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terça-feira, 7 de agosto de 2012

Carta à UIT: Sobre calúnias e caluniadores

No final do mês de abril muitos ativistas e dirigentes sindicais de vários países viram-se surpreendidos por uma série de denúncias contra o PSTU e a CSP-Conlutas do Brasil e contra nossa corrente internacional, a LIT-QI (Liga Internacional dos Trabalhadores - IV Internacional).

Estas três organizações eram acusadas, a partir dos acontecimentos nas eleições do Sindicato dos Trabalhadores Químicos da cidade de São José dos Campos (SP-Brasil), de ter formado uma chapa de oposição com a patronal da multinacional Johnson & Johnson para derrubar uma direção classista e combativa, e de ter exigido, na justiça, a demissão de vários dirigentes sindicais.

Esta acusação foi feita por um pequeno grupo brasileiro, chamado CST, e quem as difundiu em nível internacional foi a UIT (corrente internacional da qual faz parte a CST), que se dedicou a colher assinaturas de dirigentes sindicais de vários países para respaldar essas acusações.

Diante desta grave denúncia, a direção da LIT-QI investigou o que tinha ocorrido nesse sindicato e chegou à conclusão de que tudo não passava de uma campanha de calúnias de um grupo de dirigentes sindicais encabeçado por um sindicalista da CST, chamado Cabral que, desesperado frente à possibilidade de perder o controle do aparelho sindical, chegou a falsificar as atas de uma assembleia que não existiu para tomar o controle da tesouraria do sindicato; acusou a seus ex-parceiros que formaram uma chapa de oposição, de delatores e agentes da patronal e fez essas mesmas acusações contra o PSTU/LIT-QI e a CSP-Conlutas por terem apoiado essa chapa.

Não nos surpreende que ocorram este tipo de fatos em sindicatos. É que os aparelhos sindicais, com seus importantes recursos materiais, exercem uma tremenda pressão sobre os ativistas sindicais e há muitos que sucumbem a essas pressões e por isso, como é o caso ao qual nos referimos, muitas vezes mostram-se dispostos a fazer qualquer coisa (“vale tudo”) para não perder o controle desses aparelhos. Mas o que sim, resulta contraditório, é que uma corrente como a CST/UIT, que se reivindica trotskista e que, portanto deveria defender como um princípio a democracia operária, não só esteja defendendo este grupo sindical burocratizado, mas também se tenha colocado à cabeça da campanha de calúnias contra o PSTU, a CSP-Conlutas e a LIT a tal ponto que as seções da UIT escrevem em seus órgãos de imprensa que o PSTU do Brasil faz parte da “esquerda traidora”.

No dia 20 de maio, o Comitê Executivo Internacional da LIT emitiu uma declaração intitulada: "Em defesa da moral proletária" na qual, após analisar os fatos e denunciar esta campanha de calúnias, formulava nove perguntas, muito objetivas, à direção da UIT, para que ficasse claro se era verdade o que dizia esta organização (que estávamos diante de uma traição) ou, pelo contrário, se era verdade o que dizia a LIT-QI (que estávamos diante de uma campanha de calúnias).

Após formular essas perguntas, a declaração afirmava: "A direção da UIT tem a obrigação de responder a estas nove perguntas porque, se não o fizer, a própria UIT estará se autocondenando como uma organização de caluniadores."

Já passaram mais de dois meses desde que estas perguntas foram formuladas e a UIT não respondeu a nenhuma delas. Não nos surpreende. A UIT não está buscando a verdade. Nenhum caluniador o faz.

A UIT transferiu essa responsabilidade a sua seção no Brasil, a CST, a qual, por estar no país dos acontecimentos, não poderia deixar de responder. Assim, no último dia 10 de junho, esta organização fez pública uma declaração intitulada: "Quem defende a moral proletária? Resposta ao documento da LIT".

Todo ativista que queira saber a verdade tem que ler atenciosamente esta “resposta” da CST, pois ali encontrará uma lição de como fazer para responder a tudo (ou quase tudo) sem responder a nada para, desta forma, continuar e inclusive aumentar sua campanha de calúnias.

Em sua “resposta”, a CST fala de dezenas de outros assuntos, mas, quando aborda o tema em debate, não consegue negar os fatos descritos na declaração da LIT. No entanto, em lugar de se autocriticar pela campanha de calúnias que está fazendo, reafirma a dita campanha e, mais ainda, adiciona novas calúnias, como quando afirma, sem apresentar nenhuma prova, que o PSTU tem uma “dependência financeira” dos aparelhos sindicais. Isto é, agora, após ter acusado o PSTU de traidores, passa a acusá-lo de assaltar os cofres dos sindicatos que dirige.

Esta metodologia da CST pode ser vista já a partir da resposta que fazem à primeira pergunta.

A primeira pergunta formulada no documento da LIT dizia: É verdade, ou é mentira, que entre os trabalhadores químicos e nas eleições sindicais desse sindicato não tinha nenhum militante ou chapa do PSTU ou da LIT?

A pergunta era apropriada, pois toda a campanha internacional da UIT era para mostrar as “traições” da chapa do PSTU/LIT, quando na realidade não existia nenhuma chapa do PSTU. O que existiu foi uma corrente de oposição, surgida a partir de uma ruptura da corrente dirigida pela CST, que foi apoiada pelo PSTU.

Se era uma chapa do PSTU ou se só era apoiada pelo PSTU não era um detalhe secundário, pois o PSTU/LIT apoia dezenas de chapas de oposição contra as direções burocráticas ou burocratizadas, mas não por isso é responsável pelo que façam as ditas chapas. Se esta chapa de oposição tivesse cometido uma traição, como denuncia a UIT, o PSTU ou a LIT não poderiam ser acusados dessa suposta traição. Da mesma maneira que o PSTU, ou a própria CST, não pode ser acusado pelas traições cometidas por Lula, embora o tenha apoiado em algumas ocasiões.

A CST em sua resposta não tinha como continuar dizendo que nas eleições do sindicato existia uma chapa do PSTU/LIT, porque não existia. Por isso, em sua declaração, para poder continuar com sua campanha de calúnias, mente sobre o que eles mesmos acabaram de afirmar. Diz: “Nunca afirmamos que os integrantes da chapa 2 eram filiados do PSTU… sempre afirmamos que a chapa 2 era apoiada pela CONLUTAS/PSTU que faz parte da LIT”.

Desta forma, sem o menor rubor, tentam ocultar o que não é ocultável: a declaração que fizeram dezenas de dirigentes sindicais assinar se intitulava: “Chapa da Conlutas/PSTU (LIT‐QI) e a multinacional Johnson obtêm na justiça a demissão de três dirigentes químicos reincorporados”.

A partir daí, a declaração da CST mente novamente ao dizer que os militantes do PSTU respaldaram uma ação na justiça – que eles chamam de “traição”– de dois membros da oposição e por isso o PSTU, a LIT e a CSP-Conlutas também seriam traidores.

