguição, o engano, são os métodos com que comumente se mantém a ‘ordem’ no partido”. [4]

Era necessário evitar a influência avassaladora do regime burocrático dos partidos comunistas e, ao mesmo tempo, evitar as práticas plebiscitárias que surgiam como reação a esta influência. Por isso, sempree surgiam muitas dúvidas sobre a aplicação correta do centralismo democrático. Numa carta ao Socialist Appeal, Trotsky afirma: “Camaradas individuais pedem-me uma ‘fórmula clara e exata sobre centralismo democrático’ que impediria falsas interpretações”. [5]

A isto, respondia: “Tampouco penso que possa dar uma fórmula sobre centralismo democrático que, “de uma vez por todas”, elimine mal entendidos e falsas interpretações. Um partido é um organismo ativo. Desenvolve-se na luta contra obstáculos externos e contradições internas. A decomposição maligna da Segunda e da Terceira Internacional sob as condições severas da época imperialista cria para a Quarta Internacional dificuldades sem precedentes na história. Não se pode triunfar sobre elas com certa classe de fórmula mágica. O regime de um partido não cai do céu, mas se forma gradualmente na luta”. [6]

E afirmava em outro artigo: “A linha política predomina sobre o regime; em primeiro lugar, é necessário definir problemas estratégicos e métodos táticos corretamente com o fim de resolvê-los. As formas organizativas deveriam corresponder à estratégia e à tática. Somente uma política correta pode garantir um regime partidário saudável”. [7]

Além dos obstáculos externos ao partido – as da luta de classes e o resultado da linha política aplicada pelo partido no movimento operário – as contradições internas de cada um – sua direção, a composição social do partido, sua experiência – devem ser levadas em conta para, além de uma política correta, garantir um regime partidário saudável.

Nesse sentido, Trotsky ressaltava a necessidade da direção conquistar uma grande autoridade política sobre a base, a partir de acertos políticos na intervenção do partido para que o centralismo democrático possa funcionar de forma saudável:

“Naturalmente, em caso de necessidade, o Comitê Central bolchevique podia dar ordens. Mas a subordinação ao Comitê era possível graças a que todos sabiam de sua lealdade absoluta para com os militantes do partido, assim como da dispo¬sição constante da direção de submeter todas as polêmicas importantes à consideração do partido. Por último, e o mais importante, o Comitê Central gozava de uma autoridade teórica e política colossal, ganha gradualmente através dos anos, não com ordens, não com gritos, não com a repressão, mas mediante uma condução acertada, demonstrada na prática, através de grandes acontecimentos e lutas”. [8]

E agregava, numa carta a Cannon, dirigente do SWP, partido cuja direção gozava de tal autoridade política, que:

“Não bastam as regras democráticas puramente formais assinaladas no ponto (a) e as medidas pura¬mente negativas - não aterrorizar, não por em ridículo- assinaladas em (b). Tanto os comitês locais quanto o comitê central devem manter permanentemente um contato ativo e informal com a base, sobretudo quando se está preparando uma nova palavra de ordem, uma nova campanha ou se está verificando os resul¬tados de uma campanha que acaba de culminar”. [9]

Nem o estrito cumprimento dos estatutos partidários (isto é, as regras formais do ponto (a) de sua carta), nem evitar os métodos de coerção sobre a base do partido são suficientes, é necessário também manter uma atitude paciente, fraternal, pedagógica e um contato informal permanente com ela. Esta atitude, longe de ser uma atitude bonapartista da direção, como muitas vezes se apregoa, é essencial para um regime saudável.


A democracia partidária

A democracia interna não é apenas a possibilidade de discussão da linha do partido nos organismos partidários. Esta, ao contrário, é a culminação de todo um exercício democrático por parte dos militantes. É o resultado e não a base da democracia partidária.

Da mesma forma, o cumprimento dos estatutos, a realização dos congressos e conferências, são ingredientes fundamentais de um regime democrático, mas, para Trotsky, estas disposições formais só têm efeito real se: “Um revolucionário se forma num clima de crítica a todo o existente, inclusive à sua própria organização”; “A base da democracia partidária reside em facilitar a todos os membros da organização uma informação oportuna e completa que reúna os problemas importantes de sua vida e de suas lutas”; “A saúde do regime depende em grande medida da direção do partido e de sua capacidade para escutar oportunamente a voz de seus críticos”; “Quando Lênin propôs expulsar a Orjonikije do partido (1923), disse com toda razão que o militante de base tem o direito de ser revoltoso, mas não o membro do comitê central”.

Não existe democracia sem a possibilidade de crítica, sem atitude crítica por parte dos militantes de base e sem o fornecimento de informações para que esta crítica possa ser elaborada, porque “não é grande mérito [por parte da direção] estar satisfeito ‘com quem esteja satisfeito co¬migo’” [10]. Isto não quer dizer que “tudo seja válido”. Para Trotsky, “a maturidade de cada membro do partido se expressa no fato de que este não exige do regime partidário mais do que este lhe pode dar”. [11]

Para os partidos anticapitalistas este detalhe não existe. Ao contrário, fundam seu regime interno na base do “tudo é válido” no afã de provar que é um regime mais democrático. Tais posições foram combatidas por Trotsky, principalmente quando a direção sentiu-se no direito de ser revoltosa. Por exemplo, em relação às posições tomadas pelas seções francesa e grega em determinado momento.

“A maioria de seu comitê central (i.e. da seção grega) afirma que a luta ocorre em torno aos princípios organizativos. Quais são estes princípios? Na França, o camarada Witte defendeu de fato o direito de cada militante não ser posto sob a disciplina da organização, o direito de um membro do Secretariado Internacional aplicar uma política pelas costas do Secretariado e dirigida contra o próprio Secretariado, o direito da minoria da organização de não se submeter à decisão da imensa maioria da conferência; em uma palavra, os piores princípios individualistas e anarquistas”. [12]

Não é isso que vemos ser aplicado hoje em partidos como o PSOL? E o resultado é, sempre, uma guerra de declarações públicas entre a “maioria” (isto é, as correntes com mandatos parlamentares) e as minorias (ou as correntes sem mandatos), como no recente caso das eleições municipais, quando os setores majoritários fizeram alianças com a direita burguesa e com o governo petista para ganhar as eleições em Macapá e Belém, sem contar os financiamentos da burguesia, como em Porto Alegre. A isto chamam de regime democrático.

O resultado já era “previsto” por Trotsky que, embora tivesse se referido apenas ao caso da seção grega, cuja maioria defendia as posições de Witte, enunciou o que podemos chamar de uma tendência geral: “Pelo que posso julgar, na Grécia, a maioria do Comitê Central defende e aplica agora princípios diretamente opostos, pois nega à minoria o direito de defender abertamente sua posição ante todos os membros de sua organização. Assim, o anarquismo individualista se transforma em seu oposto, isto é, no centralismo burocrático. Mas ambos extremos, que com muita facilidade se convertem um no outro, não têm nada em comum com o bolchevismo, que tanto à escala nacional como internacional constrói a organização sobre a base do centralismo democrático”. [13]

O tamanho deste artigo impede-me de continuar a análise de alguns conceitos importantes discutidos por Trotsky, como a questão das frações e da “mobilidade” dos polos centralista e democrático em torno à sua síntese, que deixo para um possível próximo artigo.

