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quinta-feira, 28 de março de 2013

Orientação do Conselho Federal de Medicina é um passo para avançar na luta pela legalização do aborto

Os médicos defendem o direito das mulheres interromperem a gravidez até a 12ª semana da gestação caso desejem



Orientação do CFM dá maior autonomia para que as mulheres decidam sobre seus corpos
O Conselho Federal de Medicina (CFM) aprovou no último dia 21/03, em congresso realizado na cidade de Belém, resolução que recomenda mudanças na legislação sobre o aborto. Os médicos defendem o direito das mulheres interromperem a gravidez até a 12ª semana da gestação caso desejem, sem que isso traga implicações legais a elas e aos profissionais. Trata-se de uma resolução que apóia as mudanças de Reforma do Código Penal referentes ao aborto, contidas no PLS 236/2012, que vem sendo debatidas pelo Senado Federal.

O PLS 236/2012 propõe manter o aborto como crime, mas ampliar as “exceções” nas quais o aborto pode ser considerado legal. Hoje, há três situações em que isso é possível: gravidez decorrente de estupro, quando a gestação ameaça a vida da mãe e em casos de fetos anencéfelos. A proposta é incluir uma quarta condição: ser realizado até a 12ª semana de gestação, por vontade da mulher, desde que autorizado por médico ou psicólogo.

“Os Conselhos de Medicina concordaram que a Reforma do Código Penal, que ainda aguarda votação, deve afastar a ilicitude da interrupção da gestação em uma das seguintes situações: a) quando “houver risco à vida ou à saúde da gestante”; b) se “a gravidez resultar de violação da dignidade sexual, ou do emprego não consentido de técnica de reprodução assistida”; c) se for “comprovada a anencefalia ou quando o feto padecer de graves e incuráveis anomalias que inviabilizem a vida independente, em ambos os casos atestado por dois médicos”; e d) se “por vontade da gestante até a 12ª semana da gestação”, diz o texto disponível no site do CFM.

É uma resolução bastante parecida com a da Reforma do Código Penal, mas com um importante agregado: dispensa o laudo do profissional de saúde para autorizar o procedimento e propõe substituí-lo por uma declaração da mulher manifestando sua vontade. Isso dá maior autonomia para que elas decidam sobre seus corpos.

O entendimento foi construído a partir de estudos e debates durante vários meses, e se pautou nas várias dimensões da questão. Entre as argumentações, as de maior relevância são as que envolvem a saúde da mulher e as de caráter social.

No Brasil, a cada ano são registrados um milhão de abortos, quantidade que representa metade dos partos realizados no mesmo período que são cerca de 2,2 milhões. O perfil das que abortam não tem nada a ver com o estereótipo de criminosas, como são tomadas pela nossa legislação. Elas têm entre 20 e 29 anos, vivem em união estável, têm até oito anos de estudo, são trabalhadoras, católicas, com pelo menos um filho, usam métodos contraceptivos e a maioria se declara contra o aborto.

Conforme o CFM, o aborto é uma das maiores causas de morte materna e é a terceira causa de ocupação de leitos nas maternidades do SUS. As mortes decorrentes de intervenção mal sucedida poderiam ser evitadas em mais de 90% das situações, caso fossem realizados por profissionais capacitados e em condições adequadas de higiene. Soma-se a isso o fato das mulheres pobres, que tem maiores dificuldades de acesso às redes de atendimento, serem as que mais morrem.

Essa realidade não pode mais ser tomada apenas como caso de polícia, tem de ser vista como um problema de saúde pública. É esse o mais importante resultado da proposição do CFM. Ainda não estamos falando da legalização do aborto, aliás, o Conselho faz questão de frisar que é contrário. Mas podemos com certeza dizer que se abrem novos parâmetros para pautar a discussão, avançando para além dos vieses moralistas ou conservadores.

Os setores religiosos já saíram em ataque à resolução do CFM nos últimos dias. Além de atacar a suposta falta de ética do conselho, a CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil) questionou o componente de classe da atual legislação, que compromete a saúde principalmente das mulheres trabalhadoras. Segundo Clóvis Bonfleur, representante da entidade, "não há nada que prove que mulheres com recursos são submetidas ao procedimento com segurança ficando o risco de vida apenas às mais pobres". Ele parece desconhecer a realidade do país, que à revelia da legislação, possui dezenas de clínicas de luxo que cobram milhares de reais para a realização de abortos, feitos por profissionais de saúde, com toda a segurança possível. Mas essa realidade não é acessível a todas as mulheres. Para a maioria, sobram apenas os métodos mais arcaicos possíveis e, depois, os leitos dos hospitais públicos para tentar resolver as sequelas.

Nos últimos 10 anos, todas as ações tomadas pelos governos ou deputados atuaram no sentido de retroceder as conquistas das mulheres nesse terreno, em um movimento oposto aos observados em alguns países da Europa ou mesmo em países vizinhos, como o Uruguai que recentemente descriminalizou a prática. Neste país, inclusive, a postura da categoria médica a favor da legalização do aborto em unidade com os movimentos de mulheres foi determinante para o fortalecimento desta luta na sociedade.

A “frente em defesa da vida”, dirigida por setores religiosos burgueses, é o movimento que tem pautado as ações do governo em relação a esse tema desde sua eleição, quando Dilma apresentou a “Carta ao Povo de Deus”, comprometendo-se a não descriminalizar o aborto no país. Essa posição encontra eco no avanço do conservadorismo e ganha espaço na medida em que muitos movimentos governistas se calam para proteger a presidenta.

Em maio de 2010, com o apoio de setores do PT, o “Estatuto do Nascituro” (Estatuto do não nascido) foi aprovado pela Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados. O Estatuto pretende, entre outras coisas, transformar em crime os abortos considerados legais hoje, como os provenientes de estupros. Também em 2010, o governo Lula retirou o apoio à descriminalização do aborto e às cláusulas que permitiam ampliar os casos de aborto legal do Plano Nacional de Direitos Humanos.

A proposta do Conselho e a Reforma do Código Penal nesse assunto vão, felizmente, na contramão do que estamos vendo até aqui. Mas ainda não é unânime entre os médicos e o governo já deu seu recado. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, garantiu que não há nenhuma intenção do governo em avançar na legalização da prática. É um absurdo que no governo de Dilma, “a maior autoridade desse país”, conforme suas próprias palavras, a postura seja fechar os olhos para as mulheres que morrem e deixar a situação como está.

A classe trabalhadora organizada e os movimentos feministas classistas devem exigir medidas concretas do governo, que começam por uma campanha efetiva de prevenção e educação sexual, com distribuição de camisinhas e anticoncepcionais gratuitos sem burocracias nos postos de saúde, mas que tenha por objetivo assegurar o aborto legal, gratuito e feito em condições de higiene. A resolução do CRM, ao abordar o tema sob ótica da saúde pública, pode ser um importante instrumento para isso.


Retirado do Site do PSTU

sábado, 26 de janeiro de 2013

O lucro das grandes corporações norte-americanas falou mais alto que a vida de Aaron Swartz

Jovem programador foi acusado de compartilhar artigos acadêmicos de bibliotecas norte-americanas na rede



Aaron foi vítima de um sistema que o lucro está acima do conhecimento, da liberdade e da vida
No dia 11 de janeiro, o jovem Aaron Swartz, 26 anos, foi encontrado morto em seu apartamento, na cidade de Nova Iorque. Ele sofria de depressão e teria se suicidado, sem deixar nenhum bilhete ou informação. Aaron, aos 14 anos, já era considerado um grande prodígio no mundo digital por desenvolver o sistema RSS (Rich Site Summary), que possibilita o recebimento de informações atualizadas de diversos sites diferentes, sem que seja necessário visitá-los um a um.

Essa poderia ser uma notícia como várias outras, não fosse o fato de que Swartz, um jovem programador informático, estava a poucos dias de um julgamento que poderia levá-lo a mais de 30 anos de prisão e a receber uma multa de cerca de um milhão de dólares. A acusação era que ele havia feito “download ilegal” de 4,8 milhões de documentos científicos e literários da plataforma JSTOR, que abrigava arquivos de sete bibliotecas norte-americanas e cobra 19 dólares por mês de quem quiser acessar os seus “papers”.

A família responsabiliza as autoridades judiciais americanas pelo acontecido e critica o sistema judiciário dos Estados Unidos que iria prender um jovem de 26 anos por “um crime que não fez vítimas”. Isso por que, além de uma mente brilhante, Swartz era um jovem ativista e defensor da liberdade de expressão e compartilhamento de conteúdos na internet. Um jovem que não se conformava com uma lógica em que as pessoas são obrigadas a pagar para ter acesso ao conhecimento, como mostram os casos de bibliotecas inteiras cujo acervo é digitalizado, mas acessível somente aos que podem pagar suas taxas.

No seu documento mais difundido (Guerrilha Open Access), Aaron coloca que “a herança inteira do mundo científico e cultural, publicada ao longo dos séculos em livros e revistas, é cada vez mais digitalizada e trancada por um punhado de corporações privadas”.

Para o capitalismo, todo ataque à liberdade de expressão e de compartilhamento de conteúdos tem sua razão de existir: seja para o controle do conhecimento em circulação, seja para a garantia dos lucros bilionários das grandes corporações internacionais. Aaron é mais uma vítima de um sistema no qual o lucro da grande burguesia está acima do conhecimento, da liberdade e da própria vida.

Para nós da Juventude do PSTU, fatos como esses só reforçam a necessidade real de democratizar o acesso aos conteúdos digitais e ao conhecimento, sabendo que isso significa ir além de receber informações, mas também ter a possibilidade de produzí-las e divulgá-las livremente. E como dizia o próprio Aaron Swartz, “não há justiça em seguir leis injustas. É hora de vir para a luz [...] declarar nossa oposição a este roubo privado da cultura pública”.


Retirado do Site do PSTU

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Por que somos ateus?

A idéia de deus, desde o surgimento do Estado, tornou-se o fundamento do poder. A palavra “hierarquia” significa, nos seus radicais gregos hieros e arquê, “poder do sagrado”. Os sacerdotes foram os primeiros agentes do aparelho coercitivo do Estado. Duvidar dos deuses, portanto, sempre foi, na história das civilizações, um crime contra o Estado. Por isso, o ateísmo sempre foi uma doutrina clandestina, perseguida, denunciada, estigmatizada, e seus porta-vozes são, por milênios, praticamente inexistentes na história do pensamento.

Apenas a partir da época moderna da Ilustração que o livre-pensamento, o direito à dúvida e a descrença e, até mesmo, a afirmação da inexistência de deus, tornaram-se públicas, mesmo com a continuidade da vigência da censura policial dos livros e da perseguição aos ateus. Na verdade, só mesmo no século XX, e assim mesmo tardiamente, que o ateísmo pode tornar-se uma opinião tão legítima como qualquer crença religiosa. Mesmo hoje em dia, praticamente nenhum estado é efetivamente laico, havendo sempre concessões no campo da isenção de impostos, do acesso à educação, etc. Há cruzes nos parlamentos e tribunais e jura-se sobre bíblias oficialmente.

O ateísmo existe como uma antiga herança materialista da filosofia grega e como um recente movimento social e intelectual dos séculos XIX e XX. Nesse período, tanto o marxismo, como anarquismo, o liberalismo e o positivismo manifestaram, de alguma forma, uma carga maior ou menor de ateísmo explícito ou atenuado na formulação de “agnosticismo”, que foi usada por pensadores como Bertrand Russel, por exemplo.

