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quarta-feira, 10 de abril de 2013

Thatcher não deixará saudade

Ex-primeira-ministra morta no último dia 8 foi combatida por feministas e trabalhadores, mostrando que não basta ser mulher




A ex-primeira-ministra Margareth Thatcher
Morreu nesta segunda-feira, 8, a ex-primeira ministra britânica Margareth Thatcher. A “Dama de Ferro”, como era conhecida, teve um derrame aos 87 anos. Thatcher ficou conhecida por ser a primeira mulher – e única até o momento – a ser eleita primeira-ministra do Reino Unido, e governou durante 21 anos (1979-1990).

Porém os trabalhadores, certamente, lembram-se dela por outros motivos. A Dama de Ferro deu início, ainda nos anos 1970, à implementação do neoliberalismo no Reino Unido, que flexibilizou as leis trabalhistas, atacando diretamente os direitos da classe. O direito de greve sofreu um duro golpe com uma legislação reacionária que vigora até os dias de hoje. Em 1985, uma forte greve de mineiros foi esmagada com uma dura repressão.

As privatizações e a lei do “Estado mínimo” foram outro aspecto marcante dessa trágica política. As medidas provocaram um aumento de três vezes do desemprego, atingindo cerca de 3 bilhões de pessoas, e, consequentemente, a piora das condições de vida dos trabalhadores. A taxa de pobreza no país duplicou, e a desigualdade social, fruto de uma reestruturação financeira extremamente injusta, cresceu em um terço.

A entrega do Estado começou pelo setor siderúrgico, chegando aos setores de telecomunicações, petróleo, gás, portos e à indústria de aviação e automobilística. O neoliberalismo tornou-se a política hegemônica dos anos 1980 e 90. O thatcherismo influenciou os governos da América Latina, começando por Augusto Pinochet, então ditador do Chile. No Brasil, Thatcher foi seguida por Fernando Henrique Cardoso, responsável pela entrega de estatais estratégicas ao setor privado e pelas conseqüentes demissões em massa.



Em 1982, Thatcher liderou a invasão britânica às ilhas Malvinas. Em meados dos anos 1980, a rejeição a Thatcher se ampliou e ganhou forma de protestos. Pelas ruas da Inglaterra, ouvia-se o grito “Magie, fora!”. A gota d’água foi a implementação de um imposto regressivo, em que os mais pobres pagam um imposto proporcionalmente maior do que os mais ricos. O chamado “Poll Tax” ainda obrigava todos os maiores de 18 anos a pagarem pelos serviços públicos.

Esse imposto tinha um único objetivo: manter os ataques ao Oriente Médio, concentrados na guerra do Golfo (1990). No Reino Unido, árabes foram perseguidos e presos por supostamente ameaçar a segurança nacional. Muitos foram levados a campos de concentração no sul da Inglaterra. Embora uma campanha feroz dos meios de comunicação, alinhados com o governo, tenha ganhado o apoio da maioria da população à guerra, as manifestações antibélicas não deixaram de acontecer, provocando censura inclusive de músicas de John Lennon.

Em 1990, já bastante desgastada, Thatcher é limada do poder pelo Partido Conservador com medo de perder as eleições seguintes. A onda de mobilizações contra a imposição do “Poll Tax” derrubou a Dama de Ferro.

Outra lição que Thatcher nos deixa é que não basta ser mulher. Sua trajetória é a prova de que o mundo se divide em classes. Contra todas as teorias que dividem o mundo pelo gênero, a Dama de Ferro travou uma guerra social contra mulheres e homens trabalhadores. Um exemplo bonito desse entrave aconteceu na greve de mineiros de 1984. As mulheres dos trabalhadores aguardaram Thatcher na entrada de um evento do Partido Conservador e lhe tacaram ovos e tomates. Este foi um episódio que marcou a importância da união entre homens e mulheres trabalhadores para lutar contra a classe dominante.