Mas é importante, antes de terminar, esclarecer esta ideia de síntese. É muito comum separarmos o centralismo democrático em duas partes, ou, o que dá no mesmo, considerá-lo como a soma de duas partes, como dois momentos separados; a democracia, num primeiro momento, e o centralismo num segundo. Assim, a democracia seria exercida quando a base discute e o centralismo quando a direção decide. Esta visão impede entender o centralismo democrático como uma síntese, isto é, como um todo indivisível, que não é a democracia absoluta (como defendem os anticapitalistas e anarquistas) e nem o centralismo absoluto (como defendem os burocratas), e nem a pura soma dos dois. Para Trotsky, “o conteúdo fundamental da vida partidária não reside na discussão, mas na luta” [14] e o centralismo democrático (discussão e decisão) deve estar a serviço da luta.

Poderíamos dizer, portanto, que não há nada mais democrático que uma decisão do órgão dirigente – eleito pelos delegados em congresso – que coloque o partido em movimento no combate à burguesia, e nada mais burocrático do que discussões eternas num núcleo de base que paralisem o partido.

“Cada revolucionário real que nota os equívocos do regime partidário deve, antes de qualquer coisa, dizer: ‘Devemos trazer ao partido uma dezena de novos trabalhadores!’” [15]


[1]Las fracciones y la Cuarta Internacional, 1935
[2]Leon Trotsky, Escritos, Editorial Pluma, 1977
[3]Declaración de la delegación bolchevique leninista a la conferencia de las organizaciones comunistas y socialistas de izquierda, 17 de agosto de 1933
[4]Idem
[5] Sobre el centralismo democrático, 8 de dezembro de 1937
[6]Idem
[7]Idem
[8]La crisis en la Oposición de Izquierda alemana, 17 de fevereiro de 1931
[9]Observaciones adicionales sobre el régimen partidario, 3 de outubro de 1937
[10]Observaciones adicionales sobre el régimen partidario, 3 de outubro de 1937
[11]Sobre el centralismo democrático, 8 de dezembro de 1937
[12]La crisis de la sección griega, 5 de abril de 1934
[13]Idem
[14]Las fracciones y la Cuarta Internacional, 1935
[15]Sobre el centralismo democrático, 8 de dezembro de 1937


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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Oscar Niemeyer: o poeta das curvas e dos sonhos


Niemeyer faleceu perto de completar 105 anos
No dia 5 de dezembro, morreu perto de completar 105 anos a maior lenda viva da Arquitetura brasileira. Parecia que o velho Oscar já havia se entendido com o tempo e selado uma trégua com a morte, por mais que o peso da idade já recaísse com certa dureza sobre suas costas. Dono de uma obra composta por algumas centenas de projetos executados no Brasil e em países no mundo todo, Niemeyer morreu trabalhando em seus projetos, sonhando com um mundo justo e socialista e acreditando que “a Arquitetura não é importante, o importante é a vida”.

Suas curvas, desenhadas a partir dos traços trêmulos de seus esboços, se concretizaram em edificações que se tornaram a principal expressão da Arquitetura Moderna brasileira. Sua Arquitetura era composta de sonhos, tinha aversão à linha reta imposta pela racionalidade do homem, queria fazer o concreto armado flutuar sobre o chão e conversar com as formas da natureza. Era um comunista convicto, foi filiado ao PCB durante décadas, desde 1945. Foi parte das contradições de seu partido, alinhado com o Stalinismo e com os Governos Burgueses Nacional-Desenvolvimentistas. Envelheceu e acompanhou o fim da União Soviética e dos Estados Operários, o “fim da história” para muitos, mas não para o velho Oscar que continuou sonhando com um mundo parecido com o que tinha imaginado para Brasília décadas antes. Um mundo de homens iguais.


Niemeyer e o movimento moderno brasileiro

A década de 20 foi marcante para a Arquitetura mundial, onde diversas vanguardas artísticas surgiam no mundo inteiro, em um período de grande efervescência cultural e política. Na academia ainda reinavam os padrões estéticos do ecletismo, que mantinham um culto obsessivo à Arquitetura da Antiguidade, insistindo em uma mistura de padrões gregos, romanos e barrocos. O Modernismo se propôs então a transformar completamente a forma de se pensar e de se fazer Arquitetura, imprimindo um novo olhar sobre as cidades e o espaço habitado, buscando refletir acerca das reais necessidades das pessoas, incorporando os avanços da técnica para produzir uma Arquitetura do homem para o homem.

Niemeyer iniciou seu trabalho nos anos 30 e se ligou imediatamente a estas vanguardas que já tinham considerável força. Uma de suas primeiras obras de destaque foi o prédio do Ministério da Educação e Saúde, onde trabalhou diretamente com o Arquiteto franco-suíço Le Corbusier, um dos fundadores da Arquitetura Moderna. Niemeyer soube desde o início de seu trabalho absorver os novos preceitos da Arquitetura, tal como a planta livre, a construção sobre pilotis e principalmente o uso do concreto armado, uma das principais descobertas da época, que permitia a utilização de grandes vãos. Niemeyer foi além, levou ao extremo a plasticidade do concreto armado, desafiou também os calculistas e as leis da física. Muitos de seus projetos que hoje se encontram de pé foram julgados como inviáveis e impossíveis por alguns calculistas. Sua Arquitetura, extremamente escultórica e inventiva, é a expressão do modernismo sem as amarras do sistema “forma-função” Europeu, que para ele “castrava” as possibilidades que a técnica da época lhe permitia. Não admitia uma Arquitetura que fosse incapaz de dialogar com o que pensava, sentia e sonhava o povo de seu país.


Brasília, candangos, sangue e exclusão

Sem dúvida nenhuma o ponto mais alto da carreira de Oscar Niemeyer se deu durante a construção de Brasília, cidade de maior concentração de obras de sua autoria. Ele ficou responsável por coordenar o concurso de projetos para o plano-piloto de Brasília, vencido por Lúcio Costa e, a pedido do presidente e amigo Juscelino Kubitschek, ficou responsável pelos projetos de todos os edifícios oficiais da cidade, como o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto, Palácio da Alvorada, a Esplanada dos Ministérios, dentre muitos outros.

A aproximação do PCB com JK era parte da política do Stalinismo, ao considerar a Burguesia Nacional-Desenvolvimentista como um setor progressista capaz de fazer frente ao imperialismo. Niemeyer abraçou desta forma a utopia de JK, que sonhava em construir no meio do descampado do Planalto Central a nova capital do Brasil. Falavam em uma cidade do futuro, uma cidade sem esquinas e sem desigualdades, e desta forma moveram grandes massas de operários vindos de todas as partes do país, mas principalmente do Nordeste. Eram os candangos, que construíram a cidade heroicamente em apenas três anos, e vieram de suas cidades de origem com a promessa de prosperidade e fartura.

O próprio Niemeyer não demoraria a perceber que a “cidade do futuro” era uma cidade como qualquer outra, marcada pela exclusão. A construção de Brasília foi permeada por muita violência. As condições de trabalho eram as mais precárias possíveis, milhares de operários morreram nos canteiros de obra. Eles se revoltavam contra as condições a que estavam submetidos, se rebelavam e tinham que enfrentar a duríssima repressão da polícia. As belas curvas dos projetos de Niemeyer apareciam nos canteiros de obras como esqueletos de concreto e aço retorcido, que vez ou outra engoliam um candango desavisado. Brasília se torna menos interessante ao sabermos que, além de concreto e aço, naqueles suntuosos prédios estava o suor e o sangue de milhares de “nossos irmãos operários”, como dizia o velho Oscar. Vidas foram concretadas junto a prédios de uma cidade que não havia espaço para os operários que a construíram. Após a construção da cidade, ao passo que os candangos viam chegar de mudança os funcionários do Governo Federal, iam percebendo que não havia espaço para eles na nova capital.