Para esboçarmos uma definição geral, poderíamos dizer que o ateísmo recusa a idéia de que o destino do mundo esteja nas mãos de qualquer deus, admitindo no seu lugar a combinação das determinações naturais, do acaso e, particularmente, da vontade humana que, tanto no âmbito individual como no coletivo, representa um fator central para a descrição das histórias das vidas e das sociedades, no sentido de tentar compreendê-las.

O ateísmo pressupõe, portanto, o primado da liberdade humana e de uma busca de autonomia sobre si na determinação do destino humano. A idéia de um desígnio, ao contrário, se apresenta como uma explicação das coisas pelos encadeamentos de uma vontade sobrenatural que escaparia ao nosso alcance.

Desde a antigüidade clássica que alguns filósofos gregos e latinos questionaram a noção de um deus criador ou controlador do universo como algo incongruente. Mesmo sem sustentarem um ateísmo coerente e integral (lembremo-nos sempre que o debate do ateísmo sempre se fez de forma clandestina e, portanto, cifrada, sem uma exposição pública total de idéias cujo preço a se pagar por sustentá-las podia ser a morte ou até mesmo pior do que a morte, a tortura e a humilhação), se tornaram os marcos do pensamento cético e crítico das visões de mundo das religiões. Desses filósofos, o mais influente foi o grego Epicuro (341 a.C. a 270 a.C.), cujo nome passou a designar até hoje, no senso comum, uma atitude mais ou menos hedonista, o “epicurismo”, o que, na verdade, se oporia à postura real do filósofo, muito mais dirigida para o “equilíbrio” e a “moderação”.

Mas, além do elogio dos prazeres e do seu uso equilibrado, Epicuro caracterizou-se por ser o primeiro a argumentar contra a idéia de que o destino é governado pelos deuses (mesmo que não afirmasse que eles não existiam). Sobre a idéia de um destino comandado pela vontade divina, Epicuro, num fragmento famosos dizia:

“Deus, ou quer impedir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode. Se quer e não pode, é impotente: o que é impossível em Deus. Se pode e não quer, é invejoso: o que, do mesmo modo, é contrário a Deus. Se nem quer nem pode, é invejoso e impotente: portanto, nem sequer é Deus. Se pode e quer, o que é a única coisa compatível com deus, donde provém então a existência dos males? Por que razão não os impede?”.

Este tornou-se o argumento moral clássico contra a existência de um deus supostamente bondoso: por que existe o mal?

Contra o medo dos deuses, Epicuro assim como o seu discípulo latino Lucrécio (98 a.C. a 55 a. C.) afirmaram idéias revolucionárias, muitas se aproximando de uma física verdadeiramente moderna, contrárias ao pensamento dominante de sua época e dos quase dois milênios que se seguiram, tais como:

Nada se pode criar do nada.
Não pode tudo nascer de tudo.
Nada se aniquila inteiramente.
O vazio existe.
Tudo está em contínuo movimento.
Não há desígnio.
Não há centro no universo.
O mundo não foi criado para nós.
Há outros mundos.
O espaço é infinito.

Essas idéias ofereciam uma interpretação do curso dos fenômenos do mundo natural e humano em que não havia lugar para uma ação ou criação divina, nem para a interferência sobre o curso da natureza de forças “sobrenaturais”. Por isso, pode se chamar essa concepção como “naturalista” e “materialista”.

Também em relação à alma, Epicuro enfrentou as crenças de sua época, defendendo a tese de que, ao morrer o corpo, a alma também se dissipa, pois só existe com o corpo e um espírito não poderia ser dotado de sentidos, pois estes dependem de órgãos carnais. Como escreveu Lucrécio: “toda a substância da alma se dissipa como o fumo nas aladas auras do ar”. A morte, portanto, nada é para nós, pois quando ela vem, já não somos e quando não somos nada sentimos.

O destino do mundo na visão epicuriana, em última instância, tenderia a uma destruição da ordem atualmente existente entre céus e terras. O mundo não se formou conforme um plano, mas pelo movimento dos elementos. Assim, todos os fenômenos temidos na vida individual e coletiva como doenças ou trovões, raios ou terremotos possuiriam causas naturais e nem a morte ou a salvação, a doença ou a cura, a fortuna ou o desatre, dependeriam da vontade ou da intervenção de deuses.

Lucrécio, no Livro V, do De rerum natura (Da natureza das coisas), apresentou quatro argumentos contrários a idéia de que o mundo fora criado por deuses.

Três argumentos são lógicos:

1) um ser perfeito não criaria um mundo imperfeito;
2) se deus na eternidade estava em repouso por que o interrompeu?;
3) o mundo não possuía nenhum modelo.
E um argumento é ético ou moral:
4) a existência do mal é incompatível com um deus bom.
Este último ficou conhecido como o argumento da justiça (ou injustiça) divina, ou da teodicéia. Como, sendo bom, deus permitiria o mal?

As idéias de Epicuro e Lucrécio existiram no mundo mediterrânico vários séculos antes de Cristo. Com o advento da cristianização do Império Romano, pela primeira vez, uma religião monoteísta tornava-se dominante numa vasta área territorial. Para impor seu domínio declarou guerra implacável contra todos os outros deuses pagãos. Mais forte ainda, no entanto, foi a repressão às idéias negadoras da existência de deus. O ateísmo foi considerado um crime terrível e praticamente desapareceu da história das idéias na Europa. Epicuro e Lucrécio foram proibidos pela Igreja Católica, seus livros queimados e seus nomes condenados ao desaparecimento.

Somente no Renascimento, as idéias de inspiração epicurista começaram a reaparecer, mas como sustentou Lucien Febvre, em seu livro clássico sobre o pensamento de François Rabelais, no século XVI a descrença ainda era algo inconcebível. Montaigne, mesmo que afirmasse a dúvida e exigisse o senso prático na análise das coisas tampouco chegaria a sustentar uma descrença em deus ou um ceticismo metodológico que se curvaria apenas diante da evidência dos fatos, conforme o método científico estabeleceria nos séculos seguintes. Muitos, como Rabelais e Villon, zombavam da Igreja, do clero, da escolástica, e mesmo de Cristo, dos santos e dos milagres, mas não chegavam a uma negação da idéia de deus como a filosofia materialista faria no século XVIII.

No início do século XVIII, o pensamento ateu encontrou um sistematizador pioneiro na figura de um padre de aldeia na França, Jean Meslier, mas que apenas numa obra póstuma revelou seu pensamento desafiador, resumido em “oito provas” que demonstravam que:

1) religiões são invenções humanas;
2) a fé é um princípio de erro;
3) as visões e revelações são falsas;
4) as promessas e profecias são ilusões;
5) a teologia e a moral cristã são absurdas;
6) a religião em conluio com a política é a causa da opressão e da miséria;
7) deus não existe;
8) a alma não é imortal.

Esse padre apenas revelou suas verdadeiras crenças depois de morrer, explicando que vivera uma terrível angústia de ter que defender publicamente o que não acreditava no seu íntimo.

Voltaire, conhecendo o Testamento de Meslier ajudou a divulgá-lo, mas sob uma forma atenuada, adulterando e traindo o pensamento de Meslier. O barão D´Holbach, mais coerente, também se inspirou em Meslier e em seuSistema da Natureza (1760), resumiu os três argumentos ateus clássicos como:

a) o da “incongruência das qualidades” (deus não pode ser bom e onipotente ao mesmo tempo);
b) o da “economia ontológica” (a natureza se basta para autocriar-se perpetuamente, não é preciso remeter sua origem e funcionamento a nada externo a ela própria);
c) o da “nocividade política” (a idéia de deus serve para reis e sacerdotes governarem um povo crédulo e ignorante).

Durante a Revolução Francesa, o líder jacobino Robespierre condenou os ateus, pois, para ele, a idéia de Deus servia à manutenção da moralidade pública. Entre os filósofos iluministas, os mais ateus também foram os de origem mais aristocrática e menos democráticos (D´Holbach, La Mettrie), enquanto Diderot, assim como Hume, na Inglaterra, precisavam disfarçar seus argumentos inventando diálogos em que personagens outros que não eles próprios podiam esgrimi-los. Voltaire era um deísta (acreditava num Deus, mas combatia a Igreja), Rousseau converteu-se duas vezes, primeiro ao catolicismo e, depois, retornou ao protestantismo de sua origem.

O ateísmo não é, entretanto, apenas a não-crença em deus ou nos deuses, mas também a descrença na vida eterna. A idéia da imortalidade da alma é um complemento indispensável da noção judaico-cristã de uma justiça divina com condenações e salvações eternas no inferno ou paraíso.

As tentativas de encontrar uma explicação para o destino humano nos caprichos dos deuses sempre respondeu ao desamparo humano diante da sorte e a religião nasce como medo do futuro, especialmente da morte e das calamidades. Como escreveu David Hume, “as primeiras idéias da religião não nasceram de uma contemplação das obras da natureza, mas de uma preocupação em relação aos acontecimentos da vida”. Quanto mais um homem vive uma existência governada pelo acaso (como jogadores e marinheiros), mais ele é supersticioso. A força da religião decorre, assim, da existência de causas desconhecidas para os males e as benesses da vida.

Na história da crítica moderna e contemporânea da religião alguns pensadores de origem judaica, como Marx e Freud, ocuparam um lugar de destaque. Como comentou Isaac Deutscher, a maior contribuição do judaísmo para a humanidade foram os seus hereges que (de Cristo a Espinosa, Marx, Trotski ou Freud) desempenharam um papel central no desafio inicial da ordem vigente e na abertura do pensamento para um espaço de liberdade e amplitude de reflexão crítica. Do seio do monoteísmo original e mais estrito do judaísmo nasceram visões rebeldes, anti-dogmáticas e heterodoxas.

Para Marx, a crítica da religião é uma condição preliminar de toda crítica. A religião é o consolo de uma consciência cuja vida não tem seus nexos conhecidos. A compreensão do papel ativo da humanidade na história seria a contrapartida a todas as formas de crenças ilusórias construídas pela ignorância do que move o próprio destino.

Freud, de forma semelhante, vê na religião uma minoridade, uma recusa à responsabilidade sobre o próprio destino, uma sobrevivência da sensação infantil de amparo e temor simultâneo diante da figura paterna, e, portanto, uma neurose coletiva. Uma ilusão sustentada coletivamente como modo de vida, que ele considera, e tem a coragem de expor no seu livro O futuro de uma ilusão (1927), deverá ser superada para uma maturidade mais plena da humanidade.

A linhagem do ateísmo na história do pensamento vai de Epicuro e Lucrécio, na antigüidade, a Meslier e D´Holbach no século XVIII, e Feuerbach, Marx e Freud, no XIX.

Seu significado não é apenas de um debate de idéias, mas representa uma luta prática contra o poder das igrejas, especialmente o da Igreja Católica, que tem sido uma das forças mais sistematicamente arraigadas ao poder. A definição da modernidade em todos os seus aspectos: liberdade de pensamento, revolução científica, representação democrática popular, encontrou sempre na Igreja um dos seus mais fortes oponentes.

