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quinta-feira, 21 de março de 2013

Dia 21 de março é dia internacional de luta contra o racismo


Detalhe de ato contra o genocídio da juventude negra, em São Paulo
O dia 21 de março foi instituído pela ONU como o Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial. A data marca o “Massacre de Shaperville”, acontecido da cidade de Shaperville, África do Sul. Em 1960, nesta data, cerca de 20 mil negros e negras protestavam contra a “lei do passe”, que os obrigava a portar cartões de identificação, limitando os locais por onde podiam circular. O exército atirou contra a multidão deixando 69 mortos e 186 feridos. A instituição da data pela ONU foi fruto de uma exigência do movimento negro.

Naquela época, vigorava o regime do apartheid. Em 2012, em Joanesburgo, capital sul-africana, já sem o apartheid, a polícia promove mais um massacre: 34 mineiros em greve foram assassinados em Marikana. As mortes aconteceram no governo do presidente Zuma, que um dia lutou contra o apartheid e hoje serve à burguesia.


Em tempos de crise, oprimidos são os mais atacados

Existe um abismo assustador entre a situação de negros e a de brancos no mundo. São os negros que estão nos piores empregos e recebem os piores salários até hoje. Com a crise econômica atual, inquestionável a partir da situação da Europa, eles servem como mão de obra barata para garantir que os lucros da burguesia não caiam. Dentre os negros, são as mulheres negras que sofrem mais. Entre toda a casse trabalhadora, negra e branca, são elas que recebem os piores salários.

Segundo Maristela Farias, da Secretaria Nacional de Negras e Negros do PSTU, no artigo Lógica da senzala continua no Brasil, “o que se dá, na verdade, é uma tentativa ilusória e surrealista de contribuir com o Mito da Democracia Racial, embutido ainda mais na sociedade, que diz que no Brasil não há racismo, que somos todos iguais, e que todos temos as mesmas oportunidades, encobrindo o debate de que há uma dívida histórica com a população negra, desde o tempo da ‘Abolição da Escravatura’. Dívida esta especialmente com as mulheres negras, que desde sempre neste país são trabalhadoras, oprimidas, exploradas e violentadas das mais variadas formas, mesmo após a abolição”

Ao mesmo tempo, o capitalismo sustenta sua versão de que negros são inferiores, são bandidos. De forma às vezes sutil, a população recebe essas informações dia após dia nas novelas, nos telejornais, nos jornais. Assim, divide a classe e pelo controle ideológico, mantém a opressão racial e a superexploração de um setor enorme de trabalhadores.

Nesta semana, assistimos ao lamentável episódio de trote racista na UFMG, em que uma menina pintada de preto era segurada por um estudante branco com uma corrente. Nas periferias, a juventude negra continua sendo massacrada, vítima de grupos de extermínios ou do tráfico e da própria marginalização em que é jogada. Essa política é parte da criminalização da pobreza e da “higienização”, implementadas pelos governos.

O próprio Brasil, cujos governantes e classe dominante tentam fazer parecer um país sem racismo, ocupa militarmente, desde 2004, o Haiti, um país hegemonicamente negro. Nem mesmo governo Lula, eleito por ser considerado um representante dos trabalhadores, acabou com a invasão. A presidente Dilma mantém a mesma política.

Esses poucos exemplos só provam que o racismo existe e se propaga. Somente com organização dos trabalhadores esse quadro poderá se reverter. A luta contra o racismo é uma luta de toda a classe trabalhadora, brancos e negros. O dia 21 de março deve ser um dia de luta pelo fim, de fato, da discriminação racial.

Baixe aqui o boletim da CSP-Conlutas sobre a data


Retirado do Site do PSTU

domingo, 13 de janeiro de 2013

Haiti, três janeiros depois

Reprodução
'Quem come a ajuda?' pergunta charge
Neste dia 12 de janeiro completam-se 3 anos do forte terremoto que atingiu Porto Príncipe, capital haitiana. No dia 12 de janeiro de 2010, 35 segundos foram suficientes para destruir 70% da principal cidade do Haiti, deixando um saldo de 1,5 milhão de desabrigados e mais de 200 mil mortos. As imagens da destruição e do desespero de haitianos e haitianas foram exaustivamente exibidas em todo o mundo.

A comoção mundial foi enorme, e fez com que milhões de cidadãos comuns tirassem de seus armários agasalhos e roupas ou pequenas quantias de dinheiro para doar à reconstrução do país. Até estrelas de Hollywood, como a atriz Angelina Jolie, desembolsaram vultuosas quantias de dinheiro para ajudar as crianças haitianas. Os grandes bancos internacionais e governos também fizeram sua parte. O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), ao lado do Fundo Monetário Internacional (FMI), os governos dos Estados Unidos, Canadá e França, que até então eram os maiores credores da dívida pública haitiana, perdoaram-na em sua quase totalidade.

O Plano de Reconstrução do Haiti previa o investimento de mais de 12 bilhões de dólares em alguns anos para que o país fosse reconstruído e começasse a dar os primeiros passos na superação de sua situação de miséria crônica. Três anos passados, após promessas, perdões e o desaparecimento total do país da mídia internacional, é hora de vermos o balanço do que foi feito.


O fracasso em números

Na charge acima, retirada de um artigo publicado em um dos principais jornais haitianos (Le Nouvelliste), com o título “Quem come a ajuda?”, um mirrado haitiano aparece no meio de dois enormes e bem vestidos estrangeiros brancos. O haitiano olha de um lado para o outro se perguntando: “Não vai sobrar nada pra mim?” enquanto os dois brancos se deliciam comendo a “ajuda” que é enviada ao Haiti: “uma colher pro Haiti, cinco colheres pra mim”, dizem eles.

Essa charge publicada há poucos dias resume bem o quadro atual em que sobrevivem milhões de haitianos. Segundo relatório publicado pelo organismo americano Center for Global Development, cerca de 2,3 bilhões de dólares foram destinados ao Haiti entre 2010 e 2011. Desse montante, cerca de 1% foi parar nas mãos do governo haitiano; a maior parte, no entanto, foi destinada para empresas haitianas ou estrangeiras e ONGs internacionais. Segundo outro estudo, feito pela agência norte-americana Center for Economic and Policy Research, 75% de todo dinheiro enviado pela USAID (Agência de Desenvolvimento dos EUA) ao Haiti, foi parar em empresas das regiões de Washington, Maryland e Virgínia. Os haitianos começam a se questionar se não estão no meio de negócios realizados entre os norte-americanos e os próprios norte-americanos. O governo haitiano, por outro lado, se mantém completamente impotente diante de tal realidade, com seus chefes cotidianamente envolvidos em casos de corrupção e escândalos para abocanhar as migalhas que sobram da “ajuda”.

O fracasso da chamada cooperação internacional em reconstruir o país é visível, física e estatisticamente. Ainda hoje, cerca de 350 mil pessoas continuam morando em barracas e tendas improvisadas nas praças e terrenos de Porto Príncipe, com péssimas condições de higiene, saúde e alimentação. Cerca de 1 milhão de pessoas segue vivendo nas mais de 250 mil casas que foram marcadas com sinais vermelhos e amarelos, pois correm risco de desabamento ou são impróprias para abrigarem moradores. Desde o terremoto, apenas 5911 casas foram construídas e cerca de 18 mil estão sendo reparadas atualmente.

Dados como esses se reproduzem em todos os níveis da operação de “reconstrução”. O fracasso de tal empreendimento tem causas mais profundas, que não se limitam à falta de dinheiro, à incompetência dos agentes envolvidos e tampouco à corrupção de haitianos ou estrangeiros. Tal fracasso já era previsível desde o início da “reconstrução”, já que seu plano foi elaborado para dar errado... para alguns.


A “cooperação internacional”

Mas não são todos que saem perdendo. A chamada “cooperação internacional”, sistema que administra a “ajuda” ao Haiti, articula governos imperialistas e suas agências de desenvolvimento (como a USAID norte-americana), ONGs de todo o mundo, empresários e grandes organizações internacionais, como a ONU e o Banco Mundial. Esse sistema obedece à sua própria lógica, a lógica da reprodução da pobreza, que mantém os países subdesenvolvidos no subdesenvolvimento e responde aos interesses dos centros imperialistas.

Basta olharmos hoje para a situação de muitos países africanos que se libertaram de suas antigas metrópoles nas décadas de 1960 e 1970, como Moçambique, Angola, Senegal, entre outros, para entendermos onde se situa o Haiti. Nas últimas décadas, esses países foram completamente invadidos por ONGs internacionais e sofreram diversos tipos de intervenções por “missões de paz” da ONU, como atualmente é o caso do Mali. As “missões humanitárias” em países africanos, bem como no Haiti, já duram muito tempo e só deixam um rastro atrás de si: mais miséria. Isso levou o escritor Graham Hancock a chamar os grandes agentes da “ajuda internacional” de “senhores da pobreza”. Quanto mais pobreza, mais necessária é a presença de ONGs e de “intervenções humanitárias”. Quanto mais pobreza, mais se passa a ideia de que os negros africanos ou haitianos são completamente incapazes de se governar, o que justifica a presença das intervenções e ocupações militares. Quanto mais ONGs e “ajuda humanitária”, mais pobreza e colonização. O Haiti hoje é parte dessa lógica, que não começou a ser determinante apenas após o terremoto, mas funciona cada vez melhor desde as ditaduras de Papa e Baby Doc.

As grandes ONGs internacionais abocanham a maior parte dos recursos que são destinados ao país. Basta andar algumas horas por Porto Príncipe para perceber que há dois mundos diferentes e incomunicáveis – o mundo dos brancos, estrangeiros, e o mundo dos negros, haitianos. Os cooperantes internacionais comem do bom e do melhor em restaurantes que se proliferaram pelos bairros mais ricos de Porto Príncipe nos últimos anos. Andam de jipes e caminhonetes 4x4, ostentando seus óculos escuros e celulares de última geração. Moram em mansões ou se hospedam em hoteis que custam mais de 100 dólares a diária. Os cooperantes internacionais vivem vidas que não poderiam viver em seus países, vidas de burgueses. A parte mais nobre de Porto Príncipe, o subdistrito de Petiónville, recebeu até um novo shopping, onde os brancos podem fazer suas compras sem serem incomodados pela visão de uma cidade às avessas.

Além de sugarem as riquezas do país e terem dezenas, muitas vezes centenas de trabalhadores assalariados sob suas ordens, as ONGs prestam proveitosos serviços para aqueles que se aproveitam da miséria do povo. A ONG brasileira Viva Rio, por exemplo, amplamente conhecida no Rio de Janeiro pelo seu “valoroso” trabalho prestado nas comunidades de periferia ao lado da assassina Polícia Militar, hoje financia projetos nas periferias de Porto Príncipe que visam cooptar lideranças populares para seus empreendimentos, tentando, assim, garantir a paz da miséria em cima dos barris de pólvora que são essas comunidades. Ao lado da ocupação militar, que “garante a paz” pela violência, as ONGs “garantem a paz” pela cooptação e contenção da rebeldia popular.