Muitas contradições permeiam a vida e a obra de Oscar Niemeyer, elas não serão apagadas, mas é fato também que nenhum Arquiteto conseguiu viver tanto sem desistir do que acreditava. Os anos passaram, a idade chegou, sem que o velho Oscar deixasse se abater pelo pragmatismo de nossos tempos. Continuou buscando expressar em cada obra o que sentia, e o que sentia o povo brasileiro, sem perder as esperanças de viver em um mundo livre da exploração e da opressão, um mundo de homens livres.


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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Ato dos 30 anos da LIT reúne mais de 800 em Buenos Aires

Ato nesse 1 de dezembro emocionou todos os presentes e os que acompanharam o ato pela Internet
 


Ato reuniu mais de 800 pessoas
Um dia para entrar na história. Não só na história da Liga Internacional dos Trabalhadores, mas de todas as mais de 800 pessoas que lotaram o salão Unione Benevolenza, em Buenos Aires. Um local que diz muito. "Esse é um espaço tradicional da classe operária argentina", destacou Alicia Sagra, dirigente trotsquista argentina que conduziu o ato de comemoração dos 30 anos da LIT.

Um ato que já começou arrancando lágrimas dos presentes. Após a exibição de um vídeo resumo do documentário sobre a história da LIT, bandeiras dos partidos que compõem a Liga entraram no salão, sendo agitadas sob os aplausos das centenas de pessoas, entre argentinos, brasileiros, chilenos, colombianos, e ativistas de várias nacionalidades que convergiram a Buenos Aires nesse 1 de dezembro.

Logo no início do ato, a ativista palestina radicada no Brasil, Soraya Misleh, anunciou a sua filiação ao PSTU e à LIT. Não conseguindo conter as lágrimas, Soraya disse que já começou a se emocionar assim que chegou ao aeroporto, para ir a Buenos Aires. "Encontrei uma palestina de Gaza e uma companheira da Cisjordânia, e esse encontro nunca seria possível, pois quem está em Gaza não pode visitar a Cisjordânia e eu não posso ir a Palestina pois estou na luta".

Soraya falou sobre a luta e os desafios do povo palestino: "O futuro da Palestina está nas mãos da juventude, mas ainda falta uma direção revolucionária". Também tocou no tema das revoluções árabes, cujo pólo principal hoje é a revolução síria. "O caminho da libertação da Palestina passa pela revolução árabe e a queda de Bashar Al Assad será um grande passo nesse sentido".



Eduardo Almeida, da direção do PSTU brasileiro, lembrou de um outro momento, também em Buenos Aires, há 25 anos atrás, quando da morte de Moreno e do início da crise que abalou a LIT. "Estávamos tristes, mas hoje estamos em Buenos Aires e estamos felizes". Eduardo citou o processo de fortalecimento da LIT e a expansão da Liga para os países da Europa, como Portugal Itália e Espanha e a intervenção desses partidos no atual processo de mobilização contra os planos de austeridade.

Eduardo citou ainda a importância do patrimônio moral que a LIT resguarda, assim como os príncípios do marxismo, num momento em que grande parte da esquerda socialista abandona a perspectiva da revolução.

"Esta é a maior homenagem que podemos fazer a Nahuel Moreno", discursou Eduardo Barragán, da direção do PSTU argentino. Barragán citou as atuais lutas dos trabalhadores europeus e as revoluções do Norte da África, que mostram hoje mais do que nunca a necessidade do internacionalismo e de uma direção revolucionária que permita que a classe operária "golpeia como um só homem a ofensiva do imperialismo e os ataques da burguesia".

Vera Lúcia, do PSTU de Aracaju, emocionou a todos falando sobre a necessidade da luta contra as opressões. "Gostaria de estar falando espanhol aqui, mas eu, assim como grande parte da classe trabalhadora, não tive condições de ter instrução", disse, enfatizando a condição de superexploração a que estão submetidas as mulheres, negras e lésbicas. Ao final de sua fala, todos puxaram um coro: "A nossa luta/é todo dia/contra o machismo, o racismo e a homofobia".



O final do ato ficou por conta de Angel Luís Parras, o Cabeças, da direção do Corriente Roja da Espanha e da LIT. "A situação atual é muito complicada, mas muito apaixonante", afirmou."Temos assistido a explosão das revoluções do Norte da África e Oriente, fruto da crise econômica e ascenso popular, mas também fruto dessa mudança que foi o fim do aparato estalinista. Submetidos à miséria e à ditadura, os povos irromperam o cenário político", citando a crise na Europa e as revoluções do Norte da África.

Cabeças atacou a posição de grande parte da esquerda e do castro-chavismo, de apoio ao ditador Assad na Síria. "Dizem que há uma unidade de ação entre os rebeldes e o imperialismo. Mas claro que houve. A mesma unidade de ação que houve no desembarque dos aliados na Normandia e os partisanos contra Mussolini".

"Neste ato, queremos enviar uma saudação a nossos detratores: sigam convocando atos em defesa de Assad, pois a LIT continuará na resistência" provocou Cabeças.

Cabeças finalizou citando a fé revolucionária que a LIT mantém na classe operária, a mesma esperança que a permitiu passar por crises e dificuldades, e que a possibilita agora, em plena crise do capitalismo, crescer e se fortalecer em vários países do mundo.


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quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Editora Sundermann prepara combo especial para outubro

Promoção especial comemora 95 anos da revolução russa


Dia 25 de outubro comemoraremos os 95 anos da Revolução Russa. E para não deixar a data passar batida, a Editora Sundermann está com uma super promoção! Durante esse mês é possível comprar dois kits promocionais, História da Internacional Comunista mais A Revolução Traída de R$145 por R$90; e A História da Revolução Russa mais O Veredicto da História de R$180 por R$100.



Aproveite, pois é só durante o mês de outubro!

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quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Trotsky: 72 anos depois de seu assassinato, sua luta e seu legado continuam atuais

Trotsky foi assassinado em 1940, no México, a mando de Stálin
Há 72 anos, no dia 21 de agosto de 1940, Leon Trotsky - o revolucionário russo cujo nome está associado com o socialismo e com a democracia operária - foi assassinado em Coyoacán, México, onde residia exilado. A ordem de cometer o crime, soube-se anos depois, foi assinada pessoalmente por Stalin, em 1931. Depois de várias tentativas, pode ser consumada por Ramón Mercader, um agente da GPU (polícia secreta soviética). O fato foi o fim de uma perseguição implacável.

Trotsky tinha sido presidente do Soviete de São Petersburgo na Revolução de 1905 quando proclamou a jornada de oito horas, a decisão de não pagar os impostos e havia posto em perigo a própria existência do Império russo. A revolução foi derrotada e Trotsky encarcerado em dezembro de 1905 e deportado para a Sibéria. Em 1917, regressou a Rússia as vésperas do início da revolução, encabeçou junto com Lenin, a primeira revolução operária triunfante, que derrubou o governo burguês de conciliação de classe de Kerensky. A ele se deve a fundação e direção do Exército Vermelho, que conseguiu uma grande vitória durante a Guerra Civil russa que se sucedeu à revolução. Depois da morte de Lenin em 1924, foi quem dirigiu a luta contra a burocracia que, pela mão de Stalin, avançava sobre o poder.