O Vaticano fundamentou, através da doutrina do direito divino dos reis, todas as formas de opressão das monarquias e das nobrezas na história da Europa. Os versículos de inúmeros evangelhos (por exemplo, I Timóteo, 6: “Todos os servos que estão debaixo do jugo estimem seus senhores por dignos de toda honra, para que o nome de Deus e da doutrina não sejam blasfemados”), exigindo dos servos obediência aos seus senhores e condenando toda revolta foram usados durante dois milênios para justificar todos os governos, opressões e atrocidades.

O modelo do Estado moderno de uma polícia e de um sistema judiciário centralizado, superpoderoso, obcecado pela informação, minucioso e extremamente cruel nasceu do aparelho do Tribunal da Santa Inquisição, usado tanto para perseguir hereges, ou seja, pensadores distintos do dogma, outras religiões (judeus, protestantes, cultos indígenas, etc.), ou devassos, sodomitas, e outros considerados como degenerados morais.

Cada uma das revoluções democráticas ou dos levantes sociais dos séculos XVIII, XIX e XX tiveram de combater a hierarquia da Igreja Católica (entre o baixo clero sempre houve honrosas exceções) como uma das forças que se perfilavam ao lado dos mais radicais conservadores.

Muitos movimentos sociais camponeses e anti-autocráticos surgiram do interior da própria Igreja, como ocorreu em parte dos reformistas protestantes. Na Inglaterra, seitas radicais defenderam a comunidade de bens, a igualdade entre os homens (algumas incluindo até as mulheres) e o fim das hierarquias sacerdotais. No decorrer da época moderna, estas vertentes protestantes, inicialmente progressivas, também se institucionalizaram, se burocratizaram e se elitizaram. As grandes Igrejas protestantes também são parte integrante do sistema de poder dos Estados Modernos, seja na versão Anglicana ou nas diversas outras existentes.

Politicamente, a Igreja católica foi, nos primeiros séculos da época moderna, a principal força reacionária do mundo ocidental. Todos os direitos sociais e democráticos foram combatidos pela Igreja Católica: direito de voto, de representação popular, de cidadania feminina. A Igreja justificou a escravidão e abençoou as guerras e os reis. Antes do século XX, a Igreja Católica nunca se preocupou com direitos sociais e, apenas como reação aos movimentos socialistas, comunistas, anarquistas e liberais que resolveu, especialmente após o segundo-pós guerra, adotar uma “doutrina social”.

Na agenda dos direitos civis, a Igreja sempre foi o inimigo principal de conquistas como: direito ao divórcio, ao aborto, aos homossexuais, ao uso de pílulas anticoncepcionais, de preservativos, de educação sexual.

Até recentemente, nem o México nem os Estados Unidos reconheciam o estado do Vaticano, devido à formação anticatólica da independência desses países. Um Estado cuja cidadania é apenas masculina, sem qualquer forma de democracia, que representa uma religião mundial recebe reconhecimento oficial no que restou de um imenso território pontifical que a independência da Itália terminou por expropriar, impondo o tratado chamado de “Concordata”, que exigiu, até sua libertação por Mussolini, que o Papa permanecesse confinado no Vaticano. Com o nazismo, o Papa Pio XI manteve uma relação amistosa, sem denunciar o plano genocida de extermínio dos judeus.

No século XX, a Igreja não hesitou em alinhar-se com Pinochet, em ajudar torturadores argentinos, em manter alianças com a Máfia e a Loja P-2 na Itália. A perda de fiéis do catolicismo para outras confissões torna-se cada vez mais crescente. Nos Estados Unidos, a Igreja gasta todo o seu orçamento em pagamentos de indenizações por abusos sexuais cometidos por sacerdotes. O maior país católico do mundo, que é o Brasil, tem, no entanto, a sua proporção de católicos na população diminuída de 74%, na última visita papal, para 64% atualmente.

O enfraquecimento relativo do Vaticano ocorre, entretanto, num panorama global de aumento da influência dos fundamentalismos: cristão nos EUA; judaico em Israel e nos EUA; islâmico na Ásia, África e Europa; hinduísta na Índia; etc. O significado atual e permanente do ateísmo é oferecer uma visão crítica de todas as religiões, defendendo ao mesmo tempo o direito de existência e expressão da liberdade religiosa, a laicidade do estado e a garantia de uma educação pública, gratuita e laica.

A laicidade e a liberdade religiosa são duas facetas da mesma atitude de tolerância e exigência de respeito ao caráter civil do estado, que deve defender a liberdade de todos os cultos, mas afastar-se de qualquer vínculo com qualquer um deles, garantindo que não haja discriminação por razões de crença religiosa mas também que as Igrejas não interfiram na educação básica nem na pesquisa científica.


Retirado do Blog Convergência

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Oscar Niemeyer: o poeta das curvas e dos sonhos


Niemeyer faleceu perto de completar 105 anos
No dia 5 de dezembro, morreu perto de completar 105 anos a maior lenda viva da Arquitetura brasileira. Parecia que o velho Oscar já havia se entendido com o tempo e selado uma trégua com a morte, por mais que o peso da idade já recaísse com certa dureza sobre suas costas. Dono de uma obra composta por algumas centenas de projetos executados no Brasil e em países no mundo todo, Niemeyer morreu trabalhando em seus projetos, sonhando com um mundo justo e socialista e acreditando que “a Arquitetura não é importante, o importante é a vida”.

Suas curvas, desenhadas a partir dos traços trêmulos de seus esboços, se concretizaram em edificações que se tornaram a principal expressão da Arquitetura Moderna brasileira. Sua Arquitetura era composta de sonhos, tinha aversão à linha reta imposta pela racionalidade do homem, queria fazer o concreto armado flutuar sobre o chão e conversar com as formas da natureza. Era um comunista convicto, foi filiado ao PCB durante décadas, desde 1945. Foi parte das contradições de seu partido, alinhado com o Stalinismo e com os Governos Burgueses Nacional-Desenvolvimentistas. Envelheceu e acompanhou o fim da União Soviética e dos Estados Operários, o “fim da história” para muitos, mas não para o velho Oscar que continuou sonhando com um mundo parecido com o que tinha imaginado para Brasília décadas antes. Um mundo de homens iguais.


Niemeyer e o movimento moderno brasileiro

A década de 20 foi marcante para a Arquitetura mundial, onde diversas vanguardas artísticas surgiam no mundo inteiro, em um período de grande efervescência cultural e política. Na academia ainda reinavam os padrões estéticos do ecletismo, que mantinham um culto obsessivo à Arquitetura da Antiguidade, insistindo em uma mistura de padrões gregos, romanos e barrocos. O Modernismo se propôs então a transformar completamente a forma de se pensar e de se fazer Arquitetura, imprimindo um novo olhar sobre as cidades e o espaço habitado, buscando refletir acerca das reais necessidades das pessoas, incorporando os avanços da técnica para produzir uma Arquitetura do homem para o homem.

Niemeyer iniciou seu trabalho nos anos 30 e se ligou imediatamente a estas vanguardas que já tinham considerável força. Uma de suas primeiras obras de destaque foi o prédio do Ministério da Educação e Saúde, onde trabalhou diretamente com o Arquiteto franco-suíço Le Corbusier, um dos fundadores da Arquitetura Moderna. Niemeyer soube desde o início de seu trabalho absorver os novos preceitos da Arquitetura, tal como a planta livre, a construção sobre pilotis e principalmente o uso do concreto armado, uma das principais descobertas da época, que permitia a utilização de grandes vãos. Niemeyer foi além, levou ao extremo a plasticidade do concreto armado, desafiou também os calculistas e as leis da física. Muitos de seus projetos que hoje se encontram de pé foram julgados como inviáveis e impossíveis por alguns calculistas. Sua Arquitetura, extremamente escultórica e inventiva, é a expressão do modernismo sem as amarras do sistema “forma-função” Europeu, que para ele “castrava” as possibilidades que a técnica da época lhe permitia. Não admitia uma Arquitetura que fosse incapaz de dialogar com o que pensava, sentia e sonhava o povo de seu país.


Brasília, candangos, sangue e exclusão

Sem dúvida nenhuma o ponto mais alto da carreira de Oscar Niemeyer se deu durante a construção de Brasília, cidade de maior concentração de obras de sua autoria. Ele ficou responsável por coordenar o concurso de projetos para o plano-piloto de Brasília, vencido por Lúcio Costa e, a pedido do presidente e amigo Juscelino Kubitschek, ficou responsável pelos projetos de todos os edifícios oficiais da cidade, como o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto, Palácio da Alvorada, a Esplanada dos Ministérios, dentre muitos outros.

A aproximação do PCB com JK era parte da política do Stalinismo, ao considerar a Burguesia Nacional-Desenvolvimentista como um setor progressista capaz de fazer frente ao imperialismo. Niemeyer abraçou desta forma a utopia de JK, que sonhava em construir no meio do descampado do Planalto Central a nova capital do Brasil. Falavam em uma cidade do futuro, uma cidade sem esquinas e sem desigualdades, e desta forma moveram grandes massas de operários vindos de todas as partes do país, mas principalmente do Nordeste. Eram os candangos, que construíram a cidade heroicamente em apenas três anos, e vieram de suas cidades de origem com a promessa de prosperidade e fartura.

O próprio Niemeyer não demoraria a perceber que a “cidade do futuro” era uma cidade como qualquer outra, marcada pela exclusão. A construção de Brasília foi permeada por muita violência. As condições de trabalho eram as mais precárias possíveis, milhares de operários morreram nos canteiros de obra. Eles se revoltavam contra as condições a que estavam submetidos, se rebelavam e tinham que enfrentar a duríssima repressão da polícia. As belas curvas dos projetos de Niemeyer apareciam nos canteiros de obras como esqueletos de concreto e aço retorcido, que vez ou outra engoliam um candango desavisado. Brasília se torna menos interessante ao sabermos que, além de concreto e aço, naqueles suntuosos prédios estava o suor e o sangue de milhares de “nossos irmãos operários”, como dizia o velho Oscar. Vidas foram concretadas junto a prédios de uma cidade que não havia espaço para os operários que a construíram. Após a construção da cidade, ao passo que os candangos viam chegar de mudança os funcionários do Governo Federal, iam percebendo que não havia espaço para eles na nova capital.

Muitas contradições permeiam a vida e a obra de Oscar Niemeyer, elas não serão apagadas, mas é fato também que nenhum Arquiteto conseguiu viver tanto sem desistir do que acreditava. Os anos passaram, a idade chegou, sem que o velho Oscar deixasse se abater pelo pragmatismo de nossos tempos. Continuou buscando expressar em cada obra o que sentia, e o que sentia o povo brasileiro, sem perder as esperanças de viver em um mundo livre da exploração e da opressão, um mundo de homens livres.


Retirado do Site do PSTU

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O Esporte e Socialismo

O atleta jamaicano Usain Bolt
Encerraram-se os Jogos Olímpicos de Londres. No Opinião Socialista desta quinzena (Nº 447) há um excelente artigo sobre o nefasto papel cumprido pelo capital neste que deveria ser um grande espetáculo de cooperação e fraternidade universal. Como demonstra o artigo, o capitalismo transformou as Olimpíadas em um festival de injustiças em nome do lucro: remoções forçadas das populações que vivem próximas aos equipamentos olímpicos, “zonas de exclusividade” para o marketing (onde ninguém pode, por exemplo, usar uma camiseta que mostre uma marca não autorizada pelo Comitê Olímpico Internacional) e outras barbaridades.

