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sexta-feira, 19 de abril de 2013

Atentado a Boston mostra fragilidade dos EUA e fracasso da política “antiterror”


Momento da explosão de uma das bombas em Boston
O atentado a bomba no final de uma maratona na cidade de Boston nesse último dia 15 trouxe de volta o tema do terrorismo para o cotidiano dos norte-americanos. Duas explosões provocadas por artefatos rústicos montados em panela de pressão mataram 3 pessoas e feriram outras 170 ao final de um dos principais eventos esportivos do país.

A Maratona de Boston é um evento tradicional da cidade, a mais importante da Costa Leste, e reunia cerca de 30 mil corredores e 500 mil espectadores. Os dois artefatos explodiram quase que simultâneamente e estavam preenchidos com pregos e outros objetos metálicos. Foi montado com o objetivo de causar o maior dano possível às vítimas.

A imprensa internacional, repercutindo declarações de um deputado republicano presidente do Comitê de Segurança Nacional da Câmara, destacou que os explosivos são similares aos utilizados no Afeganistão e no Iraque contra as tropas norte-americanas. No entanto, grupos de extrema direita do país também orientam a construção de artefatos com essa mesma técnica.

Alguns minutos depois da detonação das duas bombas na maratona, outra bomba teria explodido na biblioteca John F. Kennedy, mas sem deixar feridos. As autoridades ainda não haviam relacionado essas duas explosões.

Logo após as explosões, os EUA reforçaram os esquemas de segurança nas principais cidades do país, como Nova Iorque, Los Angeles e Washington. Apesar de ninguém ter ainda reivindicado a autoria do atentado, o governo norte-americano afirmou que as investigações seriam realizados no país e no exterior.

O atentado a bomba em Boston coincidiu com o envio de cartas com um tipo de veneno letal ao presidente Barack Obama e quatro senadores. A carta, contendo a toxina ricina, teria vindo com a seguinte mensagem: "Ver o que está errado e não expor o erro é tornar-se parceiro silencioso de sua continuidade". Porém, apesar da coincidência das datas, não havia indícios que relacionassem as cartas com os atentados a bomba.


Um país vulnerável

O atentado mostrou o fracasso da política antiterror dos EUA. Mesmo com toda a paranoia que envolve a segurança interna no país, os atentados continuam e nada impede que um novo 11 de setembro ocorra.

A última tentativa de atentado terrorista havia ocorrido em 2010, com um carro bomba em plena Times Square, em Nova York. Assumido por um americano de origem paquistanesa e pelo Talibã, o atentado foi frustrado por muito pouco. O motivo do ataque teria sido uma retaliação ao uso de drones no Paquistão.


Terrorismo

O presidente Obama classificou o atentado como um “ato hediondo e covarde”. A resposta dos EUA ao atentado mostra, além de sua vulnerabilidade, a hipocrisia extrema do país que ocupa militarmente o Iraque e o Afeganistão, e interfere em tantos outros no Oriente Médio, como o Paquistão. Nos últimos anos, a utilização indiscriminada dos 'drones', os aviões não tripulados, vem causando polêmica pelas inúmeras mortes de civis que provocam ao simples apertar de um botão de um oficial norte-americano a milhares de quilômetros dali. Sem falar na ingerência do imperialismo em todo o mundo.

Só no Iraque, de acordo com o site Iraq Body Count, que contabiliza o número de mortes no país após a invasão norte-americana, marcava de 122.573 mortes de civis de 2003 até o fechamento desse texto. Portanto, o principal responsável pelo clima de insegurança nos EUA é o próprio governo norte-americano e sua política intervencionista, que sobreviveu à era Bush e continua com Obama.

Reconhecer o governo norte-americano como principal responsável pelo terrorismo, porém, não é respaldar os ataques terroristas. Protegidos pelo maior aparato de segurança do mundo, os homens que comandam a máquina de guerra do imperialismo raramente sofrem com as consequências de seus atos. São os trabalhadores e a população dos EUA que estão realmente vulneráveis ao terrorismo.

Além disso, o terrorismo, mesmo quando não tem por alvo a população civil, é um completo desserviço à classe operária e aos socialistas. Em seu texto “Por que os marxistas se opõem ao terrorismo individual”, Trotsky já assinalava: “o terror individual é inadmissível precisamente porque desvaloriza o papel das massas e da sua própria consciência, fazendo com que elas se resignem diante de sua impotência e voltem seus olhares para um herói vingador e libertador que esperam um dia para cumprir sua missão”.

O terrorismo, além disso, serve muito bem aos interesses do imperialismo ao legitimar o aumento da repressão e sua ofensiva colonizadora, a exemplo do que ocorreu após o 11 de setembro.


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Atentado em Boston faz crescer precariedade dos trabalhadores


Retirado do Site do PSTU

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A crise econômica mundial e a GM

Ameaça de demissões no Brasil faz parte da política da montadora em todo o mundo





Sede da General Motors em Detroit
O final do ano de 2008, um dos momentos de aprofundamento da crise econômica, em particular nos Estados Unidos, marcou profundas transformações na GM. Acossada pela crise, a empresa chegou a entrar em concordata. Suas ações chegaram a valer menos de um dólar e o governo americano foi obrigado a intervir para impedir a bancarrota total da multinacional, o que teria consequências no agravamento da situação econômica mundial.

Em acordo que envolveu os ex-acionistas, o governo norte-americano, o canadense, e o VEBA, uma espécie de fundo de pensão administrado pelo UAW (o sindicato nacional dos trabalhadores da indústria automobilística), a empresa conseguiu sair da concordata rapidamente e promoveu uma grande reestruturação que já vinha sendo perseguida pela companhia há anos.

O governo Obama ficou com a maioria das ações e o controle da administração da GM. A saída da concordata no início de 2009 implicou no fechamento de 17 fábricas, na extinção de diversas marcas, na demissão de 35 mil trabalhadores e na criação de uma “Nova GM”, fruto da reestruturação.

Em colaboração com a burocracia sindical da UAW (que se transformou em “sócia” da empresa), foram criadas novas estruturas salariais que rebaixaram em metade o salário da nova geração de trabalhadores, a 12 e 16 dólares por hora, frente aos 32 dólares recebidos anteriormente. Essa foi a base da forte reestruturação nos EUA, onde quem pagou a conta da crise foram os trabalhadores.

Junto com isso, a empresa conseguiu altos lucros em países como Brasil, China, Coréia, e que possibilitaram uma alta remessa de lucros para a matriz. Também ocorreu uma restruturação parcial na Europa, com precarização do trabalho e o fechamento de plantas como em Antuérpia, na Belgica.

Com isso, a empresa retomou em 2011 a posição de primeira montadora do mundo, derrubando a Toyota, afetada pelos efeitos do tsunami no Japão. Em 2012 a Toyota retomou a liderança, mas por uma pequena diferença.


Reestruturação internacional

Esta receita da GM foi amplamente utilizada pelas montadoras nos EUA e no mundo levando a uma precarização geral do trabalho. Os trabalhadores hoje vêem suas condições de vida se deteriorar rapidamente. Fazer mais carros com menos trabalhadores e salários menores: é o que faz a GM se utilizando também de avançadas tecnologias.

Assim, apesar da crise econômica, cresce a produtividade do trabalho nos EUA e a competividade da empresa, que se recupera e se aproveita do pequeno crescimento do mercado automobilístico norte-americano. A GM agora se prepara para voltar integralmente à bolsa de valores e o governo Obama vender suas ações e deixar o controle da empresa.

No entanto, a forte concorrência entre os capitalistas, o crescimentos das empresas asiáticas e o aprofundamento da crise econômica na Europa fazem com que a reestruturação seja permanente e cada vez maior. Só assim as empresas podem manter suas taxas de lucros e ganhar mais força, aumentando a exploração dos trabalhadores.


Ofensiva das montadoras

Assistimos neste momento a uma sucessão de ataques, com ameaças de fechamentos de empresas em vários países e o deslocamento da produção para regiões de baixo custo. Até na Alemanha, onde não se fecha uma planta desde a Segunda Guerra Mundial, a GM quer acabar com a produção na fábrica em Bochum em 2016. Na França, a PSA GM quer fechar uma planta, demitir até 8500 trabalhadores e enfrenta uma greve neste momento.

A Ford anunciou o fechamento da planta na Bélgica no final do ano passado, o que também tem gerado protestos. As sucessivas concessões feitas nesta empresa pela burocracia sindical, com redução de direitos e salários, não impediram que a multinacional tomasse esta decisão.

Na Itália, a veterana Fiat tem promovido uma forte reestruturação com diminuição dos postos de trabalho, fechamento de plantas e chantagens sobre os trabalhadores. Com a queda das vendas na Europa, cresce a concorrência entre as empresas e as fusões para aumentar a escala de produção. Estima-se que apenas seis ou sete montadoras sobreviverão em escala mundial a esse processo.




Ataques no Brasil

A ofensiva da GM no país tem como pano de fundo esta situação. Mesmo nos países onde ainda existe crescimento de vendas, como é o caso do Brasil. A vinda de novas empresas que praticam baixos salários e normalmente se instalam em locais com fraca tradição sindical pressionam ainda mais para reestruturação. A “receita GM” se espalha da matriz nos EUA para todo mundo. Trabalhar mais com menos trabalhadores e salários mais baixos, fechar fábricas e diminuir os postos de trabalho. Por isto também deve ser enfrentada internacionalmente.

As mobilizações que se iniciam na Europa contra o fechamento de fábricas mostram o caminho. O encontro realizado em São José dos Campos (SP) no ano passado entre operários do Brasil, Espanha, Alemanha e Colômbia apontou para a necessidade da luta unificada. As recentes manifestações em Detroit (nos EUA) durante o Salão internacional do Automóvel e a realização de um dia global de manifestações no dia 23 de janeiro, apoiando a luta dos metalúrgicos da GM de São José dos Campos, são expressões dessa visão internacional.

Ainda são pequenas iniciativas, mas apontam o caminho. Contra a globalização capitalista, temos de apostar na globalização das lutas e da resistência.


Retirado do Site do PSTU

sábado, 17 de novembro de 2012

Israel ataca Faixa de Gaza e prepara novo massacre na região

Estado judeu utiliza justificativa de retaliação para bombardear população civil de Gaza


Bombas de Israel já atingiram mais de 600 pontos de Gaza

Mais uma vez, Israel volta seus canhões a Gaza, bombardeia o território palestino e ameaça uma nova invasão, quase quatro anos após o massacre perpetrado entre 2008 e 2009 e que ceifou 1400 vidas. A nova escalada de ataques contra a Palestina explodiu no dia 14 de novembro, com o assassinato de Ahmed al Jabari, dirigente do braço armado do Hamas, as Brigadas de Izz el-Din al Qassam. O líder foi atingido por um míssil enquanto dirigia seu carro pelas ruas de Gaza, em uma série de ataques da operação “Pilar de Defesa”, impulsionado pelo Exército sionista.