O combate à burocracia, à teoria do socialismo em um só país e a defesa do internacionalismo

Em 1928 Trotsky foi expulso da URSS pela burocracia stalinista, que havia se apoderado da direção do partido bolchevique. Trotsky foi privado de sua cidadania e teve que exilar-se primeiro na Turquia e depois na França, Noruega, e finalmente no México. Vários dos mais próximos colaboradores e seus três filhos foram assassinados. A perseguição alcançou a todos os opositores e dissidentes da ditadura burocrática soviética. Os dirigentes que tinham atuado junto com Lenin e Trotsky em 1917 foram “purgados” e eliminados nos macabros processos de Moscou.

A perseguição pretendia romper o fio de continuidade do marxismo e do bolchevismo, e Trotsky representava esta continuidade, era a memória viva da Revolução de outubro. Além disso, foi quem convocou os melhores militantes bolcheviques a lutar contra a burocratização que Stalin estava levando adiante no partido e no estado operário, para isso organizou a Oposição de Esquerda nacional e logo em nível internacional. Assinalou uma e outra vez que a oposição de esquerda “não aceita o regime organizativo criado pela burocracia stalinista como algo definitivo. Pelo contrário, seu objetivo consiste em arrancar a bandeira do bolchevismo das mãos da burocracia usurpadora e levar de volta a Internacional Comunista para os princípios de Marx e Lenin”[1].

Contra a teoria do “socialismo em um só país” de Stalin, Trotsky defendeu a concepção da revolução permanente. Em seu livro A Revolução Permanente, de 1928, disse: “O caráter internacional da revolução socialista é consequência inevitável do estado atual da economia e da estrutura social da humanidade. O internacionalismo não é um principio abstrato...a revolução socialista começa dentro das fronteiras nacionais; mas não se pode conter-se nelas, do contrário cairia mais tarde ou mais cedo… A revolução socialista implantada em um país não é um fim em si mesmo senão unicamente um elo da corrente internacional. A edificação socialista só se concebe sobre a base da luta de classes no terreno nacional e internacional… Nisto consiste o caráter permanente da revolução socialista como tal”.


A vigência de sua luta e de seu legado

Frente à desastrosa política orientada por Stalin para a classe operária alemã em 1933, que não aceitava fazer uma frente única da esquerda para enfrentar Hitler, o que levou à derrota do proletariado e a ascensão de Hitler ao poder, Trotsky se convenceu que era impossível recuperar a Terceira Internacional fundada por ele e por Lenin. A burocracia já a havia transformado em um comitê de traição da luta operária mundial. A este período corresponde, seu livro, A Revolução Traída, que é ainda hoje a análise mais profunda e completa que se elaborou sobre a degeneração da União Soviética e constitui um aporte fundamental para a construção da Quarta Internacional e seus partidos.


O combate à política da “Frente Popular” e a defesa da independência de classe

Também é ainda válida a luta incansável de Trotsky contra a política da “frente popular” levada adiante por Stalin junto da teoria do socialismo em um só país, que não era outra coisa que a justificação do que seria o eixo central da política stalinista: a coexistência pacífica, a colaboração com a burguesia e o imperialismo. Trotsky combateu sem descanso a política da Frente Popular. Denunciou ela que significava o abandono da luta pela revolução socialista, porque subordinava os interesses dos operários e camponeses à defesa da propriedade privada capitalista.

Caracterizou a Frente Popular formada entre o Partido Socialista, o Partido Comunista e o Partido Radical na França em 1936… “como uma coalizão do proletariado com a burguesia imperialista, representada pelo Partido Radical e outras podridões da mesma espécie de menor envergadura. A coalizão se estendeu ao terreno parlamentar (…) em sua forma atual, não é outra coisa que a organização da colaboração de classes entre os exploradores políticos do proletariado (reformistas e stalinistas) e os exploradores da pequena burguesia (radicales)”[2] . Para Trotsky a participação dos partidos operários em governos burgueses de frente popular era trair os princípios revolucionários da independência de classe do proletariado elaborados por Marx e Lenin.


“O trabalho mais importante de minha vida”

No dia 3 de setembro de 1938, dois anos antes de seu assassinato, Trotsky junto com seus seguidores fundam a IV Internacional, o que ele iria chamar “o trabalho mais importante de minha vida”. E assinalava: “Para expressar-me com maior claridade, diria o seguinte. Se eu não tivesse estado em Petrogrado em 1917 a revolução de outubro se teria produzido de toda maneira, com a condição de que Lenin estivera presente na direção (…) Por isso, não posso dizer que meu trabalho foi 'indispensável' nem sequer no período entre 1917 e 1921. Mas agora meu trabalho é 'indispensável', em todos os sentidos (…) Não resta ninguém senão eu para levar a cabo a missão de armar a uma nova geração com o método revolucionário, sobre as cabeças dos dirigentes das internacionais (Segunda e Terceira). E coincido plenamente com Lenin em que o pior dos vícios é ter mais de cinquenta e cinco anos! Necessito pelo menos cinco anos mais de trabalho sem interrupção para assegurar a sucessão" [3].

Trotsky era consciente que toda sua luta contra a burocratização stalinista, em defesa da independência de classe, pela democracia operária, e o internacionalismo, se concretizava na construção da Quarta Internacional. Ainda que pequena, a Quarta significava a continuidade do marxismo e do bolchevismo, era a referência programática e organizativa para toda uma geração.

A IV foi a resposta organizativa à crise de direção revolucionária, iniciada a partir da degeneração da III Internacional. Nasceu nadando contra a corrente, contra o grande aparato mundial dos Partidos Comunistas controlado pela burocracia stalinista desde a União Soviética. Mas isso não fazia mais pessimista Trotsky, ao contrario, a pesar da situação adversa para os trotskistas, mantinha sua fé inquebrantável na classe operária, mirava mais longe, e sabia que a IV era a condição para o triunfo das futuras lutas do proletariado mundial. Por isso dava muita importância à necessidade da Quarta aproximar-se das massas. Para isso responde o Programa de Transição: “A tarefa estratégica do próximo período – período pré-revolucionário de agitação, propaganda e organização – consiste em superar a contradição entre a maturidade das condições objetivas da revolução e a falta de maturidade do proletariado e de sua vanguarda (confusão e desencorajamento da velha direção, falta de experiência da jovem). É preciso ajudar as massas, no processo da luta, a encontrar a ponte entre suas reivindicações atuais e o programa da revolução socialista. Esta ponte deve consistir em um sistema de reivindicações transitórias, partindo das condições atuais e da consciência atual de amplas camadas da classe operária para uma só e mesma conclusão: a conquista do poder pelo proletariado"[4].


Continuar a batalha de Trotsky

Após o assassinato de Trotsky, a Quarta Internacional teve que enfrentar enormes desafios sem aquele que concentrava a maior experiência e formação teórica. A Quarta havia sido decapitada e tinha que em diante desenvolver-se no meio da segunda guerra mundial.

Atualmente, a Quarta não existe como uma organização, o que existe são várias correntes trotskistas que reivindicam a Quarta Internacional. Nós do Grupo Luta Socialista, somos parte da Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT), corrente morenista fundada em 1982 por Nahuel Moreno.

A LIT põe suas forças a serviço de reconstruir a IV Internacional e o fazemos tomando o Programa de Transição e seus ensinamentos e buscando atualizá-los para nossos dias. Sabemos que somos todavia uma corrente modesta, mas com presença em vários países da Europa e América Latina. Estamos completando 30 anos no presente ano, e cremos que frente à crise mundial do capitalismo mais do que nunca é necessário continuar a batalha de Lenin e Trotsky pela superação da crise de direção revolucionária, para a tomada do poder pela classe operária e a construção do socialismo em nível internacional. Na Bolívia, e nos demais países onde estamos, cremos que a melhor homenagem que podemos fazer a Trotsky, quando se completam 72 anos de seu assassinato, é retomar seus ensinamentos para reconstruir a IV Internacional.