A Dama de Ferro se foi. Curiosamente, seu funeral será estatal. Para a classe trabalhadora britânica e mundial, não há o que chorar. O papel que ela cumpriu na história deverá ser lembrado como uma das piores faces do capital contra a classe trabalhadora.


Retirado do Site do PSTU

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A renúncia do Papa tem um significado político

A renúncia do Papa é apresentada como uma decisão pessoal, devido à idade. Evidentemente, é preciso buscar as razões de fundo para um gesto inédito nos anais recentes da Igreja e que enfraquece ainda mais a sua credibilidade.

Os pontificados ficam historicamente identificados com alguns dos fatos ou decisões mais importantes que marcaram esses períodos. O Papa Pio XII, contemporâneo do nazismo e aliado de Hitler na sua ascensão ao poder, ficou indelevelmente marcado por essa aliança. Mais no passado, o que resta na memória popular de Papas como Rodrigo Borgia, ou Alexandre VI, senão a reputação cruel e devasso, que nomeou o próprio filho Cesare Borgia, além de muitos outros parentes, como cardeais? De Júlio III, a nomeação como cardeal-sobrinho do amante de 17 anos, Innocenzo.

De Joseph Ratzinger, o Bento XVI, o elemento mais marcante de seu pontificado, antes da renúncia, parecia que iria ser a denúncia pública da pedofilia no clero. Poderá essa renúncia tirar o foco desse problema e sua sucessão lançar uma cortina de fumaça que oculte a série de escândalos?

Trago nestes breves comentários, de alguém que não é um vaticanólogo, apenas algumas evidências disponíveis para qualquer leitor de jornais de que essa renúncia não é um raio em céu claro. Que evidências são essas?

As de que o Vaticano viveu no pontificado de Bento XVI uma crise já antiga de perda de influência social e política, agravada pela perda da credibilidade moral com os escândalos de pedofilia. Mas ao se tratar dessa instituição, não se deve esquecer que ela é, do ponto de vista financeiro, uma das maiores multinacionais do planeta, com investimentos em bancos, corporações, reservas de ouro, etc. (MANHATTAN, 1983 mostrou a dimensão dessa fortuna).

No ano passado, a Igreja Católica viveu outra crise com as revelações de corrupção e negociatas feitas a partir dos documentos vazados pelo mordomo do Papa, no que ficou conhecido como Vatileaks. Dessa vez, a culpa não era do mordomo, que foi preso, processado, condenado e depois perdoado.

O Banco do Vaticano (o “banco mais secreto do mundo” como diz a revista Forbes (JORISH, 2012) é o IOR (Instituto das Obras da Religião), fundado em 1942. Nesse período o Vaticano vinha de uma colaboração com o regime nazista, por parte de Pio XII, mas, ainda antes disso, de uma colaboração mais estreita com Mussolini, que concedeu ao Vaticano em 1929 a assinatura do Tratado de Latrão com o estado italiano.

Esse tratado, também conhecido como Concordata foi o que permitiu o reconhecimento do Vaticano como um Estado dentro de outro Estado, incluindo a gestão das próprias finanças e a manutenção da influência política sobre a Itália que ficava com o catolicismo como religião oficial, o ensino confessional nas escolas públicas e outras vantagens ao clero. Só em 1978, houve uma alteração que tornou a Itália uma República laica e o divórcio foi aprovado.

Rompendo o isolamento em que o Vaticano havia ficado desde a vitória da república italiana em 1870, Mussolini concedeu também vultosas indenizações à Igreja. Parte desse dinheiro foi aplicado em Londres em aquisições imobiliárias que hoje alcançam o valor de cerca de meio bilhão de libras esterlinas, embora o valor real permaneça secreto, apesar das denúncias recentes do jornal Guardian (LEIGH; TANDA; BENHAMOU, 2013).

Os interesses econômicos do Vaticano também estão sendo afetados pela crise global, o que levou inclusive que em 2012 ocorresse o maior déficit fiscal em muitos anos no Vaticano, de cerca de 19 milhões de dólares (VATICAN, 2013). Nessa crise também incide o custo financeiro com os processos por pedofilia.