A realidade foi bem diferente: A maioria da direção do sindicato, sem consultar ninguém, trocou os nomes de uma lista de dirigentes que tinham estabilidade, deixando desta forma cinco dirigentes expostos à demissão da patronal. Diante deste fato, dois membros da oposição entraram com uma ação na justiça solicitando a anulação da medida tomada pela maioria da direção, abrindo a possibilidade de que outros dirigentes, agora da maioria, fossem demitidos.

Quando o PSTU e a CSP-Conlutas se inteiraram desta ação dos dois membros da oposição, propuseram que tinham que defender a todos os companheiros e, portanto, ela deveria ser retirada. A chapa de oposição, de conjunto, foi convencida, e seus dois membros retiraram a ação, antes que ela fosse julgada.

A CST também não pode negar este fato ainda que lhe dê uma interpretação diferente: “Somente quando se deram conta da violenta reação desse fato na vanguarda sindical… foram aconselhados rapidamente pelo PSTU a retirar a denúncia”.

Isto é, a CST reconhece que o PSTU esteve contra a chamada “traição”, o que teria de levar esta organização a autocriticar-se por sua campanha de calúnias. Mas, em lugar de fazer isso, “descobre”, de última hora, um “argumento” que provaria a traição: o PSTU esteve contra a ação impetrada na justiça, mas não pediu a expulsão dos dois membros da oposição; por isso seriam traidores: “Se a Conlutas/PSTU e agora a LIT não coincidem com isso por que não pediram a expulsão desses elementos da chapa...?”

E, com relação à acusação de que o PSTU, a LIT e a CSP-Conlutas teriam um acordo com a patronal da Johnson & Johnson? Quais são as provas que apresenta a CST? Nenhuma, mas… continuam com a mesma acusação.

Toda a “resposta” da CST/UIT é feita com esta lógica. Não podem negar o que diz a declaração da LIT, mas isso não tem a menor importância: “o PSTU, a LIT e a CSP-Conlutas, são todos traidores”. Essa é a lógica desta grosseira campanha de calúnias feita em nome do “classismo combativo” e até da… moral revolucionária.

Curiosa “moral revolucionária” tem esta corrente que não consegue negar na sua declaração que falsificaram as atas de uma assembleia que não existiu para se apoderar da tesouraria do sindicato. Ou que não consegue negar que os “traidores” da oposição lhe propusessem realizar uma assembleia, do sindicato que eles dirigem, para que as bases operárias restabeleçam a verdade e a suposta direção “classista e combativa” se negou a realizar.

Vários camaradas criticaram-nos porque com nossa declaração e com a tentativa de diálogo com a CST/UIT estaríamos perdendo tempo. Estes companheiros disseram-nos: “Eles não vão reconhecer nada. Eles vão continuar caluniando. Sempre fazem isso”.

Nós não acreditamos ter perdido tempo. Existe uma batalha a dar, até o fim, contra a herança deixada pelo stalinismo no interior do movimento operário: Contra a utilização de capangas, agressões, chantagens, falsificações, mentiras, corrupção e calúnias. Esta campanha lançada por nós a nível internacional contra as calúnias da CST/UIT faz parte dessa batalha, que estamos orgulhosos de ter dado, não só porque nos negamos a legitimar estas práticas stalinistas – feita neste caso por “trotskistas”– mas também porque com ela acreditamos ter obtido importantes resultados.

Com esta campanha reintroduzimos, em importantes setores do movimento operário e da esquerda, uma discussão em torno da necessidade de recuperar o melhor da tradição do movimento operário, prostituída pelo stalinismo. Nesse marco acreditamos ter ajudado que militantes da UIT tenham se oposto aos métodos de sua direção a tal ponto que um importante dirigente dessa organização, que aparecia assinando a campanha de calúnias, nos tenha confessado que sua assinatura foi colocada pela direção da UIT contra sua vontade. Também achamos que nossa campanha ajudou a que direções sindicais independentes, como a dos trabalhadores dos correios de São José do Rio Preto (Brasil), que também apareciam assinando essa infame campanha de calúnias, tenham feito uma declaração em que afirmam: “… o que foi publicado é diferente do que aprovou a Direção Colegiada, pois ataca diretamente os camaradas da CSP-CONLUTAS por estar do lado do patrão, com o que não coincidimos já que os camaradas estão na linha de frente na defesa dos interesses classistas da classe trabalhadora”.

Também achamos que nossa campanha ajudou a que outras organizações de esquerda tenham se pronunciado contra as calúnias, como pode ser visto no caso da LSR, que a nível internacional faz parte do CIO (CWI), e que no Brasil integra o PSOL (o mesmo partido da CST), que no dia 5 de julho publicou uma declaração intitulada: “Não ao método da calúnia no interior da esquerda. Em defesa de Joaquim Boca! Em defesa de uma moral de classe revolucionária na esquerda socialista”, onde esta organização denuncia uma nova campanha de calúnias da CST/UIT, agora contra eles, em termos muito similares aos usados contra o PSTU/LIT e a CSP-Conlutas.

Temos que destacar, ademais, a importante resolução da Coordenação Nacional da CSP-Conlutas (ver Anexo V) na qual participam dezenas de sindicatos, oposições e correntes sindicais, e que, entre outras coisas, assinala: “Não é a primeira vez que a CST-Unidos se vale de uma campanha de denúncias morais para atacar dirigentes e/ou entidades classistas do campo da luta dos trabalhadores em nosso país… Não há como ignorar a atitude desta corrente e deixar passar esta situação, aceitando que esse vale-tudo seja parte do quotidiano e das relações entre organizações e movimentos dos trabalhadores…

A Coordenação Nacional da CSP-Conlutas resolve enviar a todas as organizações do movimento operário, nacionais e estrangeiras, o dossiê confeccionado ao longo das últimas semanas, que comprovam o quanto as acusações da CST-Unidos são mentirosas e levianas e alerta que essa corrente político-sindical avança perigosamente em um caminho de degeneração moral...”

Por fim, queremos terminar esta nova declaração da LIT-QI agradecendo especialmente a um importante número de militantes de várias organizações de esquerda com as quais temos importantes diferenças políticas, que, mesmo antes de conhecer nossa resposta, disseram-nos, de uma ou outra forma: “Temos muitas diferenças com a LIT, mas nós sabemos que a LIT não é nem traidora nem agente das multinacionais. O ataque contra vocês só pode ser uma calúnia da UIT” [1].

Não basta enfrentar o stalinismo. Não basta derrotá-lo. Deve-se extirpar sua herança maldita do movimento operário .

Não às calúnias e aos caluniadores!

Secretariado Internacional da LIT-QI
São Paulo, 31 de julho de 2012


Tradução: Rosangela Botelho

________________________________________
[1] A reunião da Coordenação Nacional da CSP-CONLUTAS realizou-se no Rio de Janeiro entre os dias 13 e 15 de julho e a mesma contou com a participação de 251 dirigentes representando 50 entidades sindicais (entre sindicatos e federações), 30 minorias de entidades e oposições sindicais, 5 movimentos populares, 2 movimentos de luta contra a opressão e uma entidade estudantil. A resolução condenando calúnias da CST foi votada por unanimidade.