O Hamas respondeu à agressão disparando foguetes contra Tel Aviv e o sul do país. Segundo autoridades israelenses, três pessoas morreram na cidade de Kyriat Malaji. Foi o que Israel esperava para desatar ataques ainda mais duros contra a população civil do território ocupado. A série de ataques a bomba deflagrada no dia seguinte, enquanto o dirigente do Hamas era sepultado, matou 19 pessoas, entre elas três crianças.

Ao todo, 27 palestinos já morreram e os feridos passam de 250, grande parte crianças, incluindo o filho de fotógrafo da BBC de apenas onze meses. As imagens do fotógrafo em prantos carregando nos braços o bebê sem vida roda o mundo e se torna a expressão mais acabada da selvageria imposta pelo Estado de Israel aos palestinos.


Eleições e Estado palestino na mira de Israel

Essa nova onda de ataques ocorre após dias de uma tensão crescente na fronteira entre Gaza e Israel. No último dia 10 um tanque israelense, em um gesto de provocação, circulou pela fronteira e foi alvo de disparos do Hamas. A resposta foi selvagem e deixou cinco mortos. Os ataques e incursões de Israel na fronteira, porém, já ocorriam desde o início do mês.

Nos últimos três dias, Israel atacou mais de 600 pontos de Gaza, destruindo prédios e residências. A cidade vive dias de terror. Enquanto as ruas estão desertas e o comércio fechado, aglomerações só ocorrem nos funerais das vítimas do Exército israelense. A população, que já sofre os efeitos do bloqueio e isolamento reforçados por Israel após a subida do Hamas ao poder em 2007, enfrenta o medo diário dos aviões e drones israelenses, como assim como uma iminente invasão.

Israel divulgou nesse dia 16 a convocação de 75 mil reservistas, indicando que pode iniciar uma invasão por terra à Faixa de Gaza em instantes. “Esta escalada vai determinar o preço que o outro lado vai pagar” , afirmou o ministro da Defesa, Ehud Barak. Já setores da ultradireita pedem diretamente o assassinato do primeiro-ministro de Gaza, Ismail Yaniyeh.

Ao que tudo indica esse novo ataque perpetrado por Israel contra Gaza é uma forma de o atual governo de Benjamin Netanyahu amarrar o apoio da população num momento em que se aproximam as eleições legislativas, marcadas para o dia 22 de janeiro. Mas não é apenas o Hamas que está no alvo de Israel. O presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, quer aprovar a proclamação do Estado palestino na próxima assembleia geral da ONU, no dia 29 de novembro, contra a vontade de Israel.

Apesar de os termos defendidos por Abbas estarem bem longe das reivindicações históricas dos palestinos, e da própria ANP servir como um governo títere do estado judeu, Israel se opõe frontalmente à formação do novo estado. O ministro das relações exteriores do país, Avigdor Lieberman, afirmou que, caso prospere a intenção da ANP na ONU, não restaria a Israel outra opção que não “derrubar” Abbas e “destroçar” a Autoridade Nacional Palestina.


Fotógrafo da BBC segura filho morto em ataques de Israel


Pretexto para um novo massacre

Enquanto convoca milhares de reservistas, Israel determinou nesse dia 16 de novembro o fechamento das estradas ao redor de Gaza. Com o apoio dos Estados Unidos de Barack Obama, o estado sionista prepara um novo massacre no território a exemplo do que fez na Operação Chumbo Fundido, há seis anos, quando matou 1400 palestinos em 22 dias de ataques massivos sobre a população civil de Gaza.

Como atesta o blogueiro e ativista judeu Max Ajl, “a categoria de Israel de ‘retaliação’ não existe. A ocupação é um terror constante e é o que gera a violência palestina, e assim os líderes israelenses podem apresentar como uma justificativa retroativa para as políticas que aplicam em busca de uma quimera de ‘segurança’”.

Neste momento, mais do que nunca, é preciso cercar de solidariedade a luta do povo palestino e denunciar os crimes e atrocidades do Estado de Israel.


Retirado do Site do PSTU

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Obama vence eleição, mas já não desperta grandes ilusões

Presidente é reeleito com mais dificuldades do que há quatro anos
 


Obama é reeleito com diferença menor que em 2008

Após meses de uma acirrada corrida eleitoral, Barack Obama é reeleito presidente dos EUA. O seu principal adversário, Mitt Romney, do Partido Republicano, um multimilionário ex-executivo de empresas de investimento, perdeu na votação por Estado e no voto popular. O sistema eleitoral nos EUA é indireto e o peso do voto dos delegados de cada estado é superior ao peso da população.

Obama levou 303 dos 538 votos dos delegados por Estado, e 50,2% dos votos populares contra 48,3% angariados pelo Partido Republicano. Até o momento do fechamento desta matéria, apenas o dividido Estado da Flórida não tinha manifestado os votos dos 29 delegados. O resultado do estado, entretanto, não influenciará o resultado final, pois Obama já alcançou os 270 votos necessários para a vitória. O Partido Democrata conta com a maioria no Senado, mas tem menos assentos na Câmara de Representantes, algo semelhante à Câmara de Deputados no Brasil.

Obama, no entanto, não conseguiu manter o mesmo número de eleitores que conquistou em 2008, e a diferença de votos entre republicanos e democratas foi reduzida em relação à eleição anterior. Contra o então candidato McCain, Obama havia vencido com 52,9% dos votos, contra 45,6%, uma vitória bem mais folgada que o resultado apertado deste ano.

O primeiro presidente negro dos EUA eleito em 2008 venceu esta reeleição com mais dificuldade que há quatro anos, quando o sentimento de mudança contagiou os americanos, descontentes com os oitos anos do governo de George W. Bush. Na época, o sonho de mudança diante do colapso da economia, do alto índice de desemprego e da derrota no Iraque e no Afeganistão foi traduzido nas urnas com a vitória de Obama, que simbolizava a esperança do novo, embora fosse uma das principais lideranças do Partido Democrata que há décadas se reveza com o Partido Republicano no poder aplicando a mesma política.

Agora, após quatro anos no comando do império norte-americano, Obama teve que resgatar a tática do medo, destacando uma possível volta dos anos Bush sob a roupagem do direitista Romney. Com os slogans “Pra Frente”, “Mais quatro anos” e “América avança”, a campanha de Obama buscou se apoiar no sentimento da população de não querer voltar ao passado, ao período de colapso da economia e da redução do padrão de vida da Era Bush (2000-2008). Ao mesmo tempo, tentou fugir do balanço do seu governo, que também teve sua cota de responsabilidade nos cortes de direitos e conquistas dos norte-americanos.

O candidato democrata contou ainda com os posicionamentos conservadores expressados por Romney, nas prévias do Partido Republicano, sobre temas como aborto e contracepção, imigração, direitos sindicais e LGBT. Obama conseguiu surfar também na tímida recuperação do índice de desemprego durante a campanha, que teve o menor índice desde janeiro de 2009.


Candidato derrotado Mitt Romney


Mais quatro anos

Com a vitória em uma das eleições mais caras dos EUA, na qual os candidatos e seus aliados gastaram juntos cerca de US$ 2 bilhões, as expectativas sob o segundo governo Obama não são tão eufóricas quanto foi em 2008. Nestes últimos quatro anos, Obama foi o responsável por aplicar os planos de cortes contra a classe trabalhadora para salvar banqueiros e empresários da crise econômica mundial. Não só suas promessas de mudança não foram cumpridas, como deu continuidade às políticas da Era Bush, como as guerras imperialistas, a manutenção da desregulamentação financeira, ampliação dos programas de Livre Comércio e a intensificação dos ataques aos trabalhadores, com cortes nos serviços públicos e a entrega de trilhões de dólares públicos para os grandes bancos e empresas.

A tendência do aprofundamento da crise econômica deverá resultar em mais ataques aos trabalhadores americanos nos próximos quatro anos. Neste sentido, a vitória de Obama nas eleições não tem o mesmo peso político que em 2008. O candidato democrata segue sendo o melhor nome da burguesia para impor à classe trabalhadora estadunidense a conta dessa crise, mas não encontrará a mesma tranquilidade para impor seus ataques.

A resistência dos trabalhadores aos efeitos da crise já respingou no coração do capitalismo. Ainda que no patamar mínimo quando comparado às lutas na Europa, os movimentos que explodiram nos EUA mostram a insatisfação com a política de Obama para superar a crise. Os protestos do ensino superior em 2009-2010, a resistência de Wisconsin e o movimento Occupy em 2011, a greve em uma das maiores empresas de telecomunicação dos EUA, em várias empresas de energia elétrica e luz e dos trabalhadores da saúde em uma das maiores redes hospitalares do país , assim como os protestos estudantis na Califórnia em 2012, já mostram a disposição de luta do povo norte-americano.


Retirado do Site do PSTU

sábado, 20 de outubro de 2012

Para onde vai Hugo Chávez?

Presidente sofreu importante desgaste em setores dos trabalhadores
As eleições na Venezuela foram cuidadosamente acompanhadas em todos os países da América Latina e muitos outros além do nosso continente. Adversários políticos dos governos da Argentina e de outros países acompanharam Henrique Capriles, enquanto outros torciam para Hugo Chávez. As expectativas são bastante compreensíveis. Chávez, após 14 anos no cargo, enfrentou pela primeira vez uma oposição unida ao mesmo tempo em que enfrentava um crescente desgaste entre os trabalhadores, sua base social tradicional.

O que aconteceu na eleição?

Chávez venceu as eleições com 55,25% (8.136.964) dos votos em uma eleição com pouca abstenção: votaram mais de 80% do eleitorado. O número de votos do partido do governo não é pouca coisa quando você considera os 14 anos do chavismo no poder.

Porém, é importante notar que a oposição burguesa liderada por Capriles conseguiu um salto significativo para obter mais de 6 milhões de votos, dois milhões a mais do que na eleição passada (um crescimento de 50%).

O resto dos candidatos dividiu um número muito pequeno de votos, quase 80 mil, mostrando a grande polarização entre os dois principais candidatos. Neste quadro, a candidatura de Orlando Chirino, a única que apresentava independência de classe, conquistou 4.103 votos.