Os escândalos de pedofilia, além do custo moral, têm um preço econômico com os processos e indenizações, que só nos EUA, chegaram a três bilhões de dólares em mais de três mil processos abertos, com 3.700 clérigos denunciados, 525 presos, a maioria dos quais condenados e cumprindo penas.
Desde os anos de 1950 até hoje cerca de seis mil sacerdotes já foram denunciados nos Estados Unidos por abusos sexuais contra crianças, o que equivale a 5,6% do total do clero estadunidense (SCHAFFER, 2012). Figuras de proa da Igreja, como o líder dos Legionários de Cristo, no México, Marcial Maciel forma denunciados por pedofilia e outros abusos.

Bento XVI protegeu setores diretamente nazistas do clero, como o bispo Richard Williamson, negacionista do Holocausto que havia sido excomungado por João Paulo II, e cuja excomunhão foi revogada por Bento XVI em 2009. Apesar disso e de ter atendido aos interesses de setores ultraconservadores da Opus Dei e do Caminho Neocatecumenal, cerrando fileiras com partidos como o PP na Espanha para impor os planos de austeridade e flertando com a extrema-direita europeia, Bento XVI teria desagradado a esses setores ao tentar reconhecer parte dos escândalos de pedofilia para buscar limpar a reputação da Igreja. Isso levou um colunista de El País a avaliar que a renúncia foi resultado da pressão desses setores ultraintegristas (MORA, 2013).

Seja por causa das acusações de corrupção ou de pedofilia, a renúncia acrescenta uma nota ainda mais decadente a um Papa que dedicou seu pontificado a um apostolado de intolerância e repressão contra homossexuais, mulheres, muçulmanos e movimentos sociais. Num momento de crescimento da extrema direita católica na sua faceta mais fascista, como o caso do terrorista católico norueguês Breivik, o Papado de Ratzinger foi um ponto de apoio para a homofobia, o racismo, o sexismo, a intolerância e a perda de direitos sociais dos trabalhadores.

É provável que se jogue com a carta de Il Gattopardo, de Lampedusa, “mudar para tudo continuar igual”, mas para isso, os recursos da inteligência publicitária da Igreja podem contar com novidades, como o primeiro Papa não europeu da história, o que não deixará de manifestar mais uma vez um dos sintomas maiores da crise global do catolicismo, sua condição essencialmente branca e ocidental. Um Papa negro ou latino-americano não conseguirá alterar esse fato: a Ásia e a África permanecem imunes à religião imperial que o sistema de estados europeu trouxe em sua colonização global.

A participação do Vaticano nos interesses globais do capitalismo também não deve deixar a Igreja imune à onda de revolta anticapitalista que cresce especialmente nas duas margens do Mediterrâneo.

A recente aprovação pela Câmara Baixa do Parlamento francês da união matrimonial homossexual é só mais um sintoma de que os interesses patriarcais, misóginos e machistas do clero também estão perdendo lugar na definição da ordem legal e do quadro dos direitos civis do século XXI.

A última monarquia absolutista europeia, o Vaticano, sofre no gesto de renúncia daquele que foi consagrado como o “vigário de Cristo”, ou seja, o seu substituto, uma derrota simbólica profunda, pois demonstra falta de coragem e obstinação em carregar uma cruz até o final. A convivência de um novo Papa com o ex-Papa também esvazia a mística monárquica individual desse vicariato místico, dividindo em dois o corpo do substituto de Cristo na Terra.


Referências bibliográficas:

JORISCH, Avi. The Vatican Bank: The Most Secret Bank In the World. Forbes, 26 jun. 2012. Disponível em: http://www.forbes.com/sites/realspin/2012/06/26/the-vatican-bank-the-most-secret-bank-in-the-world/

LEIGH, David; TANDA, Jean François; BENHAMOU, Jessica. How the Vatican built a secret property empire using Mussolini’s millions. The Guardian, Monday 21 January 2013. Disponível em: http://www.guardian.co.uk/world/2013/jan/21/vatican-secret-property-empire-mussolini?INTCMP=SRCH

MANHATTAN, Avro. The Vatican Billions. Chino, CA: Chick Publications, 1983.