(Tradução: Rodrigo Ricupero)

[1] Leon Trotsky, Tarefas e Métodos da Oposição de Esquerda Internacional, 1932, Escritos, Tomo IV, Vol. 1.
[2] Leon Trotsky, A onde vai a França?
[3] Diário de Trotsky no exílio, 1935
[4] Leon Trotsky, O Programa de Transição, 1938.


Retirado do Site do PSTU

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O Esporte e Socialismo

O atleta jamaicano Usain Bolt
Encerraram-se os Jogos Olímpicos de Londres. No Opinião Socialista desta quinzena (Nº 447) há um excelente artigo sobre o nefasto papel cumprido pelo capital neste que deveria ser um grande espetáculo de cooperação e fraternidade universal. Como demonstra o artigo, o capitalismo transformou as Olimpíadas em um festival de injustiças em nome do lucro: remoções forçadas das populações que vivem próximas aos equipamentos olímpicos, “zonas de exclusividade” para o marketing (onde ninguém pode, por exemplo, usar uma camiseta que mostre uma marca não autorizada pelo Comitê Olímpico Internacional) e outras barbaridades.

A próxima cidade a enfrentar as terríveis consequências de uma Olimpíada será o Rio de Janeiro. Não é preciso ter muita imaginação para prever as atrocidades que serão cometidas contra a população de rua do Rio, contra os menores que pedem esmolas nos sinais, contra os vendedores ambulantes e o povo em geral. É evidente que se prepara um verdadeiro estado de sitio na cidade, com a proibição de manifestações e greves, com uma repressão policial jamais vista. Chegaremos a ver algum tipo de “zona de exclusividade social” ou algum outro mecanismo que impeça o povo trabalhador de se aproximar dos locais de prova e trânsito de turistas? Só o tempo dirá. Não duvidamos de nada. De qualquer forma, a violência contra os pobres será a marca dos Jogos Olímpicos de 2016.

Mas o objetivo deste artigo não é analisar os fatores políticos e sociais imediatamente ligados às Olimpíadas. Aqui queremos tomar um elemento mais profundo, que em geral escapa às discussões sobre o tema, mesmo na esquerda: o esporte em si, sua relação com o indivíduo, com a vida em sociedade e com as ideias do socialismo.


O esporte de competição e os limites do corpo humano

“Superação!” Eis a palavra mais dita e ouvida em qualquer evento esportivo de grande porte. Os comentaristas não param de repetir que este ou aquele atleta “superou seus próprios limites” e que este ou aquele recorde acaba de ser quebrado. Os próprios telespectadores ficam eufóricos diante de figuras como Usain Bolt e Michael Phelps, que parecem de fato desafiar nossa compreensão sobre as capacidades humanas. Mesmo os esportes coletivos se tornam cada vez mais espetáculos de velocidade, força, agilidade e perfeição.

Mas se enganam aqueles que pensam que os atletas “testam” os limites do corpo humano, como gostam de dizer os jornalistas esportivos. Na verdade o esporte de competição já trabalha há algum tempo além dos limites do corpo humano, com gravíssimas consequências físicas e psíquicas para os atletas.

No futebol, por exemplo, um esporte que alterna piques explosivos com paradas abruptas, são observadas sérias consequências para o coração dos jogadores e as chamadas “mortes súbitas” em campo, fruto de infartos fulminantes, têm se tornado um fenômeno recorrente. Segundo a própria FIFA, nos últimos 5 anos, 84 jogadores de futebol morreram em campo devido a problemas cardíacos. É o que revela um relatório apresentado pela entidade em maio deste ano e que tem como base informações recebidas de 129 das 208 federações que compõe a FIFA. Além disso, os clubes apostam na hipertrofia muscular do atleta para suportar a violência das partidas e levar a melhor nas bolas divididas. A ênfase na musculação faz com que os jogadores ganhem uma massa muscular incompatível com sua estrutura óssea e articulações. Resultado: repetidas fraturas, seguidas de cirurgias, seguidas de novas fraturas.

Na ginástica olímpica, que para a perfeição técnica exige uma preparação física desde a mais tenra infância, o corpo das crianças que praticam esse esporte gasta praticamente toda a energia disponível nos treinos, o que gera a interrupção prematura de seu crescimento. Dito de maneira simples: param de crescer muito antes do que deveriam porque seu organismo não tem energia para mais nada, a não ser treinar.

No caso do fisiculturismo, fala-se muito dos anabolizantes, mas a verdade é que este sequer é o principal problema para a saúde dos que praticam essa modalidade. Algumas semanas antes da competição, a fim de “secar” e mostrar um corpo definido, os atletas reduzem drasticamente o consumo de água. Nos dias que antecedem a competição, a ingestão de líquidos chega literalmente a zero. A única água ingerida é a presente nos alimentos, que também são escolhidos especialmente em função de seu baixo teor de água. Não contentes com isso, os atletas tomam diuréticos para forçar a eliminação de líquido pela urina. Como resultado, desenvolvem graves doenças renais, têm dores de cabeça constantes e sérios desequilíbrios hormonais e metabólicos.

Nas corridas de cavalo, os jóqueis, que em geral já são de baixa estatura e magros, para não pesarem sobre o cavalo, fazem algo parecido: não só deixam de comer e beber antes das corridas, como tomam laxantes e fazem sessões de sauna nas horas que antecedem as corridas para eliminar o máximo possível de peso. Algumas gramas a mais sobre o cavalo podem fazer diferença. Resultado: desidratação crônica, novamente com consequências para os rins e outros órgãos.

Estes são apenas alguns exemplos. Em muitos outros esportes ocorrem fenômenos semelhantes.


A próxima fase do esporte sob o capitalismo: a transformação genética dos atletas

Entendendo que o corpo humano chegou ao seu limite e até o ultrapassou, alguns pseudocientistas a serviço das grandes marcas e corporações começam a pensar novas formas de aumentar o rendimento dos atletas, sem recorrer ao doping, que sempre pode ser detectado por exames precisos. Assim, começa-se a entrar em um terreno verdadeiramente escandaloso: a chamada “transformação genética” dos atletas.

Sabe-se, por exemplo, que o oxigênio é o grande combustível do corpo humano. Até certo ponto, o rendimento de um atleta em uma prova é determinado pela sua capacidade de “queimar” oxigênio e transformá-lo em energia e essa capacidade é determinada geneticamente. O grande “veículo” que carrega oxigênio através do corpo humano, levando-o para os tecidos que dele necessitam são os glóbulos vermelhos presentes no sangue. Quanto mais glóbulos vermelhos, melhor o indivíduo aproveita o oxigênio que respira. A partir daí o raciocínio se desenvolve com nitidez: bastaria injetar no atleta os seus próprios gens responsáveis por produzir glóbulos vermelhos para que o corpo passasse a produzir mais dessas células e o rendimento do atleta fosse melhorado. Esse procedimento não seria detectado em nenhum exame porque não se trataria de uma droga, mas sim de um componente até certo ponto “natural”: o material genético do próprio atleta. Não há hoje, pelo que se sabe, possibilidade técnica de realizar esse procedimento, mas do ponto de vista teórico ele deve funcionar e há muito dinheiro investido nesse tipo de pesquisa.