Retirado do Site do PSTU

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Sintect-SJO desautoriza assinatura em manifesto da Unidos Pra Lutar/CST que ataca a CSP-Conlutas

Um manifesto divulgado recentemente pela corrente Unidos Pra Lutar/CST, com calúnias contra o PSTU, a LIT-QI e a CSP-Conlutas inclui assinaturas indevidas, como a do Sindicato dos trabalhadores dos Correios de São José do Rio Preto, o Sintect-SJO. Leia abaixo a nota divulgada pelo sindicato


"Nos dias 09 e 10 de Maio de 2012 ocorreram as eleições do Sindicato dos Químicos representante dos trabalhadores nas Indústria Químicas e farmacêuticas de São José dos Campos e Região.

O SINTECT/SJO declarou apoio aos camaradas da Chapa 1 ligada a CST – UNIDOS PARA LUTAR pela postura dos mesmos na luta em favor da classe trabalhadora, consoante a política adotada pelos nosso sindicato.

Foi encaminhado um manifesto para que assinássemos apoiando os camaradas, entretanto o que foi publicado, diferente do aprovado pela Diretoria Colegiada, ataca diretamente os camaradas da CSP –CONLUTAS de estar do lado do patrão, o qual não concordamos uma vez que os camaradas estão na linha de frente na defesas dos interesses classistas da classe trabalhadora.

Esperamos que as divergências pontuais sejam resolvidas.

Saudações Sindicais


Diretoria Colegiada do SINTECT/SJO"

Baixe a carta do sindicato


Retirado do Site do PSTU

sábado, 3 de dezembro de 2011

Os estudantes da USP precisam vencer!... apesar da LER–QI

Uma polêmica com a ultraesquerda stalinizada


Na Universidade de São Paulo (USP), Brasil, estamos assistindo a acontecimentos tão impactantes como repudiáveis, cujas repercussões não só transcenderam os limites da universidade, como também adquiriram relevância internacional.

Desde o mês de setembro deste ano, o reitor dessa instituição, João Grandino Rodas, assinou um convênio que estabelece a presença permanente da Polícia Militar (PM) no campus da USP, com o argumento de que esta medida garantiria uma “maior segurança” à comunidade acadêmica1. Esta iniciativa altamente reacionária, que viola de forma flagrante o princípio da autonomia universitária, em pouco mais de dois meses começou a mostrar seus verdadeiros objetivos, que não têm nada a ver com a “proteção” dos estudantes, professores ou trabalhadores da USP, ou algo similar, mas sim com a repressão e intimidação do movimento estudantil e sindical dentro da instituição.

Isto ficou evidente, ante o assombro de muitos, quando, na madrugada do dia 8 de novembro, cerca de 400 policiais da tropa de choque da PM, apoiados em seu operativo pela cavalaria, veículos blindados e helicópteros, invadiram o prédio da USP para desalojar, de forma violenta e brutal, um grupo de estudantes que ocupava a sede da reitoria havia alguns dias. O saldo desta ação de guerra contra o movimento estudantil e social foi de 73 companheiras e companheiros presos e processados criminalmente. A PM atuou cumprindo uma ordem judicial que, por sua vez, foi impulsionada pelo próprio reitor Rodas.

Aqui não há relâmpago em céu azul. Esses fatos vergonhosos são parte de todo um processo consciente de militarização da USP, que é encabeçado pelo próprio Rodas, um fiel servidor do governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, do direitista PSDB. O projeto de militarizar a USP, instaurando um regime “macarthista” em seu seio, isto é, uma situação de perseguição permanente, reacionária e paranoica da esquerda ou de qualquer tipo de oposição à ordem estabelecida, responde a um projeto mais global. Esse projeto consiste em consumar a privatização–elitização das universidades brasileiras, colocando-as – ainda mais – a serviço dos interesses das multinacionais e do mercado. Como condição para concretizar esta estratégia, a burguesia brasileira e seus representantes políticos sabem perfeitamente que devem acabar com qualquer resistência que possa vir do movimento estudantil ou dos demais setores do movimento social. Descabeçar e desmantelar nossas organizações é, para eles, tarefa de primeira ordem. Eis o motivo da importância política de militarizar e liquidar a autonomia universitária na USP e nas demais universidades.

Diante dos perigos concretos desta ofensiva, é que a luta contra a militarização na USP – cujos objetivos, para o PSTU e a LIT, concretizam-se nas palavras de ordem de: !Fora PM! !Fora Rodas! !Pelo arquivamento imediato do processo contra os 73 estudantes que foram presos! !Por um projeto alternativo de segurança para a comunidade acadêmica da USP! – é, atualmente, parte fundamental da luta mais geral por uma educação pública, gratuita, autônoma e de qualidade. Estamos diante de uma luta de vital importância em defesa de liberdades democráticas elementares, sem as quais será impossível frear o processo de destruição da universidade pública, impulsionado pelo governo federal chefiado pela petista Dilma Rousseff.

Leon Trotsky dizia que “a estratégia sem sua correspondente tática será sempre uma abstração teórica inerte”2. Se concordamos nesses objetivos gerais, torna-se indispensável, para avançar, pesar as diferentes políticas, táticas, métodos e propostas de ação que as diferentes correntes dentro do movimento estudantil têm defendido até agora. Nesse sentido, existe uma polêmica com as correntes ultraesquerdistas que atuam na USP e que ganhou importância com o desenvolvimento do conflito.

Referimo-nos, concretamente, à chamada Liga Estratégia Revolucionária (LER–QI), ligada ao PTS argentino. Desde o início da luta, essa organização defendeu ações que, ao não corresponder com a correlação de forças entre o movimento estudantil e nossos inimigos, não passaram de meras aventuras irresponsáveis que colocaram em risco a luta dos estudantes. Para piorar, impulsionaram tudo isso com métodos burocráticos e apelando a calúnias da pior espécie stalinista contra o PSTU e outras correntes com as que não concordam politicamente. O debate, pelo que está em jogo, é inevitável. Para iniciá-lo, é necessário ir primeiro aos fatos.


Como as coisas aconteceram?

A crise atual começou no dia 27 de outubro quando, no contexto do reacionário convênio Rodas–PM, a polícia tentou prender três estudantes por suposta posse de maconha. Nesse momento, um setor dos estudantes reagiu e, protegendo seus companheiros da arbitrariedade policial, conseguiu expulsar os policiais do local. Foi uma vitória importante dos estudantes, que abria uma situação favorável para colocar com mais força o debate sobre a presença policial na USP, ampliando o espaço para organizar uma forte campanha contra isso. No entanto, sem maiores reflexões, a LER e outros setores afins à sua política e concepções arrebatadamente propuseram, de imediato, a ocupação da sede administrativa da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas). Os militantes do PSTU, naquele momento, propuseram outro tipo de medidas como atos, marchas e debates no âmbito de uma campanha com o objetivo de ganhar importantes setores da massa estudantil para esta causa democrática. No entanto, a assembleia decidiu ocupar e, apesar de o PSTU não achar que as condições estivessem dadas para essa medida, acatou a decisão dessa instância e participou ativamente da ocupação.