MORA, Miguel. Los movimientos ultracatólicos ganan la partida. El País, 1º Feb. 2013. Disponível em: http://internacional.elpais.com/internacional/2013/02/11/actualidad/1360588257_314838.html

SCHAFFER, Michael D.. Sex-abuse crisis is a watershed in the Roman Catholic Church’s history in America. Phylly.com, 25 Jun. 2012. Disponível em: http://articles.philly.com/2012-06-25/news/32394491_1_canon-lawyer-catholic-priests-catholic-bishops

VATICAN posts record-high budget deficit: $19M. CBSNews, 5 Jul. 2012. Disponível em: http://www.cbsnews.com/8301-202_162-57466929/vatican-posts-record-high-budget-deficit-$19m/


Retirado do Blog Convergência

terça-feira, 13 de março de 2012

Príncipe Harry não é bem-vindo no Brasil

Harry, príncipe da sanguinária monarquia inglesa, terceiro na linha de sucessão ao trono, atrás apenas do pai, Charles, e do irmão mais velho, William; o ‘Capitão País de Gales’ – como é chamado nas forças armadas inglesas – chegou ao Brasil na manhã da sexta-feira, 9 de março.

Trata-se de um autêntico representante do Imperialismo britânico, e com consciência do papel que cumpre. Tanto é assim que não se contentou apenas com a presença das tropas britânicas, ao lado das norte- americanas, invadindo o Afeganistão. Optou por ir pessoalmente, não como mero observador, mas como militar altamente treinado para participar das ações contra o povo afegão.

Assim, seu gosto por armas não se prende apenas à prática de paintball. Ano passado dedicou-se a terminar, nos Estados Unidos, sua formação como piloto dos terríveis helicópteros de assalto construídos pela Boeing, os helicópteros Apache. Na própria definição dos especialistas, esta máquina de guerra e destruição é basicamente um tanque voador. Foi projetado para causar o máximo de estragos e para resistir a ataques pesados, dando assim a possibilidade – a quem o pilota – de matar amplamente correndo o menor risco de vida que a tecnologia de destruição permita.

Este ‘cavalheiro’ inglês é apresentado pela imprensa dos ricos como bom moço. Vejamos quem é o rapaz bem-humorado. Não há país visitado por ele onde não apareça sua postura machista e racista. Agora no Rio combinou as duas coisas afirmando: “meu pai me falou que dançou com uma linda moça chamada Pinah, parece que isso ficou na sua mente por alguma razão”. Correram mundo os vídeos produzidos por ele mesmo usando termos racistas contra os muçulmanos. Fala sério ‘senhor’ Harry!


Harry não é bem-vindo

Não esquecemos a história de sangue e destruição que significa o império sobre o qual o sol nunca se põe, o Império Britânico. Estamos com o povo afegão contra as tropas invasoras. Estamos com o povo argentino afirmando: as Malvinas são argentinas.

Repudiamos a postura subserviente dos governantes de nossas cidades, de nosso estado e de nosso país. Não há meio termo, ou estamos com o povo oprimido do Afeganistão ou estamos com a família real britânica. Ou estamos com o povo argentino na defesa de sua soberania ou estamos com o Imperialismo inglês. De nossa parte afirmamos de forma categórica: Fora Imperialistas do Afeganistão. As Malvinas são argentinas! Fora Harry!


Retirado do Site do PSTU

sábado, 14 de maio de 2011

Casamento real: show midiático e “contos de fadas” para aliviar a monarquia

Casamento tenta recriar conto de fadas
No dia 29 de abril, o casamento do príncipe herdeiro do trono britânico, William, e a suposta plebéia Kate Middleton, levou quase um milhão de pessoas às ruas de Londres, literalmente paralisou a Inglaterra e deixou cerca de dois bilhões de pessoas com os olhos grudados nas telas de TV.