A paz a serviço de quem?

Em uma pequena cidade no norte do Haiti, com cerca de 9 mil habitantes, foi inaugurado, em abril do ano passado, aquele que tem o potencial para ser o maior parque industrial do Caribe. Uma parceria entre o governo haitiano, a embaixada dos EUA e o Banco Interamericano de Desenvolvimento, quer gerar, nos próximos 5 anos, cerca de 20 mil empregos diretos no parque industrial de SONAPI, que tem potencial para empregar até 65 mil pessoas, dependendo de sua capacidade de atrair investidores estrangeiros. A empresa coreana Sae-A, uma das maiores manufatureiras de roupas do mundo, já ocupou os primeiros galpões e serve de exemplo aos investidores.

A construção dessa zona franca, iniciada há 2 anos, já começou polêmica. As famílias que possuíam plantações no território onde foi posteriormente instalado o empreendimento perderam suas terras do dia para a noite. Um padre com quem conversei, hoje líder da associação dos camponeses afetados pela construção do parque, me contou que os agricultores foram informados que perderiam suas terras no mesmo dia em que as perderam. “Nem o prefeito de Caracol sabia que o parque seria instalado na cidade”, disse ele. O empreendimento foi aprovado na alta cúpula da burocracia norte-americana e repassado às autoridades haitianas, que o implementaram.

Caracol e as cidades vizinhas ao parque devem receber milhares de imigrantes nos próximos anos, ávidos em busca de um emprego num país com taxa de desemprego formal de mais de 80%. É de comum conhecimento que a cidade se tornará uma enorme favela. Um funcionário haitiano da embaixada dos EUA, que preferiu não ser identificado, me disse um dia: “todo mundo sabe que Caracol vai ser uma nova Cité Soleil”, fazendo referência ao bairro mais pobre da América, na periferia de Porto Príncipe, que cresceu assustadoramente nos últimos anos com a presença de trabalhadores em busca de emprego na indústria de transformação.

Ao se mudarem para Caracol nos próximos anos esses imigrantes, talvez ainda com alguma esperança de levarem uma vida melhor, se depararão com situações muitas vezes piores do que possuíam antes de se mudar, já que não terão onde morar, seu acesso a água potável será muito difícil, trabalharão muito para ganhar um salário de miséria, de 25 a 30 dólares por semana e sofrerão enormes abusos por parte de seus chefes. Os grandes empresários capitalistas serão os principais beneficiados com isso, não apenas os donos das fábricas manufatureiras, mas os grandes burgueses acionistas de marcadas como Levi's, GAP, Tommyhilfinger, Timberland e muitas outras que verão no Haiti grandes oportunidades de lucros.


Uma ocupação militar para manter tudo sob controle

Em meio a tamanha exploração, a revolta e indignação por parte dos operários e operárias não tardará a chegar. A resposta dos empresários, do governo haitiano e da Missão da ONU será rápida e eficiente – repressão e violência. A história se repetirá aos trabalhadores.

A MINUSTAH (Missão da ONU no país, encabeçada pelo governo brasileiro) é a principal agente da repressão. Para se ter uma ideia da necessidade imperiosa da permanência das tropas da ONU no país, um exemplo pode ser ilustrativo. No início do ano passado, o sindicato dos operários da zona franca de Ouanaminthe, cidade localizada na fronteira com a República Dominicana, ameaçou realizar um piquete e parar os mais de 6 mil operários do parque industrial. Apenas a possibilidade do piquete e da greve por melhores condições de trabalho fez com que a MINUSTAH deslocasse soldados chilenos para a porta da zona franca e impedisse o sindicato de tomar qualquer atitude. As tropas da ONU foram acionadas pelos empresários à primeira manifestação de um conflito trabalhista, cumprindo um papel de segurança da empresa.

Para se ter uma ideia do poder que têm os trabalhadores industriais no Haiti, basta nos atermos a alguns dados. A cidade de Ouanaminthe, por exemplo, possuí cerca de 100 mil habitantes. Seu efetivo policial é de cerca de quinze policiais, o que demonstra por si só que o Haiti não é um país violento, como nos querem fazer acreditar (ou algum de nós consegue imaginar uma de nossas cidades com 100 mil habitantes e tal quantidade de policiais?). O Haiti também não possui um exército nacional, que foi dissolvido pelo ex-presidente deposto Jean-Bertrand Aristide. A única força militar capaz de conter a rebeldia de milhares ou dezenas de milhares de operários tem um nome, se chama MINUSTAH e é uma das principais políticas internacionais defendidas pelos sucessivos governos do Partido dos Trabalhadores no Brasil. As tropas brasileiras hoje presentes no Haiti têm apenas uma função: garantir que tudo continue como está. Nós, trabalhadores brasileiros, temos o dever de nos colocar ao lado dos trabalhadores haitianos, e não de seus carrascos, os soldados brasileiros.

Passados três anos do terremoto e quase 9 anos da intervenção militar da ONU, nós do PSTU reafirmamos: Fora as tropas brasileiras e internacionais do Haiti! Só haverá reconstrução com soberania! Viva a luta dos trabalhadores e trabalhadoras haitianos!


Retirado do Site do PSTU

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Pela retirada imediata das tropas brasileiras do Haiti

Neste dia 1°, a presidente Dilma visita o Haiti. A presidente pretende encontrar Michel Martelly, o novo presidente do país. O principal tema em pauta no encontro será o prazo de permanência das tropas brasileiras que ocupam o país. Desde 2004, o exército brasileiro chefia a chamada MINUSTAH, cujo contingente militar é de 7.340 soldados. Mais de 15 soldados brasileiros já passaram pelo Haiti, e hoje cerca de 2.000 homens fazem parte da MINUSTAH.

Dados oficiais mostram que nesse período foram gastos R$ 1 bi com a “missão brasileira”. Mas enganam-se aqueles que pensam que todo esse dinheiro foi para “melhorar” as condições de vida do povo haitiano ou para “trazer a paz”. Desde 2004, a MINUSTAH foi alvo de inúmeras denúncias e acusações. Desde inúmeros casos de estupros e assassinatos até a responsabilidade de levar ao país uma epidemia de cólera.

Após o terremoto, que atingiu o país em 2010 matando mais de 200 mil pessoas, o governo e imprensa tentaram mostrar as tropas brasileiras realizando supostas ações humanitárias. Contudo, o que se viu foi mais repressão.

A ocupação militar não permite ao povo ter sequer o direito à livre manifestação, pois a Minustah atua, junto com a polícia local, como agente repressor, como aconteceu em greves realizadas pelo movimento operário, que defendiam reajuste no salário mínimo, ou ainda em atos do 1º de Maio.

Quem agradece a presença das tropas brasileiras são as multinacionais, especialmente as do setor têxtil, que tem lucrado muito com a mão-de-obra mais barata das Américas. Nos últimos anos, foram instaladas zonas francas no Haiti para abrigar as empresas, a maioria norte-americana.

Desde 2004, governo brasileiro garante a paz que as multinacionais precisam para superexplorar o povo haitiano. Isso significa garantir que os trabalhadores não se revoltem e não se mobilizem contra a situação a eles imposta.

Nas últimas semanas, porém, caiu a máscara da suposta “preocupação” que o governo brasileiro tem com os haitianos. Recentemente, o governo decidiu limitar o numero de vistos aos haitianos que fogem para o Brasil. O colapso do país e a situação de miséria obrigaram milhares de haitianos a fugirem para nosso país. Algo que mais uma vez comprova que a prometida reconstrução do Haiti, necessária após o terremoto, não aconteceu. Por outro lado, a medida discriminatória lembra as famosas restrições a imigrantes praticadas pelos países imperialistas, como os EUA e as nações ricas da Europa. Não bastasse a absurda intervenção militar, agora o governo toma essa atitude que só reforça a discriminação contra o já sofrido povo haitiano.

A ocupação do Haiti é uma mancha na história brasileira. É preciso dar uma basta à ocupação. É preciso exigir do governo Dilma a retirada imediata das tropas brasileiras. Como pode haver liberdade em nosso país enquanto o governo insiste em uma ocupação militar a serviço da opressão? Os trabalhadores haitianos precisam ter liberdade para se organizar e lutar em defesa dos seus interesses e por um país justo. Também tem direito de lutar por um governo que realmente atenda os interesses do povo pobre e não aos interesses da burguesia entreguista e associada ao capital internacional.

Por isso, neste dia em que Dilma visita o Haiti, chamamos as entidades sindicais, estudantis, populares, partidos políticos, organizações de defesa dos direitos humanos, para construir a mais ampla unidade possível para exigir a retirada imediata das tropas do Haiti.


Retirado do Site do PSTU

sábado, 19 de novembro de 2011

Sindicalistas da CSP-Conlutas viajam para República Dominicana e o Haiti

Eles participam de encontro sindical caribenho e de atividades de solidariedade ao povo haitiano


No dia 18 os companheiros Gilberto Gomes, o Giba, dirigente da Federação Sindical Democrática de Minas Gerais e Antonio Barros, o Macapá, dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos viajam para a República Dominicana e para o Haiti.

Entre os dias 18 a 22 participarão em Santo Domingo, República Dominicana, do VIII Encontro Latino Americano e Caribenho de Sindicalistas. E nos dias 23 a 27 estarão visitando o Haiti onde participarão de atividades em solidariedade ao povo haitiano em sua luta contra a presença das tropas de ocupação da Minustah.

Estarão levando o apoio à luta contra a ocupação e suas conseqüências. O recrudescimento da violência e repressão, com prisões arbitrárias em manifestações, desrespeito ao direito de organização sindical, junto com uma política de privilegiar o ressurgimento organizado dos Tonton Macoutes, banda paramilitar assassina utilizada pelas ditaduras de Papa Doc e Baby Doc.

É a forma de buscar a “estabilidade” do Haiti utilizada pela Minustah com a cumplicidade da imensa maioria dos governos Latino americanos. Repressão direta para manter os baixos salários, nenhuma ajuda humanitária de fato, violações, estupros, prisões e agora a tentativa de “criar” um exército ou policia nacional no Haiti se apoiando no que de pior tem no país: os Tonton Macoute.

Abaixo enviamos uma moção que queremos colher assinaturas, para que os companheiros possam entregar tanto para o Comando da Minustah quanto para o Governo Martely.