A próxima cidade a enfrentar as terríveis consequências de uma Olimpíada será o Rio de Janeiro. Não é preciso ter muita imaginação para prever as atrocidades que serão cometidas contra a população de rua do Rio, contra os menores que pedem esmolas nos sinais, contra os vendedores ambulantes e o povo em geral. É evidente que se prepara um verdadeiro estado de sitio na cidade, com a proibição de manifestações e greves, com uma repressão policial jamais vista. Chegaremos a ver algum tipo de “zona de exclusividade social” ou algum outro mecanismo que impeça o povo trabalhador de se aproximar dos locais de prova e trânsito de turistas? Só o tempo dirá. Não duvidamos de nada. De qualquer forma, a violência contra os pobres será a marca dos Jogos Olímpicos de 2016.

Mas o objetivo deste artigo não é analisar os fatores políticos e sociais imediatamente ligados às Olimpíadas. Aqui queremos tomar um elemento mais profundo, que em geral escapa às discussões sobre o tema, mesmo na esquerda: o esporte em si, sua relação com o indivíduo, com a vida em sociedade e com as ideias do socialismo.


O esporte de competição e os limites do corpo humano

“Superação!” Eis a palavra mais dita e ouvida em qualquer evento esportivo de grande porte. Os comentaristas não param de repetir que este ou aquele atleta “superou seus próprios limites” e que este ou aquele recorde acaba de ser quebrado. Os próprios telespectadores ficam eufóricos diante de figuras como Usain Bolt e Michael Phelps, que parecem de fato desafiar nossa compreensão sobre as capacidades humanas. Mesmo os esportes coletivos se tornam cada vez mais espetáculos de velocidade, força, agilidade e perfeição.

Mas se enganam aqueles que pensam que os atletas “testam” os limites do corpo humano, como gostam de dizer os jornalistas esportivos. Na verdade o esporte de competição já trabalha há algum tempo além dos limites do corpo humano, com gravíssimas consequências físicas e psíquicas para os atletas.

No futebol, por exemplo, um esporte que alterna piques explosivos com paradas abruptas, são observadas sérias consequências para o coração dos jogadores e as chamadas “mortes súbitas” em campo, fruto de infartos fulminantes, têm se tornado um fenômeno recorrente. Segundo a própria FIFA, nos últimos 5 anos, 84 jogadores de futebol morreram em campo devido a problemas cardíacos. É o que revela um relatório apresentado pela entidade em maio deste ano e que tem como base informações recebidas de 129 das 208 federações que compõe a FIFA. Além disso, os clubes apostam na hipertrofia muscular do atleta para suportar a violência das partidas e levar a melhor nas bolas divididas. A ênfase na musculação faz com que os jogadores ganhem uma massa muscular incompatível com sua estrutura óssea e articulações. Resultado: repetidas fraturas, seguidas de cirurgias, seguidas de novas fraturas.

Na ginástica olímpica, que para a perfeição técnica exige uma preparação física desde a mais tenra infância, o corpo das crianças que praticam esse esporte gasta praticamente toda a energia disponível nos treinos, o que gera a interrupção prematura de seu crescimento. Dito de maneira simples: param de crescer muito antes do que deveriam porque seu organismo não tem energia para mais nada, a não ser treinar.

No caso do fisiculturismo, fala-se muito dos anabolizantes, mas a verdade é que este sequer é o principal problema para a saúde dos que praticam essa modalidade. Algumas semanas antes da competição, a fim de “secar” e mostrar um corpo definido, os atletas reduzem drasticamente o consumo de água. Nos dias que antecedem a competição, a ingestão de líquidos chega literalmente a zero. A única água ingerida é a presente nos alimentos, que também são escolhidos especialmente em função de seu baixo teor de água. Não contentes com isso, os atletas tomam diuréticos para forçar a eliminação de líquido pela urina. Como resultado, desenvolvem graves doenças renais, têm dores de cabeça constantes e sérios desequilíbrios hormonais e metabólicos.

Nas corridas de cavalo, os jóqueis, que em geral já são de baixa estatura e magros, para não pesarem sobre o cavalo, fazem algo parecido: não só deixam de comer e beber antes das corridas, como tomam laxantes e fazem sessões de sauna nas horas que antecedem as corridas para eliminar o máximo possível de peso. Algumas gramas a mais sobre o cavalo podem fazer diferença. Resultado: desidratação crônica, novamente com consequências para os rins e outros órgãos.

Estes são apenas alguns exemplos. Em muitos outros esportes ocorrem fenômenos semelhantes.


A próxima fase do esporte sob o capitalismo: a transformação genética dos atletas

Entendendo que o corpo humano chegou ao seu limite e até o ultrapassou, alguns pseudocientistas a serviço das grandes marcas e corporações começam a pensar novas formas de aumentar o rendimento dos atletas, sem recorrer ao doping, que sempre pode ser detectado por exames precisos. Assim, começa-se a entrar em um terreno verdadeiramente escandaloso: a chamada “transformação genética” dos atletas.

Sabe-se, por exemplo, que o oxigênio é o grande combustível do corpo humano. Até certo ponto, o rendimento de um atleta em uma prova é determinado pela sua capacidade de “queimar” oxigênio e transformá-lo em energia e essa capacidade é determinada geneticamente. O grande “veículo” que carrega oxigênio através do corpo humano, levando-o para os tecidos que dele necessitam são os glóbulos vermelhos presentes no sangue. Quanto mais glóbulos vermelhos, melhor o indivíduo aproveita o oxigênio que respira. A partir daí o raciocínio se desenvolve com nitidez: bastaria injetar no atleta os seus próprios gens responsáveis por produzir glóbulos vermelhos para que o corpo passasse a produzir mais dessas células e o rendimento do atleta fosse melhorado. Esse procedimento não seria detectado em nenhum exame porque não se trataria de uma droga, mas sim de um componente até certo ponto “natural”: o material genético do próprio atleta. Não há hoje, pelo que se sabe, possibilidade técnica de realizar esse procedimento, mas do ponto de vista teórico ele deve funcionar e há muito dinheiro investido nesse tipo de pesquisa.

Essa ideia, por mais escandalosa que seja, é defendida hoje abertamente nos meios esportivos como a nova fase de desenvolvimento do esporte, uma fase onde recordes já consolidados seriam novamente quebrados com folga por esses “superatletas”. Daí para experiências secretas de conteúdo mais horripilante – é um pulinho. Qualquer semelhança com os experimentos realizados pelos médicos nazistas durante a 2ª Guerra Mundial não é mera coincidência. É o desenvolvimento lógico de um sistema opressor e racista.




“Mens sana in corpore sano”?

O esporte deveria ser o exercício e aperfeiçoamento das capacidades físicas do ser humano, com o objetivo de manter sua saúde e promover seu lazer, entretenimento e confraternização. Ou seja, em última instância, o objetivo final do esporte reside no bem estar psíquico do homem, que realiza todas as suas potencialidades físicas em associação com outros seres humanos e obtém daí prazer ou satisfação psicológica. Todos sabemos o quanto é simplesmente divertido jogar bola com os amigos, mesmo quando o placar do jogo não é sequer contado. O esporte deveria ser, portanto, em primeiro lugar, um momento de humanização e socialização.

Ao invés disso, o esporte de competição, tal como vem se desenvolvendo nas últimas décadas, tem significado um verdadeiro martírio psicológico para atletas de todos os estilos e idades, bem como para seus familiares.

A frustração diante das derrotas, as agressões psicológicas sofridas pelos atletas por parte dos treinadores, as cobranças da imprensa, as pressões e a humilhação a que os atletas estão submetidos por parte dos patrocinadores – tudo isso gera um clima que nada tem a ver com o chamado “espírito esportivo”. Há também casos de abuso sexual de atletas mulheres por parte dos técnicos, onde o caso de Joanna Maranhão é apenas o mais conhecido porque foi denunciado pela nadadora.

De uma forma geral, o esporte de competição se converteu em um profundo fator alienante para aqueles que o praticam. Crianças são retiradas de seu convívio normal, se tornando na prática prisioneiras e semi-escravas de clubes e empresas. Os estudos, as amizades, as brincadeiras sem compromisso e todas as outras atividades que não sejam o esporte são abandonadas. Alguns desses atletas demonstram de fato um enorme talento ou capacidade para o esporte e se transformam em grandes ídolos que fazem a alegria de milhões. Mas o preço que pagam é alto. Não fazem outra coisa além de competir. Que hoje em dia surja alguém como Sócrates (médico, jogador de futebol, ativista político e mais tarde jornalista), é praticamente impossível. O esporte de competição simplesmente não permite.

Assim, o esporte perde uma de suas principais funções: a manutenção da saúde psíquica daqueles que o praticam, o estabelecimento de relações sociais saudáveis, a interação humana em uma atividade livre e voluntária.


As lições da União Soviética

Nestas Olimpíadas muito se comentou sobre o resultado obtido pelos países que até 1991 compunham a antiga União Soviética. Somadas todas as medalhas ganhas pelos 15 ex-membros da URSS, estas ultrapassariam a quantidade de medalhas dos EUA, e a URSS, nessa projeção hipotética, terminaria os Jogos Olímpicos de Londres no topo do quadro.

De fato, os países que foram parte da URSS e outros antigos Estados operários são herdeiros de uma importante tradição esportiva e os resquícios dessa conquista podem ser vistos ainda hoje no desempenho dos atletas e equipes da ex-URSS, Europa Oriental e Cuba.

Mas de onde exatamente vinha o bom desempenho dos atletas soviéticos? Para quem assistiu Rocky IV, um filme de 1985 com Silvester Stalone, onde o boxeador ítalo-americano Rocky Balboa enfrenta o russo Ivan Drago, pode parecer que os bons resultados da URSS vinham apenas da disciplina individual dos atletas e do investimento pesado no esporte por parte do Estado. Neste lamentável filme dirigido pelo próprio Stalone, o russo Drago é retratado como um semi-robô sem emoções, criado praticamente em laboratório, e que tem à sua disposição nos treinos a mais avançada tecnologia soviética. Rocky o derrota na luta final treinando apenas com peças de carne e blocos de gelo em um frigorífico, sacos de areia e correndo atrás de galinhas, provando assim que nem mesmo o mais avançado treinamento tecnológico é páreo para a “superioridade norte-americana”.


O filme Rock IV e a visão estereotipada do Esporte na URSS

Bem, é verdade que na antiga URSS havia um forte investimento estatal no esporte. Também é verdade que os atletas eram bastante disciplinados. Mas arriscamos dizer que o incrível desempenho do esporte soviético não vinha nem de um fator, nem de outro. O investimento e a dedicação ajudam a explicar o fenômeno, mas não esgotam a questão. No fundamental, o sucesso da URSS se explicava por outro motivo: a massificação do esporte para praticamente toda a população. Expliquemos.