É um fato que aquela ocupação da FFLCH nasceu isolada e debilitada, tanto na USP como para a opinião pública. Foi então que, em outra assembleia, realizada em 1º de novembro, o tema foi discutido democraticamente por mais de mil estudantes e, por uma maioria de 559 contra 458, votou-se pela desocupação dessa faculdade. Depois do horário máximo marcado pela assembleia e a declaração de seu final, um grupo de estudantes, encabeçado pela LER, resolveu ocupar outro prédio da USP, desta vez a própria reitoria. Esta ocupação, decidida pelas costas das instâncias deliberativas e resolutivas legítimas dos estudantes, não só permaneceu isolada como também dividiu o movimento estudantil. A reitoria, de maneira totalmente antidemocrática e autoritária, convocou novamente a PM para efetuar a desocupação violenta, em que foram presos e processados 73 estudantes.


Democracia “para os que lutam” ou democracia em que a base decide?

Sabemos que, em política, nada é por acaso. Tudo tem um porquê de fundo. As questões “táticas” de uma organização sempre estão ligadas a sua estratégia e concepções gerais.

Essa forma de atuar nos conflitos, isto é, a política e a metodologia da LER–PTS tem por trás toda uma concepção teórico-ideológica que eles passaram a chamar de “democracia para os que lutam”. Este esquema propõe, basicamente, que as decisões sobre os rumos do movimento devem ser tomadas somente pelos ativistas que estejam dispostos a lutar ou, utilizando as palavras de uma curiosa “nota militar” da LER, por aqueles cujo centro é “o combate, a reflexão e a vontade de agir para vencer”3, aqueles que têm “moral para o combate”. Assim, a decisão do que é melhor para uma determinada luta não corresponde às massas, à base do movimento, mas somente àqueles que tenham a “obstinada vontade na linha de frente dos combates”4.

Esses fraseólogos ultraesquerdistas profissionais atuam com um critério já assinalado por Trotsky: “Para o sectário, a vida social é uma grande escola e ele, seu professor”5. Por serem inimigos irreconciliáveis da dialética (não nas palavras, em que ninguém ganha deles, mas na ação), método que para Trotsky “sempre toma a experiência como ponto de partida para depois voltar a ela”, aplicam um método formal e iluminista, nunca isento de arrogância, típico da intelectualidade pequeno-burguesa radicalizada.

Esta armação teórica leva-os, evidentemente, a desrespeitar burocraticamente as decisões das assembleias legitimamente constituídas dentro do movimento de massas. Como a democracia é “para os que lutam” e não para as massas, nossos brilhantes estrategistas só participam e acatam as decisões das assembleias quando estas coincidem com sua política e suas propostas de ação. Foi assim que, na USP, ao defender a importância do comando de greve que se constituiu (que é correto), começaram a questionar a legitimidade do DCE7 como entidade de massas, como instância legítima dos estudantes (um erro grave, típico de todo ultraesquerdista ou do anarquismo). Nós temos muitas críticas à atual direção do DCE da USP, nas mãos de correntes ligadas ao PSOL, mas isso nunca nos pode levar a questionar o DCE como entidade representativa dos estudantes. Uma coisa é questionar a direção política de um sindicato, outra muito diferente é, por causa de sua direção, negar a legitimidade do sindicato como tal. A LER expressa este erro de concepção de forma clara em sua já citada “nota militar”: “Este organismo [o comando de greve] é o que permitirá, como uma assembleia das assembleias, sua evolução democrática e radical [do movimento]. Duas democracias começam a se chocar. A formal por fora da luta de classes, a da eleição das entidades como o DCE, e a democracia dos que lutam, da representação dos mobilizados, das assembleias, (...) das ocupações”8. Ou seja, o DCE seria algo “por fora da luta de classes” e nesse espaço se exerceria uma “democracia formal”, enquanto o comando de greve, onde estariam somente “os que lutam”, longe de estar submetido às decisões da assembleia geral (onde a base estudantil deve mandar), estaria acima delas, ao se converter em uma “assembleia das assembleias”.

Essa lógica não responde à principal necessidade do movimento neste momento, que é construir uma ampla unidade de todos os setores, no âmbito de uma forte campanha democrática contra a reitoria e a PM. Somente com um movimento forte e unificado será possível conquistar a vitória. A LER se nega a construir esse movimento, assim como se nega a reconhecer as entidades históricas e legítimas do movimento estudantil. Desse modo, não atua no sentido desta grande tarefa.

Estamos perante outra concepção de movimento e de democracia operária. O objetivo deixou de ser fazer política para as massas, para centrar-nos exclusivamente na vanguarda mais radicalizada. Coerentes com esta concepção, definem assim seus objetivos: “Nossa tarefa é formar uma corrente de milhares em todo o país que seja a voz daqueles que estão fora da universidade. Que encare cada luta sua como parte da luta geral dos trabalhadores e do povo contra a burguesia. Para isso, precisamos ser os mais consequentes defensores e implantadores da democracia dos que lutam, desta nova forma de construir uma direção do movimento que começa a ser realizada na USP, o comando de delegados de assembleias de curso”9. Nós estamos completamente a favor de ter sido conformado um comando de greve e nos jogamos com tudo para fortalecê-lo, pois é um espaço democrático e necessário para organizar e centralizar a luta. Dito isso, devemos ser categóricos em defender que todo comando deve ser submetido à base do sindicato, não pode estar “por fora” das decisões dos estudantes, pois, se fosse assim, de democrática esta instância passaria a ser burocrática. Nunca um “comando”, do tipo que for e por mais indispensável que seja para qualquer luta, pode ser superior ou substituir as assembleias de base. Desta “nova forma de construir uma direção do movimento”, altamente elitista, a única direção que pode surgir é uma que seja profundamente burocrática.

Tal é a concepção da LER. Eles sustentam que as assembleias são espaços de tipo “parlamentares”, que só “servem para pressionar por negociações com a reitoria”. Por isso, “o comando de greve não pode ser meramente um organismo executivo das resoluções da assembleia geral”. Se o comando de greve não é uma instância que está subordinada e executa as decisões da assembleia geral de todos os estudantes, significa que, para a LER, aquele espaço está acima desta máxima e soberana instância. Para nossos mestres de “democracia” sindical, o comando de greve não só estaria acima das assembleias gerais, mas também das próprias assembleias de curso. Afirmam que “os mandatos dos delegados não devem ser imperativos (quando os delegados só podem votar exatamente sobre o que já foi votado em sua assembleia de curso), pois senão (…) os delegados de um curso podem expressar somente as posições majoritárias do mesmo (...)”10. Perguntamo-nos: se os delegados ao comando de greve não devem estar submetidos a mandatos imperativos de suas bases (assembleias de curso) e não devem ser obrigados a defender as “posições majoritárias” dessas assembleias, então quem eles representam? Seriam delegados de quem? Suas propostas responderiam a quem ou ao quê? Esses delegados – quiçá porque têm uma “moral” de combate mais avançada que os “atrasados” estudantes que os elegeram nas assembleias de curso baseados somente em seu “senso comum” – estão acima de todo e têm carta branca? A LER, que se ufana de democrática e acusa o PSTU de burocrático o tempo todo, entra em uma série de contradições ao defender as assembleias de curso (onde dizem que está a base, mas terminam defendendo que os delegados não se submetam totalmente a suas decisões majoritárias) contra as assembleias gerais (onde também está a base), para acabar anulando o poder de ambas em favor de um comando de greve que não esteja submetido à disciplina de nenhum dos dois níveis de assembleias. Evidencia-se, assim, apesar de suas palavras, a concepção completamente burocrática que a LER defende dentro do movimento estudantil e social.