Essa ideia, por mais escandalosa que seja, é defendida hoje abertamente nos meios esportivos como a nova fase de desenvolvimento do esporte, uma fase onde recordes já consolidados seriam novamente quebrados com folga por esses “superatletas”. Daí para experiências secretas de conteúdo mais horripilante – é um pulinho. Qualquer semelhança com os experimentos realizados pelos médicos nazistas durante a 2ª Guerra Mundial não é mera coincidência. É o desenvolvimento lógico de um sistema opressor e racista.




“Mens sana in corpore sano”?

O esporte deveria ser o exercício e aperfeiçoamento das capacidades físicas do ser humano, com o objetivo de manter sua saúde e promover seu lazer, entretenimento e confraternização. Ou seja, em última instância, o objetivo final do esporte reside no bem estar psíquico do homem, que realiza todas as suas potencialidades físicas em associação com outros seres humanos e obtém daí prazer ou satisfação psicológica. Todos sabemos o quanto é simplesmente divertido jogar bola com os amigos, mesmo quando o placar do jogo não é sequer contado. O esporte deveria ser, portanto, em primeiro lugar, um momento de humanização e socialização.

Ao invés disso, o esporte de competição, tal como vem se desenvolvendo nas últimas décadas, tem significado um verdadeiro martírio psicológico para atletas de todos os estilos e idades, bem como para seus familiares.

A frustração diante das derrotas, as agressões psicológicas sofridas pelos atletas por parte dos treinadores, as cobranças da imprensa, as pressões e a humilhação a que os atletas estão submetidos por parte dos patrocinadores – tudo isso gera um clima que nada tem a ver com o chamado “espírito esportivo”. Há também casos de abuso sexual de atletas mulheres por parte dos técnicos, onde o caso de Joanna Maranhão é apenas o mais conhecido porque foi denunciado pela nadadora.

De uma forma geral, o esporte de competição se converteu em um profundo fator alienante para aqueles que o praticam. Crianças são retiradas de seu convívio normal, se tornando na prática prisioneiras e semi-escravas de clubes e empresas. Os estudos, as amizades, as brincadeiras sem compromisso e todas as outras atividades que não sejam o esporte são abandonadas. Alguns desses atletas demonstram de fato um enorme talento ou capacidade para o esporte e se transformam em grandes ídolos que fazem a alegria de milhões. Mas o preço que pagam é alto. Não fazem outra coisa além de competir. Que hoje em dia surja alguém como Sócrates (médico, jogador de futebol, ativista político e mais tarde jornalista), é praticamente impossível. O esporte de competição simplesmente não permite.

Assim, o esporte perde uma de suas principais funções: a manutenção da saúde psíquica daqueles que o praticam, o estabelecimento de relações sociais saudáveis, a interação humana em uma atividade livre e voluntária.


As lições da União Soviética

Nestas Olimpíadas muito se comentou sobre o resultado obtido pelos países que até 1991 compunham a antiga União Soviética. Somadas todas as medalhas ganhas pelos 15 ex-membros da URSS, estas ultrapassariam a quantidade de medalhas dos EUA, e a URSS, nessa projeção hipotética, terminaria os Jogos Olímpicos de Londres no topo do quadro.

De fato, os países que foram parte da URSS e outros antigos Estados operários são herdeiros de uma importante tradição esportiva e os resquícios dessa conquista podem ser vistos ainda hoje no desempenho dos atletas e equipes da ex-URSS, Europa Oriental e Cuba.

Mas de onde exatamente vinha o bom desempenho dos atletas soviéticos? Para quem assistiu Rocky IV, um filme de 1985 com Silvester Stalone, onde o boxeador ítalo-americano Rocky Balboa enfrenta o russo Ivan Drago, pode parecer que os bons resultados da URSS vinham apenas da disciplina individual dos atletas e do investimento pesado no esporte por parte do Estado. Neste lamentável filme dirigido pelo próprio Stalone, o russo Drago é retratado como um semi-robô sem emoções, criado praticamente em laboratório, e que tem à sua disposição nos treinos a mais avançada tecnologia soviética. Rocky o derrota na luta final treinando apenas com peças de carne e blocos de gelo em um frigorífico, sacos de areia e correndo atrás de galinhas, provando assim que nem mesmo o mais avançado treinamento tecnológico é páreo para a “superioridade norte-americana”.


O filme Rock IV e a visão estereotipada do Esporte na URSS

Bem, é verdade que na antiga URSS havia um forte investimento estatal no esporte. Também é verdade que os atletas eram bastante disciplinados. Mas arriscamos dizer que o incrível desempenho do esporte soviético não vinha nem de um fator, nem de outro. O investimento e a dedicação ajudam a explicar o fenômeno, mas não esgotam a questão. No fundamental, o sucesso da URSS se explicava por outro motivo: a massificação do esporte para praticamente toda a população. Expliquemos.

Ora, como se “descobrem” talentos esportivos hoje em dia? Busca-se exaustivamente nos clubes e empresas jovens que “prometam”, que mostrem indícios de que podem se desenvolver como atletas. Depois, se investe pesado nestes jovens, se impõe a eles uma rígida e opressiva disciplina, se estabelece para eles um ritmo alucinante e desumano de treinos, até transformá-los em grandes desportistas. Isso é assim mesmo nos países mais ricos e desenvolvidos. Ou seja, sob o capitalismo, trabalha-se com muito pouco material humano, com um universo muito restrito porque o esporte é extremamente elitizado. Por isso, qualquer jovem que demonstre algum talento para o esporte é “esfolado vivo” até render aquilo que se espera que ele renda...

Pois na URSS era diferente: o esporte era massificado, praticamente toda a população o praticava até certa idade, em maior ou menor grau. Dessa forma, os talentos não precisavam ser “pescados” em processos seletivos arbitrários e injustos; não havia “olheiros”, como nos países capitalistas. Os novos talentos brotavam de maneira mais ou menos espontânea da massa da população, que praticava esportes desde a infância. Trabalhava-se com um universo muito mais amplo, com um material humano muito mais diverso e abrangente. O que os países capitalistas conseguiam alienando e robotizando seus atletas, a URSS conseguia oferecendo a toda a população a possibilidade de praticar algum esporte e testar nele suas aptidões. Ou seja, a imagem “Rocky x Drago” (homem do povo x semi-robô alienado) é justamente o contrário do que existia na realidade.

Obviamente, devido ao fato de que as competições internacionais eram encaradas pela burocracia stalinista como peça de propaganda de seu regime, os atletas soviéticos de maior destaque sofriam consequências mais ou menos parecidas àquelas sofridas pelos atletas dos países capitalistas. Era o resultado inevitável do fato de que a URSS era dirigida por uma casta parasitária, que via o esporte como mais uma forma de manutenção de seu poder. Mas o fundamental não é isso. O fundamental é que na antiga URSS, principalmente nos primeiros anos de poder soviético, praticamente todas as empresas tinham seu time de futebol, de hockey, sua equipe de ginástica, de xadrez etc etc etc., e os torneios entre empresas, entre escolas, entre cidades, eram a forma predominante de confraternização esportiva. Fenômenos como doping, assédio, violência de torcidas, brigas em campo etc., eram simplesmente inimagináveis naquela situação.