Ora, como se “descobrem” talentos esportivos hoje em dia? Busca-se exaustivamente nos clubes e empresas jovens que “prometam”, que mostrem indícios de que podem se desenvolver como atletas. Depois, se investe pesado nestes jovens, se impõe a eles uma rígida e opressiva disciplina, se estabelece para eles um ritmo alucinante e desumano de treinos, até transformá-los em grandes desportistas. Isso é assim mesmo nos países mais ricos e desenvolvidos. Ou seja, sob o capitalismo, trabalha-se com muito pouco material humano, com um universo muito restrito porque o esporte é extremamente elitizado. Por isso, qualquer jovem que demonstre algum talento para o esporte é “esfolado vivo” até render aquilo que se espera que ele renda...

Pois na URSS era diferente: o esporte era massificado, praticamente toda a população o praticava até certa idade, em maior ou menor grau. Dessa forma, os talentos não precisavam ser “pescados” em processos seletivos arbitrários e injustos; não havia “olheiros”, como nos países capitalistas. Os novos talentos brotavam de maneira mais ou menos espontânea da massa da população, que praticava esportes desde a infância. Trabalhava-se com um universo muito mais amplo, com um material humano muito mais diverso e abrangente. O que os países capitalistas conseguiam alienando e robotizando seus atletas, a URSS conseguia oferecendo a toda a população a possibilidade de praticar algum esporte e testar nele suas aptidões. Ou seja, a imagem “Rocky x Drago” (homem do povo x semi-robô alienado) é justamente o contrário do que existia na realidade.

Obviamente, devido ao fato de que as competições internacionais eram encaradas pela burocracia stalinista como peça de propaganda de seu regime, os atletas soviéticos de maior destaque sofriam consequências mais ou menos parecidas àquelas sofridas pelos atletas dos países capitalistas. Era o resultado inevitável do fato de que a URSS era dirigida por uma casta parasitária, que via o esporte como mais uma forma de manutenção de seu poder. Mas o fundamental não é isso. O fundamental é que na antiga URSS, principalmente nos primeiros anos de poder soviético, praticamente todas as empresas tinham seu time de futebol, de hockey, sua equipe de ginástica, de xadrez etc etc etc., e os torneios entre empresas, entre escolas, entre cidades, eram a forma predominante de confraternização esportiva. Fenômenos como doping, assédio, violência de torcidas, brigas em campo etc., eram simplesmente inimagináveis naquela situação.


O socialismo e o futuro do esporte

O mesmo capitalismo que promove o esporte de competição ou de “alto rendimento” é o que mantém uma parte significativa da população subnutrida, sedentária e doente. Uns poucos fazem coisas inacreditáveis, para que milhões e milhões apenas paguem o “pay per view”, comprem as camisetas e compareçam aos estádios. A famosa frase de Lula, gravada por uma câmera escondida, onde ele diz para um menino pobre do Rio de Janeiro, que reclamava do fechamento da quadra de tênis de um Complexo Esportivo do Governo do Estado, que “tênis é esporte da burguesia” é o triste retrato da concepção de esporte predominante em nossa sociedade. “Da burguesia” quer dizer “não é para você”, “vá fazer outra coisa”. Além disso, o capitalismo sonha com “super-atletas” que atraiam aos estádios e para a frente da TV multidões ainda maiores. E se esses super-atletas não surgem de maneira espontânea, o capitalismo está disposto a fabricá-los genética ou quimicamente.

Para o marxismo, as coisas são diferentes. A tarefa do socialismo em relação ao esporte é, em primeiro ligar, massificá-lo de uma maneira jamais sonhada. O esporte deve ser parte integrante e inseparável da educação do ser humano, tão importante quanto sua formação científica ou artística.

Obviamente, para isso será preciso um grande e permanente investimento estatal, tanto nos níveis fundamentais da formação esportiva (como atividade recreativa para crianças e adolescentes em idade escolar), quanto nos níveis mais qualificados. Mas esse investimento estatal de grande porte não pode estar em contradição com as demais necessidades da população, como moradia, saúde, transporte etc. A ideia de grandes espetáculos e competições esportivas construídas sobre o sofrimento e a exclusão da maioria (seja em função de remoções forçadas das populações, seja em função da falta de investimento em outras áreas) deve ser radicalmente abolida da prática social.

Da enorme massa da população que terá acesso ao esporte, se destacarão de forma mais ou menos natural os novos talentos e grandes desportistas do socialismo. Surgirão não um ou dois, mas inúmeros “Usain Bolt”, não dois ou três, mas incontáveis “Michael Phelps”.

O esporte voltará a ser um espetáculo de verdade, mas sua base não será mais a destruição do adversário ou a auto-negação do atleta enquanto ser humano completo. O esporte será novamente espetáculo porque será uma confraternização universal, da qual todos os cidadãos socialistas poderão participar ativamente.

Em uma sociedade socialista, igualitária por excelência, a competição desaparecerá por completo? Os placares deixarão de ser contados? Tornar-se-á o esporte apenas brincadeira, como é para as crianças? É difícil dizer. Somente as gerações que chegarem ao socialismo, e depois ao comunismo, poderão decidir o que fazer com esse grande legado do passado que é o esporte. O certo é que a competição, caso se mantenha, deixará de ser feita às custas da saúde física e psíquica dos atletas e seus familiares. E obviamente, conceitos como “dinheiro”, “patrocínio”, “marca” e outros – deixarão de ter qualquer relação com a prática esportiva. O esporte será esporte e nada mais.

Os desportistas do socialismo não serão ídolos intocáveis e inatingíveis. Serão pessoas comuns, que, além do esporte, realizarão atividades produtivas e intelectuais úteis para toda a sociedade. Não serão apenas atletas, mas seres humanos completos, universais, porque o esporte deixará de ser um fim em si, para se tornar um meio de educar e formar os cidadãos socialistas.

O socialismo não quer super-humanos; quer apenas seres humanos melhores. Desde que se livre das amarras impostas pelo capital, pela propriedade privada e pelo lucro, o esporte pode ser uma ferramenta fundamental nessa construção.


Retirado do Site do PSTU

quinta-feira, 26 de julho de 2012

O Bóson de Higgs e o materialismo dialético

Foi uma grande satisfação ver publicado no Portal do PSTU o artigo “O Bóson de Higgs e o socialismo”. É tão raro que a esquerda publique algo sobre ciência, que só há que parabenizar o autor do artigo. Não só pela iniciativa, como pelo artigo em si, se esforçando em explicar temas difíceis a quem não é especializado na matéria. Também manifesto meu total acordo com as conclusões políticas, de como o capitalismo se converte cada vez mais em um freio, um obstáculo à pesquisa científica. O artigo reflete ainda bastante bem aquela que é a posição (ou interpretação) majoritária entre os físicos hoje em dia sobre o tema. O problema é que esta opinião/interpretação majoritária da comunidade científica está, em minha opinião, errada, em especial com relação ao tema da origem do universo. Algo que vale a pena discutir.


Matéria e massa

No artigo se escreve, repetindo o que dizem muitos físicos: “O “bóson de Higgs”, partícula fundamental que fornece massa a todas as outras partículas e que, portanto, é responsável por formar simplesmente toda a matéria do universo”. A hipótese de que o Bóson de Higgs seja o mecanismo que confere massa a algumas das partículas elementares, é muitas vezes interpretada como explicação da “origem” da própria matéria e do universo. Por isso, o apelido “Partícula de Deus” pegou. Poderiam chamar também de “o Bóson da Criação”. É um mecanismo físico que pretensamente justificaria a Criação do universo, tanto aos olhos dos religiosos, como, infelizmente, de muitos físicos não-religiosos, mas bastante confusos filosoficamente. Para desfazer a confusão, comecemos por compreender que a massa e a matéria são duas coisas diferentes.

Matéria é tudo aquilo cuja existência independe de nós, sejam partículas, campos, energia, luz, seres vivos etc. A matéria está em permanente movimento, aliás, o próprio conceito de matéria é inseparável do conceito de movimento, a matéria só existe enquanto movimento. Matéria é um conceito contraposto à Idéia, cuja existência sim, depende de nós. A massa é apenas UMA das infinitas características (qualidades) da matéria em movimento. Outras seriam, por exemplo, a carga elétrica, o spin (o “giro” da partícula, como no artigo citado), a quantidade de movimento etc.

Indo ao nosso mundo macroscópico, poderíamos somar, por exemplo, a densidade, a dureza, a cor, a resistência elétrica, a temperatura, entre outras. Recorrendo à biologia, poderíamos somar a vida como uma das características possíveis da matéria, e no nosso caso, de humanos, mamíferos superiores como se diz no artigo, até a consciência, como característica mais elevada conhecida da matéria. A matéria tem infinitas características, expressões de seu movimento infinito. Algumas destas características são conhecidas por nós, outras, ainda não (assim como a carga elétrica, entre outras, não era conhecida em épocas mais remotas).

A massa é talvez a mais óbvia de todas as características da matéria, daí a confusão entre massa e matéria, que leva muitos a compreenderem a matéria como aquilo que tem massa, que se pode tocar, apertar, ver, ou seja, acessível diretamente a nossos sentidos. Mas a massa é definida cientificamente como a medida da resistência da matéria em alterar seu estado de movimento mecânico (1). Todos compreendem como é mais fácil frear uma moto do que um pesado caminhão. Exatamente porque o caminhão tem mais massa, é mais difícil acelerá-lo ou freá-lo, ou seja, alterar seu estado de movimento. Essa resistência a alterar o estado de movimento (em física expressa no Princípio da Conservação da Quantidade de Movimento e na Lei da Inércia) é uma expressão particular para o movimento mecânico da tese fundamental da filosofia materialista dialética – a indestrutibilidade do movimento da matéria (Engels, A Dialética da Natureza). Quer dizer, segundo Engels (e de acordo com os princípios físicos de conservação da massa, energia e quantidade de movimento), a matéria em movimento não pode ser nem criada nem destruída, só transformada de uma forma em outra. No caso do caminhão sendo freado, seu movimento não acaba, apenas é transformado em outros, por exemplo, se transferindo ao próprio planeta Terra, que se acelera um pouquinho no sentido contrário aquele em que se freia o caminhão (esse pouquinho é imperceptível, dada a imensa diferença de massa entre o caminhão e o planeta inteiro, mas ele existe!). Na linguagem dos físicos, esta é a conservação da quantidade de movimento.

Também a freada se traduz em calor nas pastilhas de freio, ruído, faíscas etc, que também são expressões do movimento da matéria. Na linguagem dos físicos, esta é a conservação da energia. Há muitas outras leis de conservação nas ciências, todas elas expressões particulares do mesmo princípio geral – a indestrutibilidade do movimento da matéria. Ou seja, da própria definição da massa como resistência a alterar o estado de movimento mecânico da matéria, já surge a idéia que esta é indestrutível em seu movimento.


A matéria não pode ser criada, não houve Criação. A matéria não pode ser destruída, não haverá Juízo Final

Todo esse preâmbulo foi necessário para chegar à pergunta: Por que afirmar que a massa “forma” a matéria, se ela é apenas uma de suas qualidades? Existem inclusive muitas formas de matéria sem massa, como os fótons (grosso modo, partículas da luz), entre outras. De onde sai a afirmação de que “o Bóson de Higgs é responsável por formar toda a matéria do universo”? Se assim fosse, repetindo, seria até justificado chamá-lo de Partícula de Deus...