Toda essa concepção burocrática baseia-se na teoria da “democracia dos que lutam”. Esta teoria, posta em prática, termina sendo nefasta, suicida e criminosa para as lutas em geral, pois preparam, como neste caso, as derrotas mais duras e desmoralizantes para o movimento. Parte de uma lógica que, na prática, busca substituir a ação das massas pelas de uma pequena vanguarda dirigida por eles, que se acham conhecedores de todo o humano e o divino. Esta teoria, ainda que não o admitam, não tem a menor confiança no poder criador das massas, pois as consideram muito atrasadas para poderem decidir seus destinos de forma soberana.

No caso do conflito na USP, a LER defende sua política focada na vanguarda radicalizada com a seguinte apreciação das massas: “(...) O PSTU esquece-se de que, como ensinava Clausewitz (…), a ‘massa’ (opinião pública incluída) deve ser vista como força ‘física’ (força numérica) mas principalmente como força ‘moral’ (ânimo, disposição para lutar, coragem, coesão como grupo ou coletivo). A ‘massa’, depois de três décadas de neoliberalismo e derrotas, é cada vez maior (força numérica) porém cada vez menos coesa, corajosa e disposta a lutar, cada vez mais individualista, conformista, passiva e pacífica. Ou seja, contraditoriamente a massa tem mais força numérica porém menos força de combate, pois sua ‘moral’ é cada vez mais a moral do inimigo (defesa da ordem, da polícia, da lei, da paz social, do ‘estado de coisas’)”11. Está tudo dito. Como a “coragem” e a “moral” combatente das massas não satisfazem as exigências do refinado paladar político da LER, por que perder tempo fazendo política para elas? Por que perder tempo tentando elevar seu nível de consciência, aplicando o método do programa de transição trotskista? É melhor – mais fácil e mais cômodo – fazer política para “uma pequena vanguarda estudantil dotada de um sentimento (moral) antipolícia” e dedicar-se, “como vanguarda consciente, revolucionária (…) a construir uma forte vanguarda de jovens conscientes do papel da polícia e da necessidade de combatê-la e dissolvê-la”12.

A LER, como o resto da ultraesquerda, encara suas ações como se se tratasse de uma partida de pingue-pongue: de um lado, Rodas–PM, e, do outro, eles e o que eles consideram como a vanguarda mais combativa e decidida; as massas (que têm a “moral do inimigo”) ficam sempre no meio, relegadas a simples espectadoras. Esse desprezo em relação às massas e ao próprio princípio da democracia operária é típico de correntes que caem no desespero pequeno-burguês. Justificam com todo tipo de ideologias sua covardia para realizar um trabalho político na base e seu rechaço em relação ao que Lenin ensinava sobre “explicar pacientemente” nossa política às massas para elevar sua consciência e, nesse processo, ganhá-las para as posições revolucionárias.


Lenin, Trotsky e… Von Clausewitz contra a LER

Os militantes da LER, supostos estrategistas “militares”, recorrem, para subsidiar suas posições, ao conhecido e genial general prussiano Claus Von Clausewitz. Este brilhante teórico e prático da ciência da guerra é autor da famosa máxima de que “a guerra é a continuação da política por outros meios”. Sábia verdade. Outra grande verdade é o que dizia Trotsky, tomando esta definição de Clausewitz, sobre o ultraesquerdismo: “Sua política em tempos de guerra será a fatal consumação de sua política em tempos de paz”13. A política da LER, como a de todo aquele que padece da doença do ultraesquerdismo, baseia-se não só no desprezo pequeno-burguês em relação às massas, como também em abstrair-se completamente da realidade objetiva e não levar em conta a análise rigorosa de algo que, na ciência militar e no marxismo, chama-se correlação de forças. E tanto Clausewitz quanto Lenin e Trotsky se dedicavam a fazê-lo de uma forma milimétrica antes de propor uma tática ou de empreender qualquer tipo de ação.

Lenin dizia que a “medula do marxismo e da tática marxista” reside em “levar em consideração a correlação de forças”. O máximo dirigente do outubro russo insistia em que: “Nós, os marxistas, nos orgulhamos sempre de saber determinar, considerando estritamente as forças das massas e as relações entre as classes, a conveniência de uma ou outra forma de luta. Dissemos: a insurreição não é sempre oportuna; sem certas premissas concretas é uma aventura. Condenamos muito frequentemente, como inoportunas e nocivas desde o ponto de vista da revolução, as formas mais heroicas de resistência individual”14. Para Lenin, propor uma forma de luta sem considerar as forças das quais se dispõe era simplesmente um crime. Em 1918, em sua famosa polêmica com os “comunistas de esquerda”, em que, pela falta de um exército, defendeu até à morte assinar o tratado de paz “arquidesvantajoso” de Brest–Litovsk, que imposto de forma humilhante pelo Estado imperialista alemão antes que empreender uma “guerra revolucionária”, como propunham os ultraesquerdistas, escreveu: “(...) é preciso (...) limitar-nos à propaganda, à agitação e à confraternização enquanto não possuirmos forças para mirar um golpe duro, sério e decisivo em um patente conflito militar ou insurrecional (…) É evidente para todos (salvo, quiçá, para os que estão completamente embriagados pela frase) que aceitar um importante conflito insurrecional ou militar sabendo que não se dispõe de forças, sabendo que não se tem exército, é uma aventura que, longe de ajudar os operários alemães, torna mais difícil a sua luta e facilita a tarefa de seu inimigo e do nosso”15. Esta última parte é importante, pois não faltam os que dizem que “fatos políticos” derivados de ações radicalizadas na USP podem inflamar ou despertar a luta em outras universidades. Se a vida fosse tão fácil…

E, a propósito de Von Clausewitz, vejamos como Lenin interpretava seus ensinamentos em momentos em que a correlação de forças lhe era desfavorável: “Se com certeza as forças são pequenas, o principal meio de defesa é retirar-se para o interior do país (quem vir nisto uma fórmula tirada do contexto para o caso presente, que leia o que diz o velho Clausewitz, um dos grandes autores militares, a respeito dos ensinamentos da história sobre o particular)”16. Nem sempre a tática mais apropriada para “vencer” é atacar. No geral, alguém ataca uma posição se tem as condições para fazê-lo.

Mas essas lições básicas não cabem nos esquemas da LER. Para eles: “Como sabem os marxistas, diante de grandes interesses antagônicos, a força (combate, métodos radicais, guerra) será o elemento decisivo, portanto os ‘métodos’ devem ser ‘de guerra’, proporcionais aos ‘grandes objetivos e interesses’ ”17. Ou seja, sempre que existirem “grandes interesses antagônicos” (na luta de classes sempre existe isso) ou “grandes objetivos e interesses”, o “método” deve corresponder não às forças de que dispomos, mas sim à magnitude de nossos fins. É um bom momento para agradecer que esses generais não contem com um exército.