O socialismo e o futuro do esporte

O mesmo capitalismo que promove o esporte de competição ou de “alto rendimento” é o que mantém uma parte significativa da população subnutrida, sedentária e doente. Uns poucos fazem coisas inacreditáveis, para que milhões e milhões apenas paguem o “pay per view”, comprem as camisetas e compareçam aos estádios. A famosa frase de Lula, gravada por uma câmera escondida, onde ele diz para um menino pobre do Rio de Janeiro, que reclamava do fechamento da quadra de tênis de um Complexo Esportivo do Governo do Estado, que “tênis é esporte da burguesia” é o triste retrato da concepção de esporte predominante em nossa sociedade. “Da burguesia” quer dizer “não é para você”, “vá fazer outra coisa”. Além disso, o capitalismo sonha com “super-atletas” que atraiam aos estádios e para a frente da TV multidões ainda maiores. E se esses super-atletas não surgem de maneira espontânea, o capitalismo está disposto a fabricá-los genética ou quimicamente.

Para o marxismo, as coisas são diferentes. A tarefa do socialismo em relação ao esporte é, em primeiro ligar, massificá-lo de uma maneira jamais sonhada. O esporte deve ser parte integrante e inseparável da educação do ser humano, tão importante quanto sua formação científica ou artística.

Obviamente, para isso será preciso um grande e permanente investimento estatal, tanto nos níveis fundamentais da formação esportiva (como atividade recreativa para crianças e adolescentes em idade escolar), quanto nos níveis mais qualificados. Mas esse investimento estatal de grande porte não pode estar em contradição com as demais necessidades da população, como moradia, saúde, transporte etc. A ideia de grandes espetáculos e competições esportivas construídas sobre o sofrimento e a exclusão da maioria (seja em função de remoções forçadas das populações, seja em função da falta de investimento em outras áreas) deve ser radicalmente abolida da prática social.

Da enorme massa da população que terá acesso ao esporte, se destacarão de forma mais ou menos natural os novos talentos e grandes desportistas do socialismo. Surgirão não um ou dois, mas inúmeros “Usain Bolt”, não dois ou três, mas incontáveis “Michael Phelps”.

O esporte voltará a ser um espetáculo de verdade, mas sua base não será mais a destruição do adversário ou a auto-negação do atleta enquanto ser humano completo. O esporte será novamente espetáculo porque será uma confraternização universal, da qual todos os cidadãos socialistas poderão participar ativamente.

Em uma sociedade socialista, igualitária por excelência, a competição desaparecerá por completo? Os placares deixarão de ser contados? Tornar-se-á o esporte apenas brincadeira, como é para as crianças? É difícil dizer. Somente as gerações que chegarem ao socialismo, e depois ao comunismo, poderão decidir o que fazer com esse grande legado do passado que é o esporte. O certo é que a competição, caso se mantenha, deixará de ser feita às custas da saúde física e psíquica dos atletas e seus familiares. E obviamente, conceitos como “dinheiro”, “patrocínio”, “marca” e outros – deixarão de ter qualquer relação com a prática esportiva. O esporte será esporte e nada mais.

Os desportistas do socialismo não serão ídolos intocáveis e inatingíveis. Serão pessoas comuns, que, além do esporte, realizarão atividades produtivas e intelectuais úteis para toda a sociedade. Não serão apenas atletas, mas seres humanos completos, universais, porque o esporte deixará de ser um fim em si, para se tornar um meio de educar e formar os cidadãos socialistas.

O socialismo não quer super-humanos; quer apenas seres humanos melhores. Desde que se livre das amarras impostas pelo capital, pela propriedade privada e pelo lucro, o esporte pode ser uma ferramenta fundamental nessa construção.


Retirado do Site do PSTU

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O partido revolucionário e a legalidade

Partido revolucionário deve combinar táticas legais e clandestinas
Partidos revolucionários existem para dirigir revoluções. Essa é sua razão de ser. O PSTU não foge à regra: somos aqueles que se organizam e lutam para fazer triunfar a revolução socialista brasileira. As revoluções, como todos sabem, são atos “ilegais”, onde as massas organizadas rompem as correntes de dominação que as envolvem e tomam em suas mãos as rédeas de seu próprio destino. Ao fazerem isso, inevitavelmente violam a legalidade burguesa: ocupam fábricas e terras, expropriam empresas, mobilizam milhões, param o país, ignoram o poder e as leis, exercem a violência defensiva contra seus opressores.

Não seria uma contradição, portanto, um partido que luta pela revolução socialista ter uma existência legal? Disputar eleições, ter sedes públicas? Filiar pessoas, prestar contas à justiça sobre seus gastos? Não deveria um partido revolucionário manter-se em completa ilegalidade até a vitória da revolução? A existência de um partido revolucionário legal não é uma contradição em si? Um sintoma de sua adaptação à democracia burguesa?

O PSTU começou agora uma campanha de filiação e muitos ativistas honestos nos questionam sobre isso. A pergunta não é sem sentido. O marxismo já realizou grandes e importantes debates sobre esse problema. É preciso abordar o tema de maneira franca e aberta.


A tradição revolucionária

Para chegar a dirigir a classe trabalhadora na luta pelo poder, o partido revolucionário deve romper com a marginalidade. Ou seja, deve ser conhecido, escutado e seguido por milhões. Isso, obviamente, não acontece da noite para o dia, mas através de um longo e tortuoso processo de construção partidária. Nesse terreno, a tarefa dos revolucionários consiste em aproveitar cada oportunidade para se apresentar diante das massas como uma alternativa política. E não estamos falando apenas da atuação eleitoral ou parlamentar, mas de algo muito mais profundo: o partido revolucionário deve tornar-se o grande partido da classe trabalhadora, a referência de suas lutas, o instrumento de sua educação política, o espaço de sua organização cotidiana.

O Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD, na sigla em alemão), por exemplo, fundado em 1875, adquiriu uma influência gigantesca sobre a classe trabalhadora daquele país graças à combinação da estratégia revolucionária com a atuação legal. O SPD, além de eleger parlamentares e dirigir sindicatos, organizava clubes culturais, montava bibliotecas para os trabalhadores, criava círculos de estudo e alfabetização, publicava jornais diários, editava revistas teóricas e muitas outras atividades. Mais tarde, esse partido se degenerou, abandonando a luta pela revolução socialista, mas deixou na história a marca do incrível trabalho legal que realizou. O SPD aproveitava cada oportunidade para se aproximar dos operários mais simples, mais conservadores, mas que viam nele o seu partido, o partido de sua classe.

Mas certamente o exemplo mais rico de combinação da estratégia revolucionária com a atuação legal vem do Partido Bolchevique, que conduziu a classe operária russa ao poder em 1917. Ao contrário do que em geral se pensa, os bolcheviques não tiveram apenas uma atuação clandestina nos anos que antecederam a tomada do poder. Por diversas vezes, atuaram de maneira aberta, participando das eleições e publicando jornais legais. Isso contribuiu enormemente para que o Partido Bolchevique ampliasse sua influência sobre a classe trabalhadora, o que por sua vez foi decisivo no momento da disputa pelo poder.

Eis a opinião de Lênin, dirigente da Revolução Russa, sobre a importância, para o Partido Bolchevique, da combinação do trabalho legal com a estratégia revolucionária:

“Esse procedimento [a combinação do trabalho legal com a estratégia revolucionária] não foi utilizado nem pelos socialistas-revolucionários, nem pelos kadetes, o mais organizado dos partidos burgueses: partido quase legal, que dispõe, em comparação com o nosso, de recursos financeiros infinitamente maiores e tendo possibilidades enormes de utilizar a imprensa e viver legalmente. E nas eleições à 2ª Duma [parlamento], nas quais tomaram parte todos os partidos, não foi demonstrado, de maneira evidente, que a coesão orgânica de nosso partido e de nossa minoria parlamentar na Duma foi superior à de todos os demais partidos?”