Pedimos que todos assinem e repassem para suas listas mais essa iniciativa de solidariedade.

Enviar para dirceutravesso1@gmail.com e batay@batayouvriye.org


Abaixo Assinado Haiti

Nós, abaixo assinados, exigimos a imediata retirada das tropas de ocupação da ONU no Haiti. Desde o inicio os governos dos países que se somaram a missão da ONU tem dado apoio a uma vergonhosa política colonialista, racista e de dominação econômica e militar do povo haitiano para garantir os interesses das grandes empresas internacionais e do imperialismo.

Temos assistido, nos últimos 7 anos, ataques às liberdades democráticas, prisões e repressão dos haitianos, além de violações de mulheres e crianças.

Agora, com o governo Martelly veio o ressurgimento dos instrumentos locais para repressão, intimidação e dominação do povo haitiano, como as bandas paramilitares, como faziam os Tonton macoutes. Também se pensa retornar com o exército macoute de antes. Em outras palavras: está ressurgindo a ditadura dos macoutes , agora fortalecida com o retorno de Baby Doc. Tudo isto só pode acontecer pela presença das tropas de ocupação e sua política, por traz do discurso de ajuda humanitária, de impedir o livre direito de organização e autodeterminação do povo haitiano.

São exemplos disso os casos recentes como a demissão de dirigentes sindicais do recém fundado Sindicato SOTA, as prisões de ativistas em manifestações, novos casos de estupros e assassinatos, sempre com a participação direta ou no mínimo conivência das tropas de ocupação.


Por isso, exigimos:

  • Readmissão dos dirigentes do sindicato SOTA e seu reconhecimento real pela patronal. Pela livre organização sindical no Haiti;

  • Fim da repressão ao povo haitiano e dos trabalhadores em particular;

  • Abaixo a ditadura neo-duvalierista de Martelly;

  • Fim da ocupação militar do Haiti. Abaixo a Minustah!


  • Retirado do Site do PSTU

    terça-feira, 13 de setembro de 2011

    Garoto haitiano conta que foi estuprado por militares uruguaios

    Após divulgação do vídeo, jornal uruguaio El País publicou um relato detalhado, que revela a verdadeira face da ocupação. “Dois deles me seguraram e dois deles me estupraram”, revela Johnny. Relatório militar aponta apenas “má conduta” e manobras da ONU tentam garantir impunidade dos militares


    Na sexta-feira, 2 de setembro, começou a circular pela internet um vídeo que, apesar de ser de um horror indescritível, talvez seja a imagem mais representativa do real significado da ocupação do Haiti pelas tropas das Minustah, vergonhosamente lideradas pelo Brasil.

    São 45 dolorosos segundos, registrados por um celular, no final do mês de julho, nos quais gritos de desespero e gargalhadas de cinismo competem com imagens ainda mais grotescas que registram o momento em que um jovem (de 18 anos, segundo a imprensa mundial), é humilhado e estuprado, no interior de uma base das Organizações das Nações Unidas (ONU), por um grupo de soldados uruguaios.



    Repugnantes e indigestas até mesmo para aqueles “acostumados” com as cenas de barbárie e violência que infestam as chamadas redes sociais, as imagens e a repercussão do episódio (que, não por acaso, têm sido pouco divulgadas ou minimizadas pela imprensa brasileira) mais uma vez chamaram a atenção para a ocupação do país mais pobre do Ocidente.

    Uma ocupação que, sob o hipócrita manto de “caráter humanitário”, só tem significado mais sofrimento, violência e exploração para o povo haitiano. Tudo isto levado a cabo sob o comando do governo brasileiro e, como neste caso de estupro, cercado pela impunidade garantida pela ONU e pelos governantes dos países que compõem a chamada Missão da ONU pela Estabilização do Haiti (Minustah)


    Cenas de horror

    Apesar das tentativas de amenizar o episódio e das “justificativas” emitidas tanto pela Minustah quanto pelo governo uruguaio, as imagens não deixam dúvidas: o jovem Johnny Jean foi brutalmente violentado no interior da base de Port-Salut, no sul do país, por quatro militares uruguaios.

    Se restassem dúvidas, no dia 7 de setembro, o jornal uruguaio El País, publicou um relato detalhado, obtido pelo Escritório Nacional de Defesa dos Direitos Humanos, uma ONG sediada no Haiti que entrevistou o garoto, sua mãe e seu padrasto e, ainda, cita, nominalmente, os militares envolvidos.

    De acordo com o relato, o jovem que vive nas redondezas da base, estava voltando de um jogo de futebol (organizado pelo próprio batalhão uruguaio) quando foi levado à força por um dos militares para o interior da base. Lá, pelo menos dois dos marinheiros violentaram o rapaz.

    Exatamente em função do ambiente repressivo, Johnny só recebeu atendimento médico em 30 de agosto, um mês após o estupro, quando os médicos do Hospital Comunitário de Referência de Port-Salut, registraram “lacerações na região anal” e recomendaram exames para a possível transmissão de doenças venéreas.

    Também, só com o vazamento do vídeo, Johnny veio a público, acompanhando de sua mãe Rose Marie Jean, para contar sua história nas rádios locais. No dia 6, em entrevista à rádio Les Cayes ele contou que quatro soldados realizaram o crime: "Dois deles me seguraram e dois deles me estupraram. Eles me bateram inúmeras vezes" (...) "Depois disso, os soldados tentaram negociar com minha mãe para cobrir o caso, mas ela não quis e avisou as autoridades".


    Estupro contra a verdade

    Apesar dos depoimentos e das imagens inquestionáveis, o “desconforto” provocado pelo episódio originou uma verdadeira onda de hipocrisia, alimentada por todos os envolvidos na ocupação. A começar pelo governo Dilma, que está se ocultando atrás de um silêncio covarde, passando pelo governo uruguaio e chegando, evidentemente, à própria ONU.

    Neste sentido, a posição do governo uruguaio é particularmente asquerosa. Antes de mais nada, cabe lembrar que o país, hoje, compartilha com o Brasil não só a ocupação do Haiti, mas também o fato de ter a sua frente um ex-esquerdista, José Mujica, que presidi o país apoiado nos mesmos setores da burguesia que combateu no passado.

    É esta opção que faz com que o Uruguai, por exemplo, mantenha um das maiores tropas no Haiti Ocupado. São cerca de 1.2000 soldados, a maioria da elite da Marinha e da Aeronáutica.

    Fiel, também, ao estilo de governos como os de Dilma, Evo Morales e Chaves, depois de sair a público vociferando contra o “absurdo” e prometendo a punição exemplar dos envolvidos, Mujica está tomando providências para “abafar” o caso e manter as coisas exatamente como estão, através de uma manobra que só pode ser considerada como um novo “estupro”, desta vez contra a verdade.

    Segundo o jornal uruguaio “El Observador”, o relatório das Forças Armadas, que foi divulgado no Congresso do país, no dia 8 de setembro, descarta que houve qualquer tipo de infração por parte dos militares e concluiu que, "usando a análise do vídeo como evidência, é descartada a possibilidade de intenção de abuso sexual". Além disso, segundo o texto, “o acontecimento não envolveu atos sexuais nem aberrantes" e, ainda, "os marinheiros são responsáveis, apenas, por atos de má conduta".

    Se isto não bastasse, como é lamentavelmente comum na maioria dos casos de estupro, o relatório ainda tenta jogar a “culpa” sobre a vítima. Apoiando-se nos depoimentos dos canalhas agressores, o texto alega que os militares foram “obrigados” da “dar uma lição” ao jovem haitiano em função da "linguagem ofensiva que o cidadão local usou contra suas famílias".

    E como não há limites para a hipocrisia, o relatório ainda afirma que só "houve uso da força física com o único propósito de fazer uma piada". Uma afirmação tão asquerosa quanto a do presidente Mujica que, em entrevista para o jornal “El Páis”, no dia 7 de setembro, para minimizar os fatos, se utilizou de um argumento digno dos ditadores contra os quais ele lutou no passado: “desde que o mundo e mundo, este tipo de coisas existem (...) entre os soldados, sempre há uma banda indisciplinada, é inevitável”.


    Hipocrisia sem limites

    O relatório, evidentemente, é parte das muitas manobras que estão sendo orquestradas para livrarem os militares, o governo uruguaio e a própria ONU, de qualquer responsabilidade pelo crime.

    Assim que o vídeo veio a público, o governo de Mujica, por exemplo, declarou-se “envergonhado”, afastou o chefe das tropas uruguaias no Haiti e “exigiu” a imediata repatriação dos agressores, algo que foi apresentado como uma demonstração de “mão firme” do governo, mas que, na verdade, não passa de uma tentativa de livrar a cara dos militares.

    A ONU impõe que todos os “capacetes azuis” sejam protegidos por uma norma que determina que todo ato criminoso praticado pelas “missões de paz” sejam julgados pelos tribunais de seus respectivos países. Ou seja, eles têm que ser “obrigatoriamente” repatriados. E a ONU, certamente, já conta com o tipo de tratamento que será dado para seus criminosos, uma vez que retornem para seus países de origem, como fica evidente no relatório-fraude do governo uruguaio.

    Por isso mesmo, não causa espanto que a porta-voz da Missão da ONU, no Haiti, Eliana Nabaa também tenha colocado a veracidade dos fatos em dúvida, declarado que a entidade tem “tolerância zero” em relação a abusos sexuais e, ainda por cima, se lamentado principalmente porque o episódio “pode impactar centenas, milhares de pessoas que têm feito um trabalho maravilhoso aqui". Ou seja, ela também está mais preocupada com o efeito sobre as tropas do que com os crimes que elas têm cometido contra os haitianos.

    Por sua vez, o ex-cantor popular Michel Martelly, que governa o Haiti desde o final de maio, também não se acanhou em tomar seu papel no show de hipocrisias montado para garantir a impunidade em relação a mais este crime: esbravejou pedindo justiça e, na sequência, reassumiu sua posição de gerente de um país ocupado, aguardando a decisão de seus chefes, da Minustah e da ONU, declarando que “aguarda um relatório detalhado estabelecendo os fatos e as circunstâncias exatas”.

    No seu papel de comandante da chamada Missão da ONU pela Estabilização do Haiti, a Minustah, o general brasileiro Luiz Ramos emitiu uma nota que caracteriza o episódio como absolutamente excepcional e, numa demonstração de cinismo inegualável, dedica mais espaço para lamentar a morte ou ferimento de quase 40 militares uruguaios, no decorrer dos sete anos de ocupação, do que ao fato de que alguns deles são, reconhecidamente, estupradores.