A ruptura com Chávez

Mas os números e o triunfo de Chávez não podem nos confundir. As eleições se realizaram em um cenário prévio de luta, manifestações e protestos com reivindicações de salários, serviços (especialmente água, eletricidade e infraestrutura), acordos coletivos e uma longa lista de reivindicações. Muitas delas apresentavam antigas reivindicações e continuam depois das eleições, pois falta resposta a elas.

A perseguição dos líderes sindicais que impulsionavam essas lutas, ou simplesmente não se encaixam no partido de Chávez (como é o caso de Rubén González, que foi preso por mais de um ano e agora será julgado por liderar um protesto em 2009), a burocratização das organizações dos trabalhadores e a corrupção, produziram rupturas de setores importantes com Chávez. Isso explica o crescimento eleitoral de Capriles. Seus votos vêm principalmente da classe média, mas também de um setor importante dos trabalhadores do petróleo, que desempenhou um papel heróico contra a sabotagem petroleira (lockout) de 2003; os trabalhadores que lutaram pela nacionalização e controle da Sidor (Siderúrgica de Orinoco, nacionalizada em 2008); e da empresa da Corporación Venezolana de Guayana; e dos professores e trabalhadores da educação.

Esses trabalhadores não querem deixar para trás toda a sua luta. Tem expectativas em Chávez e seu governo e querem resolver seus problemas. Muitos escolheram, de maneira confusa, a opção por "punir a insensibilidade do governo e da burocracia." Tal sentimento foi usado por Capriles que tentou passar uma imagem de "progressista" e “democrático”. O candidato chegou a dizer que tem simpatia por Lula e disse que vai manter as políticas sociais de Chávez, porém com "mais eficácia e livre da corrupção".


Mas ... e os 8 milhões de votos?

Chávez conquistou uma grande quantidade de votos. Alguns desses votos vêm dos setores populares que, de alguma forma, se beneficiaram com as "missões" (programas que subsidiam a habitação, educação, saúde, alimentação etc., financiado com a alta dos preços internacionais do petróleo) e também um setor importante da classe trabalhadora. Não pode se desprezar também o voto das Forças Armadas Bolivarianas, que ocupa posições de poder dentro do aparelho do Estado, incluindo o Ministério da Defesa no comando do general Rangel Silva, entre vários militares lideranças dos governos "democráticos e socialistas".

Mas essa grande votação não expressa um entusiasmo ou um cheque em branco para o presidente. Há grande desconfiança e rejeição. Tanto é assim que, nas semanas finais da campanha "desapareceram" dos comícios todos os ministros, governadores e burocratas que adornavam os discursos de Hugo Chávez. Foram substituídos por músicos jovens e estudantes. Na hora de votar, muitos tiveram medo de algum "pacote neoliberal secreto como os aplicados na Europa", uma agitação que marcou a campanha de Chávez.

Na campanha, Chávez não se cansou de perguntar: "vocês acham que a direita vai manter construção de casas e as missões? Vai eliminá-las!", "Você vai permitir que eles acabem com nossas conquistas?" "Não! Não é certo?", agitava em seus discursos.

Milhares de trabalhadores do Estado, muitos deles terceirizados, não arriscaram pôr em perigo a estabilidade já precária de seus empregos. Assim, pensando que o pior estava por vir, (e apesar da raiva contra a burocracia e a corrupção do PSUV - Partido Socialista Unido da Venezuela) e na ausência de uma alternativa visível, optaram por votar em Chávez, para evitar o “ajuste neoliberal ".


"Obama votaria em Chávez"

Mas o discurso de Chávez também se dirigiu à burguesia. Em entrevista a Telesur, ele disse: "Minha vitória convém a eles, disse aos proprietários das grandes redes de televisão, os donos das grandes empresas privadas, que convém a toda a burguesia porque Chávez aqui garante paz, a tranquilidade e o desenvolvimento do país . Eu sou a garantia de que eles continuem a ganhar dinheiro. Sou a garanta de estabilidade”

Também chamou os empresários a realizarem “bons negócios” associado às empresas imperialistas com as empresas do Mercosul. Para garantir que os empregadores não deveriam ter medo, Chávez soltou: "Se Obama vivesse em Caracas, Chávez votaria em Obama. É um cara bom" (Telesur)

Nos últimos dias da campanha, Chávez apontou para o “diálogo” e deslizou até com a possibilidade de uma anistia para os golpistas, como Pedro Carmona, empresário golpista exilado em Miami, "dentro da Constituição". (Entrevista com TeleVen em 4/10/2012).

O processo revolucionário venezuelano, aberto nos primeiros anos do século, não foi derrotado. Para além dos refluxos momentâneos, ele ainda segue vivo. E as lutas vão se incrementando diante o fracasso do programa democrático burguês de Chávez para dar resposta aos problemas operários. Chávez se apresenta até agora como uma garantia de contenção, uma barreira que desvia as lutas.

Este permanente chamado à burguesia, à oposição a dialogar, ao mesmo tempo em que afirma que foi o responsável por tirar o país da beira do abismo, só pode ser entendido no marco da crise econômica mundial, que já se fez sentir em 2008 e que se aproxima novamente da Venezuela

Quem pagará pela crise caso Chávez convoque uma “unidade nacional” com os patrões para que garantam seus bons negócios? Como já denunciamos em 2008, o aumento do IVA, a desvalorização cambial e a inflação (medidas adotadas pelo governo diante da crise) fizeram que os prejuízos dos patrões fossem jogados nas costas dos trabalhadores!


Votação de Chirino

A votação a Orlando Chirino foi baixa, ainda que significativa, apesar da polarização. Os esforços da cada partido em apresentar uma candidatura classista como alternativa não atingiram os milhares de colegas que não encontraram um ponto de referência.

Nós da Unidade Socialista dos Trabalhadores impulsionamos a candidatura de Chirino, entre os trabalhadores fabris, estatais, estudantes e setores de vanguarda do movimento operário.

No entanto, a baixa votação de Chirino não se chocou com a polarização. Em nossa opinião, também jogou contra a campanha o fato de que não se tenha formado uma frente de todas as personalidades e partidos que deram apoio a Chirino. Essa possibilidade existiu e o PSL, que poderia ter convocado e concretizado esse frente, não a fez, apesar da pré-disposição da UST e de Opção Operária. Isso foi um erro, ainda que a frente não tivesse rompido a polarização, mas poderia ter sido apresentada com maiores possibilidades, como um ponto de referência para esses milhares de desiludidos com Chávez. Esperamos que isso sirva como experiência.


As tarefas por diante

Constatada a importante ruptura com o chavismo, abre-se a possibilidade de lutar por uma fatia dos lutadores e ativistas que começaram a buscar uma alternativa. Por isso, devemos participar e impulsionar as lutas que estão se dando e aquelas que inevitavelmente virão. Junto com isso, começam a surgir novos sindicatos que precisamos ajudar a consolidar para que possam serem reconhecidos.

É tarefa fundamental a construção de uma ferramenta política revolucionária, implantada na classe operária e setores populares. Em dezembro serão realizadas as eleições regionais para governadores e deputados. É uma oportunidade para chegar a todos aqueles que buscam uma alternativa ao chavismo e seus burocratas. A UST chama todos para essa luta. Vamos participar das eleições com candidatos nas cédulas do PSL com o objetivo de defender o programa de independência de classe e construir a ferramenta revolucionária dos trabalhadores.


Esclarecendo confusões

Os revolucionários aproveitam a intervenção nas campanhas eleitorais para fazer propaganda do programa operário e socialista. Os espaços na imprensa burguesa são escassos, por isso devemos ser muito cuidadosos na hora de fazer declarações. No jornal Universal (27/9/2012), em uma reportagem, Orlando Chirino expressou corretamente que chegou a hora dos trabalhadores governarem. Mas quando explicou quais seriam as medidas que tomaria esse governo, Chirino gerou uma grande confusão ao afirmar que “quanto ao aparelho produtivo há que se sentar com os investidores para fixar regras claras e recuperar as instituições para atrair investimentos. Isso passa por melhorar o salário e discutir um plano geral para garantir emprego estável e de qualidade e segurança social.”

Quando se referiu às expropriações de Chávez disse: “Tudo o que está fora da lei se revisará. Terá que se escutar todos os envolvidos, donos, comunidades e sindicatos. Não temos problemas com isso. Nosso governo garante a plena liberdade sindical e à iniciativa privada”.

Nada do que foi dito está no programa apresentado pelo PSL que apoiamos. Não vemos porque seria necessário sentar-se com os investidores… para atrair investimentos, quando o principal setor da economia que os investidores estão de olho é o petróleo que propomos nacionalizar totalmente. Também não entendemos a razão de se revisar as expropriações com os “donos” (as multinacionais também?), nem porque garantir “a iniciativa privada”. Essas confusões, que devem ser esclarecidas, dificultam o diálogo com os lutadores, sobretudo com os das empresas expropriadas para que possam compreender o programa revolucionário.


Retirado do Site do PSTU

sábado, 29 de setembro de 2012

Aborto legal e seguro para salvar vidas

28 de setembro é o Dia Latino-Americano e Caribenho pela Descriminalização e Legalização do Aborto


Ato em defesa do direito ao aborto, em 2005
Muitos pensam que a criminalização é a melhor forma de evitar que o aborto aconteça, o que não é verdade. Quando analisamos os dados a conclusão é oposta. Na América Latina, onde o aborto é considerado crime na imensa maioria dos países, a taxa de aborto (número de abortos ocorridos a cada mil mulheres) é a mais alta do mundo. Nas regiões onde o aborto é legalizado ocorre o oposto, as taxas de aborto são menores.

No continente, apenas quatro países legalizaram o aborto: Cuba, México (apenas na Cidade do México), Porto Rico e Uruguai. Até mesmo o aborto terapêutico, em caso de risco a vida da mulher, é proibido em muitos países, como é o caso do Chile, El Salvador, Haiti, Honduras, Nicarágua, República Dominicana e Suriname. No último mês, um triste fato mostrou a intransigência dessa legislação conservadora: uma adolescente de 16 anos, grávida e portadora de uma grave doença, morreu na República Dominicana, porque os médicos se recusaram a iniciar um tratamento contra o câncer.

Esses números demonstram que o argumento comumente usado por aqueles que são contrários ao aborto, de que a legalização deste procedimento tornaria o aborto uma prática generalizada e o transformaria em um método contraceptivo, não passa pela prova da realidade.

Na América Latina ocorrem 4,4 milhões de abortos por ano. 95% deles são considerados inseguros, e aproximadamente 1 milhão de mulheres são internadas em razão de complicações do aborto mal feito.

O aborto é a primeira causa de mortalidade materna no Chile, na Argentina, na Nicarágua e no Paraguai. Nos outros países é uma das primeiras. São milhões de mulheres que colocam suas vidas em risco.