É lamentável constatar, compartilhando com Lenin, que na LER e em outros grupos afins à sua política e métodos “não há o menor indício de que compreendam a importância do problema da correlação de forças”18. Isso é impossível, pois, como escrevia Trotsky: “os escolásticos ultraesquerdistas não pensam em termos concretos, senão em abstrações vazias”.19


Na ofensiva ou na defensiva?

É preciso analisar, à luz dessas definições e ensinamentos de nossos mestres, que política a LER defendeu e defende ante o conflito na USP. Contrastar, como marxistas, suas propostas de ação com a realidade objetiva vivida pelo movimento estudantil da USP é fundamental para extrair as lições necessárias e poder continuar esta luta tão importante.

O primeiro é saber que este conflito se deu em um momento em que um amplo setor dos estudantes não se posicionava a favor das pautas do movimento estudantil. A base de apoio desta luta ainda era bastante limitada e a reitoria contava com o respaldo da opinião pública dentro e fora da universidade. Neste contexto político, a ocupação unilateral da reitoria dividiu o movimento e acabou colocando-o ainda mais na defensiva. Em vez de buscar outros meios para disputar a consciência dos estudantes e ganhá-los para a luta massiva e contundente contra Rodas–Alckmin–PM, a ultraesquerda tomou um caminho que só isolou ainda mais a luta, ao afastar dela muitos estudantes. Segundo dados do Datafolha publicados em 13 de novembro, 58% dos estudantes aprovam a presença da PM no campus e 57% têm mais confiança do que medo desse corpo repressivo. Por outro lado, 73% dos estudantes estavam contra aquela ocupação aventureira e 53% opinam que os estudantes que participaram devem ser punidos. Assim, fica evidente que o apoio à PM dentro do campus ainda é amplo. Inclusive entre aqueles que estão contra a presença da PM na USP, um setor considerável era contra a tática da ocupação. Realidade amarga, mas, no fim, realidade.

Porém, quando falamos de correlação de forças não falamos só de números. É verdade que as pesquisas de opinião não podem ser nosso único critério ou parâmetro e, como se sabe, é muito improvável conseguir na massa estudantil uma maioria absoluta a favor das bandeiras históricas do movimento. Por isso, além das pesquisas de opinião, é preciso determinar quem está politicamente na ofensiva e quem está na defensiva. Aqui cabe ser categórico e constatar que, até agora, quem está na ofensiva é a reitoria e o governo estadual. Nesse sentido, apesar dos esforços de resistência do movimento, a reitoria, com o apoio irrestrito do governo estadual e federal, tem conseguido implementar seu projeto, abrindo cursos pagos, aprofundando a entrada de empresas privadas na universidade, cometendo atos de corrupção, abrindo processos administrativos contra dezenas de militantes estudantis e sindicais etc. Isso ocorre, além do mais, porque a reitoria também está na ofensiva e bem posicionada diante da opinião pública, tendo respaldo para aplicar seus planos de maneira categórica e brutal.

A tarefa da vanguarda estudantil é, portanto, lutar para reverter essa correlação de forças – conquistando, antes de tudo, um apoio mais amplo dentro e fora da universidade – e proteger o movimento das ofensivas políticas e repressivas de Rodas–Alckmin–PM. Assim, era inaceitável colocar o movimento em risco. Após a desocupação da reitoria, a LER tentou atenuar sua responsabilidade política neste fato desastroso para o movimento estudantil dizendo que: “toda batalha implica em perigos” e que “as conquistas também abrem dificuldades até para o exército vitorioso”20. Esses delírios até poderiam nos fazer rir, se não estivéssemos com 73 estudantes processados, fruto dessa “conquista” de seu suposto “exército vitorioso”.

Depois da repressão, houve um crescimento no movimento estudantil, que se expressou em assembleias, atos e marchas com dois ou três mil estudantes e um cenário de menor isolamento dentro e fora da USP. Este novo momento, que é muito progressivo, é possível porque, embora 73% dos estudantes estivessem contra a ocupação, 46% também criticaram a agressividade policial. Os “excessos” e a “brutalidade” da PM (que, sinceramente, teve uma reação desproporcional diante de uma ocupação de menos de 100 estudantes) possibilitaram que um setor mais numeroso de estudantes se some e, em um movimento de solidariedade bastante comum nesses casos e por tratar-se de estudantes, pronunciaram-se intelectuais, professores, artistas e até alguns meios de comunicação começaram a moderar suas posições ultrarreacionárias. Mas sejamos claros: o que abriu um novo momento, que devemos aproveitar a fundo para fortalecer o movimento de conjunto, não foi a ocupação burocrática dos “estudantes combativos” – que quase nos liquida –, mas um erro político do inimigo. A discussão é se esses novos fatos e elementos configuraram uma mudança qualitativa na correlação de forças. Nós opinamos que não, opinamos que a luta continua sendo defensiva. A construção de grandes assembleias e atos é uma vitória dos estudantes da USP, que mostraram à reitoria e à sociedade que podem lutar unificadamente para defender a educação pública e a autonomia universitária; mas a correlação de forças se mantém. A luta é tão defensiva que, ainda que não tire esta conclusão, até a LER defende que a “prioridade” da luta é o fim dos processos conta os 73 ex-presos políticos. O centro, agora, deixou de ser o “!Fora Rodas, Fora PM!” para ser a defesa de nossos presos, isto é, não avançar “deixando para trás os mortos e feridos” de nosso exército, como eles mesmos escrevem em sua “nota militar”. O que pode ser mais defensivo que isso?


A concepção de “ações exemplares”

Queremos deixar claro que não concordamos com o raciocínio de que, quanto piores as coisas estão, há melhores condições para lutar. Não concordamos com a lógica de que, realizando “ações exemplares” ou gerando “fatos políticos” em que uma elite iluminada, que tudo sabe e tudo pode, esbanje heroísmo, sacrifício e inusitada valentia, as massas serão despertadas para a luta.

E o problema não é a ousadia ou a radicalização das ações. Estamos completamente a favor das ações mais radicalizadas da juventude e do resto do movimento de massas. O problema é quando essas ações radicalizadas são realizadas dando as costas (ou, o que é pior, contra) às massas e não se colocam a serviço de fortalecer o movimento social de conjunto. O problema é quando a ousadia, a temeridade e a coragem, que são indispensáveis em qualquer luta, estão simplesmente a serviço de agradar setores ultraesquerdistas que, desta forma, saciam suas necessidades de convencer a si mesmos que são os únicos “revolucionários”. É aí que a ultraesquerda demonstra um individualismo extremo e cruza caminho com o anarquismo, a quem Lenin denominava, com toda razão, “liberais com 40º de febre”.