    Por fim, pra não dizer que o governo Dilma ficou apenas no silêncio cúmplice, mas também embarcou na onda de hipocrisia, cabe lembrar que, o ministro da Defesa Celso Amorin, questionado sobre o episódio durante uma visita a Argentina, na segunda dia 5, defendeu que o Brasil precisa “evitar saída desorganizada” e “começar a pensar na saída gradual de suas tropas do Haiti”.

    Na quinta, dia 8, já mais sintonizado com a manobra orquestrada pela Minustah, o ministro das Relações Exteriores brasileiro, Antonio Patriota, informou, em Montevidéu, durante a reunião da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), que irá propor ao Conselho de Segurança da ONU a redução do número de soldados da missão de paz no Haiti, mesmo negando que isto tenha qualquer coisa a ver com o estupro.

    Promessas que ao mesmo tempo em que tem tudo para cair no vazio, deixam transparecer a crescente preocupação com a insatisfação e indignação do povo haitiano que, de fato, só tem uma saída, para a barbárie em que estão vivendo: promover a saída, “organizada” ou não, das tropas de ocupação de seu país.


    Sofrimento sem fim?

    As razões para a preocupação de Amorim são reais. Mais distante dos interesses brasileiros no Haiti, o “Jornal de Angola” relatou, no dia 8 de setembro, que, na segunda-feira, 5 de setembro, centenas de pessoas, incluindo políticos locais, organizaram um protesto na frente da base da ONU, exigindo a saída imediata das tropas e o julgamento, em solo haitiano, dos militares estupradores

    Nos rostos de muitos manifestantes vistos durante os protestos era impossível não perceber as marcas da indignação e de dor de gente que parece não ver fim para seu próprio sofrimento. São anos de ocupação e a convivência ainda cotidiana com as profundas marcas deixadas pelo terremoto que, há pouco mais de um ano, potencializado pelas péssimas condições de vida e moradia, provocou a morte de centenas de milhares (400 mil, no mínimo).

    A percepção de que as forças de ocupação estão trazendo mais prejuízos que benefícios já é antiga, como também não é nenhuma novidade que, além da violência política e da exploração econômica, a violência (particularmente a sexual) tem sido constante na história da Ocupação (leia artigo “Estupro como arma de Ocupação”).

    A crescente indignação diante de tudo isto se intensificou no final do ano passado, com o surgimento de uma epidemia de cólera (originada nos banheiros da tropas de ocupação, cujos detritos eram lançados num rio local) que, até o momento, já matou mais de 6.200 pessoas e deixou outras 40 mil doentes.

    A circulação do vídeo e a quase certeza da impunidade já fez com que, no decorrer da semana, outros protestos sob a bandeira “Justiça para Johnny” tenham pipocado em outros cantos do país. Unificar estes protestos e inseri-los na luta pela imediata tropas do Haiti é o único caminho para que o sofrido povo do país possa reconquistar sua dignidade, como indivíduos e como povo.


    Retirado do Site do PSTU

    sábado, 6 de agosto de 2011

    Celso Amorim: retire as tropas do Haiti

    O Brasil vive uma ocupação militar, a serviço das multinacionais. Desafiamos o governo Dilma e o novo ministro a acabar com essa triste história


    Ag Brasil
    Celso Amorim, novo ministro da Defesa
    Nesse dia 4 de agosto, a presidente Dilma Roussef demitiu o ministro da Defesa, Nelson Jobim. Para o posto foi escolhido o ex-ministro das Relações Exteriores do governo Lula, Celso Amorim. Na dança das cadeiras do governo Dilma, foi o terceiro ministro posto para fora. A troca foi criticada pela oposição de direita e pelos militares, e comemorada por muitos setores de esquerda.

    Entre estes últimos, foi possível perceber duas ideias. A primeira, de que Dilma estaria alterando a orientação da pasta, comandada por Jobim desde 2007. A segunda, de que Celso Amorim representaria uma política mais progressista e independente, como teria mostrado na condução da política externa do governo Lula, de viés supostamente 'antiimperialista'.

    Mas, seria mesmo assim? Teria Dilma, de repente, decidido alterar o foco do Ministério da Defesa?

    Dilma se viu praticamente obrigada a demitir Jobim após as inúmeras críticas e declarações constrangedoras ditas pelo então ministro à imprensa. Primeiro, na comemoração dos 80 anos de FHC, Jobim declarou que “agora, os idiotas perderam a modéstia”, o que muitos imediatamente associaram ao governo do PT.

    Pouco depois, em entrevista à Folha de S. Paulo, o ministro nomeado por Lula confessou que votara em José Serra nas eleições presidenciais. Que Jobim era ligado ao PSDB todos já sabiam. Além de ter sido nomeado ministro do STF por FHC, já havia sido ministro da Justiça do tucano. O que muitos acharam inconseqüente foi ele ter declarado abertamente sua preferência.

    A gota d’água veio com as críticas de Jobim às ministras de Dilma, Ideli Salvatti e Gleisi Hoffman, à revista Piauí. Sob o risco de se desmoralizar, Dilma não viu alternativa a não ser anunciar a demissão de Nelson Jobim.

    Ou seja, a retirada do ministro não ocorreu por discordâncias na atuação de Jobim à frente do ministério.

    Dilma não é contra o plano de Jobim de privatizar os aeroportos, coisa que seu governo está fazendo agora. Não há nenhum questionamento no uso de militares de todas as forças na ocupação de morros e comunidades do Rio de Janeiro, como no Complexo do Alemão, em uma experiência que promete se repetir. E o governo do PT, assim como Jobim, tampouco defende a revisão da lei da anistia, que mantém os assassinos e torturadores da ditadura impunes, como o ex-comandante do DOI-CODI, Carlos Alberto Ustra. Nem se coloca a favor da abertura dos arquivos secretos, que poderiam jogar luz nos crimes cometidos em nome do Estado, inclusive durante os anos de chumbo.


    Celso Amorim

    Apesar de atabalhoada, a troca de Jobim por Amorim imprimiria uma alteração na lógica da Defesa? Os defensores do novo ministro se baseiam na política externa do governo Lula. Nos oitos anos de Lula, a movimentação do Brasil na política internacional foi um dos únicos, senão o único, elemento pinçado por aqueles que defendiam a tese do ‘governo em disputa’, para mostrar uma faceta de esquerda de Lula.

    Era citada, por exemplo, a aproximação do Brasil com países do Oriente Médio, como o Irã, o que gerou na época críticas do governo dos EUA. A articulação do G20 em contraposição ao G8 em plena crise econômica mundial foi outro aspecto visto como uma posição independente de Lula, dirigida por Celso Amorim, assim como as visitas e declarações do então presidente em favor de Fidel Castro e de governantes como Chávez e Morales.

    Um aspecto fundamental da política externa, porém, é sempre “esquecido”. Desde 2004 o Brasil lidera tropas militares que ocupam o Haiti. Sob a justificativa de “ajuda humanitária”, os soldados da ONU que fazem parte da Minustah, já reprimiram inúmeras vezes mobilizações de trabalhadores e estudantes no país.

    Como candidato à Presidência, eu estive no Haiti após o terremoto. Fui o único candidato a visitar o país. Meses depois da tragédia, a ajuda não havia chegado. O papel das tropas da ONU foi de proteger o aeroporto e a zona franca e, depois, de levar o vírus da cólera ao país, causando uma epidemia. Até hoje, a situação é a mesma.

    Desde o primeiro momento, o PSTU denunciou a ocupação militar do Haiti. Os soldados comandados pelo Brasil de Lula e Dilma atuam para estabilizar o país, reprimir os movimentos sociais e garantir os interesses dos EUA na região. Recentes divulgações de telegramas diplomáticos, pelo WikiLeaks, confirmam isso.



    Em 2004, após o golpe que derrubou Aristides, o embaixador norte-americano no Haiti alertou Washington sobre a necessidade de uma intervenção militar no país, a fim de neutralizar “forças políticas insurgentes populistas e a economia antimercado” e também o “êxodo de migrantes por via marítima”.

    Já em 2008, ainda segundo documentos tornados públicos pelo WikiLeaks, quando o Haiti enfrentava uma grave crise devido à inflação dos alimentos, a embaixada norte-americana se reuniu com os donos das fábricas que prestavam serviços a grandes empresas como a Levi’s e outras. O motivo: alertar para que os empresários não cedessem às mobilizações pelo aumento do salário mínimo. Na época, as tropas agiram de acordo com essa orientação e reprimiram duramente as manifestações, inclusive sobre a juventude.

    A tentativa era garantir que o país caribenho continuasse com um dos menores salários do mundo. Para os EUA, o Haiti deveria continuar servindo como celeiro de mão-de-obra barata às multinacionais, principalmente às do setor têxtil. Foi em favor dessa política que o Brasil esteve empenhado durante todo o governo Lula, com Amorim à frente. E com o olhar atento dos empresários brasileiros, como os da Coteminas.


    É hora de exigir a retirada das tropas

    Coincidentemente, dias antes de ser nomeado ministro por Dilma, o ex-chanceler de Lula concedeu uma entrevista em que defende a retirada das tropas do Brasil do Haiti. Celso Amorim afirma que o objetivo da missão já havia sido cumprido e que a relação entre o Brasil e o Haiti deveria ser de “natureza econômica e social”.

    Alçado à condição de ministro, é improvável que ele mantenha essa posição. Até mesmo porque participou diretamente de todas as etapas da montagem desta ocupação militar.

    Mas, independentemente das avaliações que fazemos sobre o governo Lula e mesmo sobre o governo Dilma, é hora de exigirmos que Celso Amorim, agora à frente do Ministério da Defesa, faça jus às suas próprias palavras e atue pela imediata retirada das tropas brasileiras do Haiti e o fim definitivo da ocupação militar no país.

    Lançamos o desafio ao novo ministro da Defesa e ao governo Dilma. Desafiamos o Brasil a retirar todos os seus soldados do país caribenho, o primeiro país a ver uma revolução negra na história das Américas. Deixemos de lado essa mentira, de que os haitianos não conseguem dirigir o seu país. Desafio o governo petista a retirar as tropas e condenar a ocupação militar. Não é livre um país que ocupa outro.


    Retirado do Site do PSTU

    sábado, 12 de março de 2011

    Obama vem ao Brasil para discutir pré-sal

    Ocupação do Haiti e acordos comerciais também estão na pauta


    Cartaz de protesto produzido pelo PSTU
    Nos dias 19 e 20 de março, o presidente norte-americano vai visitar o Brasil pela primeira vez. Como era de se esperar, a burguesia brasileira e os grandes meios de comunicação já estão fazendo um enorme alarde sobre a visita de Barack Obama. Vão dizer que a visita será um evento histórico, que marca uma nova era de “prósperas” relações entre os Estados Unidos e o Brasil. Seguramente, o velho bordão da ditadura “o que é bom para os EUA é bom para o Brasil” vai ganhar novas roupagens.