Outro argumento comumente usado contra o aborto, a defesa da vida, se mostra falso diante desses números. A criminalização mata as mulheres e não inibe o aborto.


Quem são as mulheres que abortam?

Uma pesquisa sobre o perfil das mulheres que abortam no Brasil aponta que elas têm entre 20 e 29 anos, vivem em união estável, têm até oito anos de estudo, são trabalhadoras, católicas, com pelo menos um filho e usam métodos contraceptivos. Essas mulheres recorreram ao aborto como uma tentativa desesperada de interromper uma gravidez indesejada.


A situação no subcontinente 

A América Latina está repleta de governos de “frente popular”, que se dizem de esquerda. Mesmo havendo mulheres à frente de alguns desses governos, não houve avanço em quase nada nos direitos das mulheres. Dilma no Brasil é um exemplo emblemático. O aborto foi um dos principais temas debatido no segundo turno que a elegeu presidente e o PT optou pela aliança com os setores mais conservadores lançando um compromisso por escrito (Carta ao Povo de Deus) de não modificar a legislação sobre o aborto.

No Uruguai, a recente legalização do aborto é uma exceção, infelizmente. Com a crise econômica, os governos do mundo inteiro tem feito o oposto. Nos Estados Unidos, país em que o aborto é legalizado desde 1973, Obama encaminhou ao congresso, no bojo da reforma da saúde, a restrição ao uso de recursos públicos para o aborto. Os recursos só seriam permitidos nos casos de estupro, incesto, ou para salvar a vida da gestante. O mesmo tem acontecido na Europa: o aborto é um dos direitos que está sendo ameaçado pelos planos de austeridade.




Direitos não garantidos pelo Estado 

As mulheres não têm o direito à maternidade, plenamente garantido, e também não tem direito ao aborto. Mas essa realidade atinge de forma muito diferente as mulheres ricas e as pobres. Quem pode pagar tem acesso a todos os exames do pré-natal em hospitais de qualidade, pode fazer ultrassons de ultima geração e usufruir todos os recursos que permitem prevenir e identificar doenças da mãe e do bebê.

Para as mulheres pobres tudo isso é negado. Por isso, a defesa de direitos sociais como o acesso à saúde pública de qualidade, à escola pública desde a primeira infância, à licença a maternidade de seis meses, são fundamentais. Defendemos que a mulher tenha todas as condições de ser mãe se assim o desejar.

A defesa do direito ao aborto não é o um incentivo ao aborto. O que incentiva o aborto são as condições de pobreza e miséria as qual as mulheres estão submetidas. O aborto deve ser evitado com o acesso à educação sexual, distribuição gratuita de contraceptivos, incluindo a pílula do dia seguinte. Mas quando só restar o aborto como alternativa para evitar uma gravidez indesejada, as mulheres devem ter este direito garantido pelo sistema público de saúde.

Não podemos fechar os olhos, milhares de mulheres fazem aborto. E quem pode pagar tem acesso a ele em clínicas clandestinas, que cobram um preço alto por este procedimento e lucram com o preconceito e a intolerância. A criminalização do aborto não preserva a vida, ao contrário, coloca em risco a vida de milhões de mulheres pobres que, desesperadas, recorrem a métodos inseguros para ter direito a decidir sobre o seu corpo e seu futuro.


Retirado do Site do PSTU

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Rio+20, um fracasso insustentável

Única decisão da conferência foi adiar qualquer decisão


Agência Brasil
Dilma no encerramento da Rio+20
Discursos vazios e declarações de boas intenções. Assim terminou a Rio+20, a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável. Após dias de debates, a reunião de cúpula chega ao fim deixando clara a total incapacidade dos governos de todo mundo em levar adiante uma alternativa à exploração desordenada dos recursos naturais.

Diante da fragilidade dos compromissos estabelecidos, revelou-se uma grande hipocrisia a “preocupação” de estadistas e diplomatas com o meio ambiente. Enquanto o capitalismo segue promovendo a barbárie ambiental, o teatro montado pela ONU não pôde dar respostas nem mesmo no marco da “economia verde” ou do “desenvolvimento sustentável”.

Apesar dos discursos entusiasmados, o documento firmado pelos 188 países presentes não dita qualquer meta concreta a seus signatários. O texto “O futuro que queremos” não compromete nenhum governo com qualquer medida em suas 53 páginas de saudação à bandeira da “sustentabilidade”.

Em tese, os chamados “ODS” – Objetivos do Desenvolvimento Sustentável – deverão ser estabelecidos em 2013 e, supostamente, implementados a partir de 2015. A grande decisão da Rio+20, portanto, foi a de adiar as decisões.

Não poderia mesmo ser diferente. Ao redor do planeta, governos são financiados e aliados de empresas e corporações, justamente as que mais poluem e causam danos ambientais de todo gênero. Mesmo sendo obrigados a darem respostas políticas à crescente crise ambiental, as grandes lideranças do capitalismo mundial não podem tomar medidas contra elas mesmas.


Salvar bancos ou o planeta?

Além da ausência de metas, há outro aspecto revelador da hipocrisia da conferência. A proposta de compor um fundo para financiar políticas em favor do meio ambiente foi vetada. A proposta consistia na formação de um caixa de US$ 30 bilhões por ano, uma quantia modesta em comparação ao que tem sido lançado no resgate dos bancos. Ao comentar essa polêmica, o embaixador brasileiro André Correa do Lago reconheceu que “a crise influenciou a Rio+20”.

A histórica intransigência dos países ricos, precisamente os que mais poluem, em assumir compromissos e destinar recursos, mesmo que em favor de políticas paliativas e muito parciais, foi reforçada pelo contexto da crise econômica mundial. Obama ou Merkel sequer prestigiaram a conferência. Dos demais países membros do G7, apenas a França enviou representantes. Aparentemente, para esses governos salvar bancos é uma demanda mais urgente.


Dilma apaga as luzes

Responsável pelo discurso final do evento, Dilma se esforçou para transparecer um ar de vitória à reunião. Na defensiva, a presidente se limitou a repetir que “o documento que aprovamos não traz qualquer retrocesso”. E em uma grandiloqüência incongruente com o vazio de resoluções tomadas, declarou – ainda – que “o documento, 'O futuro que queremos', torna-se hoje um marco no conjunto dos resultados das conferências".

De todo jeito, seria embaraçoso para Dilma portar-se como uma alternativa à esquerda no interior da Rio+20. O legado recente de seu governo, no que toca o meio ambiente, com o Código Florestal, os transgênicos e os privilégios ao agronegócio, não capacitaria Dilma a abordar o assunto com menos hipocrisia.

A artificialidade de seu discurso foi tão grande que contrastou, até mesmo, com declarações de muitos dos chefes de Estado presentes. Os negociadores da União Européia, por exemplo, reconheceram que o texto final foi “pouco ambicioso” – uma crítica oportunista, diga-se de passagem, já que também assinaram o documento.


Uma luta contra o capitalismo

E, assim, a Rio+20 terminou em sorrisos amarelos e gerando pouquíssima expectativa ao seu redor. É mais uma conferência ambiental que deixa claro que, se depender dos governos, a humanidade está condenada à barbárie.

Para que a sede insaciável por lucro não destrua até mesmo as condições de vida humana sobre a Terra, é preciso que fique cada vez mais claro que a luta por preservar o meio ambiente é uma luta contra o capitalismo. A única coisa que esse sistema nos reserva é mais e mais agressão ao planeta. Ou quem sabe, daqui a 20 anos, uma nova reunião de cúpula.


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Em uma grande marcha, uma resposta ao fracasso da Rio+20

terça-feira, 20 de março de 2012

Ativistas da causa palestina lançam boletim

Um grupo de ativistas da causa palestina e das revoluções que atingem o Norte da África e oriente Médio lançaram o boletim Al Thawra (A Revolução, em árabe). A proposta do boletim é construir uma rede de solidariedade a todas as revoluções (Egito, Tunísia, Líbia, Síria, Iêmen e Bahrein) e à resistência palestina nas quis os ativistas estão envolvidos. Assim, o objetivo é discutir as perspectivas desse grandioso processo revolucionário e desfazer mitos. Leia abaixo a apresentação do boletim.

  • Leia o Boletim

  • Enquanto os levantes continuam a sacudir o mundo árabe, no fechamento deste boletim, o registro de mais um ataque por parte de Israel à faixa de Gaza. Segundo notícias veiculadas pela imprensa internacio¬nal, o saldo em apenas quatro dias (a partir de 9 de março) foi de 25 mortos e mais de 70 feridos. Na mesma semana, o premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, esteve em Washington para pedir apoio a invasão ao Irã. De olho no seu eleitorado, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, contudo, prefere aguardar. Mas faz questão de declarar o sagrado apoio ao estado sionista. A solidariedade internacional faz-se fundamental.

    Enquanto isso, tendo protagonizado grandes revoluções em 2011, que resultaram na queda de quatro ditaduras, o mundo árabe permanece movimentado. No Egito, as massas voltam às ruas, assim como no Bahrein. Na Líbia, a população rechaça o governo interino do Conselho Nacional de Transição e o prenúncio é de que continue a se levantar para assegurar as necessárias transformações. Na Síria, a revolução atinge o ponto alto. Sem qualquer possibilidade de recuo diante de um ditador sanguinário, a situação avança para uma guerra civil.

    Peça chave no jogo geopolítico na região, a Palestina anseia por mudanças. Enquanto isso, seus cidadãos promovem suas próprias manifestações, seja em solidariedade às revoluções nos países vizi¬nhos, seja contra o apartheid a que estão submetidos. A resistência dentro e fora dos territórios ocupados segue. Em 25 de fevereiro último, 8 mil marcharam contra os assentamentos e a política segregacionista em Al Khalil (nome árabe da cidade de Hebron, na Cisjordânia). Em 30 de março, Dia da Terra para os palestinos, uma gran¬de marcha rumo a Al Quds (Jerusalém) está programada.

    Os palestinos expandem ainda o cha¬mado por BDS (boicotes, desinvestimentos e sanções) ao apartheid de Israel. Na contramão, o governo brasileiro tem firmado nos últimos anos acordos militares com Israel e universidades consagradas têm ampliado os convênios de cooperação com instituições que sustentam a ocupação de territórios palestinos. Diante desse cenário, intensificar a campanha de BDS em âmbito nacional é imprescindível. Programado para ocorrer em Porto Alegre, entre 28 de novembro e 1º de dezembro deste ano, o Fórum Social Palestina Livre reveste-se de grande importância para se amplificar essa iniciativa em todo o Brasil e na América Latina. Além de levantar essa bandeira, é o momento de a solidariedade internacional erguer suas vozes pelo direito de retorno, o fim da ocupação israelense e a liberdade aos presos políticos, entre outras demandas urgentes dos palestinos e palestinas.
    O ano de 2012 promete.