A LER acusa o PSTU de ter se colocado contra as ocupações e a declaração imediata de greve estudantil (a qual, uma vez votada, nos jogamos com tudo para construir e fortalecer) porque teríamos uma estratégia que busca “ligar-se a setores mais amplos dos estudantes, adaptando-se ao senso comum pró-segurança elitista e privilegiando os espaços eleitorais (...)”21. Em contraposição, nossos estrategistas infalíveis dizem que, desde o princípio, trabalharam “(...) criando uma vanguarda pelo FORA PM que questionasse o caráter elitista da universidade e o papel que a polícia cumpre fora dela, privilegiando os métodos da luta de classes (ocupações e greve estudantil)”22. Duas questões: a primeira é que é verdade que o PSTU buscou e continua buscando chegar a setores “mais amplos” dos estudantes, mas não para se adaptar ao seu nível de consciência ou ao seu “senso comum”, e sim para fazer exatamente o contrário, para disputar sua consciência que hoje, verdade amarga e dolorosa de engolir, está majoritariamente com a política de Rodas-Alckmin-PM-Imprensa burguesa. Neste contexto, defendemos que é necessário acompanhar a disputa político-ideológica dentro do conjunto dos estudantes, com ações que ajudem a elevar seu nível de consciência, levantando o sistema de palavras de ordem corretas, no momento correto. Em outras palavras, seguindo a metodologia do Programa de Transição. Fazer o contrário, ou seja, trabalhar só com o programa máximo23, é abrir um abismo entre as massas e a própria luta, sem falar da vanguarda, que ficaria falando sozinha com a verdade na mão.

A segunda questão é que as “ocupações e a greve estudantil” não são os únicos “métodos da luta de classes”. Justamente porque estamos falando de táticas de luta, existem outras mil variantes que podem ser utilizadas se as condições para essas “ocupações e greve estudantil” não estiverem dadas nesse momento. O problema é quando não queremos ver a realidade (que quase nunca é a que alguém queria que fosse) e, para nos olhar satisfeitos no espelho ou girar em toro de nosso umbigo, começamos pelo final. A outra questão é que a vanguarda não é algo que se “cria”. Ela é um fenômeno que surge dos processos de luta reais, objetivos, e que reflete as características gerais desses processos.

Para a LER, não estar a favor dos “métodos da luta de classes”, que para seu parco esquema passam somente pelas ocupações ou ações mais radicalizadas, significa capitulação, traição, não ser “ousado” e adaptar-se às pressões do “senso comum”. Para nós, a ousadia não passa por lutar isolado. Isso, na verdade, significa ser suicida. Se fizéssemos isso, seríamos, como dizia Trotsky ao se referir a Stalin, meros e eficazes “organizadores de derrotas” para a nossa classe. Para nós, a questão é a oposta: quem realmente capitula ao “senso comum” das massas é aquele que não tem a ousadia –porque é preciso ser ousado e audaz para ir até a base e tentar convencer os estudantes ou as massas de uma determinada política! –, lidando com as contradições e disputando a consciência que, por ação da ideologia dominante, é geralmente atrasada e cheia de preconceitos de todo tipo. Na verdade e afinal de contas, o mais fácil é ficar isolado sem dar essa batalha, sem fazer esse trabalho cinzento, mas indispensável para o triunfo de qualquer luta e, chegado o momento, da própria revolução.

Nós defendemos o método das ocupações e das greves como ações legítimas do movimento estudantil e de qualquer outro setor do movimento de massas. Estas são questões táticas, isto é, que dependem das condições objetivas e subjetivas que tenhamos para aplicá-las e, sobretudo, sustentá-las. No entanto, não é por serem questões “táticas” que são assuntos menos importantes. No movimento operário, que tem pouco a ver com as características do movimento estudantil, uma greve ou ocupação mal medida custa a demissão a centenas de trabalhadores e até a prisão para os dirigentes.

Mas não coloquemos o exemplo do movimento operário, onde dá calafrios pensar o que pode chegar a fazer um grupo como a LER em posição de direção, e voltemos ao mundo do movimento estudantil. Por exemplo, a ocupação isolada empreendida pela LER e seus amigos não tem nada a ver com o processo de greves e ocupações das reitorias da USP, da Unesp e da Unicamp durante o primeiro semestre de 2007, as quais foram acompanhadas por uma verdadeira onda de ocupações e greves em todo o país. Este processo de luta – contra o decreto do ex-governador de São Paulo, o direitista José Serra, que criava a Secretaria de Educação Superior atentando contra a autonomia universitária, desconsiderando a pesquisa básica para favorecer a “operacional”, e ameaçando seriamente o financiamento das universidades brasileiras – envolveu, além de uma vanguarda numerosa, setores importantes da massa estudantil. A força do movimento conseguiu neutralizar a ação venenosa da imprensa e ganhar o apoio de importantes setores da sociedade. Não foi por acaso que esse movimento foi vitorioso e Serra não conseguiu que a PM (como Alckmin e Rodas conseguiram agora, graças ao isolamento) entrasse para reprimir essas ocupações, não porque lhe faltasse vontade, mas porque – eles, sim, consideram este tipo de coisas – não tinham uma correlação de forças favorável.

É assim que, para além de qualquer fraseologia altissonante e grandiloquente da qual tanto gostam os ultraesquerdistas, sua política concreta, por mais “radical” que soe ou pareça, termina servindo à burguesia e facilitando a vida, neste caso, para Rodas–Alckmin–PM. Eles aproveitaram o isolamento para reprimir violentamente e abrir um precedente nefasto na história do movimento estudantil.

No entanto, apesar dos planos de Rodas–Alckmin–PM e da política nefasta da ultraesquerda, a luta está em curso e nada está definido. Devemos continuar lutando com a mesma força e decisão de sempre. É necessário aproveitar este novo momento, disputar e ganhar politicamente a vanguarda gerada nesta luta para nossas bandeiras e dar uma batalha clara e paciente entre as massas estudantis. É indispensável manter nossas posições se queremos passar à ofensiva. Devemos também ter como aliados os sindicatos de professores, trabalhadores e o resto do movimento sindical e social brasileiro e internacional. Agora nós é que devemos isolar politicamente Rodas–Alckmin–PM. Toda a política do PSTU vai neste sentido, de fortalecer a luta e de cercá-la de solidariedade no movimento operário e social. Assim, podemos citar o caso de nossa posição no Sindicato de Metroviários de São Paulo, em que o PSTU propôs tanto o apoio político contra a presença da PM na USP como o apoio financeiro para a libertação efetiva dos estudantes presos. Fizemos esta defesa sabendo e apesar de existirem setores da base contrários a esta ação de solidariedade, devido obviamente à campanha demonizadora da imprensa burguesa, que se valeu muito das ações isoladas promovidas pela ultraesquerda.

Devemos e podemos fazer tudo isso para vencer. Porque os estudantes da USP precisam e podem vencer, apesar das forças da direita reacionária dentro e fora da USP e daqueles que padecem da doença do ultraesquerdismo.

Garantir uma vitória dos estudantes da USP é uma necessidade de todo o movimento que defende a educação pública. O primeiro passo é conquistar o arquivamento dos processos contra os 73 companheiros e companheiras que foram presos na ocupação da reitoria. Isto só se dará com base em uma ampla unidade democrática de todos os setores do movimento estudantil, dos trabalhadores e professores da universidade, que ousem disputar amplos setores dentro e fora da USP para empreender uma grande campanha.