Mas o Bóson de Higgs não cria a matéria. Nada cria a matéria, esta existe em permanente movimento. Não nos esqueçamos de que o próprio Bóson de Higgs, se existir, em última análise também é... matéria. O mecanismo de Higgs talvez seja, de acordo com teorias ainda em desenvolvimento, o processo pelo qual se expressaria a massa, a resistência a aceleração, apenas uma das infinitas características da matéria. Da mesma maneira, como o fóton é o mecanismo pelo qual se expressa a força eletromagnética e o hipotético gráviton seria o mecanismo pelo qual se expressaria a força gravitacional, outros bósons de nomes complicados expressariam as forças nucleares e daí por diante. Ou seja, nada a ver com a “origem da matéria”.

A coisa se torna mais grave ainda quando se afirma que “O bóson de Higgs comprovaria justamente que a matéria não só surgiu do nada, como ainda hoje surge constantemente do nada e se transforma constantemente em nada” ou que: “Se o bóson de Higgs for encontrado, ficará definitivamente provado que a matéria pode sim surgir do nada”. Estas afirmações, tão comuns entre muitos físicos, vão contra, como vimos, tanto aos princípios físicos da conservação de massa/energia e quantidade de movimento, como contra a tese fundamental do materialismo dialético, da indestrutibilidade do movimento da matéria. Não há absolutamente nenhum indício científico de que a matéria possa surgir do nada e se transformar em nada (para desespero dos defensores da Criação e do Juízo Final). Muito pelo contrário, toda a física mostra a impossibilidade disso, sem absolutamente nenhuma exceção conhecida. A massa, como uma das infinitas qualidades da matéria, até poderia surgir de formas de matéria sem massa, a partir do mecanismo de Higgs, assim como a vida surge da matéria inanimada, mas a matéria não surge nem desaparece, só se transforma em seu perpétuo movimento. Não há nada, em nenhuma teoria científica existente, sobre a origem da matéria em si. A afirmação de que a matéria e o universo tenham sido criados, seja por Deus, seja por Higgs, é anticientífica, antimarxista, antidialética e antimaterialista!


Lênin e Einstein

Esse erro de considerar o mecanismo de Higgs como a “origem da matéria” surge da confusão entre matéria e massa. É um erro propositalmente induzido pela filosofia idealista, que aplica um truque de prestidigitação, substituindo a verdadeira essência da matéria como tudo aquilo que existe, independente de nós, por uma definição vulgar de matéria como aquilo que se pode ver e tocar. Assim, quando se desenvolveu a idéia de energia na física, no século XIX, por si, um imenso salto em nossa compreensão da natureza, muitos idealistas e positivistas se aproveitaram para “demonstrar” que o conceito de energia era a prova de que o materialismo estava errado, que havia uma realidade “imaterial”, “energética”.

Foi a sua desculpa para passar de contrabando para uma concepção idealista do mundo, de que existem coisas “transcendentes”, fora do mundo material (onde estaria Deus). Lênin criticou exaustivamente a esses defensores da “energética” em seu livro “Materialismo e Empiriocriticismo”, mostrando que a energia nada mais era do que outra qualidade, nova então para a humanidade, do eterno movimento da matéria, posição logo depois confirmada por Einstein em sua Teoria da Relatividade, onde demonstrava finalmente que massa e energia são equivalentes, duas expressões de uma mesma coisa. A concepção idealista da “energética” passou assim à lata de lixo da história do pensamento científico, por meio das mãos de Lênin e Einstein. Mas o truque de confundir massa com matéria continua sendo utilizado hoje em dia, seja para justificar a Criação, por meio da “Partícula de Deus”, seja se aproveitando dos indícios atuais de existência de outras formas de matéria (chamadas de matéria e energia escuras), para novamente contrabandear concepções idealístico/místicas, entre muitos outros exemplos.


O Big Bang foi a Criação do universo?

Apesar de toda a boa vontade de muitos cientistas ateus em combater a religião, a maioria erra o alvo. Não é exato afirmar que a Igreja tenha aceitado a contragosto a Teoria do Big Bang. Pelo contrário. Aceitou a teoria sem problemas, porque é uma justificação da Criação, de que o universo foi criado num determinado momento. O fato de a física moderna não ter alcançado ainda o instante mesmo do Big Bang é o último refúgio dos teólogos mais sofisticados (2). A tese materialista dialética da indestrutibilidade do movimento da matéria nega a própria Criação, essa sim é a tese filosófica mortal para a Igreja.

Para deixar claro, não é objetivo deste artigo negar a Teoria do Big Bang. Esta é uma imensa conquista teórica da ciência moderna, explicando em detalhes a origem DE CADA EXPRESSÃO CONCRETA DE EXISTÊNCIA ATUAL DA MATÉRIA, de cada qualidade conhecida desta, como as partículas subatômicas, os átomos de diferentes elementos, prevendo até, com exatidão, a proporção relativa destes no universo visível! O que sim queremos aqui negar é a interpretação positivista/metafísica de que o Big Bang tenha sido o início do universo, a Criação, pois não há um único indício disso, além do que essa interpretação contradiz os princípios de conservação da física e a tese da indestrutibilidade do movimento da matéria. Contradiz, inclusive, as conquistas mais recentes da física, como veremos mais a frente.

O Big Bang é a origem DO ATUAL PERÍODO DO ETERNO MOVIMENTO DA MATÉRIA NA REGIÃO DO UNIVERSO ONDE NOS COUBE VIVER. Não é a toa que a Igreja adora que chamem o Bóson de Higgs de Partícula de Deus. Pois é a justificativa última de que o universo teve uma origem, que há uma origem para a matéria, ou seja, que o movimento da matéria não seria indestrutível como dizia Engels.

Há então somente duas possibilidades: ou, como dizia Engels, o movimento da matéria é indestrutível, e não houve Criação. Ou “a matéria pode se formar do nada” e então houve Criação. O debate, portanto, se reduz a discutir se a Criação precisou de um Criador ou não. E aí, infelizmente, está hoje concentrado o debate entre ateus e místicos, se a Teoria do Big Bang deixa ou não um lugarzinho para Deus, por menor que este seja.

Tampouco é a toa que o papa João Paulo II tenha dito que estava muito bem que os físicos estudassem o Big Bang, que a Igreja não tinha nada contra, mas que deveriam abster-se de estudar o que havia antes deste, pois esse é o território da Igreja. O positivismo capitula vergonhosamente a isso, dizendo que se não temos informações sobre como era antes do Big Bang, há que interpretar que o Big Bang é a origem do universo. Dizem inclusive que o Big Bang é a origem do tempo. E se se interpreta o Big Bang como sendo a origem do universo, então não há um antes, e só se pode explicar a origem do universo por meio de algo fora deste – Deus, e nada mais. Os positivistas são incapazes de conduzir consequentemente a polêmica contra a religião. Sua “filosofia” os impede de fazê-lo. Cabe a nós, marxistas, inverter este debate e afirmar bem alto que o movimento da matéria é indestrutível, e que, portanto não houve Criação e não há Criador! Afinal, temos toda a ciência moderna ao nosso lado nessa luta.


Onde o Bóson de Higgs se cruza com a Teoria do Big Bang: a Inflação Caótica

Para essa tarefa podemos, e devemos então, apoiar-nos nas conquistas mais recentes da física e das demais ciências. Se as libertamos da carga de interpretação positivista/metafísica, cada uma delas se converte num poderoso argumento a nosso favor. Assim, a título de conclusão, queremos remeter-nos outra vez à Teoria do Big Bang, e ao que esta diz de fato. Não é verdade de maneira alguma que essa afirme um “início” para o universo, como é comumente aceito. Ela diz, na verdade, o oposto.

A Teoria do Big Bang em sua versão clássica tinha uma série de problemas e contradições insolúveis. Por exemplo, não podia explicar porque o universo visível é uniforme em grande escala, entre outras, mais técnicas, que não vamos tratar aqui. Assim, surgiu uma variação da Teoria do Big Bang, chamada de Teoria Inflacionária do Big Bang. Ela afirma que no instante imediatamente posterior ao Big Bang houve um período de inflação (expansão) do universo muito acelerada, muito mais intensa do que na teoria “clássica” do Big Bang. Nesta “inflação”, justamente o nosso amigo Bóson de Higgs é o responsável por “criar” a massa de todo o universo, na verdade, multiplicá-la a partir de uma quantidade inicial muito pequena, já presente antes do Big Bang. Essa “versão atualizada” da teoria já prevê a existência de um “antes” do Big Bang, ou seja, que este não é o “início” do universo. O mecanismo da inflação é, aparentemente, só uma pequena alteração da teoria, mas respondeu a todas as contradições e insuficiências da versão anterior, tendo sido um grande passo à frente. Ao mesmo tempo, como é comum na ciência, criou outros problemas, como a previsão de que o universo seria granulado, coisa que não se vê.

Para resolver estas outras questões, foi dado mais um passo, com a Teoria da Inflação Caótica, que a princípio, conseguiu resolver todos os problemas, graças outra vez ao Bóson de Higgs (3). Mas as previsões que faz essa teoria são espetaculares e chocaram muitos cientistas. A Teoria da Inflação Caótica prevê taxativamente que o universo não teve uma origem; que o movimento da matéria é eterno e indestrutível, ou seja, reafirma todos os princípios de conservação da física e deixa claro que nem houve Criação nem haverá Juízo Final ! (4) Diz ainda que “nosso universo”, “surgido” no Big Bang, é só um entre infinitos “outros universos”, permanentemente “surgindo”. Não a partir do nada, mas a partir de “outros” universos já existentes, como bolhas surgindo dentro de bolhas (também chamados pelos físicos de “universos-bebês”), num movimento eterno e infinito .(5)

Assim como a Inflação Caótica não prevê nenhuma “origem” para o universo, tampouco prevê nenhum “fim” para este, evitando a assim chamada Morte Térmica do Universo, ou seja, que o universo aos poucos iria se esfriando, por ação da 2ª Lei da Termodinâmica, até que não fosse mais possível a existência de vida nem de nenhum processo físico, químico etc. Restaria um universo escuro, povoado por buracos negros (6) e radiação térmica de baixíssima temperatura. Ou seja, um universo morto, sem movimento, sem vida.

A hipótese da morte térmica do universo nega a tese da indestrutibilidade do movimento da matéria e condena a tudo e a todos a uma terrível morte gelada. A única salvação possível à destruição do universo, seria “fora do universo”, ou seja, em Deus. É a mais sofisticada versão do Juízo Final, e pretensamente “científica”. Engels já combatia esta hipótese em seu “Dialética da Natureza”, dizendo que a ciência viria a descobrir, no futuro, um mecanismo pelo qual o movimento da matéria (incluindo a vida) se reconstituiria e venceria a 2ª Lei da Termodinâmica. Hoje essa incrível afirmação de Engels começa a realizar-se.

Se no futuro longínquo nossa “bolha” do universo for permeada fundamentalmente por buracos negros e radiação térmica, isso não significará de maneira alguma, de acordo as previsões da Inflação Caótica, o fim do movimento da matéria. Muito pelo contrário, já que os buracos negros seriam exatamente (outra vez graças a Higgs) a fonte de novas “bolhas de universo” (novos big bangs) surgindo do nosso, de novos “universos”, transbordantes de movimento, de vida.

A nossa porção do universo poderia então até “morrer”, mas somente para dar origem a mais “vida”, na forma de outras “bolhas de universo”. Aliás, como acontece com a vida orgânica em nosso planeta, onde cada ser vivo inexoravelmente morre, mas somente para dar lugar a mais vida.