    Diante de toda essa movimentação, nós, que estivemos envolvidos em construir solidariedade a todas as revoluções (Egito, Tunísia, Líbia, Síria, Iêmen e Bahrein) e à resistência palestina, decidimos lançar este boletim para discutir as perspectivas desse grandioso processo revolucionário e desfazer mitos. Não é um informativo acadêmico, é um boletim para os ativistas que estão diretamente envolvidos nos movimentos de solidariedade. Neste primeiro número, artigos sobre a Palestina, a Síria, o Egito, a Líbia e também sobre o protagonismo feminino nas revoluções, no mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher. E uma entrevista sobre documentário gravado em campos de refugiados palestinos situados na Jordânia. Boas lutas!


    Retirado do Site do PSTU

    terça-feira, 13 de dezembro de 2011

    EUA: quem controla o governo Obama e o sistema bipartidário?

    Os "argumentos" e a estratégia dos 1%


    Se é verdade que as corporações financeiras geraram uma bolha de especulação que explodiu gerando a crise atual, não devemos esquecer que a crise real - que os trabalhadores estão enfrentando - foi criada pelo governo em colaboração com as corporações. A administração Obama escolheu os bancos e as grandes indústrias para salvar. Tanto Democratas quanto Republicanos são aliados nos planos de austeridade para cortar serviços públicos em nível estadual e federal.

    As ações do governo e das diversas assembleias legislativas estaduais, desde o início da crise, mostram grandes contradições entre o que dizem nossos representantes eleitos (que representam o "povo americano" e "Main Street", no caso dos Democratas) e o que eles fazem quando tomam decisões.

    O caráter de classe do salvamento e das medidas de austeridade é evidente para muitos trabalhadores. Infelizmente, a maioria dos trabalhadores ainda acredita que este não é o verdadeiro programa do governo Obama. Apesar de ser cada vez mais evidente em suas ações, a maioria ainda acredita que o Partido Democrata não é o partido de Wall Street e das grandes corporações.

    Por quê? É porque os dois principais partidos (ou seja, Democrata e Republicano), a mídia burguesa, muitas ONGs, e a burocracia sindical querem que as pessoas acreditam que Obama ou os democratas estão "encurralados" pelas "corporações gananciosas". Além disso, eles divulgam a ideia de que "suas mãos estão atadas" pelo Partido Republicano. Tentam mostrar que Obama (e os democratas) gostaria de aumentar os impostos e realmente combater o desemprego, mas "os Republicanos não deixam".

    A verdade é que as empresas de Wall Street financiaram fortemente as campanhas eleitorais de ambos os partidos, como também os demais setores burgueses: não há dúvida de que eles vão controlar o governo recém-eleito. A retórica republicana sobre a tributação e o ataque aos sindicatos é baseada em mentiras, mas pelo menos é muito claro sobre os interesses de classe que representa. O Partido Democrata sempre teve uma posição oportunista sobre a política econômica: eles escondem-se atrás da ofensiva política pública dos republicanos, para acabar implementando as mesmas políticas. De fato, nos últimos 30 anos ambos os partidos vêm defendendo a aplicação de políticas de desregulamentação do sistema financeiro e incentivos fiscais para os ricos, como mostra a política de isenção de impostos aos ricos, feita por Bush e mantida por Obama.


    Ameaça das corporações de terceirização no exterior

    Tanto os partidos Republicano e Democrata dizem que, se mais impostos forem cobrados das corporações, e se os salários e benefícios forem mantidos ou aumentados, as empresas irão à falência ou serão forçadas a deixar o país e dezenas de milhares de empregos serão perdidos.

    Isto só é verdade se se aceita que as corporações têm o direito ao lucro sem estar sujeitas ao controle dos trabalhadores e da sociedade em geral. Esta não é uma fatalidade, é uma opção política. As empresas deveriam ser forçadas a pagar salários dignos para todos e para garantir serviços públicos sociais adequados.

    A verdade é que as corporações aumentam constantemente seus lucros através das medidas de desregulamentação implementadas nos últimos 30 anos de neoliberalismo pelo sistema bipartidário. Elas também são beneficiadas ao não pagar os impostos que devem ao Estado: "Entre 2008-2010, as doze maiores empresas pagaram uma taxa efetiva de impostos de 1,5 % negativo, na verdade, ganhando bilhões de dólares do governo em subsídios fiscais enquanto faturaram US$ 171 bilhões em lucros [2]."

    Além disso: "Em 2010, empresas dos EUA sonegaram cerca de US$ 60 bilhões em impostos de renda, usando uma variedade de dispositivos e truques para registrar seus lucros em subsidiárias no exterior, enquanto as 100 maiores empresas (segundo a revista Fortune) receberam cerca de US$ 89,6 bilhões em contratos federais [3]."

    Um governo que realmente represente os trabalhadores obrigaria as corporações a pagar seus impostos ou as nacionalizaria e processaria seus proprietários, como o “Leão” persegue os trabalhadores.


    O mito do crescimento do bolo

    O sistema bipartidário nos quer fazer acreditar que se os ricos não forem tributados, sua participação ativa na economia fará o bolo crescer e sua riqueza será dividida com os trabalhadores.

    Na realidade, isso nunca funcionou. Os ricos de fato acumularam uma riqueza sem precedentes no último período neoliberal: os 0,001% mais ricos da população dos EUA (cerca de 3 mil pessoas) possuem 976 vezes mais do que 90% (270 milhões)! [4]. Eles optaram por investir seu capital acumulado não nos setores produtivos da economia, mas nos setores de maior risco do sistema financeiro, porém mais lucrativos, principalmente na compra da dívida de empréstimos subprime e causando a crises financeiras.


    Retirado do Site do PSTU

    terça-feira, 4 de outubro de 2011

    Ocupe Wall Street!

    Jovens acampam em centro financeiro dos EUA contra os efeitos da crise e da política econômica de Obama


    Jovens marcham pelas ruas próximas a Wall Street
    Wall Street, coração financeiro do capitalismo mundial, está ocupada por manifestantes desde o dia 17 de setembro. Milhares estão acampados no local em protesto contra as políticas do governo Obama que despejou bilhões de dinheiro público para salvar os bancos.

    O movimento, denominado “Occupy Wall Street” (ocupe Wall Street), foi convocado pelas redes sociais e tem uma óbvia referência com a ocupação da Praça Puerta del Sol, em Madri, e da Praça Tahir, no Cairo.

    O movimento surpreende pelo fato de se fortalecer a cada dia, apesar da dura repressão enfrentada pelos manifestantes. No ultimo dia 24, os manifestantes sentiram a mão pesada da repressão. O prefeito de Nova York, o republicano Michael Bloomberg, oitavo homem mais rico dos EUA, ordenou que a polícia reprimisse os acampados, o que resultou na prisão de mais de 80 jovens.

    No último dia 2, o prefeito novamente apelou para a repressão e ordenou que a polícia investisse contra os manifestantes quando estes tentavam ocupar a Ponte do Brooklin. Cerca de 700 pessoas foram presas. Para prender tanta gente, a polícia usou redes numa verdadeira “pesca” humana. Mas por incrível que possa parecer, o protesto segue com força, e ganha a adesão de intelectuais e artistas, como o diretor de cinema Michael Moore, a atriz Susan Sarandon, Noam Chomsky e Amy Goodman.

    “Venham todos ocupar Wall Street” , pediu Michael Moore em seu blog. “É a primeira vez que uma multidão de milhares toma as ruas de Wall Street” , prossegue o cineasta. A grande imprensa dos EUA, por sua vez, boicota escancaradamente os protestos.



    A manifestação já começa a se estender para outras cidades dos Estados Unidos. Em Boston, Chicago, Los Angeles e Washington as mobilizações contra o sistema financeiro, a ganância e os cortes no orçamento federal americano vão surgindo, embora existam desigualdades. Em Boston, cerca de 3 mil pessoas participaram de uma passeata no dia 1°. Foram presas 24 manifestantes.

    Seria o início da primavera norte-americana? Tal conclusão seria demasiadamente precipitada. Mas uma coisa é certa. A ocupação mostra que os EUA também estão conectados ao movimento mundial dos “indignados” que, em todo mundo, não para de crescer.

  • Site do movimento 'Occupy Wall Street'


  • Retirado do Site do PSTU

    quarta-feira, 10 de agosto de 2011

    A economia mundial estremece

    As origens e perspectivas da crise econômica atual


    Painel mostra queda das bolsas
    A crise econômica internacional voltou ao centro do noticiário. As bolsas desabam em todo o mundo. Fatos que antes eram considerados quase impossíveis se sucedem em um ritmo vertiginoso: rebaixamento dos títulos do tesouro norte-americano, ataques especulativos contra as moedas da Itália e Espanha, risco de quebra de países imperialistas.

    Existe hoje uma agudização da crise econômica em curso desde finais de 2007. E a dimensão histórica desta crise pode ser sentida novamente pela gravidade dos fatos atuais.


    As origens da situação atual

    Tudo começou no final de 2007, com uma crise clássica da economia capitalista de superprodução e redução na taxa de lucros das grandes empresas. Logo isso se traduziu em uma queda vertiginosa na produção industrial, agravada brutalmente com uma gigantesca crise financeira. O caráter parasitário do capitalismo se manifestava em uma enorme hipertrofia financeira especulativa e um grau de endividamento inédito das famílias, empresas e estados. O sinal mais conhecido da crise foi a falência do banco Lehman Brothers, em setembro de 2008. Mas era o início de algo muito mais profundo que uma crise financeira: começava a mais grave crise econômica do capitalismo desde 1929.

    Essa crise, mais além de suas determinações econômicas, tinha uma explicação também na luta de classes. Estava fracassando a ofensiva imperialista desencadeada pelo governo Bush para tentar retomar o auge neoliberal dos anos 90. A invasão do Iraque se empantanava com a resistência do povo, a imposição da ALCA na América Latina não vingou, começou a resistência dos trabalhadores europeus. Isso dificultou a retomada da taxa de lucros e precipitou a crise.

    O primeiro momento da crise justificava o temor de uma nova depressão mundial. Houve uma queda livre da produção industrial nos países imperialistas que se aproximavam aos de 29. Havia um claro risco de quebra do sistema financeiro internacional, com os grandes bancos imperialistas à beira da falência.