Para se ter uma idéia do impacto e da repercussão da festa vale citar um levantamento feito pela Webtrends, que acompanha a movimentação no Twitter: nos 30 dias que antecederam o casório foram escritos 911 mil “tweets”, ou seja, mais de 30 mil por dia, um número muitíssimo superior ao registrado em eventos como o terremoto no Japão e a queda de Mubarak, no Egito. Já o site da ABCNews, que acompanha o Twitter em tempo real, divulgou que, durante a cerimônia, foram feitos nada menos do que 13 mil tweets por minuto.

O interessante é que toda esta tecnologia e “modernidade” fizeram parte de um espetáculo midiático montado para celebrar o que há de mais tradicional, antigo e conservador na sociedade britânica: sua anacrônica e opressora monarquia e seus valores aristocráticos. Uma mistura aparentemente contraditória, mas que se demonstrou ideal para um momento em que a “coroa britânica” é abrigada a enfrentar uma onda de manifestações que, há um mês, por exemplo, reuniu quase meio milhão de pessoas em protestos contra a política anti-social e os cortes orçamentários que vêm sido promovidos pelo Estado.

Tratado, literalmente, como “assunto de Estado” e concebido como um espetáculo destinado a dar ares modernos e simpáticos à monarquia e, ao mesmo tempo, reafirmar seus valores e poder, o casamento do jovem e belo príncipe com uma mulher tida como “plebéia” ganhou ares de um daqueles “conto de fadas” produzidos pela Disney. Uma fantasia enorme e descaradamente incentivada pela mídia mundial.

E já que estamos tratando quase de algo que se assemelhou tanto a uma megaprodução teatral ou cinematográfica, talvez a melhor forma para comentar o evento seja exatamente tratando-o como tal, como um espetáculo para o qual não faltaram enredo, personagens, figurino, roteiro e platéia.


Enredo: um conto de fadas moderno

Quem quer que seja que tenha pensado no “roteiro” do casamento real, certamente tinha como idéia criar uma história cujo tom mesclasse um grande evento para a mídia e um conto de fadas moderno; tudo isto embalado numa “história simples”, capaz de dar um toque de “frescor” à (já há muito) mofada monarquia britânica.

Construir o roteiro não deve ter sido difícil, até mesmo porque os personagens centrais eram ideais para os papéis: um “príncipe encantado” e uma “cinderela moderna”. Para compor o show, bastou rechear a cerimônia de celebridades, contar com a vastíssima cobertura da mídia mundial, decretar feriado nacional e rechear a cerimônia de símbolos.

Evidentemente, como em toda megaprodução, os custos não foram baixos. Calcula-se que a festa consumiu cerca de 40 milhões de dólares, oito milhões deles somente com o monstruoso aparato de segurança que transformou Londres em uma cidade sitiada, tomada por 5 mil policiais e um sem-número de agentes das forças armadas e “serviços especiais”.

Tudo isto foi colocado a serviço de uma “fantasia” construída em base a alguns dos mais importantes valores da elite britânica: respeito à hierarquia, à ordem e à disciplina; exaltação das diferenças sociais como sendo o “jeito natural” das coisas e, acima de tudo, reafirmação da legitimidade e poder da família real.




Roteiro: um futuro para a coroa britânica

Os propósitos políticos e ideológicos da cerimônia eram tão óbvios que ninguém fez muito esforço para dissimulá-los, a começar pela imprensa britânica. O ultra conservador e monarquista “The Times”, por exemplo, foi direto ao ponto: "Em um momento tão difícil para a Grã-Bretanha, quando a moral nacional está baixa, o sol brilhou e todo o mundo pôde compartilhar os risos e a felicidade (...) O casamento demonstrou de forma poderosa o valor da monarquia".