    Segundo as primeiras notícias divulgadas pela imprensa, Obama fará ao menos dois discursos no Brasil. Em Brasília, o norte-americano vai realizar uma palestra com empresários voltada para comércio e economia, além de ser recebido por Dilma Rousseff. O presidente também visitará o Rio de Janeiro, onde vai cumprir uma agenda mais informal, que prevê visitas em favelas e um discurso público voltado para a América Latina. O objetivo explícito da iniciativa é utilizar a figura de Obama para ganhar a simpatia da população e, assim, recompor as relações do imperialismo com os povos do subcontinente, profundamente desgastadas ao longo da era Bush.


    Petróleo, ocupação e livre comércio em pauta

    Durante o encontro com Dilma, os principais temas debatidos serão um acordo de comércio bilateral, o papel do Brasil na ocupação do Haiti – onde o Brasil assumiu a vergonhosa liderança da ocupação militar – e o petróleo do pré-sal.

    Dilma e Obama devem assinar um tratado de cooperação econômica e comercial (Teca, na sigla em inglês). O tratado criaria um mecanismo bilateral para que as barreiras ao comércio possam ser flexibilizadas. O objetivo do acordo seria permitir a entrada de mercadorias produzidas por empresas norte-americanas sem taxação, ao melhor estilo dos acordos de livre comércio. Em contrapartida, o governo brasileiro tenta emplacar antigas reivindicações dos latifundiários do agronegócio do país, como a remoção das barreiras sanitárias a produtos primários como carnes e frutas.

    O governo Obama está empenhado em ampliar acordos de livre comércio pela América Latina. Recentemente, seu governo passou a se esforçar para levar adiante os acordos bilaterais com Panamá e Colômbia, negociados ainda na administração Bush. O objetivo é ampliar as exportações do país para diminuir o imenso déficit comercial e o peso da crise sobre a economia dos Estados Unidos. O resultado dessa política, porém, será desastroso para o Brasil. Acordos comerciais como este só beneficiam as multinacionais e aumentam a exploração dos trabalhadores.

    No entanto, os acordos referentes ao petróleo do pré-sal podem ser ainda mais graves. Nos preparativos do encontro, o governo brasileiro divulgou sua intenção de tornar o país um grande exportador de petróleo para ao EUA. O interesse de enviar o petróleo do pré-sal foi comunicado por Dilma, em fevereiro, ao secretário do Tesouro americano, Timothy Geithner e, em janeiro, aos senadores republicanos John McCain e Jonh Barrasso, segundo o jornal Valor Econômico.

    As intenções do governo brasileiro foram bem recebidas em Washington. A razão é simples: o imperialismo não vai fazer muito esforço para abocanhar o petróleo do pré-sal, pois o governo Dilma vai facilitar a entrega das reservas às multinacionais norte-americanas.

    Dessa forma, a Petrobras realizará o trabalho mais custoso e difícil que é a extração do petróleo em águas ultraprofundas. Essa tarefa já tinha sido abandonada pela petroleira Exxon, pois foi considerada como não lucrativa conforme o registro da empresa em seu balanço no ano passado. A Exxon investiu milhões de dólares na exploração de petróleo na bacia de Santos, mas a taxa de lucros com o investimento foi considerada baixa. Contudo, o acordo entre Obama e Dilma poderá garantir à petroleira estrangeira total acesso ao petróleo do pré-sal.

    O acordo é perfeitamente coerente com o regime de partilha do pré-sal estabelecido pelo governo Lula. Divulgado como uma medida supostamente nacionalista, o regime de partilha significa dividir o petróleo existente entre a União e as multinacionais. Em apenas em 71% da área do pré-sal será realizado o regime de partilha. Em somente 30% desta área que a Petrobras terá garantida sua exclusividade, ou seja, apenas 21% da área total. Com o acordo entre Dilma e Obama, esse petróleo será entregue às multinacionais norte-americanas.


    Como se não bastasse, os leilões das áreas de petróleo (realizados por FHC e Lula) entregaram 29% do pré-sal as estas multinacionais. Portanto, o suposto nacionalismo do governo do PT será aplaudido de pé por Obama.

    Por fim, Obama vai parabenizar o governo do PT pela sua liderança na ocupação militar do Haiti. Vendida como uma ocupação humanitária, a ação do exército brasileiro apenas ajuda a uma ocupação econômica do país. O objetivo das multinacionais é transformar o Haiti numa gigantesca área de maquiladoras concentradas em zonas francas.

    Para isso, contudo, é preciso reprimir a população haitiana. Em 2009, greves dos trabalhadores do setor têxtil e a luta pelo reajuste do salário mínimo foram brutalmente reprimidas pelos soldados brasileiros. O mesmo aconteceu com protestos contra o governo fantoche de René Preval.

    Obama vai perguntar se Dilma pretende manter a ocupação e continuar com o serviço sujo para o império. A resposta nós já conhecemos: “Yes, we can Mr. Presidente.”


    LEIA TAMBÉM:

  • Obama e América Latina


  • Retirado do Site do PSTU

    quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

    Cólera e fraude nas eleições do Haiti

    Açoitada por uma epidemia de cólera, além de sofrer com os efeitos devastadores do terremoto que causou 250 mil mortos, o Haiti agora é palco de protestos contra as fraudulentas eleições presidências realizada no último domingo.

    Na última segunda-feira, dia 30, milhares de haitianos foram às ruas de Porto Príncipe para exigir a anulação das eleições presidenciais. Os manifestantes queimaram pneus nas ruas e se dirigiram a postos de votação, onde destruíram cédulas de votação que já estavam nas urnas.

    O protesto ocorreu depois que doze dos dezoito dos dezenove candidatos denunciaram fraudes no processo eleitoral. Os candidatos acusam o presidente haitiano, René Préval, de favorecer o candidato de seu Partido da União, Jude Celestin.

    A fraude eleitoral foi tão descarada que até mesmo observadores norte-americanos estimaram que as eleições presidenciais estavam repletas de irregularidades.

    “Desde a proibição do partido mais popular de participar da eleição, até irregularidades no dia do pleito, incluindo muitos relatórios de enchimento de urnas, assim como o impedimento de muitos eleitores de votar, estas eleições foram uma farsa óbvia do início ao fim” , disse Mark Weisbrot, co-diretor do Centro de Pesquisa Política e Econômica, em um comunicado.

    No entanto, pouco depois, os principais candidatos opositores recuaram do seu pedido de anulação das eleições gerais de anteontem. “Vou esperar os resultados” , disse Michel Martelly, cantor de kompa, o ritmo tradicional do Haiti, um dos candidatos.

    Por outro lado, organismos internacionais já começam a se inclinar pela posição de legitimar o processo eleitoral. É o que acontece com a Organização dos Estados Americanos (OEA). Segundo o secretário-geral adjunto da OEA, Albert Ramdin, as eleições presidenciais são válidas, apesar de denúncias de irregularidades. “A meu ver, as eleições ainda são válidas, embora as irregularidades devam ser levadas em conta muito seriamente; elas precisam ser investigadas”, disse.


    Tropas do Brasil devem deixar o Haiti

    O Haiti vive dias dramáticos. A epidemia de cólera já matou quase 1.800 pessoas; há evidencias de que soldados da Minustah, ocupação da ONU liderada pelo Brasil, contaminaram os rios do país.

    Uma onda de protestos contra a Minustah sacudiu o Haiti, no último dia 18. Sob gritos “Minustah é cólera! Fora Minustah!” a população bloqueou ruas e levantou barricadas. Soldados da missão, inclusive brasileiros, foram apedrejados por uma furiosa população que exigia a retirada das tropas.

    “Apesar dos protestos, nenhum dos candidatos se atreveu a sequer mencionar a possibilidade da retirada da ocupação militar”, explica Zé Maria, ex- candidato à presidencia pelo PSTU, que esteve no Haiti em abril.

    “Estive no Haiti dois meses depois do terremoto. Vi que a história da chamada ajuda internacional não passa de uma farsa. Os soldados brasileiros estão lá pra reprimir a população e não pra ajudar. O Haiti não precisa de soldados, mas sim de médicos e medicamentos” concluiu.


    Retirado do Site do PSTU

    sexta-feira, 3 de setembro de 2010

    Haiti: depois do terremoto

    Eduardo Almeida, editor do Opinião Socialista e dirigente do PSTU, esteve no Haiti de 21 a 28 de agosto. Leia abaixo o relato e a análise que ele faz do país



    Uma senhora vende batatas. Uma cena comum, se ela não estivesse ocupando a entrada do que foi um grande banco haitiano. Hoje apenas mais um sobrado destruído.

    Volto ao Haiti sete meses depois do terremoto. Estive aqui em dezembro, um mês antes do fatídico 12 de janeiro que devastou Porto Príncipe.

    Na parte baixa da cidade, um cenário de guerra. Quase todas as lojas viraram montes de escombros. Uma multidão de camelôs substitui os comerciantes de antes, na porta do que foram as lojas. Pequenas barracas ao lado de paredes caídas.

    Ninguém olha mais para os destroços. É como se fosse parte da paisagem.

    Aqui morreram centenas de milhares de pessoas. Todas as famílias perderam alguém. Depois de todos esses meses, a dor segue existindo. Mas as pessoas têm de sobreviver.


    Um mês que não será esquecido

    O terremoto atingiu a cidade pelo sul, arrasando o centro e os bairros populares nas encostas dos morros. Por 37 larguíssimos segundos, a terra tremeu como se uma mão gigantesca sacudisse com força um tapete. Um sobrevivente me contou como perdeu a noção do tempo. Poderiam ter sido 3 segundos ou 12 minutos.

    Dava tempo para viver a enorme surpresa de ver o mundo vir abaixo, passar para a angustiante pergunta "quando isso vai acabar", ter a certeza da morte e ver sua vida em flashback, e de repente tudo acabar em um monte de poeira e destroços.

    Sessenta por cento das casas caíram ou ficaram condenadas. Dois milhões de pessoas desabrigadas. O povo andava pelas ruas sem saber o que fazer, nem para onde ir. Sem recursos para retirar os feridos dos escombros, sem local seguro de refúgio, sobrava o desespero.

    Nas esquinas, protestantes com megafones anunciavam o fim do mundo. Culpavam o povo haitiano como responsável do desastre, pelo culto do vudu.

    O Estado haitiano desapareceu. Não havia nas ruas nem equipes de resgate, nem soldados. As tropas da Minustah se dedicaram a recompor as bases atingidas. Préval, o presidente, também sumiu, provocando um ódio que só faz crescer até hoje.