    Despejando dinheiro

    No entanto uma gigantesca e inédita operação dos governos imperialistas mudou o cenário: os estados entregaram cerca de 25 trilhões de dólares às grandes empresas e bancos ameaçados. Esses números são apenas aproximativos, porque na verdade ninguém sabe com clareza a dimensão real dessa ajuda. Recentemente, o Government Accountability Office (um instituto do congresso dos EUA) descobriu que o Tesouro norte-americano entregou 16 trilhões de dólares em empréstimos secretos às grandes empresas. Não se trata de pouca coisa, é mais que o PIB dos EUA sendo entregue secretamente aos grandes bancos. Não houve nenhuma crise, nenhuma prisão. É provável então que essa cifra total da ajuda chegue aos 40 ou 50 trilhões de dólares, se aproximando de todo o PIB mundial (63 trilhões de dólares).


    Endividamento recorde

    A ação dos governos imperialistas impediu uma nova depressão. Começou então uma pequena recuperação da economia global, que marcou uma segunda fase da crise. Mas não se resolveu a superprodução existente. Nem ocorreu a queima de capital (quebra de empresas) inevitável e necessária no curso normal das crises capitalistas. A injeção histórica de capital dos governos salvou as grandes empresas, mas agravou todos os problemas existentes. Para ser preciso, acrescentou um novo e gigantesco problema: o endividamento recorde dos estados imperialistas que foi necessário para bancar essas doações às grandes empresas. Ou, para falar de outro ângulo, se criou uma nova e gigantesca bolha financeira mundial.

    A dívida federal do governo dos EUA passou de 9,2 trilhões de dólares em 2007 a 14,5 trilhões em 2011, o que corresponde a 100% do PIB. A dívida alcança nos países europeus a 63% do PIB da Espanha, 76,5% na Inglaterra, 81,7% na França, 93% em Portugal, 114% da Irlanda, 120% da Itália e 152% do Grécia. É essa bolha que está estourando agora.

    Para os economistas burgueses, a crise tinha acabado em 2010. Nós dizíamos que aquela recuperação era apenas uma fase de uma onda longa depressiva da economia capitalista. Existem os que não aceitam a existência dessas ondas longas. Mas independente do nome, a realidade é que estamos perante um período longo de decadência do capitalismo que se estenderá por 10-15 anos, com períodos de recuperação curta e crises maiores. Para sair desse período, o capital terá de derrotar as lutas dos trabalhadores e impor um novo grau de exploração, para poder retomar uma taxa de lucros que possibilite abrir uma nova fase ascendente.


    Ataque aos trabalhadores

    A evolução posterior da economia comprovou a continuidade da crise. Começando pela Grécia e Irlanda e se estendendo rapidamente para Portugal, Espanha e Itália, os países europeus enfrentar o gigantesco déficit público em que se meteram. Como as dívidas se tornaram impagáveis, os mesmos bancos que se beneficiaram dos gastos públicos em 2008-2009 exigiram que os governos passassem a aplicar duros planos de austeridade para garantir o pagamento das dívidas. Ou seja, chegou a hora de impor que os trabalhadores paguem com cortes nos serviços sociais, aposentadorias e salários o dinheiro que os bancos receberam de graça.

    O capital financeiro, fração hegemônica do capital, fez com que os estados deslocassem gigantescas somas de dinheiro para evitar a quebra de grandes empresas, como seguradoras do grande capital. O resultado é que agora está ocorrendo uma crise fiscal sem precedentes na Europa e nos EUA. E já existem estados à beira da falência, como Grécia, Irlanda e Portugal. Perante isso, esses mesmos bancos exigem a adoção de planos de austeridade que têm como principal objetivo a continuidade no pagamento das dívidas, ou seja, o repasse para eles mesmos.

    Essa é a origem dos planos europeus de austeridade recentes. E é também a explicação do recente acordo Obama-republicanos.


    Luta de classe em cena

    A crise da dívida dos governos europeus marca uma terceira fase da crise. Nela está ocorrendo um desenvolvimento da luta de classes que não tinha surgido nas anteriores. O movimento de massas começou a entrar em cena, levando a uma polarização crescente da luta de classes.

    Está em curso uma verdadeira guerra social da burguesia européia para acabar com o "estado de bem estar social", promovendo um brutal retrocesso do nível de vida do proletariado. Não está em jogo apenas o repasse dos custos da crise atual para os ombros dos trabalhadores. Já está se anunciando um novo patamar de exploração sobre o proletariado, aproximando o nível de vida dos trabalhadores europeus com os dos países semi-coloniais. Se conseguirem impor um plano de austeridade, logo virá outro, mais e mais severo.

    Isso já se expressa com clareza na situação da juventude dos países imperialistas, que a cada dia vê menos condições de manter um nível de vida semelhante a de seus pais. O desemprego entre os jovens atinge em muitos países 20-25%, e chega a 40% na Espanha. Não é por acaso que a juventude tem tido um papel de vanguarda nas mobilizações da Grécia, Portugal e Espanha.


    A crise da União Europeia

    A crise atinge o conjunto da zona do euro. A UE não é simplesmente um acordo de livre comércio, pois inclui uma união monetária. Une desiguais ampliando brutalmente essa desigualdade, a favor dos países com indústria mais desenvolvida como Alemanha e França. Os países mais fracos estão vendo suas empresas desaparecerem, e não podem recorrer a medidas de proteção cambial (como a desvalorização da moeda) por estarem presos ao euro.

    Já existia um retrocesso de países que tinham um status imperialista e caminhavam para virar semi-colônias no marco da União Européia. Esse retrocesso pode dar um salto agora em países como Grécia e Portugal. Não é por acaso que membros do Banco Central europeu se referem ao acordo da Grécia dizendo que esse país tem de renunciar a sua soberania.

    Por outro lado, o conjunto do sistema financeiro está afetado. Não se trata da crise de alguns países. A crise grega afeta diretamente os bancos alemães e franceses, envolvidos nos financiamentos do estado. As crises espanhola e italiana já seriam por si qualitativas, pelo peso dessas economias.

    Esse nível de ataque está levando a uma polarização social e política crescente, e a uma desestabilização de vários países europeus, ainda de forma muito desigual. Nos países mais avançados existem crises políticas de governos como Berlusconi, Sarkozy, Papandreu. Além de um ascenso das lutas dos trabalhadores e da juventude pode-se observar importantes divisões entre a burguesia. Não existe uma visão comum de como enfrentar a crise entre os governos imperialistas, e existe cada vez mais crise também nas burguesias de cada um dos países. O continente europeu entrou em desestabilização.

    Na luta de classes está se jogando o desfecho da crise econômica. Caso o grande capital seja vitorioso, o proletariado europeu terá o nível de vida dos latinoamericanos, os latinos se aproximarão dos chineses, etc. Países antes imperialistas se transformarão em semicolônias. Caso os trabalhadores derrotem algum desses planos, vamos ver situações e crises revolucionárias novamente na Europa, como foram o maio de 68 francês e a revolução portuguesa.

    Intensificação da crise torna mais provável uma nova recessão mundial
    As bolsas desabaram na semana que passou pelo temor de uma nova recessão mundial. Em vários países, a queda anulou o crescimento do último ano, voltando a patamares de 2009.

    O temor é justo. Já existia uma desaceleração da economia mundial antes da intensificação da atual da crise. Na Europa, o primeiro trimestre de 2011 mostrou crescimento importante na Alemanha (1,5%) e França (1%), com estagnação na Inglaterra (0,5%), Espanha (0,3%), Itália (0,1%) e recessão em Portugal (-0,7%) e Grécia (-4,5%). Nos EUA, o primeiro semestre de 2011, como já vimos, apresentou uma desaceleração, com crescimento de apenas 0,9% do PIB. O Japão já vivia uma retração desde o último trimestre de 2010 (-1,1%), agravado pelo tsunami no primeiro trimestre de 2011 (-3,7%).

    Sobre essa desaceleração vai recair os efeitos dos planos de austeridade que são claramente recessivos. Está colocada no horizonte a possibilidade de uma nova recessão mundial. A crise da dívida dos EUA pode ter sido um marco, semelhante à falência do Lehman Brother em 2008, de uma virada em direção a uma nova recessão.


    Desigualdade

    Existe ainda uma desigualdade marcante, com duas velocidades na economia mundial. A China segue crescendo forte com 9,7 no primeiro trimestre e 9,5% no segundo. Não se trata de nenhum mistério, mas da continuidade da aposta do imperialismo em produzir para todo o mundo nesse país com salários baixíssimos e uma ditadura repressiva. A China não é um país imperialista ascendente, são as filiais das multinacionais que estão decidindo manter esse investimento. Isso vai seguir enquanto for possível manter as exportações para o mercado mundial e, em particular, para os países imperialistas. Durante a recessão de 2008-2009, depois de uma pequena queda, a economia chinesa seguiu crescendo. Será necessário ver como evolui agora, caso se imponha uma nova recessão mundial.


    Um novo cenário

    Caso ocorra uma nova recessão, a situação política já não será a mesma de 2008. Existe uma polarização da luta de classes que não existia naquela época. Isso inclui ascenso do movimento de massas em vários países europeus, além da revolução árabe. Por outro lado, existe um grau muito maior de divisão nas burguesias dominantes. O comando imperialista está golpeado pela crise política nos EUA e o enfraquecimento de Obama, além de crises em vários dos principais governos europeus.

    A crise econômica vai ter uma dinâmica completamente interligada à política. Caso o proletariado europeu consiga derrotar algum dos planos imperialistas de austeridade, ou o proletariado dos EUA entrar em cena, veremos a crise econômica se aprofundar.


    Cartas esgotadas

    Por outro lado, o grande capital vai esgotando sua capacidade de tirar coelhos da cartola para escapar da crise. A grande cartada da injeção de dinheiro público já foi usada. Parte importante da crise atual é a instabilização do sistema financeiro pela crise das dívidas dos estados e o rebaixamento da dívida norte-americana. A grande bolha financeira gerada pela política anti-crise de 2008-2009 se transformou em combustível da crise atual. Não se pode subestimar a capacidade da grande burguesia imperialista em gerar iniciativas que possam adiar a crise. Mas uma parte de seu arsenal já foi usado, e está se virando contra ela.

    A crise econômica recoloca a necessidade do socialismo. A economia mundial estremece mais uma vez. O caráter parasitário do capital financeiro aparece com sua verdadeira face. Mais uma vez a miséria se espalha em todo o mundo para preservar os lucros altíssimos das grandes empresas, o luxo extravagante de uma minoria de magnatas.

    É possível viver em um mundo sem crises. Elas não são fenômenos da natureza como as enchentes ou tsunamis. São um resultado periódico do domínio das grandes empresas sobre a sociedade. É necessário acabar com a propriedade privada dos bancos, indústrias e grandes comércios para poder planificar a economia em função das necessidades da população. Essa é a proposta socialista, mais atual que nunca.