Essa demonstração de “força” da monarquia foi milimetricamente construída no decorrer do evento, principalmente através de “símbolos” destinados a reviver ou relembrar as “glórias do Império”. Todos os homens da família real estavam ostensivamente fardados; no decorrer do espetáculo não faltaram saudações e beija-mãos reais; o percurso feito pelos noivos privilegiou os principais símbolos de poder de Londres (das casas do Parlamento ao Palácio real) e, também, continências e paradas militares, sobrevôos de jatos e uma infinidade de outros rituais não deixavam ninguém se esquecer do poder da realeza britânica.

Evidentemente, ninguém acredita que isto seja o suficiente para fazer com que a população britânica “se esqueça” da crise. Contudo, se é verdade que a cerimônia cumpriu um papel decisivo para “aliviar” o governo na conjuntura atual, o que se pretende com o novo casal – que foram presenteados com os títulos de Duque e Duquesa de Cambridge – não é algo para o presente imediato e, sim, para o futuro próximo, como destacou o tablóide “The Sun”, o jornal mais vendido da Inglaterra.

Depois de lembrar que o país está enfrentando níveis recordes de desemprego e os mais severos cortes públicos em décadas, o jornal ressaltou o que se espera para a “sequência” do espetáculo iniciado na sexta: "Nossos novos e jovens duque e duquesa têm um papel importante a desempenhar em nossa recuperação".

Essa pretensão também ganhou uma simbologia curiosa no decorrer do evento. Depois de desfilarem em carruagens que mais pareciam ter saído de um desenho Disney, no final do dia, para o “delírio” da platéia e telespectadores, o casal saiu do palácio no melhor estilo das comédias românticas de Hollywood: em um conversível, cheio de balõezinhos e com direito a uma placa onde se lia “recém-casados”. Uma demonstração de vitalidade e “sangue-novo” extremamente adequados para um momento em que o que se vê no cenário econômico e social é a estagnação e a decadência.

Evidentemente, como estamos falando de símbolos, é totalmente incerto se o “plano” da monarquia irá vingar. Até mesmo porque a realidade tende a manter uma distância quilométrica dos contos de fada, algo que foi destacado pelos jornais que têm uma linha editorial mais crítica, como o antimonárquico “The Guardian”: "No mundo real, debaixo da fina camada de pompa, há desajustes sociais cujas brechas começam a aparecer (...) a renda da maioria das residências está caindo de uma maneira que não acontecia desde os anos 1920. Estão sendo eliminados serviços e centenas de milhares de trabalhos".


Personagens: um “príncipe encantado” e uma falsa plebéia

Independentemente do que venha pela frente, dificilmente a monarquia poderia ter melhores protagonistas para esta história. Jovem, “bom-moço” (ao contrário do irmão Harry, tido como “rebelde”) simpático e atraente, William ainda tem sua imagem associada à de sua mãe, a falecida Diana, que, na sua época – e antes da sucessão de escândalos que transformaram seu conto de fadas numa tragédia bizarra – também simbolizou uma injeção de “frescor” na monarquia.

Kate Middleton, a escolhida do “príncipe encantado”, também parece que nasceu para o papel. Igualmente jovem, formada em História da Arte e celebrada mundialmente como “a primeira plebéia” a entrar para a realeza britânica em 350 anos, a candidata a futura-rainha, que trabalhou durante anos como webdesigner nas empresas da família, exala modernidade e simpatia, caindo como uma luva no papel de Cinderela destinada a alimentar as fantasias de milhões de jovens mundo afora.

Contudo, como em todo espetáculo, os personagens reais por trás da maquiagem e figurino não são exatamente o que parecem. Isto, com certeza, pode ser dito em relação à noiva, que, de plebéia, não tem absolutamente nada.

Apresentada ao mundo como filha de um ex-piloto e de uma ex-aeromoça da principal empresa de aviação do país, a British Airways, a atual Duquesa de Cambridge, na verdade, sempre teve profunda intimidade com o mundo aristocrático, sua fortuna e valores.