Cabe aos físicos de verdade comprovar ou negar a teoria da Inflação Caótica. Atualmente é a teoria mais aceita pela comunidade científica. É uma teoria que depende totalmente do Bóson de Higgs e da física derivada dele, que com a possível descoberta deste, recém começa a dar novos passos. É particularmente importante em nossa discussão, porque quando a livramos de toda a carga positivista e metafísica, ela demonstra como o próprio desenvolvimento da ciência, aos trancos e barrancos, por tentativa e erro (7), se aproxima cada vez mais daquilo que afirma a concepção dialética do mundo: de que o movimento da matéria é eterno e indestrutível, ou, nas palavras de Einstein, que “a única constância no universo é a permanente mudança”; e que, finalmente, não houve Criação e que, portanto, não há Criador; que não haverá Juízo Final, e que, portanto, é nossa tarefa, como revolucionários socialistas, construir o paraíso aqui na Terra, a sociedade comunista do futuro, e quiçá um dia, expandi-la por outros corpos celestes!


Notas
(1)Para ser exato, tudo isso se refere a massa inercial. Há outra massa, a massa gravitacional, que é aquela que se expressa no nosso peso, ou seja, a intensidade com que cada corpo é atraído pela força da gravidade, mas essa massa não vem ao caso aqui, pois não está relacionada a nossa discussão sobre o Bóson de Higgs.

(2)Apesar de a física já ter chegado muito perto, a 10-43s depois do Big Bang, ou seja, 0,00000000000000000000000000000000000000000001 segundos!!!

(3)O grande problema que sofria esta teoria era que dependia totalmente do Bóson de Higgs, partícula que não havia sido ainda detectada. A possível descoberta experimental agora deste bóson pode se tornar um fortíssimo argumento a favor desta teoria, e um grande impulso em seu desenvolvimento. Sem nenhuma dúvida, a detecção experimental do Bóson de Higgs, se se confirma, é um passo imenso para a ciência.

(4)Não por acaso, a Inflação Caótica tem suas origens na física soviética, onde os físicos estavam, mesmo com todas as limitações absurdas impostas pelo regime estalinista, em maior escala livres das concepções idealistas, tendo sido educados na tradição do materialismo dialético.

(5)Aqui ha claramente um problema de linguagem imprecisa, pois universo deveria significar a totalidade do que existe, portanto não poderia haver (como querem os idealistas) nada “fora” do universo. Por isso, falar em “nosso” universo, “criado” dentro de “outro universo”, sofre de contradições terminológicas. Os físicos tentam hoje improvisar com termos retirados de histórias em quadrinhos, como “infinitos universos dentro de um multiverso”. Para ser mais exato, haveria que falar em “nossa porção do universo, que veio de uma outra porção, num universo infinito no tempo e no espaço, como bolhas surgindo de bolhas, em eterno movimento”.

(6)Expressão mais extrema conhecida da matéria. São o resultado do colapso gravitacional de estrelas de grande massa, comprimindo-se, em tese, até virtualmente um ponto. Seriam, segundo muitos, o fim do movimento da matéria, já que nada poderia sair do buraco negro, sequer a luz, daí o seu nome. Na verdade, já foi provado que os buracos negros emitem radiação térmica, portanto não são o fim do movimento. Em teorias mais modernas, os buracos negros aparecem ainda como possíveis sementes para “outros universos”, para novos big bangs (o que de quebra solucionaria a atualmente misteriosa semelhança entre o Big Bang e os buracos negros, relativa a seus caráteres puntuais, conhecidos por singularidade).

(7)Não fosse o isolamento que se deu depois da 2ª Guerra Mundial, por total responsabilidade do estalinismo, entre a concepção materialista dialética do mundo e a comunidade científica, esse desenvolvimento seria menos aleatório, mais consciente, mais rápido, rico e eficiente. A miséria filosófica de que sofre a ciência moderna se converte a cada dia em uma trava cada vez maior ao desenvolvimento científico.

--***--


Um adendo sobre o vazio e a matéria

Outra discussão muito comum tem a ver com a afirmação, tantas vezes repetida por tanta gente, de que “a maior parte da matéria que vemos, das coisas e pessoas que tocamos e sentimos é composta de... vazio”. Soa antimaterialista, como que querendo dissolver a matéria no vazio, na “imaterialidade”, bem ao gosto dos idealistas de plantão. A física quântica diz o oposto, que o vazio é impossível, que não existe vazio. Por mais que alguém se esforce para produzir vazio, começarão a aparecer pares de partícula-antipartícula para preenchê-lo, efeito dos diversos campos de força existentes por todo lado (e que também são matéria!). Mais uma vez, a física moderna confirma outro postulado da dialética materialista de que o espaço é uma forma de existência da matéria (“O problema do tempo e sua interpretação filosófica”, I. F. Askin), e que, portanto, não poderia existir sem essa.

Se não pode existir espaço sem matéria, não pode existir o vazio. O que sim poderia ser dito é que A MASSA, como UMA das características da matéria, se CONCENTRA nos volumes muito pequenos de algumas partículas elementares. Bom, o mesmo se passa com a carga elétrica, outra característica da matéria, que se concentra também em algumas partículas, como os prótons e elétrons. Isso não tem nada a ver com “vazio”. O universo não é “vazio”, é cheio de matéria em movimento, em toda a sua infinita extensão, tanto espacial como temporal.


Retirado do Site do PSTU

terça-feira, 10 de julho de 2012

O Bóson de Higgs e o socialismo

Acelerador de partículas construído entre a Suíça e a França
O “bóson de Higgs”, partícula fundamental que fornece massa a todas as outras partículas, e que, portanto, é responsável por formar simplesmente toda a matéria do universo, está prestes a ser encontrado. No dia 4 de julho, experimentos realizados no Centro Europeu de Física Nuclear (CERN) mostraram fortes indícios da existência do bóson. Embora muitos cálculos e novos experimentos ainda precisem ser feitos, é inegável que nos aproximamos cada vez mais da última fronteira que nos permitirá entender a origem da matéria, e com ela, a origem do próprio universo. Mas as lições desse feito não se reduzem ao mundo da ciência e aos cadernos de domingo dos jornais burgueses. Todo operário consciente deve conhecer essa discussão e saber tirar as conclusões necessárias.


O incrível mundo subatômico

Como todos aprendemos na escola, a matéria que nos rodeia é composta por átomos. Mas os próprios átomos, que antes se acreditavam unos e indivisíveis, são apenas uma combinação específica de outras partículas ainda menores: os prótons, neutrons e elétrons. Os prótons e neutros se agrupam no núcleo do átomo em um número específico, dando origem a um determinado elemento químico: hidrogênio, oxigênio, carbono etc. Os elétrons, por sua vez, orbitam esse núcleo.

Frequentemente, para representar um átomo, desenhamos um pequena esfera com os elétrons girando ao seu redor. Isso é assim apenas em parte. A ideia central está correta, mas se fôssemos levar em consideração a escala das coisas, o desenho seria muito diferente. Se o núcleo do átomo fosse do tamanho de um limão, por exemplo, os elétrons estariam girando a cerca de 3 quilômetros de distância desse “limão” (núcleo). Quer dizer, o espaço entre a órbita dos elétrons e o núcleo atômico é imensamente “grande” (em termos sub-atômicos, obviamente). Daí tiramos uma primeira conclusão no mínimo impressionante: a maior parte da matéria que vemos, das coisas e pessoas que tocamos e sentimos é composta de... vazio.

Assim, ao estudar o mundo subatômico, os cientistas começaram a descobrir coisas fantásticas. Mas o mais importante: começaram a perceber que as leis tradicionais da física, a chamada “física newtoniana” (em referência a Isaac Newton, formulador das leis da mecânica clássica) simplesmente não se aplicavam ao mundo subatômico. Por exemplo, na física clássica, qualquer objeto, para dar uma volta completa em torno de si mesmo, tem que girar 360 graus. Assim ocorre, por exemplo, com a Terra ou com um casal que dança forró. Já no mundo subatômico, existe toda uma classe de partículas que, para dar uma volta completa em torno de seu próprio eixo, tem que girar... 540 graus, ou seja, uma volta e meia. Isso parece muito estranho, mas é assim.
Esses estranhos fenômenos observados pelos cientistas deram origem a uma nova mecânica, a mecânica do mundo subatômico, completamente diferente da mecânica clássica de nosso mundo visível: a chamada mecânica quântica.


O “modelo padrão”

Estudar o mundo subatômico é algo muito complicado. Não se pode abrir um átomo e ver o que tem lá dentro. O que se sabe sobre sua estrutura interna provém fundamentalmente de experimentos que “refletem” essa estrutura e, obviamente, de muitos cálculos matemáticos. Assim, ao longo do tempo, foi se estabelecendo um determinado “modelo” de como seria essa estrutura interna, seus componentes, seu comportamento etc. Isso não significa que os cientistas façam “especulações” sobre o mundo subatômico. Muita coisa foi demonstrada com precisão através de experimentos absolutamente incontestáveis, verificados exaustivamente por todo o mundo científico. Já outra parte do “modelo” não foi ainda demonstrada. Mas mesmo o que não foi ainda demonstrado ou descoberto foi previsto matematicamente. Ou seja, os cientistas não detectaram ainda algumas partículas subatômicas, mas eles sabem que elas devem estar lá, só podem estar lá, porque todo o modelo só faz sentido se elas existirem e estiverem lá.

O “modelo padrão” é, portanto, um enorme (ou minúsculo) quebra-cabeça que vem sendo montado ao longo de várias décadas através dos esforços conjuntos de diferentes gerações de cientistas de diversos países.
A última peça desse quebra-cabeça é o “bóson de Higgs”, cujos indícios foram encontrados no último dia 4 em Genebra, na Suiça.


O “bóson de Higgs” e o LHC

A peça faltante no quebra-cabeça do modelo padrão diz respeito ao seguinte: como se formam as partículas subatômicas? Como elas adquirem massa, ou seja, como se tornam matéria?

Em 1964 o físico britânico Peter Higgs propôs a hipótese de que existiria uma partícula específica no mundo subatômico, cuja função seria justamentre fornecer massa a todas as outras partículas. Essa partícula, pelo cálculos de Higgs, teria surgido logo após o Big Bang, há cerca de 15 bilhões de anos atrás, dando origem aos primeiros átomos e à matéria tal qual nós a conhecemos.

No entanto, a hipótese de Higgs permaneceu apenas um modelo matemático porque não havia condições técnicas de por à prova sua teoria.

Somente em 2008, com a inauguração do LHC (Large Hadron Colider, ou “Grande Colisor de Hádrons”), um imenso acelerador de partículas de 27 quilômetros de circunferência enterrado na fronteira entre a Suiça e a França, foi possível dar início aos experimentos que deveriam demonstrar a existência do bóson de Higgs.