    E o Brasil nisso tudo?

    A economia brasileira segue crescendo, devendo fechar o ano com mais 4% ou 4,5% a mais no PIB. Mesmo que haja uma nova recessão, os ritmos de sua chegada ao Brasil serão mediados pela evolução da economia chinesa. Caso a China siga crescendo, o Brasil seguirá se mantendo.

    Ou seja, se as multinacionais decidirem seguir investindo na China e no Brasil, o país continuará crescendo. Isso continua acontecendo hoje. No primeiro semestre desse ano, o investimento estrangeiro bateu recorde no país, chegando a 32,4 bilhões de dólares.

    No entanto, essa dinâmica não está assegurada. Os capitais especulativos, por exemplo, fugiram do país em ritmo acelerado na semana passada, fazendo a Bolsa brasileira despencar na segunda maior queda de todo o mundo.

    Nesse cenário incerto, o governo Dilma já apontou o caminho escolhido, com os estímulos às grandes empresas e aumento na taxa de juros. A burguesia brasileira vai se preparar para a crise endurecendo nas negociações salariais.

    O movimento operário, justo no início das campanhas salariais desse segundo semestre deve se espelhar nas lutas dos trabalhadores europeus. Vamos encarar lutas mais duras pela crise que se avizinha. Mas é possível lutar, é possível vencer.


    LEIA MAIS

  • O acordo Obama e republicanos: a virada dos EUA


  • Retirado do Site do PSTU

    terça-feira, 9 de agosto de 2011

    Maria Lúcia Fattorelli: A crise da dívida dos EUA

    "Não é de hoje que estudos, auditorias e investigações denunciam que a dívida pública, ao invés de aportar recursos ao Estado, vem desviando recursos (que deveriam se destinar a áreas sociais) para o pagamento de juros e amortizações de uma dívida cuja contrapartida não se conhece, pois não existe a devida transparência."

    A crise da dívida dos Estados Unidos da América do Norte, maior economia do planeta, escancara a usurpação do instrumento de endividamento público e a sua utilização em benefício do setor financeiro bancário.

    Sabemos que o endividamento público é um importante instrumento de financiamento dos Estados, por isso todas as nações são autorizadas a endividar, dentro de certos limites e condições. As dívidas contraídas deveriam aportar recursos aos cofres públicos, complementando os recursos arrecadados por meio de tributos, de forma que o Estado possa cumprir seu papel e garantir vida digna ao seu povo.

    Não é de hoje que estudos, auditorias e investigações denunciam que a dívida pública, ao invés de aportar recursos ao Estado, vem desviando recursos (que deveriam se destinar a áreas sociais) para o pagamento de juros e amortizações de uma dívida cuja contrapartida não se conhece, pois não existe a devida transparência.

    Assim, o problema central é que o instrumento do endividamento público tem sido utilizado como um sistema de desvio de recursos públicos que, para operar, conta com arcabouço de privilégios e possui diversas ramificações que constituem o que batizamos de “Sistema da Dívida”.

    Nos EUA, esse sistema operou, recentemente, para salvar grandes bancos em risco de quebra. Até a semana passada, não se sabia o tamanho dessa ajuda, pois as informações eram vagas e conflitantes, até que no último dia 21 de julho o Senador Bernie Sander publicou o seguinte:

    Auditoria inédita realizada pelo Departamento de Contabilidade Governamental norte-americano revelou que US$ 16 trilhões foram secretamente repassados pelo Banco Central dos Estados Unidos – FED, Federal Reserve Bank – para bancos e corporações norte-americanas, bem como para alguns bancos estrangeiros de diversos países.

    Os registros de tais repasses haviam sido anotados pelo FED sob a modalidade de empréstimos com juros próximos de zero, realizados no período de dezembro/2007 e junho/2010, que abrange tanto a administração Bush (republicanos) como Obama (democratas).

    Assim, volumosa dívida pública foi contabilizada para garantir ajuda aos maiores bancos do país e do exterior. Lista de instituições que receberam a maior parte dos recursos do Federal Reserve está registrada na página 131 do Relatório de Auditoria Governamental, resumida a seguir:

    Citigroup: $2.5 trillion ($2,500,000,000,000)
    Morgan Stanley: $2.04 trillion ($2,040,000,000,000)
    Merrill Lynch: $1.949 trillion ($1,949,000,000,000)
    Bank of America: $1.344 trillion ($1,344,000,000,000)
    Barclays PLC (United Kingdom): $868 billion ($868,000,000,000)
    Bear Sterns: $853 billion ($853,000,000,000)
    Goldman Sachs: $814 billion ($814,000,000,000)
    Royal Bank of Scotland (UK): $541 billion ($541,000,000,000)
    JP Morgan Chase: $391 billion ($391,000,000,000)
    Deutsche Bank (Germany): $354 billion ($354,000,000,000)
    UBS (Switzerland): $287 billion ($287,000,000,000)
    Credit Suisse (Switzerland): $262 billion ($262,000,000,000)
    Lehman Brothers: $183 billion ($183,000,000,000)
    Bank of Scotland (United Kingdom): $181 billion ($181,000,000,000)
    BNP Paribas (France): $175 billion ($175,000,000,000)

    Estas cifras estratosféricas evidenciam a utilização do instrumento do endividamento público para fins totalmente diversos do que se poderia considerar justificável, pois enquanto bancos receberam ajuda de US$ 16 trilhões – soma superior ao PIB do país – o peso dessa “dívida pública” tem recaído sobre o povo, provocando desemprego recorde, restrições a serviços de saúde e demais benefícios do seguro social, transformado radicalmente a realidade social naquele país, e para pior.

    As revelações dessa auditoria governamental são tão alarmantes que levam à necessidade de aprofundamento das investigações, tendo em vista que o volume de recursos emprestados aos bancos, de US$ 16 trilhões, supera o atual saldo da dívida pública estadunidense, de US$ 14,5 trilhões.

    Além desses repasses feitos pelo FED, o Tesouro também destinou grandes somas de recursos aos bancos, tanto sob a forma de repasses diretos como por meio de programas de salvamento bancário que consumiram grande parte da arrecadação tributária do país.

    A crise que atinge a maior economia do planeta também provoca conseqüências para o resto do mundo, mas antes de entrar nessa abordagem, cabe questionar porque razão o FED teria repassado tamanho volume de recursos aos maiores bancos do país e do mundo?

    Possivelmente, a cumplicidade do governo norte-americano de não coibir a emissão descontrolada de produtos financeiros que se revelaram verdadeiro “lixo”, seguida de tentativas de empurrar esse lixo para debaixo do tapete com a criação dos chamados “bad banks” – instituições que se prestariam a acatar volumes expressivos desses papéis podres, realizando uma “faxina” para aliviar o sistema financeiro americano  – e talvez até garantias governamentais a certas operações, pesaram em favor da decisão política de salvar os bancos mediante a emissão de trilhões de títulos da dívida, transformando a crise financeira em crise da dívida.

    Adicionalmente, a desregulamentação do mercado financeiro internacional contou com a cumplicidade das principais nações, já que em reunião do G-20 realizada em abril/2009 a proposta de regulamentação do setor não passou. No ano seguinte, o G-20 apenas discutiu a necessidade de regulação mais rigorosa para grandes instituições financeiras, consideradas “grandes demais para quebrar”, admitindo que tal regulação seria uma medida para evitar que novas eventuais falências não tivessem que ser resolvidas pelos governos, aprofundando a dívida pública e colocando economias inteiras em risco.

    Portanto, a origem da crise deflagrada desde 2008 nos EUA reside no setor financeiro bancário e sua excessiva “criatividade” na produção de séries e mais séries de derivativos sem lastro e outros produtos financeiros sem respaldo e sem valor algum – chamados de “ativos tóxicos” pela grande mídia.

    Derivativos são meras apostas baseadas em outro ativo real. Por exemplo, se determinado conjunto de ações de determinada empresa vale R$ 1.000, faço uma aposta de que aquele conjunto pode valer mais, por exemplo R$ 1.500, e emito um derivativo no valor de R$ 500. Enquanto existem diversas restrições legais e normativas para a colocação de ativos reais no mercado financeiro, a emissão de derivativos não é controlada, o que deu margem para que essas emissões se tornassem um negócio altamente rentável, pois o custo de produção de um derivativo era praticamente nulo.

    Como os derivativos são meras apostas especulativas que podem vir a se concretizar ou não, esses papéis deram margem ao surgimento de outros papéis que funcionam como “seguros” para garantir o investidor contra o risco inerente àquelas apostas, também vendidos em larga escala pelos bancos.

    Esses papéis inundaram o mercado financeiro mundial e foram repassados a fundos de investimento, fundos de pensão, fundos soberanos e toda espécie de investimentos mundo afora.

    Na medida em que as apostas especulativas foram se frustrando, o tremendo volume de seguros começou a ser acionado, levando os bancos a sérios problemas financeiros. Cabe ressaltar que quanto maior e mais famoso o banco, maior a facilidade de colocação de seus derivativos no mercado, e mais amplo o acesso a mercados secundários em todas as partes do mundo, inclusive paraísos fiscais, o que explica a destinação de volumes de recursos mais expressivos para os maiores bancos, conforme lista divulgada pela auditoria governamental.

    Apesar da gravidade dessa questão relacionada à origem da crise e ao salvamento dos bancos, as discussões predominantes no parlamento norte-americano nos últimos dias limitaram-se à necessidade de elevar o limite legal para o endividamento – atualmente fixado em US$ 14,3 trilhões – bem como ao corte de gastos sociais para que sobrem mais recursos para o pagamento de compromissos financeiros da dívida.

    Essa crise propiciou acalorados debates e exploração de desgastes políticos inerentes ao período pré-eleitoral estadunidense que até o Secretário de Tesouro Timothy Geithner chamou de “espetáculo”, manifestando sua preocupação de dano à confiança nos Estados Unidos e à cotação dos títulos pelas agências de risco.

    Parlamentares debateram também a iminência de uma moratória, o risco de colapso do dólar e de inflação galopante, engenharia financeira, dentre outros problemas estruturais da economia dos EUA, mas o foco da origem da crise – que reside na atuação do setor bancário que inundou o mercado financeiro de papéis sem lastro- não foi devidamente atacado, muito possivelmente em reconhecimento à generosidade do setor financeiro no financiamento de campanhas eleitorais.