Uma seita burocrática com moral stalinista

Não obstante, o que nos parece realmente grave e inaceitável não são nossas diferenças políticas. Estas, ainda que sejam de fundo e irreconciliáveis, passam para o segundo plano se comparadas ao método stalinista utilizado pela LER, em seu afã desesperado por diferenciar-se, de iniciar uma campanha de calúnias na contra o PSTU, acusando-o de ter feito um acordo com o reitor Rodas para liquidar a primeira ocupação da FFLCH. Em outra nota, assinada por Bruno Gilga, afirmam que o PSOL, quando houve o caso dos três estudantes que foram defendidos por seus companheiros, “cumpriu o ‘papel de polícia’ no movimento, ‘escoltando’ os estudantes até a viatura, contra os que queríamos expulsá-la”. Em seguida, envolve o PSTU nessa acusação dizendo, ao referir-se ao PSOL e a nosso partido, que “estas direções vão se reafirmando como uma ‘esquerda moderada’. Não lhes bastou entregar os estudantes à polícia (...)”24.

As acusações são gravíssimas. Se fossem verdadeiras, não estaríamos diante de “pelegos”, mas sim de colaboradores diretos do reitor e da polícia capitalista. Se a LER fosse consequente, deveria ter alertado o movimento estudantil, deveria ter colocado isso como primeiro e inevitável ponto das assembleias que vêm ocorrendo, deveria apresentar as provas (que para acusações desta magnitude devem ser contundentes e irrefutáveis) e deveria ter solicitado a imediata e direta expulsão de nossos companheiros e os do PSOL do DCE. A atitude de lutadores honestos e sérios deveria ter sido esta, pois, como é possível sequer discutir com agentes das forças repressivas, do reitor; com traidores da luta?

No entanto, não fizeram nada disso porque simplesmente não têm provas que sustentem essas acusações. Ao fazer esse tipo de acusações e amálgamas sem ter como prová-las ao movimento estudantil e à esquerda brasileira e mundial, os membros da LER transformam-se em caluniadores vulgares ao mais puro estilo stalinista. E tem mais. Em outra nota, criticando o suposto desprezo, por parte do PSTU, na defesa dos 73 presos da USP, insinuam de forma caluniosa que isso se devia ao fato de serem subproduto de uma tática (a ocupação da reitoria) com a qual não concordamos. Atrevem-se a dizer isto apesar não só de nossa posição incontestável de solidariedade aos companheiros, como também depois de ter sido a própria CSP–CONLUTAS, onde o PSTU cumpre um papel destacado, que pagou as fianças dos estudantes presos!

A baixeza dessas calúnias, amálgamas e insinuações é escandalosa. Reafirmamos plenamente, nesse sentido, a nota da Juventude do PSTU a respeito desses métodos: “A LER abandona assim as regras mais elementares da esquerda e empreende uma campanha vergonhosa, indigna, suja e mesquinha, com o único objetivo de combater nossas posições políticas. É a moral do vale tudo, que não tem nada em comum com os valores defendidos pela esquerda revolucionária e socialista, à qual a LER diz pertencer”25.

Apesar disso e ainda que seja repugnante, essa atitude não nos surpreende vindo de uma seita burocrática que, com gritos belicosos e alaridos infantis, termina sempre em posições oportunistas. Tal como escreveu Trotsky: “Para o sectário, todo aquele que trata de explicar-lhe que a participação ativa no movimento operário exige o estudo permanente da situação objetiva em vez dos conselhos altaneiros pronunciados a partir da tribuna professoral sectária, é um inimigo. Em lugar de dedicar-se a analisar a realidade, o sectário dedica-se às intrigas, rumores e histeria”26.

Nossa classe saberá julgar de forma implacável as posições políticas, os métodos e a moral desses charlatães com pose de revolucionários.


Notas:
1. No entanto, segundo dados publicados pelo Datafolha, 57% dos estudantes opina que, após a presença da polícia, a sensação de insegurança é a mesma.
2. Trotsky, Leon: Prólogo à edição polonesa do Esquerdismo, doença infantil do comunismo, de Lenin, escrito em outubro de 1932.
3. Ventura, Leandro: Grande ato e assembleia dos estudantes da USP: uma nota “militar” sobre as conquistas e novas contradições no movimento, publicado no site da LER–QI.
4. Idem.
5. Trotsky, Leon: Sectarismo, centrismo e a Quarta Internacional, escrito em outubro de 1935.
6. Idem.
7. DCE: Diretório Central dos Estudantes.
8. Ventura, Leandro: Grande ato e assembleia dos estudantes da USP: uma nota “militar” (....)
9. Idem.
10. Viskov, Natália: Transformar o comando de greve com delegados mandatados e revogáveis no organismo mais democrático de direção da luta, publicado no site da LER–QI.
11. Ventura, Leandro e Lisboa, Val: As lutas, assim como as guerras, são radicais quando os objetivos são radicais, publicado no site da LER–QI.
12. Idem.
13. Trotsky, Leon: Aprendam a pensar: Uma sugestão amistosa a certos ultraesquerdistas, escrito em maio de 1938.
14. Lenin, V. I.: Sobre a frase revolucionária, publicado na compilação denominada A política exterior do Estado Soviético. Editorial Progresso, Moscou, 1979, p. 35.
15. Ibidem, grifos no original.
16. Lenin, V. I.: Sobre o infantilismo “esquerdista” e o espírito pequeno-burguês, publicado na compilação denominada A política exterior do Estado Soviético. Editorial Progresso, Moscou, 1979, p. 80. Lenin refere-se ao capítulo XXV, A retirada para o interior do país, da sexta parte da obra de Von Clausewitz Da Guerra, em que fala dos problemas da defesa.
17. Ventura, Leandro: As lutas, bem como as guerras (…)
18. Lenin, V. I.: Sobre o do infantilismo “esquerdista” e o espírito pequeno-burguês (...)
19. Trotsky, Leon: Aprendam a pensar (…)
20. Ventura, Leandro: Grande ato e assembleia dos estudantes da USP: uma nota “militar” (...)
21. Fortalecer o comando de greve para expulsar a PM e revogar o convênio! Lutemos pela retirada do processo aos 73 presos da USP!, publicado no site da LER–QI.
22. Ibidem.
23. Por exemplo, a LER–QI nega-se a levantar uma saída alternativa ao problema da insegurança no campus da USP, apesar de que 79% dos estudantes tenham declarado que têm medo de circular no prédio universitário à noite. A palavra de ordem “Segurança sim, PM não”, seria, por parte do PSTU, “ceder ao senso comum” e “naturalizar” a presença da PM como um “mal necessário”. Defendem isso sabendo que nosso projeto de segurança alternativo parte do “Fora PM”.
24. Gilga, Bruno: Estudantes organizam massiva luta contra a polícia, publicado no site da Fração Trotskista.
25. Juventude do PSTU: Onde o ultraesquerdismo se encontra com o stalinismo, publicado no site do PSTU.
26. Trotsky, Leon: Sectarismo (…)



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