    A "ajuda" internacional foi na verdade uma ocupação militar disfarçada por um espetáculo de mídia. Enormes contingentes de soldados dos EUA ocuparam mais uma vez o país. A ajuda mesmo foi pequena, quase nada.

    Os alimentos que chegaram eram poucos. Foram lançados de caminhões ou distribuídos às pressas para alguns passantes, com medo de saques e revoltas. Os poucos médicos e equipes de resgate que chegaram trabalhavam desesperadamente, impotentes perante um desastre gigantesco.

    Mas cada um dos poucos resgates se transformava em notícias importantes para a mídia mundial. Assim, se mostrava como era eficaz a operação das tropas. Nos noticiários de todo o mundo se mostravam soldados salvando garotinhas dos escombros. Na verdade, só 150 pessoas foram retiradas dos destroços. Basta ver a dimensão da tragédia, com 250 mil mortos, para sentir o fracasso da "ajuda internacional".

    A única reação importante ao terremoto foi do próprio povo haitiano. Muitas vezes com as próprias mãos retiraram as vítimas que puderam dos destroços. As poucas ferramentas que tinham eram martelos e pás rudimentares. Com uma solidariedade comovente, se auto-organizaram para conseguir comida, ajudar os que mais precisavam montar os acampamentos. Os jornais de todo o mundo ignoraram esse fato fantástico, emocionante.

    Nas palavras de Otavio Calegari, um estudante brasileiro presente: “Continuando nossa caminhada, pudemos ver muita destruição. Casas, escolas, barbearias, tudo soterrado. Corpos eram freqüentes nas calçadas... Não pudemos presenciar qualquer tipo de violência. A impressão que tivemos foi completamente diferente. Há uma solidariedade impressionante entre os haitianos. Dois dias após o terremoto, não temos qualquer dúvida de que os trabalhadores têm sido protagonistas na salvação da cidade...
    Hoje, dia 13 de janeiro, o povo haitiano está se perguntando mais do que nunca: onde está a Minustah quando precisamos dela? “Posso responder a esta pergunta: a Minustah está removendo os escombros dos hotéis de luxo onde se hospedavam ricos hóspedes estrangeiros.”

    Os mortos apodreceram nas ruas aos milhares, insepultos. Até que a população resolveu queimá-los, para evitar as doenças e o cheiro insuportável. Foi aí que o governo resolveu recolher os corpos.
    O mês que se seguiu ao terremoto nunca será esquecido pelos haitianos. Além de tudo, novos tremores atingiram o país. Eram de menor intensidade. Mas, naquele momento, quem podia saber se não ia acontecer tudo de novo?

    O terremoto só matou tantos por aqui porque se abateu sobre um país devastado pelo capitalismo selvagem... e pelo fracasso da "ajuda". Depois do espetáculo de mídia, foram embora os jornalistas. Ficaram os soldados.


    Sete meses depois, os haitianos já não esperam

    Passaram os dias. A vida tem de continuar. Só dois por cento do dinheiro prometido chegou. Mesmo assim, acabou em boa parte com os "gropowsk", os "bolsos grandes" da corrupção.

    Não existe nada de reconstrução até agora. As escolas e hospitais seguem destruídas desde janeiro. Não existem nem sinais de obras para refazê-las. As aulas são dadas em baixo de lonas.

    A maioria das casas está no chão ou condenada. No muro de cada uma existe uma classificação: uma sigla MTPTC, escrita em vermelho, amarelo ou verde. As classificadas em vermelho terão de ser demolidas, as de amarelo reforçadas. Uma minoria tem as letras em verde.

    Quase todas as casas seguem como ficaram em janeiro. Só alguns prédios públicos tiveram os destroços removidos. Todo o restante segue gritando ao mundo que aqui ocorreu uma das maiores catástrofes do século XXI.


    Acomodação forçada, resistência reprimida

    Paro em frente ao palácio presidencial destruído. Quando estive aqui em dezembro passado, por acaso filmei o palácio e a gigantesca praça (Champs de Mars) que o rodeia, em um movimento de 360 graus com a câmara. Agora repito o movimento. Filmo o palácio destruído e o acampamento que ocupa toda a praça, com 30 mil pessoas.

    Ando pelas ruelas do acampamento. Senhoras penteiam crianças fazendo tranças rastafári. Um grupo toma banho, aproveitando uma bica logo embaixo da estátua de Toussaint l'Ouverture, que antes dominava, imponente, a praça. Algumas barracas viraram pequenos comércios.

    Um milhão e meio de pessoas vivem hoje nos acampamentos em P. Príncipe. Todas as praças e campos de futebol foram ocupados pelos que perderam suas casas. Como a ajuda não veio, viraram favelas permanentes.

    Movimentos de protesto contra o governo e a Minustah explodiram. O governo e as tropas reagiram. As barracas dos que participavam das mobilizações foram saqueadas. Três acampamentos destruídos.
    Até três meses depois do terremoto se distribuíam cartões de comida. Os "políticos" do governo se apoderavam dos cartões, distribuíam uma parte para suas bases nos acampamentos e vendiam o restante.
    Conseguiram assim controlar os acampamentos, combinando a repressão e o controle da comida.

    Agora já não existem mais os cartões. As pessoas têm de se virar. Vivem como podem, vendendo coisas, conseguindo algum dinheiro ou emprego temporário com as ONGs. Oitenta por cento estão desempregados.

    Outubro é época de furacões no Caribe. Estão previstos três que podem passar pelo Haiti. Os acampamentos podem ser destruídos. Se ocorrer isso novamente a mídia mundial dedicará alguns dias ao Haiti. A natureza será novamente culpada. Clinton virá aqui com ar de tristeza. Governos prometerão ajuda mais uma vez. As ONG’s ficarão alvoroçadas. Até lá ninguém faz nada.


    Nas ruas, ontem e hoje

    Antes do terremoto, as ruas da cidade já eram caóticas.
    As calçadas sempre ocupadas por camelôs deixam só o espaço das ruas para multidões que caminham. Os carros empurram as pessoas para os lados, buzinando o tempo todo com um barulho infernal.
    Logo depois do terremoto, as mesmas multidões andavam por aqui sem destino. As ruas eram seu refúgio, sua casa, seu templo.

    Agora os que andam já sabem aonde vão. A vida econômica se recompôs do jeito que foi possível. E tem ainda mais pessoas nas ruas. Uma multidão de camelôs substitui as lojas destruídas, outra multidão caminha. Pouquíssimos compram. A vida segue.


    O plano Clinton

    A comoção mundial com o terremoto levou a uma idéia de "todos juntos" ajudando o povo haitiano. Nada mais falso.

    Existem grandes empresas para as quais a miséria no Haiti garante grandes lucros. Um plano econômico está sendo aplicado no país. Multinacionais já instaladas no país, como a Levis, Gap, Wrangler produzem têxteis para o mercado norte americano.

    Trata-se de uma indústria relativamente de baixa tecnologia, que permite usar uma mão de obra com pouca formação. No mês passado apresentaram com toda pompa um curso de duas semanas para preparar novos operários.

    A produção aqui tem uma dupla vantagem em relação à China: salários ainda mais baixos (hoje 125 gourdes por dia, mais ou menos 120 reais mensais) e uma distancia muito menor do mercado dos EUA.

    Bill Clinton- ex-presidente dos EUA- é o responsável da comissão da ONU e o representante de Obama para o Haiti. Dirige a Comissão Interina de Reconstrução do Haiti (CIRH), junto com primeiro ministro desse país. Na verdade, tem mais poder que o presidente ou a Minustah. Seu lema para o Haiti "create jobs" (criar empregos) gera expectativas no povo.

    O plano Clinton inclui dois centros: quarenta zonas francas e a reconstrução de P. Príncipe. Clinton esteve no Haiti antes do terremoto com uma delegação de 150 empresários. entre eles 12 brasileiros, inclusive o filho de José, vice presidente do país e dono da Coteminas, a maior fábica têxtil do país.

    Depois do terremoto, Clinton declarou que o plano segue de pé depois do terremoto. Já existem terrenos destinados à construção das zonas francas, e acaba de ser votada pelo governo uma nova zona, agora em Le Cap.

    A reconstrução da capital, segundo proposta apresentada por Leslie Voltaire (responsável junto com Clinton pela comissão da ONU), incluiria o "afastamento" de dois milhões de habitantes dos três que existem hoje na cidade.

    Uma parte dessas pessoas voltaria para o interior do país. A outra seria localizada em novos acampamentos ao redor das zonas francas que serão construídas em localidades próximas a Porto Príncipe.
    Trata-se da reprodução em escala ampliada do plano de George Soros, que já comprou um terreno ao lado de Citè Soleil (a maior favela de P. Príncipe) para construir ali uma zona franca. A lógica é simples: ganhando a miséria que ganham, os operários só podem ir a pé para o trabalho.

    Um estudioso haitiano está nesse momento fazendo uma comparação incrível: ele estudou os gastos que os fazendeiros tinham com os escravos no passado e os que os burgueses têm com os operários no Haiti hoje. Chegou à conclusão que os escravos custavam mais.

    Ainda que de forma brutal, a classe dominante do passado tinha que se fazer responsável da moradia, alimentação e saúde dos escravos.
    Os burgueses de hoje não precisam pagar um salário que garanta a reprodução da mão de obra, porque tem a sua disposição 80% de desempregados.

    Não pagam nenhuma das conquistas dos séculos XIX e XX, como férias, décimo terceiro salário, aposentadoria. Não pagam praticamente nenhum imposto ao estado, que não precisa assegurar saúde nem educação. Não têm sequer os gastos mínimos dos donos de escravos do passado, em pleno século XXI.

    Está sendo imposto um capitalismo muito mais selvagem no Haiti, em condições que se assemelham a barbárie. Quando falamos da alternativa socialismo ou barbárie não estamos apontando uma perspectiva inevitável para o socialismo. A barbárie é possível e já existem claros sinais no Haiti. Podemos chamar o que está sendo montado aqui de capitalismo bárbaro.

    E isso está sendo aplicado pelo imperialismo mais "moderno" dos EUA, com as bênçãos da ONU, e de governos como Lula, Evo Morales, Cristina Kirchner. Vem disfarçado com a fábula de "ajudar os pobres haitianos, criando trabalho para eles".

    Se der certo, será um novo paradigma a ser explorado pelo imperialismo, como pressão sobre o proletariado de todo o mundo. Os reflexos vão ser sentidos diretamente nas outras zonas francas do Caribe... e no Brasil.


    A crise que estava se armando antes do terremoto

    O Haiti viveu grandes lutas antes do terremoto. Houve uma levante espontâneo em abril de 2008 causado pela fome, que chegou aos portões do palácio do governo. Foi parado por uma repressão brutal da Minustah, que acabou com oito mortes e quarenta feridos.