Ou seja, o partido mais revolucionário que a história já conheceu utilizava a legalidade burguesa de maneira mais hábil e mais inteligente do que os próprios partidos burgueses liberais! Mas isso, que parece uma contradição, é justamente a ideia fundamental de Lênin em termos de organização revolucionária: um partido com uma estrutura flexível, capaz de passar rapidamente da mais absoluta ilegalidade a uma atuação legal ampla (caso as condições permitam). E o contrário: em caso de golpe ou repressão, capaz de sair imediatamente do cenário legal e passar à clandestinidade, de forma a preservar seus quadros, sua direção e seu trabalho político.

Após a vitória da Revolução Russa, a Internacional Comunista (ou Terceira Internacional), ou seja, o partido mundial da revolução fundado em 1919 para dirigir a revolução socialista internacional, definiu assim as tarefas dos revolucionários em termos de combinação do trabalho legal com o clandestino:

“Seria um grande erro preparar-se exclusivamente para os levantes e os combates de rua ou para os períodos de maior opressão. (…) Cada partido comunista ilegal deve saber utilizar todas as possibilidades do movimento operário legal para se transformar, por meio de um trabalho político intensivo, no organizador e verdadeiro guia das grandes massas revolucionárias”.




Nossa experiência

Depois que foi expulso da URSS em 1929, Trotsky, dirigente da Revolução Russa ao lado de Lênin, se dedicou a fundar a Quarta Internacional como continuidade da Terceira Internacional, degenerada pela contrarrevolução stalinista. A tarefa fundamental naquele momento era fazer com que os revolucionários superassem a marginalidade imposta pelo peso do stalinismo no movimento de massas. Trotsky continuou na nova Internacional, a tradição bolchevique de combinação entre o trabalho legal e a estratégia revolucionária, com vistas a ganhar a consciência dos trabalhadores.

O Partido Socialista dos Trabalhadores norte-americano (SWP, na sigla em inglês), por exemplo, aplicou ao longo de sua história uma infinidade de táticas legais: disputas sindicais, participação eleitoral, organização de greves econômicas, chamados à construção de novos partidos legais etc. Tudo isso com um único objetivo: chegar às amplas massas, disputar a direção política da classe operária.

A corrente internacional fundada pelo dirigente trotskista argentino Nahuel Moreno, e da qual o PSTU faz parte, fez o mesmo: participação nas organizações sindicais legais do peronismo, amplas campanhas eleitorais sempre que as condições permitiam, unificações com outras organizações revolucionárias para formar novos partidos legais etc.

Aqui no Brasil, a organização trotskista surgida na metade dos anos 1970 e que deu origem ao PSTU teve desde o início essa mesma preocupação: a busca do movimento de massas através de um amplo trabalho de agitação legal. Em plena ditadura militar, fomos os primeiros a defender a construção de um partido socialista legal, proposta que acabou sendo superada positivamente com a fundação do PT em 1980. Ao sermos expulsos desse mesmo PT em 1991, imediatamente começamos a trabalhar pela construção de um novo partido revolucionário legal, o que culminou na fundação do PSTU em 1994.

Assim, o trabalho revolucionário legal é parte de nossa tradição. Ele é necessário pelo simples motivo de que em épocas de calmaria as massas não estão dispostas a ações revolucionárias por fora da legalidade burguesa. Tal é a realidade com a qual os revolucionários devem lidar em sua luta por dirigir as massas e ganhar sua consciência.

Como dizia Lênin, “Vosso dever [dos comunistas] consiste em não descer ao nível das massas, ao nível dos setores atrasados da classe. Isso não se discute. Tendes a obrigação de dizer-lhes a amarga verdade: dizer-lhes que seus preconceitos democrático-burgueses e parlamentares não passam disso: preconceitos. Ao mesmo tempo, porém, deveis observar com serenidade o estado real de consciência e de preparo de toda a classe (e não apenas de sua vanguarda comunista), de toda a massa trabalhadora (e não apenas de seus elementos avançados).”


O PSOL e a legalidade burguesa

O que dissemos até aqui não tem nada a ver com o que fazem, por exemplo, algumas correntes do PSOL, que simplesmente abandonaram qualquer perspectiva de atividade revolucionária de combate. Essas correntes consideram que entramos em uma época histórica em que as revoluções não são possíveis. Dizem que devemos nos preparar para décadas de estabilidade política, social e econômica. Fruto dessa avaliação, essas correntes ditas socialistas acabam com todas as características conspirativas de sua organização: o segredo, a preservação da estrutura dirigente, a separação estrita entre militantes e filiados etc. Desmontam a organização revolucionária e preservam apenas a organização legal. Se entregam de corpo e alma à legalidade burguesa. Está claro que em um momento de ascenso revolucionário, estas organizações estão condenadas à falência e ao desaparecimento.

As correntes ditas socialistas que existem no PSOL cometem um erro grave porque confiam nas boas intenções da democracia burguesa; esquecem que o acirramento da luta de classes acaba com qualquer vestígio de democracia, mesmo da democracia formal. Os ex-moradores do Pinheirinho, por exemplo, expulsos de suas casas apesar de uma liminar concedida pela justiça, sabem muito bem que a palavra (mesmo escrita!) da democracia burguesa não vale absolutamente nada. Confiar na legalidade burguesa, como fazem essas correntes, é acabar com o caráter socialista e revolucionário da própria organização.


Nosso atual objetivo na atividade legal

O PSTU está em campanha de filiação. Nosso objetivo é aumentar significativamente o número de operários, jovens e trabalhadores em geral que têm uma relação formal, oficial, com nosso partido. Esse tipo de relação é muito importante para um setor da classe trabalhadora. Vários companheiros relatam que quando vão visitar ativistas operários mais velhos em suas casas, estes muitas vezes se declaram comunistas e exibem com orgulho a carteirinha já envelhecida de filiado do antigo PCB. Provar por meio da carteirinha do partido sua condição de operário e comunista já foi um gesto comum em nossa classe. E era uma linda tradição. Para um operário, filiar-se a um partido é estabelecer um vínculo, assumir um certo compromisso político e ideológico, colocar-se já em um lado da trincheira.

Em um partido revolucionário, o filiado é diferente do militante. O militante tem direitos: pode influenciar os rumos do partido, assumir tarefas de responsabilidade e disputar a direção da organização. Já o filiado não tem esses direitos. Mas isso não quer dizer que o filiado não possa ter um papel importante na vida do partido. Queremos consolidar uma relação política e ideológica com milhares de ativistas que nos olham com simpatia, concordam em geral com nosso programa, vêem com bons olhos as ideias do socialismo, mas não querem ser militantes, ou seja, não querem dedicar o essencial de seu tempo à atividade revolucionária. Essa relação política deverá ser alimentada por nossos materiais impressos e eletrônicos, pela presença desses filiados em nossas atividades abertas de propaganda e agitação, por relações sociais mais próximas.

Nossa campanha de filiação nada mais é, portanto, do que um pequeno, porém importante passo na disputa pela consciência das massas. Trata-se de aumentar, expandir, fortalecer a influência do partido revolucionário sobre sua periferia política, e por meio desta – sobre os trabalhadores em geral. Trata-se, em resumo, de cravar ainda mais fundo e levantar mais alto a bandeira do socialismo.


Retirado do Site do PSTU