Os pais, além do trabalho de “classe-média”, sempre puderam contar com uma fortuna herdada de mercadores imperialistas do século 19, dinheiro que foi investido para a criação de uma empresa, a “Party Pieces”, especializada em todo e qualquer tipo de parafernália para festas. Um detalhe que fez a alegria da imprensa mundial: um dos carros-chefe do negócio era a produção de festas infantis baseadas em histórias de princesa.

Devido às leis inglesas, é impossível saber o valor atual do negócio, mas, de acordo com o jornal britânico Daily Mail, a fortuna dos Middleton deve chegar a, no mínimo, 50 milhões de libras (cada libra está valendo R$ 2,64), dinheiro suficiente para que Kate tenha passado praticamente a vida inteira em uma propriedade avaliada em 1 milhão de libras e tenha estudado somente em escolas e universidades (como a de Saint Andrews, onde conheceu William) exclusivas para milionários, aristocratas e membros da realeza.

Para se ter uma idéia do quão distante a jovem está de uma “cinderela”, vale lembrar, também, que quando ela e seu príncipe decidiram morar juntos, os pais da moça deram um “presentinho” (ou fizeram um investimento...): compraram para o casal, à vista, um apartamento, no centro de Londres, também no valor de um milhão de libras.

De certa forma, a união entre a Família Real e os Middleton também é um “símbolo” do papel que este casamento pretende cumprir na sociedade britânica. Se, no passado, casamentos reais serviam para selar alianças entre estados monárquicos, o de William e Kate foi uma espécie da celebração de uma união fundamental para que Elizabeth I e sua turma continuem no poder: o da nobreza com a “nova” burguesia neoliberal.

A identidade de Mike e Carole Middleton com os valores do neoliberalismo, inclusive, são mais do que explícitos. Sintonizados com a máxima “o que importa é o lucro”, os pais de Kate não se contentaram com o fato de terem sua filha associada a uma das maiores fortunas do mundo e decidiram aproveitar a oportunidade para ampliar os seus próprios negócios e lucros.

Desde o começo do relacionamento, os Middleton ampliaram seus estoques e produtos vinculados às festas infantis com temas principescos. Na semana em que o enlace foi anunciado, as visitas ao site da empresa saltaram em nada menos do que 163% e, nos meses que antecederam o casório, fotografias tiradas nos depósitos da empresa revelaram um gigantesco estoque de bandeirinhas britânicas e toda espécie de coisas que poderiam ser ver vendidas em torno do casamento: de balões coloridos a canecas de plástico.

A noiva, por sua vez, não mediu esforços na construção de seu personagem. Enquanto noiva, foi “moderna” o suficiente para romper com a tradição (hipócrita e moralista) e compartilhar a cama com o príncipe antes de terem sua união abençoada pelo Estado e pela Igreja. Agora, no papel de futura-rainha, Kate já decidiu que irá representar o personagem mais próximo do ideal machista e tradicional, que sobrevive tanto numa monarquia dirigida por uma Elizabeth, quanto numa democracia presidida por uma Dilma: vai deixar seu trabalho e dedicar-se exclusivamente ao marido e à “caridade”.


Figurino: vestidos para reinar

Não é nossa intenção repetir a mídia burguesa e fazer intermináveis (e fúteis) comentários sobre os modelitos usados durante o casório, mas, também, vale lembrar que, em todo espetáculo, o figurino sempre cumpre um papel importante e isto não poderia ser diferente neste caso. E, tratando-se de um casamento, foi no vestido da noiva que se concentraram as intenções de transmitir a idéia central da festa: a tal mescla entre modernidade e tradição.

Neste sentido, a escolha de Kate foi “perfeita”. O modelo foi criado por Sarah Bruton, estilista que, hoje, é o principal nome da equipe de criação de Alexander McQueen, que se matou no ano passado. A escolha de um nome identificado com um estilista gay, considerado o “infant-terrible” (garoto-mal) da moda britânica, evidentemente, não foi um acaso e teve o efeito desejado: todos os “modernos” ficaram encantados.