    Democratas e republicanos acabaram chegando a um acordo para aprovar, por 74 contra 26 votos, um pacote de “legislação de emergência” que de imediato eleva o limite legal de endividamento em mais US$ 400 bilhões, seguido de mais uma elevação de US$ 500 bilhões, o que permitirá a emissão de mais 900 bilhões de dólares em títulos que cobrirão dívidas anteriores, reduzindo o déficit. Os cortes de gastos sociais serão objeto de cortes drásticos de US$ 2 trilhões em uma década e atingirão principalmente gastos com aposentadorias, assistência médica e subsídios agrícolas.

    A solução encontrada é paliativa e o problema real está longe de ser resolvido, pois não está sendo enfrentado: a economia mundial padece da contaminação de imensa quantidade de papéis sem lastro; verdadeiro “lixo” estimado em cerca de 10 vezes o PIB mundial que as nações mais ricas do mundo, principalmente os Estados Unidos, decidiram reciclar mediante a sua troca por dívida pública.

    Países da Europa também decidiram salvar os bancos que se encontravam em risco de quebra por terem emitido papéis financeiros sem respaldo, transformando a crise financeira em crise da dívida naquele continente.
    Na realidade, o salvamento do sistema bancário e o acobertamento das operações que de fato provocaram a crise financeira nos EUA e Europa estão relacionados à evidente tentativa de transferir os papéis podres para o resto do mundo. O Brasil não está imune de absorver esse lixo, mas as conseqüências da crise da dívida norte-americana vão muito além desse risco.

    Devido à aceitação mundial do dólar em transações comerciais e financeiras, diversos países aplicam suas reservas internacionais em títulos da dívida dos EUA. O Brasil é um destes países, tendo acumulado mais de 200 bilhões de dólares em títulos do Tesouro estadunidense nos últimos 6 anos, embora tal aplicação não renda quase nada ao país. O mais grave é que a compra dessas reservas internacionais (que não rendem quase nada) foi feita mediante a emissão de títulos da dívida interna brasileira que pagam os juros mais elevados do mundo. Essa diferença de rendimentos agravada pela forte desvalorização do dólar frente ao real resultou em mega prejuízo ao Banco Central do Brasil, da ordem de R$ 147 bilhões em 2009 e R$ 50 bilhões em 2010, que é arcado pelo Tesouro Nacional, isto é, por toda a sociedade. O endividamento brasileiro já atinge quase R$ 3 trilhões e em 2010 consumiu 44,93% dos recursos do orçamento da União, sacrificando os investimentos em saúde, educação e todas as demais áreas. Desta forma, o povo brasileiro também já está pagando, há algum tempo, a conta da crise da dívida norte-americana.

    Outros impactos advirão das medidas aprovadas nesse 2 de agosto de 2011: a demanda norte-americana por produtos de outros países deverá ser fortemente abalada pelas medidas recessivas que estão sendo adotadas para reduzir gastos e fazer sobrar mais recursos para o pagamento da dívida. Além de afetar, em cascata, o comércio de diversos países, tais medidas recessivas provocarão o agravamento da própria crise, inibindo investimentos reais, produtividade e geração de empregos. Por isso outro impacto deverá ser o aumento da pressão para a colocação de produtos norte-americanos em todos os mercados, afetando indústrias locais.

    Segundo Michel Chossudovsky, para financiar o salvamento dos bancos o governo dos EUA recorreu a empréstimos junto a esses mesmos bancos. Assim, como num passe de mágica, os bancos falidos foram salvos e ainda transformados em credores do Estado! Por isso, o autor defende a ANULAÇÃO destas dívidas, o retorno dos recursos ao Tesouro dos EUA, e o confisco dos bens dos especuladores, proposta bem distinta da recentemente aprovada no parlamento norte-americano.

    A atual crise expôs a dominância do setor financeiro e impõe a necessidade de revisão desse modelo de desenvolvimento e de acumulação capitalista que privilegia o setor bancário. Especialmente nos Estados Unidos, o privilégio de impressão de moeda e emissão de títulos da dívida para financiar investimentos, mas também especulação e guerras, se esgotou.


    Notas da autora:

    - PIB = Produto Interno Bruto; soma de todas as riquezas produzidas no país no período de 1 ano. O PIB dos EUA é o maior do mundo e equivale atualmente a US$ 14,12 trilhões

    - A emissão descontrolada desses papéis “tóxicos” foi possibilitada porque os controles existentes, determinados pela SEC – Securities and Exchange Commission, Estados Unidos da América – órgão criado logo após a crise de 1929 e que desde então exercia o papel de controlar a qualidade e autenticidade dos papéis negociados no mercado financeiro – foram desrespeitados por diversas grandes instituições financeiras (O documentário Inside Job, disponível na internet, ilustra bem esse mecanismo)

    - Em inglês: Toxic assets, termo empregado para papéis completamente podres, que não possuem valor algum. Outra denominação é dada para papéis também problemáticos, mas que ainda teriam algum valor; são os chamados Iliquid assets

    Maria Lucia Fattorelli é coordenadora da Auditoria Cidadã da Dívida no Brasil desde 2001, foi membro da Comissão para a Auditoria Integral Equatoriana (CAIC) entre 2007 e 2008 e Assessora da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Dívida Pública na Câmara dos Deputados do Brasil entre 2009 e 2010.


    Veja o que Maria Lúcia Fattorelli diz sobre a dívida externa brasileira:




    Retirado do Site da CSP-Conlutas

    terça-feira, 2 de agosto de 2011

    Acordo nos EUA evita calote, mas deve aprofundar a crise

    Mundo vai continuar pagando o déficit público norte-americano e financiando lucros dos bancos e das grandes empresas


    Obama deve enfrentar desgaste político até eleições de 2012
    O acordo anunciado pelo governo Obama entre republicanos e democratas para dar fim ao impasse e elevar o teto da dívida dos EUA, hoje em 14,3 trilhões de dólares, está longe de pôr fim à crise econômica e política que toma conta do país. Após semanas de duras negociações sob um ambiente de acirrada polarização, que incluiu negociações ininterruptas por todo o final de semana, o presidente Barack Obama finalmente anunciou um acordo no final da noite de domingo.

    O acordo, aprovado pela Câmara dos Representantes, de maioria republicana, na noite dessa segunda-feira, 1º de agosto, garante a elevação do endividamento em 2,1 trilhão de dólares. Em contrapartida, impõe uma redução de 1 trilhão nas despesas do governo para os próximos 10 anos. Uma comissão composta por 12 parlamentares deve ficar responsável ainda por definir, até novembro, um corte adicional de 1,5 trilhão.


    Vitória dos conservadores

    Apesar de Obama ter anunciado o acordo como um entendimento entre os dois partidos, ele representa uma clara vitória da ala republicana. Isso porque o impasse criado em torno do déficit gira em torno do que fazer para o país continuar conseguindo pagar as suas dívidas. Enquanto o Partido Democrata defendia cortes no Orçamento e, a fim de contemplar parcela de seu eleitorado, aumento nos impostos dos mais ricos e redução de subsídios, os republicanos exigiam que o ajuste se concentrasse exclusivamente na redução de despesas. E é isso o que está sendo aprovado.

    A líder dos democratas na Câmara, Nancy Pelosi, claramente constrangida, chegou a definir como “desconcertante” o ajuste fiscal colocadas a voto. O conjunto de medidas que está sendo aprovado desagrada até mesmo a ala mais à direita dos republicanos e boa parte do Tea Party, que insistiam em um corte de gastos mais agressivo. Nessa batalha entre o governo e as duas alas do congresso, todos saíram chamuscados.


    Desaceleração e crise

    O tão temido calote dos EUA não ocorreu, mas a crise está longe do fim. Enquanto parlamentares se enfrentavam para resolver o nó do déficit, os índices da economia norte-americana desse segundo semestre reafirmavam a desacelaração e a quase estagnação da atividade do país, mais longa que do era esperada. O crescimento do primeiro semestre deste ano é o mais lento desde a primeira metade de 2009, quando oficialmente os EUA saíram da recessão.

    A indústria, por sua vez, mostra sinais de arrefecimento. O desemprego, em históricos 9%, não dá sinais de recuperação. Todo esse cenário de crise só vai piorar com os cortes anunciados pelo governo. Alguns analistas temem que o país refaça a trajetória dos anos 1930 quando, logo após a recuperação do crash de 1929, um ajuste fiscal jogou a economia numa duradoura recessão que só teve fim com a 2ª Guerra Mundial.

    Os trabalhadores e a maioria da população, sobretudo a mais pobre, devem ser mais uma vez os maiores atingidos pelo ajuste, já que as áreas sociais serão alvos preferenciais dos cortes trilionários.


    Mundo vai continuar pagando pelo déficit americano

    O gigantesco déficit fiscal dos EUA foi gerado durante o governo W. Bush e usado para financiar os cortes nos impostos dos mais ricos, subsidiar empresas e pagar as guerras do Iraque e Afeganistão. Com a crise econômica deflagrada em 2008, a dívida deu um salto brutal com os pacotes de ajuda ao setor financeiro. Os 14,3 trilhões do déficit representam hoje nada menos que o equivalente a um quarto do PIB mundial (62 trilhões de dólares).

    Essa conta é paga por aqueles que detem os títulos da dívida pública norte-americana, em ordem decrescente: China, Japão, Reino Unido, um fundo conjunto de países petroleiros e, finalmente, o Brasil, que detêm 200 bi em títulos. Isso significa que o mundo sustenta o enorme déficit norte-americano. E quem são os maiores beneficiários? O jornal mexicano La Jornada dá uma pista quando informa que os lucros das empresas no país aumentaram 264 bilhões nos últimos três anos, principalmente os do setor financeiro. Isso em uma conjuntura de recessão ou economia cambaleante.

    Já o senador democrata Bernie Sanders, em artigo no Wall Street Journal, afirma que os impostos sobre os mais ricos nos EUA estão nas taxas mais baixas da história moderna. Nunca os ricos pagaram tão pouco impostos como agora. “De fato, enfermeiras, professores e bombeiros pagam mais impostos que alguns multimilionários”, afirma.

    O déficit norte-americano, financiado pelo restante do mundo, paga os lucros dos bancos, das empresas, dos mais ricos e sustenta a presença militar dos EUA no Oriente Médio. O problema para Obama é que ela está se tornando insustentável.

    A medida que está sendo aprovada no Congresso, porém, além de não resolver esse rombo, vai bloquear de vez a recuperação e pode jogar o país novamente em uma recessão. O ano de 2008 mostrou o que acontece com o restante do mundo quando a maior economia do planeta ameaça ruir. A crise política aberta nos últimos meses, por outro lado, é um outro importante fator de instabilidade que se soma à economia no coração do Imperialismo.


    Retirado do Site do PSTU