    Em 2009, houve um forte ascenso estudantil com ocupações de faculdades (como a de medicina, por vários meses) e atos de rua. Todos fortemente reprimidos também pela Minustah.

    O mais importante foi a greve dos operários têxteis no ano passado. Trata-se do setor fundamental do proletariado haitiano, que estava reivindicando um salário de 200 gourdes (duzentos reais). Uma mobilização de vários meses terminou com uma greve radicalizadissima, que sacudiu Porto Príncipe por duas semanas, com passeatas de 10-15 mil operários todos os dias até o parlamento, sempre enfrentando o gás lacrimogêneo e os cassetetes da Minustah.
    No dia 17 de abril, a greve ia se combinar com a mobilização dos bairros pobres. Uma gigantesca passeata ia parar a cidade e caminhar para o parlamento.

    A reação foi duríssima. A burguesia fechou as fabricas e deixou os operários sem pagamento, asfixiando a greve. A Minustah deflagrou uma repressão brutal, impedindo qualquer movimento em toda a cidade. Um operário e um estudante morreram 22 foram presos. A greve foi derrotada. Assim foi imposto o salário de 125 gourdes.


    O ódio crescendo...e eleições para desviar a atenção

    O terremoto desarticulou todo o país e também as lutas. Por meses e meses as pessoas se dedicaram a lamentar seus mortos e tentar sobreviver.

    Surgiram lutas espontâneas e ocasionais que logo refluíam. Mas o povo haitiano não perdoou Préval e a Minustah. A ausência do estado e das tropas durante todo o período pós terremoto nunca será esquecida.

    Começam a ocorrer novamente mobilizações, ainda parciais. Nessa semana, quatrocentos operários têxteis ocuparam a frente do Ministério do Trabalho. Estão raivosos. A burguesia não está pagando sequer os 125 gourdes, apenas 80.

    Acampamentos decidem "se levantar" contra as condições precárias. Um deles causou grande impacto. Na praça de Petionville, velhas abriam a marcha, brandindo galhos de arvores, um símbolo vudu. Gritavam "Bouch tout moun fann!" (todos têm boca para comer).
    A situação está ficando explosiva. O governo quer desviar as atenções para a eleição presidencial de novembro.

    Trata-se de uma farsa. Eleições em um país ocupado. Não é o governo quem dirige o país. Préval é um fantoche, submetido à Minustah e aos EUA que ocupam o Haiti. Em novembro será eleito um novo fantoche.

    O povo demonstra um enorme desinteresse. As últimas eleições parlamentares tiveram uma participação ridícula, só 5% dos haitianos. Como essa agora é presidencial, pode ser que aumente um pouco. Ou pode ser que se tente algum fato político para tentar aumentar a participação no pleito.

    Wycleff Jean poderia ter sido um fato assim. Aos nove anos, chegou aos EUA com sua familia em um bote clandestino, fugido do Haiti. Admirador de Muhammad Ali e Malcom X, se transformou em cantor de hip-hop de enorme sucesso no mercado norte-americano e caribenho. Seu primeiro sucesso expressava bem o sentimento dos pobres estrangeiros que chegavam aos EUA: "quer vocês queiram ou não, aqui estamos".

    Há três anos, no entanto, foi nomeado embaixador itinerante do Haiti. Desde então girou a direita. Passou a falar em "unir a todos" e "paz no mundo".

    Defensor do plano Clinton, apoiado por varias das multinacionais têxteis instaladas no Haiti, Wycleff tentou se candidatar à presidência do país. Houve um enorme rebuliço, com muitos bairros pobres apoiando o cantor.

    Mas o conselho eleitoral vetou sua candidatura. Alegaram que ele não mora no país, o que é verdade. Deixaram sem explicação porque nenhum dos candidatos governistas cumpre os requisitos legais, mas foram aceitos.

    Na verdade, Préval vetou Wycleff com medo de perder as eleições. Está decidindo entre cinco candidatos governistas. Aposta nesse momento em Jube Célestin, diretor de uma instituição estatal responsável por uma parte da reconstrução do país. Um corrupto, no momento acusado de desvio de 60 milhões dólares doados pela França, que se transformaram em apenas 30 caminhões. Maluf deve estar invejoso.

    Batay Ouvriyé e outras organizações estão lançando uma campanha justa pelo boicote a essas eleições fraudulentas


    ”Aba Minustah”

    A relação do povo haitiano com a Minustah (e as tropas brasileiras que a dirige) mudou muito. Foram-se os tempos em que os soldados desfilaram pelas ruas conduzindo os jogadores da seleção brasileira.
    Não houve nenhum avanço na implantação de esgotos, no fornecimento de água ou ampliação dos hospitais desde 2004 quando as tropas chegaram. Os soldados não tiveram nenhum papel relevante no socorro depois do terremoto.

    O papel "humanitário" alegado pelo governo brasileiro é tomado como uma ofensa pelo povo haitiano.

    Os soldados estão aqui para garantir o plano econômico das multinacionais. Para defender um governo repudiado pelo povo. Agem como tropas de choque de uma ditadura decadente.

    Um haitiano, coordenador da luta dos demitidos das estatais me dizia: "Preferimos morrer enfrentando os soldados. Lula deve tirar as tropas daqui, ou o Brasil será para nós um país inimigo."

    O povo brasileiro nem imagina isso. As tropas são odiadas.
    Os muros da cidade estão pichados "Aba Préval" e "Aba Minustah" (Abaixo Préval e Abaixo a Minustah).


    Retirado do Site do PSTU

    sábado, 31 de julho de 2010

    Haitianos protestam contra ocupação militar

    Ativistas queimaram bandeira do Brasil em repúdio à ocupação. Leia abaixo informe enviado pelo Batalha Operária sobre o dia 28 de julho, dia de mobilização contra a ocupação.


    Haitianos queimam bandeira do Brasil em repúdio à Minustah
    No dia 28 de julho, junto com as organizações aliadas que conosco haviam lançado o chamado para o sit-in (sentaço), estávamos em frente à chancelaria para, como anunciado, manifestar nosso mais total repúdio à presença-dominação-ocupação-tutela das forças armadas da ONU, a Minustah. Neste texto clarificamos nossa posição frente às demais organizações que também estavam nas ruas mas que se contentavam em protestar somente contra as manobras eleitorais de Préval.

    Com cerca de cem militantes, agimos em 3 equipes: uma em frente à chancelaria com faixas, outro no meio da rua, bloqueando a circulação e ocupando o espaço com cantos e consignas políticas, e o último distribuindo o texto, distribuindo e pregando cartazes e pichando muros e carros.

    No último momento, queimamos uma bandeira brasileira que envolvia uma norte-americana enquanto que a de nossos camaradas internacionalistas da Conlutas nos acompanhava sempre.

    Durante o sentaço, uma marcha da Pndph cruzou conosco. Mas o mais grave do dia foi que, justo quando acabamos, na mesma esquina onde estávamos passava outra manifestação, um homem armado, claramente reconhecido como um dos paramilitares do governo, desceu de seu veículo oficial e disparou, ferindo um manifestante, tudo em frente à polícia que nada fez para impedir-lo, tampouco socorrê-lo depois. Como dissemos há meses, são tempos em que o duvalierismo volta em pleno dia. Temos que saber o que fazer.

    Haitianos marcham contra a ocupação militar

    Em outra região, uma marcha mais especificamente do Batalha Operária ocorreu em outras ruas de Cap-Haitien. Com uns 150 militantes, percorreu a cidade inteira, com a mesma mensagem, as mesmas bandeiras e faixas. O ato teve grande acolhida ali e, ao final, haviam se somando umas 100 pessoas, cantando também e participando da panfletagem.

    Seja em Porto Prínciple, seja em Cap-Haitien, a distribuição do texto e os cartazes em bairros e acampamentos vão seguir durante o resto da semana.

    Finalmente, estamos recebendo notícias e fotos das mobilizações que ocorreram nos Estados Unidos, Brasil e América Latina com nossos camaradas e amigos, sempre contra a ocupação do país.

    A luta acaba de começar!


    Retirado do Site do PSTU

    terça-feira, 30 de março de 2010

    Zé Maria é o primeiro pré-candidato a visitar o Haiti

    Dirigente do PSTU embarca nesta terça, dia 30, ao país destruído pelo terremoto
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    José Maria de Almeida, o Zé Maria, pré-candidato a presidente da República pelo PSTU, inicia uma visita ao Haiti nesta semana. Durante quatro dias, até 3 de abril, ele percorrerá o país, conhecendo a situação dos haitianos após o terremoto e reunindo-se com representantes de sindicatos e movimentos sociais.

    Zé Maria fará parte de uma delegação da Conlutas (Coordenação Nacional de Lutas), que levará a solidariedade dos trabalhadores brasileiros. A Conlutas tem feito uma campanha que já enviou R$ 160 mil ao povo haitiano. Trabalhadores de todo o país fizeram doações, como os metalúrgicos da General Motors, de São José dos Campos. “Essa campanha é muito importante, porque é uma solidariedade de classe. São os trabalhadores daqui ajudando os de lá”, afirma Zé Maria.

    Além da solidariedade, a visita e a campanha apóiam a luta pelo fim da ocupação militar, comandada pelo Brasil. “Defendemos a imediata retirada das tropas da ONU. O Haiti precisa de médicos, engenheiros, alimentos, e não de soldados. A verdadeira função das tropas lá é proteger os interesses das empresas, e para isso, chegam a reprimir os protestos contra o menor salário das Américas”, afirma Zé Maria.

    Desde o início da ocupação, em 2004, a campanha pela retirada das tropas tem sido uma das bandeiras do PSTU. E, nas eleições de 2010, será tema da propaganda no rádio e na TV. “Agora, o governo tem apresentado os militares como heróis, mas, apesar das boas intenções de alguns soldados, a missão não tem um caráter humanitário”, afirma.


    Candidatura Operária e Socialista

    Zé Maria é um operário com a mesma origem de Lula, nas greves do ABC. Nas grandes greves de 1980, estiveram presos juntos. Mas Zé Maria se manteve na luta, com os trabalhadores. Hoje e é um dos dirigentes da Conlutas e um dos principais representantes da esquerda do país. Pelo PSTU, disputou a Presidência em 2002, com mais de 400 mil votos.

    O PSTU lançou a pré-candidatura de Zé Maria em novembro, como uma alternativa a falsa polarização entre Dilma Roussef e José Serra. O partido defende uma candidatura com um programa socialista, que defenda um governo contra os interesses das grandes empresas, e de ruptura com o imperialismo e as multinacionais. Só assim haverá saúde e educação gratuitas e de qualidade, salário e emprego.