O que faz um acelerador de partículas? Basicamente, consiste em dois tubos circulares dentro dos quais se injetam duas “nuvens” de prótons eletricamente carregados. Essas “nuvens” vão sendo aceleradas em direções contrárias por meio de um sistema de imãs colocados ao longo dos tubos. Quando as duas nuvens atingem 99,99% da velocidade da luz, os dois tubos são “conectados” um ao outro (como nos desvios de trens), fazendo com que as duas “nuvens”, que giravam em direções opostas, se choquem violentamente. A colisão é tão poderosa, que a energia liberada pode ser comparada (proporcionalmente, é claro) ao próprio Big Bang. Os prótons literalmente “se quebram”, dando origem a partículas menores, ou seja, demonstrando de que são feitos. Quanto maior o choque, menor a partícula gerada e mais a fundo a estrutura subatômica é revelada.
Foi basicamente esse experimento que detectou fortes indícios do bóson de Higgs no último dia 4 em Genebra. Se não o capturamos ainda, pelos menos estamos nas suas pegadas...


O que muda com o bóson de Higgs?

Uma coisa muito importante: a percepção do homem sobre o universo e a matéria. Se o bóson de Higgs for encontrado, ficará definitivamente provado que a matéria pode sim surgir do nada.

Isso abalaria profundamente os alicerces das distintas religiões, pois várias delas, depois que aceitaram muito a contragosto a ideia do Big Bang, seguem batendo na tecla de que a matéria do universo não poderia ter surgido “do nada”. O bóson de Higgs comprovaria justamente que a matéria não só surgiu do nada, como ainda hoje surge constantemente do nada e se transforma constantemente em nada. Aceitar essa ideia é difícil para qualquer pessoa normal exatamente porque se trata de um fenômeno quântico, ou seja, regido por outras leis que não as da física clássica. Parece ilógico, absurdo, irracional, mas de acordo com as leis da física quântica, é um fenômenos tão banal, quanto a queda de uma maçã ou a frenagem de um carro.


“Partícula de Deus”?

O bóson de Higgs é frequentemente chamado na imprensa de “partícula de Deus”. A conotação ideológica do apelido é evidente: tentar atribuir a Deus a existência da partícula, mantendo assim uma visão mística do universo.

No entanto, há dois problemas com esse apelido: o primeiro é que ele não passa de um mal entendido. Em 1993, o prêmio Nobel de física Leon Lederman escreveu um livro sobre o bóson de Higgs, cujo título em inglês era “The goddamn particle” (literalmente, “a partícula maldita”), em referência às dificuldades que se enfrentavam para encontrá-la. Mas a editora de Lederman achou o título muito agressivo e mudou para “The God particle” (A partícula de Deus), para não afastar o público religioso. O infeliz apelido acabou pegando e a pobre partícula é chamada assim até hoje.

O segundo problema é que o bóson de Higgs justamente afasta ainda mais a ideia de um deus-criador do universo. Da mesma maneira que Darwin demonstrou que o homem não necessitou ser criado, pois havia evoluído de especies anteriores, assim também o bóson de Higgs demonstrará simplesmente que a matéria do universo (ou seja, tudo!) não precisou de um deus para ser formada. Formou-se e organizou-se por si mesma.

Sobre isso, é bom que se esclareça: nenhuma descoberta científica jamais provará a inexistência de deus, como desafiam os religiosos. Isso é assim por uma questão lógica. Só se pode provar que algo “existe”. Não se pode provar que algo “não existe”. Justamente por isso, o ônus da prova recai sempre sobre aquele que quer demonstrar a existência de algo. Mas cada descoberta científica prova, isso sim, que deus não é necessário. Com o tempo e com o avanço da ciência, assim esperamos, a hipótese de um ser-criador do céu e da terra ficará cada vez mais insustentável e as pessoas abandonarão essa ideia de maneira mais ou menos natural.


As conclusões políticas

A discussão sobre o bóson de Higgs nos remete também a outras, mais políticas. Em primeiro lugar, ficou definitivamente comprovada a importância decisiva do financiamento estatal às pesquisas científicas. O LHC custou cerca de 3 bilhões de euros. Quando começaram as discussões sobre sua construção, muitos políticos e meios de comunicação criticaram o projeto como sendo um “brinquedinho” para cientistas vaidosos brincarem de deus. Obviamente, nenhuma empresa privada queria investir tanto dinheiro em algo que não se tinha nenhuma certeza que iria dar certo. Chegou-se a especular que os experimentos com as nuvens de prótons gerariam um buraco-negro que engoliria todo o planeta etc. Tamanho o obscurantismo de certos meios reacionários...

Pois o LHC não só foi construído com dinheiro estatal em um consórcio entre diversos países, como funciona de maneira extremamente democrática: os dados obtidos em todos os experimentos são compartilhados livremente com milhares de cientistas no mundo inteiro. Ficou provado também, portanto, que as atuais leis que regem a propriedade intelectual na maioria dos países protegem apenas as grandes corporações, sendo absolutamente nefastas para desenvolvimento da ciência. É preciso garantir o livro compartilhamento de toda e qualquer informação, seja ela científica, cultural, política ou de qualquer outra natureza. As novas leis que estão sendo votadas em vários países e que regulam o uso da internet e criminalizam compartilhamento de informação, sob a justificativa da “proteção” dos autores, vai na contra-mão da história.


O espírito da ciência e o socialismo

O que buscam os cientistas do CERN quando enviam os dados de seus experimentos para colegas do mundo inteiro? A resposta é simples: buscam críticas ao seu trabalho. Querem que outros cientistas encontrem os erros que eles não encontraram. Tal é o espírito da verdadeira ciência: a verdadeira ciência é movida por grandes paixões e hipótese visionárias, mas é rigidamente controlada pelo pensamento cético. A ciência não busca respostas fáceis e fábulas reconfortantes. A ciência busca a verdade. Só a verdade lhe interessa, por dura, incômoda ou vulgar que seja.

O socialismo, ao libertar a sociedade das amarras da propriedade privada, dará à ciência um impulso nunca visto. A ciência verdadeira, sinônimo de liberdade e humildade, será ensinada nas escolas, na internet, nos programas de TV (ou outras tecnologias que venham a ser criadas) e substituirá as atividades fúteis, emburrecedoras e alienantes que preenchem hoje a infância de nossas crianças. As mais fantásticas obras da ficção científica serão realidade em nosso cotidiano. A simples curiosidade, característica dos mamíferos superiores (e não devemos esquecer nunca que o homem é apenas um mamífero superior) trouxe o homem até aqui. No futuro, conduzirá a humanidade muito além, até fronteiras jamais sonhadas.


Retirado do Site do PSTU

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Bóson de Higgs e o desenvolvimento da ciência sob o capitalismo

No último dia 14, pesquisadores do Grande Colisor de Partículas (LHC, na sigla, em inglês), o maior acelerador de partículas do mundo, anunciaram ter visto, em dois experimentos, sinais compatíveis com o famoso bóson de Higgs, a famosa partícula que explica por que todas as outras têm massa. No entanto, novas experiências serão necessárias para confirmar a detecção.

Desde a construção do LHC, desenvolvida pelo Centro Europeu de Física Nuclear Cern), havia certa expectativa de encontrar traços da famosa partícula fossem detectadas. Por muito tempo se acreditou que os átomos fossem a unidade da matéria que não poderia ser dividida. No entanto, descobriu-se que o próprio átomo era formado por partículas ainda mais fundamentais. Dessas partículas fundamentais, apenas o Bóson de Higgs não foi identificado em experiências, ou seja, permanecia apenas sendo um “modelo teórico”.

O problema é que essa partícula é a que valida a teoria do Modelo Padrão, na medida em que ela seria a responsável pela aquisição de massa de outras partículas elementares. Trocando em miúdos: o atual modelo explica a “materialidade” do nosso mundo. Caso surjam evidências experimentais da existência do bóson de Higgs, a teoria atual se confirmará. Do contrário, teríamos que mudar todo o modelo construído por décadas e que, até o presente momento, pode “explicar” a matéria “visível”. O que seria absolutamente coerente com a própria história do conhecimento científico. Se uma hipótese teórica não passa a prova dos experimentos há dois caminhos a seguir: a substituição do modelo teórico ou o seu refinamento. Na ciência, resultados negativos e crises de modelos teóricos levam ao conhecimento mais amplo do funcionamento da natureza.

Mas, além do Higgs, o propósito destas colisões é conhecer as propriedades de outras partículas elementares da matéria, partículas que compõem os prótons, por exemplo, e obter pistas de estados da matéria que, segundo o Modelo Padrão, teriam existido nas fases iniciais do universo.


O capitalismo e o futuro da ciência

Há várias questões que os experimentos no LHC poderão ou não responder. Muitas dúvidas também surgirão. As primeiras respostas (e novas perguntas) vão demorar ao menos uma década, pela quantidade colossal de dados e informações produzidas pela máquina.

Mas não há dúvidas de que os resultados irão determinar o futuro das inovações e vai afetar, sobretudo, todas as gerações de nosso século, do ponto de vista científico, tecnológico, econômico, social e, principalmente, político.

O avanço nas pesquisas mostra o esforço da humanidade para tentar compreender a complexidade da natureza. Mas, o que esperar desses imensos avanços que se dão sob uma sociedade dividida em classes sociais, sob o domínio capitalista? Como serão usadas as tecnologias desenvolvidas? Será que países imperialistas, como os EUA, gastam bilhões neste tipo de pesquisa movidos apenas por “curiosidade cientifica”? Certamente que não. O que motiva as grandes potências a financiarem essas pesquisas científicas são seus interesses políticos-militares e econômicos. Existe uma preocupação de que as descobertas a partir do colisor de partículas, o LHC, sejam usadas com objetivos militares. Suas descobertas também poderão ser usadas para desenvolver novas tecnologias votadas para ampliação da exploração dos trabalhadores. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a revolução tecnológica propiciada pelo advento da informática. Ou ainda, com a teoria da relatividade geral de Albert Einstein, um pacifista, que serviu mais tarde como base para desenvolver as bombas atômicas que arrasaram as cidades de Hiroshima e Nagasaki, ao final da Segunda Guerra.

Sob o capitalismo, a ciência sempre esteve voltada para desenvolver as forças destrutivas da humanidade ou pela expectativa de lucros, a serviço da exploração. Um exemplo pode ser encontrado dentro das fábricas.

As inovações tecnológicas dos últimos anos (microeletrônica, robotização, computação) não resultaram em melhoria das condições de vida da classe trabalhadora ou na diminuição do tempo de trabalho. Toda a conversa de mais tempo livre não se concretizou. Ao contrário, temos mais lucros aos capitalistas, enquanto os trabalhadores continuam trabalhando mais, inclusive no tempo livre. Sob o capitalismo, mais avanço tecnológico representou mais desemprego e aumento do ritmo de trabalho.

O capitalismo impulsiona o progresso cientifico apenas para garantir o privilégio de punhado de burgueses. Mas o sistema também é o maior freio que existe ao desenvolvimento cientifico na atualidade.


Livre das amarras

Isso tudo significa que não devemos nos empolgar com as novas descobertas promovida pela ciência? Claro que não. O que conhecimento científico deve ser encarado como um patrimônio da civilização humana. Algo que transcende a dimensão da vida cotidiana ordinária. No entanto, para seu pleno desenvolvimento (assim com como de outras esferas da cultura humana) é preciso libertar a ciência das amarras da sociedade produtora de mercadorias. É preciso uma sociedade sem classes e sem opressão, portanto, socialista, para livrar a ciência desta camisa de força. Assim, os avanços científicos não seriam resultado do desenvolvimento das forças destrutivas, mas voltados ao bem-estar da humanidade.


Retirado do Site do PSTU