Ao mesmo tempo, o modelito era pra lá de “tradicional” e bastante parecido ao de outra “plebéia” famosa (e adorada pelos “súditos”), a atriz Grace Kelly, transformada em Rainha de Mônaco, na década de 1950. E como toque final, Kate ainda carregou um buque de murta (o mesmo usado pelas “noivas reais” desde a toda poderosa rainha Vitória, no século 19).

No mais, não dá para não comentar que o ridículo de tudo isto, como não poderia deixar de ser, também podia ser visto aqui e ali. E, com certeza, foi no “figurino” que a extravagância, ostensividade e exibição de “status” e poder econômico dos ricos e famosos ficaram mais evidente, principalmente nos bizarros chapéus usadas pelas damas da realeza e sua “corte”, alguns deles ao custo de nada menos do que US$ 1,5 mil.




Bastidores: a realidade para além da fantasia

Toda pompa e entusiasmo que cercaram a cerimônia não foram suficientes, contudo, para abafar as contradições da realidade. Problemas pipocaram por todos os lados, a começar pela lista de convidados, que causou protestos ao incluir quase uma dezena de governantes e cabeças coroadas publica e mundialmente conhecidos como tiranos sanguinários e que, exatamente por isso, estão enfrentando verdadeiras revoluções.

Um destes ditadores, o príncipe Bahrein, por exemplo, se viu obrigado a declinar do convite, exatamente por estar ocupado reprimindo o povo que ele tiraniza com punhos de ferro. A lista, contudo, ainda continha pelo menos 8 outros tiranos-convidados, de países como Arábia Saudita, Suazilândia, Brunei e Marrocos.

E enquanto os genocidas eram recebidos com pompa e circunstância, trabalhadores e jovens estudantes eram reprimidos e presos nas ruas de Londres. Foram divulgadas “apenas” 56 prisões realizadas na sexta-feira. O número relativamente baixo, contudo, esconde uma realidade um tanto pior: Londres virou uma cidade sitiada e o direito democrático de protesto foi, literalmente, suspenso.

O forte aparato repressivo colocado nas ruas apoiou-se em decretos que permitiam aos policiais e soldados dispersar e impedir qualquer tipo de agrupamento ou manifestação. Com uma hipocrisia asquerosa, o decreto permitia apenas “protestos estáticos” (como ficar parado e quieto segurando um cartaz) que fossem realizados fora da área do cortejo e da festa.

Mesmo com todas as limitações, vários grupos anarquistas, socialistas e anti-monarquistas em geral (reunindo dezenas ou centenas cada um deles), se espalharam por pontos da cidade, sob forte vigilância da polícia. Diante do forte aparato repressivo, muitos limitaram seus protestos a cartazes ou à ironia, andando pelas ruas, por exemplo, com “sacos de vômito”, estampados com a foto do casal, onde se lia “Carregue com você durante o dia do casamento”.

E, mesmo assim, muitos foram presos, em situações absurdas: dez pessoas cometeram o “crime” de carregar cartazes antimonarquia na estação ferroviária de Charing Cross; outros três “suspeitos de planejar a decapitação de estátuas reais”, foram detidos por “suspeita de conspiração para causar uma perturbação da ordem pública e violação da paz”, a quilômetros de distância da cerimônia.

Por ora, a monarquia ainda está colhendo os frutos do evento bem-sucedido e a elite local também está celebrando os milhões de libras que foram injetados no país com o turismo e a venda de toda espécie de bugigangas. Contudo, como em todo casamento, a “lua-de-mel” pode acabar em breve, principalmente porque, “conto de fadas” à parte, a realidade britânica e a crise econômica e social que afeta o país, principalmente sua juventude e setores mais explorados, como a população imigrante, estão longe de prenunciar um “e viveram felizes para sempre”.


Retirado do Site do PSTU