    Retirado do Site do PSTU

    terça-feira, 23 de março de 2010

    Bush limpa as mãos após cumprimentar haitiano

    Nesta segunda-feira, dia 22, os ex-presidentes dos Estados Unidos Bill Clinton e George W. Bush foram juntos ao Haiti, para "supervisionar" a reconstrução do país, destroçado pelo terremoto de janeiro. A visita do democrata e do republicano e a ajuda anunciada pelos EUA não passa de uma grande hipocrisia, que se utiliza do sofrimento de todo um povo para ocultar que os norte-americanos pretendem continuar dominando o Haiti.

    No entanto, um dos principais atores não conseguiu representar o seu papel. Após cumprimentar um haitiano atingido pelo terremoto, Bush simplesmente limpa a mão na camisa de Clinton. A cena, que está em sites de notícias e no Youtube, não deixa dúvidas sobre o gesto.




    A cena ocorreu em um acampamento de 60 mil refugiados na capital, Porto Príncipe. Clinton e Bush estavam rodeados de agentes do serviço secreto, da polícia haitiana e por tropas da Minustah. Eles conversaram rapidamente com haitianos, e cumprimentaram alguns. Pouco antes, haviam se reunido com o presidente do Haiti, René Préval, que encontrara com Obama na semana anterior, na Casa Branca.

    A cena causou repercussão no mundo todo. Revela o racismo de Bush, já manifesto em outras ocasiões. O próprio Obama, em seu livro de memórias "A Audácia da Esperança", revela a visita que fez a Bush na Casa Branca, quando ainda era senador e o republicano presidia o país. Após apertarem as mãos calorosamente, Bush "virou-se para um assessor próximo, que esguichou uma grande quantidade de gel antisseptico nas mãos do presidente". Segundo Obama, Bush ainda teria elogiado o produto, dizendo que "impede de ficar resfriado".

    A cena reveladora no Haiti apenas demonstra a natureza do imperialismo e a farsa do fundo Clinton-Bush. Os planos dos Estados Unidos para o país pretendem manter o controle, utilizando a mão-de-obra barata para produzir jeans e outros produtos. Nisso, Bush, Clinton e Obama estão juntos.

    A única diferença é que Clinton, como os governantes atores que os EUA já tiveram, soube representar seu papel. Ao contrário de Bush, esperou para limpar as mãos bem longe das câmeras.

    Retirado do Site do PSTU

    sábado, 23 de janeiro de 2010

    PSTU vai ao Fórum Social denunciando ocupação do Haiti e crise capitalista

    Partido estará em Porto Alegre e em Salvador, afirmando que um mundo socialista é possível


    Em 2010, no Brasil, acontecem duas edições do Fórum Social Mundial (FSM). Em Porto Alegre, entre os dias 25 a 29 de janeiro, e em Salvador, entre os dias 29 a 31 de janeiro. O Fórum é uma oportunidade de avançarmos na discussão sobre qual alternativa que os trabalhadores e dos socialistas devem assumir diante de uma das maiores crises da economia capitalista da história.

    Em ambos os eventos vemos a direção do Fórum apostando em uma saída para a crise do capitalismo a partir da parceria com as grandes empresas, os governos burgueses ditos “progressistas” e as ONGs, com suas políticas assistencialistas.

    Essa colossal crise da economia capitalista provocou o aumento do desemprego, a redução de direitos e salários. Mas a crise também abriu uma situação que permite que os socialistas revolucionários disputem a consciência da classe trabalhadora, apresentando a necessidade de lutarmos pela destruição deste sistema e de que, mais do que nunca, um mundo socialista é possível.

    Mas um outro mundo só será possível se rompermos com o capitalismo e lutarmos pelo socialismo. Esta luta, porém, não poderá ser travada em aliança com a burguesia, seus governos, empresas e instituições.


    UMA SAÍDA SOCIALISTA PARA A CRISE

    O PSTU participará dos dois eventos para defender e fortalecer uma alternativa verdadeiramente socialista e revolucionária diante de uma das maiores crises do capitalismo.

    Portanto, faremos uma dura polêmica com a direção do Fórum que nos últimos anos atrelou cada vez mais o evento aos governos supostamente “progressistas” do continente, empresas e ONGs.

    Estaremos no Fórum para defender outro caminho. O caminho da auto-organização dos trabalhadores e do conjunto dos explorados e oprimidos, contra a burguesia e seus governos, como única forma de derrotar o capitalismo e construir o socialismo.


    SOLIDARIEDADE DE CLASSE COM O HAITI

    Estaremos no FSM para desenvolver a campanha de solidariedade ao povo do Haiti, e o chamado à retirada das tropas de ocupação. Assim como iremos denunciar a ajuda insuficiente que tem sido dada pelos grandes potências. Enquanto, no auge da crise econômica, foram gastos 25 trilhões de dólares para ajudar empresas e bancos, os trabalhadores e o povo haitiano recebem alguns milhares de dólares.

    O partido vai apoiar as atividades organizadas pela Conlutas e pela Anel, as plenárias que discutirão a construção do Congresso de Unificação de junho de 2010 e as atividades de luta contra as opressões.

    Confira as atividades que o PSTU irá participar no FSM


    quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

    Tragédia no Haiti: Solidariedade, sim! Ocupação militar, não!

    O terremoto no Haiti comoveu todo o mundo. O governo haitiano já fala em mais de 200 mil mortes. A Conlutas, o Jubileu Sul e outras entidades estão fazendo uma campanha para arrecadar fundos e entregá-los diretamente aos trabalhadores haitianos.

    A cobertura das TVs mostra o terremoto, mas esconde questões fundamentais, para justificar a crescente ocupação do Haiti por tropas estrangeiras. É preciso que os trabalhadores brasileiros saibam algumas verdades que as TVs não dizem.

    A primeira é que o número absurdo de mortes poderia ter sido evitado se a situação social do país fosse outra. Caso o terremoto tivesse ocorrido a algumas centenas de quilômetros dali, nos EUA, não haveria tantos milhares de mortos. A brutal miséria haitiana se somou ao caos dos serviços do Estado (médicos, bombeiros), que já eram
    quase inexistentes.

    A outra verdade é que a responsabilidade dessa situação não é dos haitianos, mas dos Estados Unidos, que controlam a economia do país há quase dois séculos. As multinacionais usam o Haiti para produzir roupas ao mercado norte-americano, pagando R$ 115 por mês aos trabalhadores. Eles têm de aceitar esse salário miserável, pois até 80% da população está sem emprego. Ou seja, a miséria haitiana dá grandes lucros às multinacionais, como a Levis.

    A ocupação das tropas brasileiras, que já dura quase seis anos, nada fez para melhorar a situação social do país. Não foram construídos hospitais, nem foi ampliada a rede de esgotos ou o abastecimento de água.

    A terceira questão escondida pelas TVs é o fracasso, ao menos até agora, da “ajuda humanitária” dos governos. Dezenas de milhares de pessoas não foram resgatadas dos escombros a tempo e morreram. Foram os haitianos, com as próprias mãos, que tentaram socorrer as vítimas. Outras dezenas de milhares de feridos esperaram em vão pelo socorro médico, e morreram nas ruas. As TVs mostram os pouquíssimos resgates, sem explicar porque as estimativas de mortos sobe a cada dia.

    Sobreviventes se amontoam nas ruas. A fome e a sede crescem, porque a “ajuda” não chega. Os caminhões da ONU param por alguns minutos, formam filas, despejam algumas cestas e fogem rapidamente, para evitar saques. Helicópteros norte-americanos lançam algumas cestas do ar. Mas a comida e os remédios não chegam até um milhão de pessoas, que esperam e esperam. Isso acontece porque o tamanho da ajuda é completamente insuficiente. Os mesmos governos que foram capazes de dar 25 trilhões de dólares a bancos e empresas no auge da crise econômica, agora reservam alguns poucos milhões ao povo do Haiti.

    A ONU disponibilizou 100 milhões de dólares, quando gastou 3,5 bilhões com a ocupação militar nestes quase seis anos. O governo Lula gastou 600 milhões de dólares com as tropas e oferece agora de 10 a 15 milhões. Um desastre internacional, que a TV não mostra.


    São os haitianos que devem controlar a reconstrução do país

    Os EUA ocuparam de novo o país, enviando 15 mil soldados para o Haiti. Os marines tomaram o aeroporto haitiano, sem pedir licença a ninguém, decidindo os aviões que podem e os que não podem pousar no país.

    As tropas brasileiras foram afastadas da condução do processo, como quem já cumpriu seu papel sujo. Não é verdade que elas estavam em uma “missão humanitária”. Seu papel era “manter a ordem”, a serviço das multinacionais. Isso independe da boa vontade de vários soldados, que viajaram para lá com boas intenções. Mas o papel das tropas é definido pelo comando e pelo governo brasileiro.

    Foram as tropas brasileiras que reprimiram as mobilizações recentes dos haitianos. A greve dos operários têxteis, em agosto passado, em defesa de um salário mínimo de R$ 190, durou duas semanas e só foi derrotada pela repressão pelas tropas, terminando com duas mortes. As lutas estudantis de novembro contra a ocupação foram duramente reprimidas pelas tropas brasileiras, que prenderam 20 estudantes. E agora, que a situação ficou mais difícil, os EUA assumiram de novo a ocupação militar.

    Os saques são usados para justificar a presença das tropas. Os haitianos estão sendo mortos pela polícia e pelos soldados. As tropas são incapazes de garantir comida e remédios. Mas são “necessárias” para reprimir o povo faminto que, sem alternativa, saqueia os supermercados. Tropas para garantir a propriedade privada e não a solidariedade necessária.

    Nem soldados norte-americanos, nem brasileiros! Quem deve controlar a reconstrução são os próprios haitianos!

    O governo brasileiro deve retirar imediatamente as tropas e mandar o dinheiro que gastaria em termos militares sob a forma de comida, remédios, pessoal de saúde e resgate.


    Transformar a solidariedade em ação concreta

    A Conlutas, Jubileu Sul e outras entidades lançaram a campanha de solidariedade ao povo haitiano, apontando a necessidade de entregar essas contribuições diretamente aos trabalhadores desse país, ao mesmo tempo em que denunciam a ocupação militar.

    A Conlutas chama os sindicatos e entidades a conseguirem contribuições dos trabalhadores e estudantes nas escolas e locais de trabalho, em uma grande campanha de solidariedade. Para isso, já foi aberta uma conta bancária específica (Banco do Brasil: Coordenação Haiti, ag.4223-4, conta 8844-7).

    A proposta é entregar todo o valor arrecadado para a organização Batay Ouvriye (Batalha Operária), maior organização do movimento operário e popular do Haiti.


    PSTU - Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado